Projeto esvanecendo-se. Das coisas todas

Marjorie era uma caçadora. Disfarçada pela etiqueta.
Encoberta pelas vantagens dos bons modos.

. 1-lorraine-christie-doce-rendicao-detalhe-inferior

… por que, em minha instabilidade mental emocional sazonal, por que, enfim, recordo um ponto ou outro, mesmo não estando à procura de tal ou qual memória? Um personagem de Coetzee pensou em castrar-se para evitar novos casos com mulheres e para poder pensar melhor na morte. Pensar melhor na morte? Não, não, mas eu sabia, eu o entendia: isso se traduz por considerar filosofar tentar compreender. À parte esse estúpido drástico ridículo pensamento, valeria a pena, mesmo metaforicamente, trocar uma coisa por outra?…

Quando conheci a Marjorie, ela me encantou com sua educação, com seus sorrisos e não sorrisos na hora certa, suas expressões faciais agradáveis e convidativas. Sentados, conversando. As cadeiras de madeira escura do café, umas plantas em volta. Então, ela ergueu lentamente a mão direita, em minha direção. Olha, um pernilongo aqui, na sua camisa. Era mesmo. Mal tive tempo de vê-lo: o minúsculo pernilongo subiu ao ar delicadamente rapidamente imprudentemente, e eu nunca me esqueço de como a Marjorie o liquidou certeira, batendo as palmas da mão uma única vez. E os olhinhos dela, quase arregalados e vesgos, concentrados como os de um felino. Seu rosto todo parecia o de um felino, surpreendentemente. Os lábios presos, as linhas exatas de seu queixo, suas mandíbulas, e aqueles olhos castanhos, escuros, quase cor de amoras, um brilho rápido de êxtase ao dar como certo, num estalo, o assassinato bem-sucedido. Tornou a olhar-me de frente, outra vez mulher. Sorrisinho de boca fechada, como se dissesse: viu só? E algum alívio, um sutil relaxamento. Marjorie era uma caçadora. Disfarçada pela etiqueta. Encoberta pelas vantagens dos bons modos.

… para o ator Willem Dafoe, devemos ser mais animais, menos racionais, sem nos importarmos muito com as expectativas. Ouviu isso, Joss Stone?…

Você trabalha com aulas, não é? A Marjorie, curiosa e afável. Trabalho com aulas? É, eu… dou aulas. Leciono. Franja de fios negros cobrindo-lhe quase toda a testa, partindo de uma linha curva a separar-lhe os cabelos, que caíam mais de um lado que de outro – isso, no momento, me pareceu acidental. Interessante, admiro professores. Nós dois compartilhando aquela situação maravilhosa de nos conhecermos melhor, por enquanto não tão melhor assim, e ainda bem. E aqueles olhos dela, castanhos escuros sensíveis astutos. Para mim, naqueles primeiros encontros, eram olhos potencialmente eróticos, por causa de seus movimentos mínimos, esquadrinhando meu rosto, buscando enquadrar meu rosto como um todo, enquanto eu falava de uma coisa e outra.

A bem da verdade, como dizem os fingidos, e mesmo tendo em mente que não é preciso comentar isso, a essa altura eu já pensava na Marjorie como uma potencial fêmea a meu dispor a minha mercê na cama a meu serviço. Criava, como sempre fizera desde que minha soturna adolescência entrara em cena, todas as imagens e falas dessa garota exata disciplinada e bem cuidada que, misteriosamente, parecia interessada em mim. A Marjorie era agora o foco e o fogo de meu bruto interesse masculino. Minha musa corpórea. Meu ícone erótico, como os de Alex Portnoy. Sobrepunha-se às outras, reinava. Dominava-me. Despia as roupas e os calçados que eu bem entendia e escolhia, levando-me quase às portas da polução noturna, o que eu me esforçava por conter, administrando meu tempo meu ritmo meu ritual profano, que é o de todos os homens hormonalmente normais: a sagrada masturbação.

… o Portnoy, de Philip Roth, nos desafia com sua sinceridade, e a jornalista perguntava ao autor por que falar tanto sobre sexo, o que me parece uma pergunta desnecessária, mas, sim, claro, podemos falar de qualquer outra coisa…

Eu estava com ela no carro, fim de noite, deixando-a em casa, a rua arborizada e escurecida onde morava com o pai e o irmão, quando recordei essas palavras, pensava: isso de estar apaixonado… Eu não conseguia parar de abraçá-la, de olhar para ela, de beijá-la, beijá-la outra vez e outra vez. Como é possível caber tanta coisa em nós, quero dizer, por que eu não conseguia parar? Não haveria um limite para esse fascínio? Ela riu. Claro que sim. O orgasmo.

Mas isso viria depois. Estávamos no café onde ela havia matado um pernilongo. Uma coisa e outra atravessava nossa conversa, como todas as coisas que acontecem no mundo deveriam atravessar as conversas de todos, embora ninguém se importe. Eu respondia e perguntava, também afável, é claro, mas achava estranho que alguém falasse assim, trabalhar com aulas, não sei por quê. Não sei muito bem por que isso me incomoda sutilmente. Dias depois, convivendo com uns conhecidos da Marje, entendi que era mais ou menos assim que eles se comunicavam. Eles não perguntam o que você faz, qual é a sua profissão, eles perguntam com o que você trabalha e complementam querendo saber qual é a sua parte. Minha parte? Como assim, minha parte? – foi isso que pensei, mas não falei, quando um desses amigos dela quis saber sobre esse tipo de coisa. É que muitos deles são sócios proprietários microempresários empresários, até acionistas de alguma empresa, portanto eles sempre têm… uma parte. Ah, você trabalha na… ? E qual é a sua parte? Na ocasião, eu disse que lecionava, e não comecei a resposta com: minha parte é… Os mais sábios (que eu nunca sei quem são) nos lembram que sempre é prudente evitar dizer o que se pensa, embora isso me cheire a mais uma modalidade empolada de covardia. Mas dessa vez segui esse conselho covarde e me escondi. Porque o que pensei foi que minha parte era ensinar, ao máximo, como é a gente se libertar de padrões paradigmas frases feitas ideias feitas e ciladas feitas, talvez para diminuir um pouco a preponderância daquela casta de pessoas que, situada em camadas consistentes da cadeia alimentar, entende que sua visão de mundo é o melhor que se pode passar adiante.

Em alguma parte de nossas primeiras conversas, ela disse que me achava… diferente. Diferenciado. Mais especificamente, ela educada culta agradável e me conhecendo ainda, foi a palavra que usou em seguida, aperfeiçoada: diferenciado. Eu já tinha ouvido algo assim antes, de outras pessoas, mas não sabia se isso era bom ou não, se me faria feliz ou infeliz, que diferenciado pode ser o antissociável ressentido ou o psicopata ansioso que gosta de ler os clássicos, o que, por bem ou por mal… Bem, isso não importa mais. Não é uma daquelas coisas que-eu-mais-tenho. E não pretendo ser diferenciado coisa nenhuma. Isso acaba sendo uma impressão alheia, uma definição derivada, talvez, de meu interesse especial por leitura – o que afinal não é tão incomum assim.

Nada de mais. Por essa época, eu ainda cultivava leituras intoxicantes, vivia entusiasmado com a descoberta de novas (para mim) peças de música clássica. Perseguia a beleza das coisas. Enternecia-me com a bondade, com a poesia, e já era tempo de eu ter outra impressão do amor, mas como disse, ou acho que disse, nunca fui precoce quanto a tais percepções. Eu havia escrito em meu diário, na parte inferior de uma página direita, que “não se emocionar com alguma coisa é uma perda, não um ganho. É um esquecimento, não uma conquista.”. À época, coisas que-eu-mais-tinha. E isso tudo, como parece claro, já devia ter se esfumado evaporado esvanecido lá no definhar de minha pobre adolescência, que ninguém adivinhava dura, com um último sorriso triste. Mas não. Eu tinha vinte e três anos quando conheci a Marjorie. É sério. Foi durante uma onda de calor, estacionada na região por influência de fenômenos climáticos distantes, desses que se formam no aberto dos oceanos e ganham nomes em espanhol. Uma onda de calor opressiva e nauseante, ainda na primavera, por isso era comum que nos víssemos com os rostos um pouco suados, quase cintilantes. Isso foi em novembro.

De qualquer forma, eram dias mágicos, quando começávamos a pensar um no outro com inegável interesse, desejando mais encontros e mais próximos e ansiosos e urgentes, quando aquela impressão intensa do encantamento começa a subverter as marcações do relógio e gerar um descompasso com as situações diárias conhecidas, com as outras atividades da vida prática. Quando nossa noite acabava, seguíamos em meu carro, eu ia deixar a Marje em sua casa, e era difícil nossa despedida. Nossos beijos consumiam todo o tempo, todo o batom. O gosto das salivas trocadas também resultava dessas tempestades biológicas. Ficávamos ainda uma meia hora grudados, até um pouco mais tarde, em meu carro, como já expliquei, o confortável Chevette hatch 84 branco de assentos reclináveis, torno a dizer, quase em frente à janela do andar de cima, e eu imaginava que seu pai ou seu irmão podiam respirar de longe nosso calor, o cheiro de nossos hormônios fervendo sob a lua.

A Marjorie, agora minha namorada, ia me apresentando a seus amigos suas amigas seus conhecidos seus parentes, enquanto meus amigos, que já eram poucos e dispersos (colegas eu tinha muitos), iam desaparecendo naturalmente de meu convívio. Já tínhamos uns meses de casados quando, na festa de casamento de uma amiga dela – uma não tão amiga assim, daí porque ela, a Marje, que já se portava com certa formalidade em ocasiões dessas, naquela noite parecia mais atenta às aparências conveniências obediências do que em outras –, eu cometi o erro de acreditar que poderia ser espontâneo. Coitada, sei que nem sempre eu fui o que ela esperava, mas não era por mal. Nunca foi por mal. Tenho verdadeiro carinho por ela, embora ela não perceba – ou não se importe muito com isso. Enfim, uma ou outra manifestação de espontaneidade minha a fazia desconfortável, porque ela tinha as coisas todas mais ou menos previstas, e não se sentia bem se algo não saía bem, o que parece simples de entender. Nessa festa, como dizia, bebi um pouco mais que o normal. Só isso. Nada sério. Todos ali, pelo que eu observava, beberam mais que o normal. Eu estava alegre, solto. A gente já tinha dançado, outros tantos ainda dançavam, e se divertiam com umas bobagens típicas, piadinhas relacionadas aos noivos e à conhecida condição de casados, quando então eu simulei uns passos de dança meio desencontrados, como num ritual de acasalamento, dobrando os joelhos e beijando a mão dela, afastando-me e me aproximando outra vez, imitando aqueles personagens de luvas do cinema mudo, movendo lábios sem som, mostrando-me subitamente apaixonado por minha própria esposa, que estava elegante e linda, cabelos presos, vestido justo, sandálias altas, mas acontece que a Marjorie sorria quase um sorriso fixo, e eu entendi que ela não estava gostando muito do rumo que as coisas estavam tomando. Então eu me deitei no chão liso da pista, blazer azul-marinho aberto, fechei os olhos, sorrindo, via tudo em flashes sons luzes risos e o teto, e a Marjorie bem próxima, curvando a parte superior de seu corpo em minha direção, isso sem dobrar as pernas rígidas, mãos apoiadas nos joelhos. Que foi? Tudo bem? Está passando bem? Tudo bem sim. Tudo bem, minha linda. Eu estava feliz. Feliz. Levanta daí então. Vem. Ali estava a minha mulher linda em meio ao caos. Algo carinhosa, mas incisiva. E eu sorrindo, de olhos fechados, o álcool provocando sensações avulsas suaves gostosas, então eu disse a ela que amava a vida. Acho que amo a vida. Quase sem ênfase, mas quase em estado de graça também. Marje, eu acho que… eu amo muito a vida. Que isso, imagina! Ela lançava os olhinhos rápidos ao redor, mantendo o sorriso aberto enquanto os outros convidados provavelmente riam ou estranhavam aquilo tudo. Estendeu-me a mão. Vem, anda, para com isso. Sempre sem deixar de sorrir, para que vissem que era só uma brincadeira. Sim, esses gestos dela são recorrentes. São toques de mestra. Para que todos compreendam que tudo não passa de uma brincadeira. Que mesmo o fato de eu amar a vida também não é mais do que uma brincadeira inocente. Insignificante. Dispensável. Está tudo bem. Tudo bem mesmo. Seu sorriso dizia a todos que eles não precisavam se preocupar.

Projeto esvanecendo-se

6. Uma garota como outras – só que não – sequência

4. Eu não queria que isso acontecesse – anterior

Guia de leitura

Imagem: Lorraine Christie. Doce rendição (detalhe inferior).

3 respostas para “Projeto esvanecendo-se. Das coisas todas”

    1. Amei. Seus livros estou lendo muito lindos belas palavras muito sucesso realizações felicidades já virei sua fã continue. Escrevendo. Que estarei. Aqui torcendo por vc.bjos abraços 🎈👏👏🙌🙌🙌😍😘

Comentar