Lisette Maris. A viagem improvável do capitão Newman (10/15)

Todos os ruídos que produz essa partida espetacular são devastadores.
Ao mesmo tempo, incrivelmente suaves.

Navio a vela. Autor desconhecido.– 57 –

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Capítulo XIII

A DESCOBERTA

O escaler aportou no flanco norte, oposto à rota da baía. O capitão Newman mediu com os olhos a distância da nau ancorada, girou o rosto bem barbeado, de queixo intrépido, e disse: “Agora estamos bem perto. Conquistar este lado da ilha foi um passo decisivo para rastrearmos o tesouro.” Os outros desceram também, enquanto três marujos cuidavam do escaler. “Pelas barbas de Netuno!”, exclamou o velho perneta. “Então o senhor pensa que está a apenas um passo do tesouro só porque chegou até aqui? Não imagina que esta mesma busca exige muito mais de todos nós, que não comporta fraquezas nem covardias?” O capitão Newman olhou por um momento a rica vegetação da ilha Ota. Girou o rosto bem barbeado, de queixo intrépido, e outra vez pensou que, em alguma parte daquela singular floresta, um tesouro surdamente o desafiava. “O senhor sabe que abomino covardias”, retrucou. “Por isso envergo este traje com divisas ao qual jurei fidelidade e pelo qual verei esvair-se meu sangue.” “Palavras são pedras, meu caro capitão”, tornou o velho perneta. “Os cães rebeldes preparam sua emboscada e nos espreitam. Foi uma sorte termos sido informados, o senhor sabe. Graças àquele patife do…” Sim, há um traidor entre eles, pensou o capitão Newman girando o queixo intrépido, o rosto bem barbeado, enquanto as pequenas ondas sussurravam logo abaixo. Espero que não haja também um traidor entre nós. Esses copos que se movem afinal          um traidor        isso não me engana e não significa          cães rebeldes prepar            nessa escuna e não poder part

           ntre eles. Espero que não h             afinal os mares, que mares? Damares antes que os cães reb                     um      traid

Fecho os olhos e o livro. A escuridão alivia-me o cansaço, devolve-me imagens avulsas como aquele dia claro no flanco norte e os lábios úmidos de Damares. A um passo do tesouro, talvez. A rica vegetação, o que esconde.

Desperto aos gritos de ordem que parecem vir de cima. Corro à claraboia de meu quarto, e a luz ofuscante de uma manhã sem névoa bate de frente em meus olhos como uma… como um… Ah, não tenho tempo para comparações inadequadas! Saio aos pulos pela escadaria, desço à calçada, de lá avisto maravilhado a alvura esplendente que reina absoluta a partir do convés: Lisette Maris com todas as velas enfunadas, vibrando na brisa.

“Vamos, vermes sonolentos! Todos a bordo!”

O capitão Newman agita o braço direito em sua posição de comando junto ao mastro principal. O sol destaca sua vestimenta impecável, percorre como uma faísca as filigranas, os punhos agaloados, e desperta o ouro das medalhas, botões e minúsculos adereços enquanto ele gira o rosto bem barbeado, de queixo intrépido.

“Tudo o que existe existe por nossa causa!”, ele discursa com voz enérgica. “A vida não é senão sua própria viagem. Nós mesmos, nosso sangue em sua rota. Nossos humores, nossos silêncios. Vamos, homens! Depressa! Tragam seus destinos, sua fome! A bordo!”

Vejo chegando nosso vizinho, de boina, o cão ao colo. Sorri ao ver o capitão entre as velas ansiosas, sorri como nunca eu o vi sorrir, e sobe a bordo. Junta-se a ele o grupo que sonhava mover objetos, entre eles o viúvo de olhos estreitos, caminhando com entusiasmo à frente dos outros idosos e fracassados cujos rostos corados, sorrindo sob o sol, parecem desprender-se numa aura de incontida felicidade.

“Todos a bordo! A manhã não pode esperar!”

Minha mãe lhes acena do convés até que todos embarquem, ajudando-se mutuamente entre os degraus mais difíceis. Do convés, todos pedem que eu não me demore, o capitão Newman distribui as últimas ordens que libertarão a escuna enquanto avalia os ventos e observa a fúria das velas centrais, que trapejam impacientes acima de nossas cabeças. Não posso partir antes que venha, como vem vindo agora, destacando-se ao longo da avenida, correndo na perspectiva da mesma calçada de canteiros, vestido esvoaçante feito da neblina que se dissipara, seios agitados sob essa fina membrana, cabelos escapando das têmporas, descalça de pés claros como se tudo em sua pele me revelasse o sol, Damares: olha-me de frente num sorriso inflado antes que eu lhe estenda a mão para que vençamos juntos as escadas. Vozes e risos enfunam a manhã de vento, contagiam nosso silêncio de entreolhos aquáticos, cristalizados de viagens.

“A oitava maravilha mais preciosa do mundo!”, acrescenta o capitão Newman. “Não propriamente Lisette Maris. A manhã intensa! A primavera que nos move!”

Lisette Maris, como inspirando por um grande pulmão sob os mastros, enfuna as velas esplendentes que talvez nunca tenha ostentado.

“Que estão esperando? Levantar âncora!”

Com um surdo tremor no solo, sobe pesadamente a âncora enferrujada de terra, arrancando torrões, restos de raízes, possivelmente até cacos de ossos, destroçando velhas lápides sobre a relva. A escuna revela-se gigantesca. Como se eu não a conhecesse. Todos os ruídos que produz essa partida espetacular são devastadores. Ao mesmo tempo, incrivelmente suaves. Lisette Maris deixa lentamente a rua, entra pela avenida cujo vértice nos rende horizontes mais amplos. Move-se sobre si mesma definindo a rota inicial. Parte para fora da cidade, à nascente das manhãs, da luz. Aos mares.

Lisette Maris em seu endereço de inverno (10/15)

Lisette Maris 11. A sala (quase) secreta das almofadas – próximo

Lisette Maris 9. Seus olhos estreitos, sem se desviar das cinzas – anterior

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Imagem: Navio a vela. Autor desconhecido.

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