A simples (e espantosa) descoberta de Wegener

Wegener não era geólogo. Sua formação incluía astronomia e meteorologia.
Mas foi ele quem lançou a pedra fundamental da moderna ciência que trata da formação de nosso planeta, supondo que todas essas terras, no passado, deviam estar unidas.

wegener

Quem nunca observou com curiosidade que o recorte das costas brasileiras se encaixa na parte oeste da África como se tivesse sido arrancado de lá? Eu sei, eu também me diverti com essa imagem quando era menino. Por muito tempo, isso foi visto apenas como uma alegre coincidência. Mas não era. A coisa toda é sutilmente catastrófica – embora não pareça.

Não tão distante no tempo, num dia do chamado século 20, o geofísico alemão Alfred Wegener estava lendo um artigo sobre fósseis quando percebeu que havia registros de animais e plantas muito antigos, da mesma espécie, nos dois lados do Oceano Atlântico. Não só isso. A própria configuração física de vastos trechos de terra parecia coincidir ou adquirir uma espécie de continuidade do outro lado do mar. Os Apalaches, por exemplo, uma conhecida cadeia de montanhas da América do Norte, ligavam-se às terras altas escocesas, como se continuassem do outro lado. E os estratos rochosos existentes na África do Sul mostravam-se idênticos aos que podiam ser encontrados em Santa Catarina, no Brasil. Por sua vez, como já visto (mas não com a devida atenção), toda a costa brasileira encaixava-se, como uma peça de um gigantesco quebra-cabeça, no recorte ocidental do continente africano, tanto quanto a Flórida na porção noroeste. E fósseis de plantas tropicais podiam ser encontrados na ilha gelada de Spitsbergen, no Ártico. Esse jovem curioso deve ter estreitado os olhos. Como era possível?

Wegener não era geólogo. Sua formação incluía astronomia e meteorologia. Mas foi ele quem lançou a pedra fundamental da moderna ciência que trata da formação de nosso planeta, supondo que todas essas terras, no passado, deviam estar unidas. Ele propôs que os continentes flutuavam sobre partes móveis que os estariam conduzindo lentamente, à deriva. Publicou seu trabalho pioneiro, A origem dos continentes e oceanos, em 1915, que não teve boa aceitação, pois os cientistas da época rejeitaram a hipótese. Para eles, os continentes eram fixos, não flutuavam sobre coisa nenhuma. Mas a ideia-chave na Geofísica do século 20 acabou sendo mesmo o movimento das placas tectônicas. Lembrando: a palavra, tomada do grego tektonikós, significa arte de construir. Sim, a associação é essa mesma, arquitetura – sugerindo que as  tais placas, moldando a superfície da Terra, são as desenhistas do mapa que conhecemos hoje, tanto como serão suas silenciosas destruidoras em eras futuras.

Silenciosas, nem tanto. Por causa delas, ocorrem os terremotos e os tsunamis – que são gerados também por terremotos, no fundo do mar. As placas continentais se deslocam impulsionadas pela grande usina térmica do interior da Terra. (A Terra, como sabemos, é uma grande bola incandescente com a casquinha resfriada. A casquinha é tudo o que vemos aqui em cima, inclusive os mares com suas profundezas.) Então, como foi que ninguém nunca percebeu isso antes? Bem, não é tão simples. Alguns já haviam observado essa mesma série de coincidências intrigantes, mas Wegener levou a sério o que parecia, em princípio, ser uma ideia maluca, praticamente inaceitável. Isso exige certa coragem, que pode pôr em risco toda uma carreira, pois muitas vezes uma ideia nova parece absurda. (Às vezes é absurda mesmo, depois de confirmada sua insustentabilidade.) Não foi o que aconteceu com essa.

Para se ter uma ideia, o grego Xenófanes, há 2500 anos, foi o primeiro pensador a considerar que o planeta sofresse alterações físicas ao longo dos tempos a ponto de se tornar irreconhecível, com isso antecipando em mais de vinte séculos a Geologia moderna. (Só no século 18 o escocês James Hutton retomou essa hipótese como matéria científica – e não filosófica.) Mas isso ainda era só uma ideia, uma proposta, estava longe do que podemos teorizar e constatar hoje, pois não era possível avançar muito. Faltava a todos a dimensão do tempo.

Mesmo nos mapas dos navegadores europeus do século 15, já era possível, com a inserção da recém-descoberta América, ver claramente alguns contornos que se encaixam como peças de uma única peça maior. Mas parece que isso passou despercebido pelos cartógrafos. Primeiro, ninguém imaginava que o planeta houvesse sido formado de certa maneira – o que prevalecia era a ideia de que tudo estava pronto assim desde tempos imemoriais. Também porque, quando vemos muitas vezes uma mesma imagem, ela deixa de nos impressionar. Assim é com o mapa de nosso país, de nosso estado, uma bandeira, uma palavra: são familiares demais, por isso não despertam nosso interesse. O que Wegener fez foi, essencialmente, ver de novo: dar mais atenção ao que parecia ser somente uma coincidência.

Até cerca de 200 milhões de anos atrás, ainda no Jurássico Inferior, os continentes que tão bem conhecemos formavam um único bloco, a que os geólogos chamaram Pangeia. Posteriormente, essa massa de terra começou a dividir-se, e convencionou-se chamar à parte norte Laurásia e à parte sul Gondwana. A separação desse grande continente meridional começou ainda na era dos dinossauros. E, claro, não deve parar na nossa vez.

Como as civilizações são estimadas em séculos (e nossa vida em algumas décadas), não conseguimos perceber ciclos muito lentos, independente de serem contínuos. A deriva continental, atualmente conhecida como tectônica das placas, foi uma das mais rápidas e completas revoluções na ciência. Hoje, não apenas não restam dúvidas sobre sua veracidade como toda a Geologia se orienta por ela. Sabemos, por exemplo, que a América do Norte e a América do Sul foram ligadas há apenas (sim, nesse caso, apenas) 3 milhões de anos, com o surgimento do Istmo do Panamá. E que a Índia era parte da África antes de começar sua viagem rumo à Ásia(simulação ao lado), onde a força de seu movimento irrefreável, que formou (arquitetou, que tal?), ao longo do tempo, a imponente cordilheira do Himalaia, continua atuando.

Colinas Siwalik, Paquistão

A compreensão dessa dinâmica, em ação no decorrer de inacreditáveis milênios, além de esclarecer algumas lacunas na seleção natural darwiniana, auxiliou muito os paleontólogos e os paleoantropólogos, pesquisadores que buscam as origens da espécie humana, pois é possível determinar, com o estudo apropriado da movimentação da crosta terrestre, a localização de potenciais sítios de fósseis. O pré-historiador Richard Leakey nos lembra que, após a erosão dos picos emergentes do Himalaia, imensas quantidades de siltes foram arrastadas pelos rios e depositadas em declives mais baixos. Assim, elevados como as Colinas Siwalik, no Paquistão, são ricos depósitos de material fossilizado. Em decorrência disso, o Paquistão hoje abriga um dos sítios mais cobiçados pelos caçadores de fósseis. (O nome pakicetus, que classifica um dos ancestrais da baleia, deve-se ao nome desse país.)

Se imaginarmos outro planeta semelhante ao nosso, com oceanos e porções sólidas, podemos também desenhar um mapa de como seria esse outro recanto do cosmo. Mas podemos, melhor ainda, simular a cartografia futura de nosso próprio planeta, com o auxílio de cálculos e projeções computadorizadas.

Em um futuro próximo, não haverá discussões sobre a evolução por seleção natural ou sobre as origens do universo (muitos concordam que já não há motivos para se discutir isso), assim como hoje não faz sentido criar controvérsias a respeito do heliocentrismo ou do fato de nosso planeta ser esférico. A descoberta de que os continentes se movimentam instalou-se nessa posição, de irrefutabilidade, relativamente em pouco tempo.

Mas Wegener não acertou tudo. Ele nos deu o ponto de partida. A tectônica das placas foi mais bem explicada anos mais tarde, bem depois de sua morte, ocorrida em 1930, pois até o período da Segunda Grande Guerra, sua descoberta não era ainda levada a sério. (O mundo estremecia de outra maneira, à sombra de perigosos ditadores, que aparentemente não sabiam que tudo se transformava o tempo todo, sob seus pés.) Mesmo entre o calor das novas descobertas, a posição de Alfred Wegener como cientista e como pessoa era bastante modesta, tendo em vista suas conquistas pioneiras e seu grande interesse pela pesquisa. Ele declarava que a ciência era um processo social, que ultrapassava o tempo de vida humano, portanto não importava quem, especificamente, houvesse descoberto ou inventado algo. O que contava, de fato, era o próprio processo, como um bem de todos, podendo ser herdado por novas gerações.

Em sua terceira viagem à Groenlândia, Wegener participou de uma expedição de resgate que levou mantimentos a alguns colegas, num local remoto. Na volta, ele foi vitimado pela hipotermia, apenas dois dias após ter completado cinquenta anos. Wegener morreu de frio.

(O tema desenvolvido acima integra a palestra Veja de novo: relações entre textos visuais e narrativos, apresentada recentemente.)

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9 respostas para “A simples (e espantosa) descoberta de Wegener”

  1. A diferença de grandezas entre os processos, estelares, planetários, humanos e microbiológicos, nos causa uma míopia ou, na verdade, uma cegueira, que poucos, em poucos momentos, conseguem ultrapassar.
    Valeu pela leitura, e por um pouquinho mais de azeite nos neurônios.
    Forte abraço,
    Marcão

  2. Talvez pelas razões que você mencionou no texto, com relação a nossa falta de atenção ou interesse pelas imagens ou temas mais explorados ou até pelas enfadonhas aulas de geografia, o que mais me salta aos olhos foi a simulação da dinâmica arquitetônica, pois me oportuniza a macrovisualizção de um processo de: unidade, fragmentação, transformação e novamente unidade (se não geologicamente, porém consciencialmente) fechando o ciclo de existencia, que tambem experimentamos como indívíduos.
    O que nos traz a compreensão das máximas: “Somos um” e “A certeza que se tem é que tudo muda”.
    E uma vez despertos para isso, sabendo que somos parte desse “Grande Holograma”, resgatemos nossa responsabilidade para conosco (o micro) e para com a Terra (o macro). E assim desfrutarmos de uma experiência de vida, que por mais difícil que seja, valha a pena!!!!

    Beijão, Per!

  3. Por uma coincidência, hoje assisti um documentário do The History Channel, intitulado “Como nasceu o noso Planeta” e na parte que fala sobre a Tectônica das Placas, é contada a história de Alfred Wegener e de como as suas ideias foram rejeitadas.
    Abraços!

  4. Pois é, Danilo Diniz, outros já nascem e crescem inconformados com o “status quo”, desses é a origem do nosso desenvolvimento, do nosso crescimento como seres humanos, estamos sempre à procura e à espera que mais alguma coisa seja acrescida na nossa evolução. Felizes são aqueles como nós que podemos contar com um guia da estirpe de um Perce Polegatto, sempre nos brindando com algo novo, algo que para muitos, está além da imaginação.
    Um abraço para ambos.

  5. É indiscutível a mania que o ser humano tem de não aceitar mudanças, acho que isso vem do temor pelo novo, ou pela comodidade de aceitar tudo com está, eu por exemplo lendo este texto só fui me dar conta de que esse processo de fragmentação não parou (lá pela metade do texto… rsrs) por aqui por conta da nossa humanidade isso vai continuar por conta da força da natureza. Muitas vezes também o que parece um absurdo por ser tão óbvio, se mostra uma grande resposta.

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