Projeto esvanecendo-se. Uma garota como outras – só que não

Você se parece com ela sim. Não é? Seus cabelos, seus olhos estreitos, essas covinhas aí.
Eu mesmo não sabia ao certo o que era.

scott-harding-nu-detalhe-superior-1965Uma garota como a Joss Stone não vem sem um preço. Mas afinal qual é o preço? A erupção do Krakatoa em minha vida? Uma revelação de grau 9 na escala Richter? O efeito Doppler traumatizante de uma locomotiva cortando o tempo? E daí? Nada é tão drástico quanto parece. Nada é tão dramático quanto parece. Todos superam tudo. Não é nenhuma tragédia. Chega a ser até bom assim. Mesmo que nem sempre a gente saia ileso de certas situações, dessas que eu classifico, em meu pobre silêncio, como aventuras. Só porque é um segredo, é uma aventura? Que tipo de medo dá início a esses equívocos mal pensados? Uma garota assim em minha vida, e então? Enfim, qual será o preço?

Eu não a chamo pessoalmente de Joss Stone, é claro. Isso é por minha conta. Já disse que não posso revelar seu nome, obviamente. Josie é o apelido mais conveniente adequado simples e belo para ela. Foi o que ela mesma me passou entre as primeiras conversas, aquele dia de nuvens, quando lhe dei carona a partir do ponto do Jardim Zara, o ponto zero de toda esta preocupante e excitante situação em curso. Josie. Pode me chamar de Josie. Mas parecia inevitável que alguma vez, em outro encontro, um tom a mais de intimidade, eu lhe dissesse isso, que percebia nela uma forte semelhança física com a tal cantora de Dover. Você me lembra aquela cantora, a Joss Stone, conhece? Ela quase riu. Uau! Claro que conheço. Nossa, ela é linda. Imagina, e eu aqui, com essa voz meio essa que eu tenho. E eu meio baixinha, precisando de um salto só pra não passar despercebida na rua.

… Machado de Assis acreditava que uma mulher bonita sabia que era bonita não pela maneira como as outras mulheres a consideravam, mas porque a própria beleza lhe provia acesso a essa constatação, algo como um instinto, e o comparava ao talento e ao gênio – o que, para mim, é praticamente a mesma coisa…

A Josie não se importa muito com esse tipo de coisa. Reage com bom humor a esses elogios e aproximações que me chegam aos olhos de um momento para outro, sem que eu precise raciocinar muito. Isso me cativou decisivamente, essa sua falta de vaidade além do aceitável, tão comum em tantas mulheres, essa sua simplicidade em considerar a si mesma uma garota como outras, sem sinais de inveja ou de preocupação com o que esperam dela. Ela parece não invejar ninguém. Nunca vi a mínima sugestão disso nela. Fica contida em si mesma, naturalmente. Precisa trabalhar para se sustentar, para viver, só isso. Quando pensa em cursar uma faculdade ou qualificar-se em algum curso, é só porque nos cercam o tempo todo com essas pseudonecessidades inerciais, sobre as quais nem teríamos pensado espontaneamente. No fundo, não é o que ela quer, não é o que queremos de verdade. No fundo, o que nós queremos é cantar.

Você se parece com ela sim. Não é? Seus cabelos, seus olhos estreitos, essas covinhas aí. Eu mesmo não sabia ao certo o que era – estava tremendo. E a sua voz é um pouco grave, admita. Ligeiramente grave, como a dela. Não é? Ah, lindo, que bom que gosta assim. Ficou assim de um problema que eu tive quando era menina. Na traqueia, aqui. Fiquei até internada, acredita? Essa rouquidão sutil, quase imperceptível, a não ser em alguns breves pontos rascantes da entonação de sua fala, em nada afeta sua feminilidade, além de tornar sua voz meiga medida modulada algo singular, que agrada à memória. Dependendo do que ela diz, acrescenta-se uma nota desafinada ao final da frase: Pega pra mim, naquela porta do arrio, o filtro de papel? Sua voz parece subir de alguma parte do peito e mudar de tom na laringe. Eu poderia jurar que ela se forma antes de chegar às cordas vocais. Eu sei, eu sei que não é assim que funciona, mas é essa a impressão que me toca. É verdade, fico tocado com uma coisa dessas. Uma coisa tão simples. Mas tão humana – no caso, tão naturalmente feminina. Nas sombras de minha tosca masculinidade, alguma coisa responde como um rugido abafado a essa provocação inocente. Não sei se outros homens valorizam isso ou sentem com isso algum leve prazer, algum fio de atração escapando no ar, motivado por uma coisa dessas. Mas eu sim. Chego a pensar que, se observássemos com atenção a voz de alguém, sua maneira de falar, conheceríamos mais acertadamente seu verdadeiro caráter. Josie, eu adoro sua voz. Ela fica na minha memória. É uma coisa importante, não sei como. Ela volta em mim. A Josie afagou-me um lado do rosto. Ah, mas você é um doce, viu? Mas o que é que eu estava fazendo? Já não bastava a situação em si mesma? Já não bastava a Josie como era, sua proximidade de tirar o fôlego? Eu estava me confessando ridiculamente. Piorando tudo.

… Coetzee me disse, de maneira simples, em um contexto envolvendo mulheres, que, se você começou a cair, não há muita coisa que possa deter essa queda. Mas, sinceramente, não me lembro agora, não tenho certeza se o contexto envolvia mulheres. Pode ser um daqueles casos em que a memória seletiva toma a frente e decide por nós…

E embora eu mesmo não considerasse exagerado o que disse, quando disse, agora, tão pouco depois, gravadas em memória recente, minhas palavras soavam quase patéticas. Talvez patéticas mesmo. Seus cabelos, seus olhos estreitos, essas covinhas aí. Não tenho pena de mim, não me concedo nenhuma isenção. Eu não me importaria de dizer patéticas mesmo, mas creio que não chegaram a tanto, basta lembrar. Enfim, que diferença faz? Cabelos, mas que história é essa? – cabelos podem ser mudados coloridos descoloridos. Mas foi o que eu disse, estava dito, e era o que era quando eu disse e pensei nisso. Eu não sabia ao certo o que era. Não mesmo. Mesmo assim, estava convicto de que, no conjunto, ela era uma espécie de irmã mais nova da Joss Stone, com uns trejeitos e sorrisos pequenos. E não que isso mudasse alguma coisa para mim. Ela me atraía do mesmo jeito. Era só uma observação. Natural. Instintiva. Ela passava a ser, em minha mente cansada, uma espécie de estrela próxima, simples como sua matriz acidental, a verdadeira Joss Stone, descalça no palco, uma deusa real. E era como se o seu preço subisse do dia para a noite, sem que ela soubesse, em meio a tantas outras confusões minhas. Sim, um perigo cada vez maior.

Projeto esvanecendo-se

7. Dias antes, dias depois – sequência

5. Das coisas todas – anterior

Guia de leitura

Imagem: Scott Harding. Nu (detalhe superior). 1965.