Como se nunca eu me conhecesse

O maior herói é o homem comum, no dia qualquer.
A maior aventura, a que não acontece.
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Vincent van Gogh. Troncos de árvore com hera, Saint-Rémy. 1889.Embora a primavera se abrisse em sua plenitude e embora eu não encontrasse um início menos arcaico para esta narrativa, poucos eram os jardins e canteiros de calçada onde umas pequenas flores desabrochavam, sem alarde, sua beleza. É normal nas grandes cidades. Mesmo assim, as mornas sensações da temporada envolviam-me de maneira tão incisiva que talvez nem todos compreendam. Digo isso porque não consigo ficar imune a tais sensações, e costumo superar-me em meu deslumbramento, o que a cada vez me surpreende: é como se nunca eu me conhecesse, apesar de sempre o mesmo. Que mais? Tudo parece contagiante.

Domingo, as ruas do centro. O início da tarde anunciado por certas brisas especiais de outubro. Cada garota que me acontecia observar, fosse ela como fosse, despertava-me estranhos lapsos de atração entre impulsos quase palpáveis, algo somente compreensível em certos dias de intensa primavera, em meio a novas ciladas. E esse era um dia notável – justamente o auge da estação, justamente a estação dos encantos. Que mais? Oh, a repetição, o tédio: a literatura. Mesmo assim, as sempre haverá uma maneira de contar. Oh, a literatura…

O maior herói é o homem comum, no dia qualquer. A maior aventura, a que não acontece. Assim poderia ter começado o texto logo acima, só agora me ocorre. Mas sendo o incorrigível homem cotidiano e vulgar que me conheço sendo, a pretensiosa epígrafe-meio-provérbio estaria não só tratando de mim mesmo como conferindo-me ares de narrador virtuoso ou algo ilustre, tal qual um desses prosadores cuja pena faz crer que não seja ele um de nós, outro como nós todos, dotando-se a si próprio de um talento extra como se sua caligrafia ou sua impressão digital fossem especiais. Virtuoso dificilmente seria um adjetivo aplicável a minha pessoa, salvo quando estendo meus fingimentos a um nível que até mesmo uns colegas de trabalho, de convivência diária e alguns anos de caprichos e azedumes, acabam por se convencer de minha honestidade e de meus princípios. Portanto, sendo desta vez virtuoso pelo fato de confessar-me tão honestamente, ainda assim ponho em dúvida o mérito de tal qualificação, desfazendo-me com certo alívio da responsabilidade de que são vítimas os virtuosos. Agora, quanto a ser ilustre, nem se fale.

Antes de prosseguir, quero lembrar que sofro de enxaqueca crônica. Por causa dela, trato-me com comprimidos que geralmente provocam incômodas diarreias; e por causa das diarreias, tenho de tomar uma solução detestável que me ataca o fígado. (Não tomo nada para o fígado.) Logo pela manhã, notando um sintoma remoto dessas cefaleias infernais, engoli de uma só vez dois comprimidos, para garantir o dia. Mas hesitei diante do frasco contra a diarreia, acreditando nos poderes primaveris e no bem-estar que me proporcionaria um dia assim tão agradável. Ainda no início da tarde, sentia-me livre de meus monstros intestinais, o que me animou bastante. Sim, pois normalmente as primeiras dores da diarreia manifestam-se pouco tempo depois, o que de fato não havia ocorrido até então. Sei que é inconveniente de minha parte cantar a primavera com suas brisas e ao mesmo tempo mencionar diarreias, mas tanto uma quanto outra afetam-me de maneiras diferentes, e esta é a verdade.

Aliás, essa mesma diarreia já me proporcionou momentos extremamente constrangedores. Lembro-me de uma vez em que fui obrigado a entrar correndo na primeira porta que me apareceu: um restaurante fino. Por azar, o garçom não ouvia bem, e eu tive de perguntar-lhe muitas vezes onde diabos ficava o banheiro. A princípio, ele nem me percebeu. Usei reservado, sanitário, W.C. e acabei esgotando meu desesperado vocabulário entre lavabos e toaletes, tudo isso para exprimir uma mesma porcaria, ia logo escrevendo merda, mas controlei-me a tempo. Ao garçom, não só devido à sua deficiência auditiva, mas principalmente porque ele não se dispunha a dar-me atenção desde o começo, meus primeiros apelos em voz tímida, falhando sílabas, foram vãos. Acho que ele fazia de propósito. Não me dirigia um olhar sequer. Apenas inclinava a cabeça de lado, mirando uma parede à frente. Um suplício! É que os bons garçons percebem logo, pela aparência de alguém, se a pessoa é ou não do tipo a que se deva dar atenção. Eu nunca fui, naturalmente.

“Latrina, privada!”, insisti quase gritando.

Disparei até o fim do corredor, segunda porta à esquerda.

“Deus seja louvado…”

Quando saí, todos me viram passar. Um vexame.

A conspiração dos felizes

2. Era ela, ela mesma – sequência

Guia de leitura

Este é o texto de abertura da novela A conspiração dos felizes , a evolução de uma estranha vingança em razão de um trauma aparentemente esquecido. O adolescente é agora um homem doentio, cético e imprevisível quando reencontra o casal de ex-colegas de escola. Compreendendo que eles combinaram o encontro com intenções sexuais, esforça-se para frustrar esses personagens que ressurgem desastradamente em sua vida. Isso cria uma situação constrangedora e insustentável em que todos se perdem em revelações patéticas, permeadas por ironias, conduzindo a desfechos ilusórios, inesperados e a uma espécie de pungente e reveladora confissão.

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Imagem: Vincent van Gogh. Troncos de árvore com hera, Saint-Rémy. 1889.

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