Sonho 811. O livro que falta

Com o tempo, algumas imagens desapareceram de suas páginas, e eu nunca mais as encontrei.
Talvez eu as tenha sonhado. Talvez tenham desaparecido de fato.

Três gatos brincam numa calçada, de cimento trincado, de uma rua que leva ao centro da cidade. Agora os gatos são muitos. Considero, então, que não eram três. Que nunca foram três. Que eu estava errado.

Entro com meu pai numa livraria tradicional de minha cidade, onde os velhos volumes tornaram-se madeira, de tanto remanescerem nas mesmas estantes. Vejo, por trás de um vidro, um pesado tomo em formato grande que subitamente me interessa muito. Entusiasmado, mostro-o a meu pai: trata-se do quinto volume de uma coleção que tínhamos em casa. A coleção consistia de quatro livros ilustrados, uma enciclopédia adaptada para adolescentes, com artigos sobre inúmeros assuntos. Com o tempo, algumas imagens desapareceram de suas páginas, e eu nunca mais as encontrei – um menino deitado sob uma groselheira, o rosto malvado de um corsário e uma jovem grega portando uma ânfora. Talvez eu as tenha sonhado. Talvez tenham desaparecido de fato.

Digo a meu pai que devemos comprá-lo, pois é o livro que nos falta, que fechará a coleção, até então supondo-se completa. Mas ouço em resposta que não temos dinheiro para coisas assim. Pergunto o preço do livro à vendedora, escuto com grande surpresa que ele custa a ninharia de alguns centavos, justamente o que trago no bolso, tratando-se de moedinhas que haviam ficado ali, no bolso de minha calça, desde que eu as ganhara de um tio, quando menino. Pego da estante, por detrás do vidro, o volume supostamente ilustrado e o abro junto a meu pai, nós dois agora movidos por uma latente curiosidade. Mas constato, decepcionado, que o livro todo, que as páginas contidas sob aquela portentosa capa versam sobre um único assunto, que eu não posso identificar qual é. Nenhuma imagem me auxilia, nenhuma ilustração, nenhuma foto. Sinto-me constrangido por ter criado aquela expectativa e ter frustrado meu pai, além de mim mesmo. Não me ocorre sequer sobre o que seja aquele volume, que de toda forma não nos interessa absolutamente.

Compreendo, por fim, este limite: a coleção que tanto nos servira, que nos mantivera unidos durante outra fase da vida, não aceita qualquer continuidade. Percebo que estou sozinho na livraria antiga. E ainda tenho tempo de lamentar as moedas.

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Imagem: Jessica Siemens. Livros. 2009.

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