Projeto esvanecendo-se. O jardim do hoje

O dia passava.
Qualquer coisa que eu dissesse a mim mesmo não impediria o avanço das eras seguintes.

jose-antonio-turci-escada-de-pedra-1Coco Chanel geralmente fica comigo quando vou mexer no jardim. Ela se distrai (ou se concentra, pode ser) perseguindo insetos e lagartixas, que lhe escapam com facilidade. Mas ela não se importa muito, logo se esquece desiste pisca duas vezes, tranquila. Como deve ser bom agir assim, naturalmente. Sem que alguém tenha de lhe dizer que se esqueça ou que se concentre, que seja assim ou não seja assado, enfim, neste mundo dominado por tantos gatos francamente obsessivos.

Nessa tarde, roupa velha e meu boné preto, costurado em linhas amarelas, eu revolvia parte de um canteiro com uma velha pazinha esmaltada em laranja, ponta enferrujada, pensava em começar ali um manjericão, a Marjorie iria gostar, eis o que eu tinha em mente. Cantarolava quase sem voz, remurmurando trechos de canções, memória instintiva. Distraído, mesmo assim a engrenagem das associações girava lenta em minha cabeça quieta. Imagens plantadas. Certa vez comentei que gostava de jardinagem, só amadorismo, disse isso a uma colega, a Adriana da Arquitetura, enquanto seguíamos rumo às classes pela passagem de um dos corredores térreos da universidade, que era margeado, entre um e outro trecho de tijolos à vista, por dois jardins isolados e simétricos, e ela me perguntou, em meio à conversa, se eu era do tipo que acreditava que as plantas tinham sentimentos ou sofriam ou algo parecido. Não, eu não sou. Sei um pouco de ciência – que os vegetais não possuem sistema neuronal, por exemplo. Mas é certo que me incomoda tornar a podar sempre uma mesma planta, impedindo-a de crescer e de realizar-se. Prefiro arrancá-la de uma vez. São coisas minhas. Com seu significado próprio. E todos os significados me importam, sempre fui assim. Mesmo que as plantas não sofram.

O Diego Bauer, nosso jardineiro, uma vez foi com dois ajudantes arrancar uma velha árvore em nosso jardim lateral, uma canelinha que se enredava em cabos elétricos e cuja sombra impedia a manutenção de uma região de flores rasteiras logo abaixo. Mas eles acabaram deixando um resto de tronco, raso cortado rente, e o Diego convenceu a Marjorie de que aquilo logo secaria, não teríamos problemas, era normal, era assim mesmo, e coisa e tal, aquele tipo de conversa que-ele-mais-tinha. Não secou. Continuou lançando brotos e ramos novos delicados macios viçosos, como crianças pequenas vindo ao mundo, lançadas à luz a partir das cascas escuras que revestiam daquele tronco vencido, da canelinha covardemente amputada, e eu tinha de cortá-los quase toda semana para que não crescessem e se tornassem outra vez uma árvore forte e frondosa. Isso me constrangia e de certa forma me fazia sofrer. Era preciso que eu mesmo arrancasse aquele tronco ao nível do chão ou aceitasse assistir àqueles ciclos de persistência àqueles gestos de afirmação àqueles filhotes radiantes e vivos em busca do sol – e que os ceifasse enfim, impiedosamente.

As plantas sofrem? Não, eu é que sofria por minha conta. Projeções de um observador desorientado. Desce criança eu estranhava que se arrancassem as flores de onde estavam, de sua vida própria, para servirem a qualquer mimo que fosse, especialmente quando eram enfiadas de enfeite em jarrinhos de água para agradar a estatuetas de santos – a água prolongava a agonia, mantendo-as mortas-vivas por mais tempo, até que os santos e as santas ficassem contentes, ao que me parecia, que também são mortos-vivos e mortas-vivas atravessando as crenças. Eu imaginava que as namoradas deveriam rejeitar as flores que lhes ofertavam, ensinando a seus pretendentes que não era certo matar a vida. E propondo aos parceiros, quem sabe, que apenas visitassem algum lugar florido vivo compartilhado em seu tempo de estarem vivos também. Com o tempo, percebi que todos ririam de meus pensamentos bobos, caso os revelasse. E se tudo já era assim há tanto tempo, o que havia de mal em arrancar flores de suas vidas próprias? Logo elas iriam murchar e morrer mesmo – embora essa lógica perigosa pudesse também aplicar-se claramente a qualquer um de nós.

… tinha aprendido um refrão português que rimava as flores e sua sorte, lembrando que umas enfeitavam a vida, outras enfeitavam a morte. Coisas bonitinhas, que não alimentam. Nada me consolava de fato…

Eu não sofria pelas flores mortas, sendo sincero. Sabia que elas não eram como nós, não sentiam dores físicas ou frustração ou medo. Tudo o que eu considerava então eram apenas observações sobre o que suspeitava ser incoerente. E como todos compactuavam tranquilos com o que me parecia ao menos digno de algum questionamento, era mesmo esperado concluir-se que tudo estava certo assim como era, e que o desvio absurdo e delirante era o meu. Mas que tipo de questionamento pode ser visto como absurdo? E por que seriam minhas ingênuas inquietações pessoais mais ou menos importantes do que outras, manifestadas por pessoas adultas e letradas? De resto, eu não queria mesmo saber de arrancar flores.

O que entendi depois era que o Diego, constatando a profundidade e a complexidade da extensão das raízes da canelinha junto à quina do muro, vendo que não daria conta de cavar muito, ou por preguiça ou por preço arranjado, achou melhor parar o esforço todo por ali mesmo. Mas a Marjorie o ouvia e perdoava tudo nele. Da primeira vez que chamamos o Diego não chamamos o Diego; chamamos jardineiros para cortar galhos e podar plantas muito altas, contratados por telefone. Depois, fomos ficando com ele. Ele nos visitava uma vez por mês ou quando, após as temporadas de chuvas quase contínuas, algumas trepadeiras tornavam-se insuportáveis – insuportáveis mesmo, que não se aguentavam e caíam em parte ou em cachos, comprometendo o equilíbrio de outras plantas mais frágeis. Na época, propus que passássemos as visitas dele para uma vez a cada dois meses, por exemplo, mas a Marje reagiu. Não, pra quê? Não é tão caro assim, e o jardim fica conservado, esses ventos com sujeira, esses gravetos caindo o tempo todo… Ela fazia laranjada ou limonada para o Diego. Desdobrava-se em simpatias. Enfim, todos os significados me importam. Mesmo que as plantas não sofram.

E mesmo que essa terra seja nova, despejada aqui ao término da construção da casa, ou substituída depois, uma vez e outra, mesmo assim, mesmo que se renovem as superfícies, abaixo dela há mais terra e mais terra, e um escuro silêncio secreto reinando sobre os restos de todos os tempos. Restos que não existem mais, nem mesmo seriam restos. Mas foram. Meus olhos fixaram-se, nublados por essa conclusão simples. Com a mão encardida, acariciei a cabecinha a nuca o dorso liso de Coco Chanel. Fiquei com pena de saber que um dia ela teria de ser enterrada – mas curiosamente não sentia pena de mim, que naturalmente acabaria enterrado também. Parecia que toda a sua delicadeza, seus mínimos gestos, seu elegante movimento de cabeça ao observar um detalhe e outro ali perto, que tudo isso era sofisticado demais para se perder na podridão. Mas essa era a lição que chegava até mim por causa de todos os gatos que existiram. E Coco Chanel, como todos os gatos que existem, é a cópia variável de todos os gatos que existiram. Mexi no canteiro um pouco, parei, tornei a mexer. Revolvi um pouco de terra fresca úmida marrom-escura, e percebi que estava fazendo aquilo por nada, só por fazer. Um hábito, um gesto mecânico. Quanto da vida de todos, nesse mesmo momento, não passa de gestos mecânicos? Todos os gestos anteriores desapareceram. Todos os meus gestos anteriores, todos os gestos do mundo. No fundo da terra, restos de animais e vegetais e até minerais de algum tipo, sobrepondo-se e desaparecendo ao longo de muitos milhões de anos, quando esta mesma parte deste jardim desta casa desta cidade deste continente localizava-se em outra parte do planeta, enquanto se deslocava sobre uma profundidade de massas moles e absurdamente incandescentes. Um arrepio muito leve – talvez nem o tenha sentido de fato. Não sei. Soltei a pazinha. Com dois dedos tocando a aba, subi um pouco o boné sobre a testa. Ergui os olhos. Olhei à toa ao redor. Fiquei de pé, parado, braços soltos ao longo do corpo. Observei a grossa corrente de ferro pendendo de uma quina do telhado, junto à calha. Nenhuma oscilação. Estática firme sólida. Irmã da gravidade que a chama o tempo todo para baixo. Em dias de chuva forte ela parece viva, rugindo surdamente, fazendo a água contorcer-se por seu corpo escuro antes de despencar de vez. As gavinhas de uma trepadeira delicada chegam até ela, enroscam-se no trecho superior, entre os primeiros elos. Mas por que eu estava olhando essa corrente, que tanto servia de adorno como de condutora de águas? Lembro de como fiquei encantado ao vê-la pela primeira vez, nesse ponto da área externa. Esta casa onde moramos é de meu sogro, como já disse, esse militar aposentado, como já disse também, que é um poço, um poço de retidão e honestidade. Duvido que ele tenha alguma vez se encantado com isso, com essa corrente escura do jardim. Ou com outras coisas do tipo. Parei de olhar. Voltei-me para a modesta porção de terra que tentava modificar com a pequena pá, o que também estava desistindo de fazer. Sentei-me na mureta dos canteiros, tirei o boné. Apoiei os antebraços nos joelhos, deixei as mãos entrelaçadas frouxas caídas entre as pernas. Olhei para a árvore maior, um alfeneiro em sua plenitude. Virei o rosto, observei que Coco Chanel lambia com calma sua própria espádua, a lateral de seus ombrinhos delicados. Meu pensamento não continuava. Uns passarinhos cantavam distantes discretos e distraídos, como é normal a essa hora do dia. O que era esse peso invisível que parecia tocar meus ombros? Caminhando devagar, tentei encontrar algo mais claro ou mais sensato em minhas ideias soltas. Logo abaixo acumulavam-se pórticos e cacos de colunas, ossos de impérios inteiros, seus deuses e armas vencidos, e a cada passo eu os enterrava mais fundo ainda. O dia passava. Qualquer coisa que eu dissesse a mim mesmo não impediria o avanço das eras seguintes. Esta terra sobre a qual existo também estará em outra parte do mundo, carregada pelas placas subterrâneas gigantescas e imperiosas. Mas isso não importa. Não importa em que parte do mundo a gente esteja agora. Minha total inexistência futura não causará nenhum efeito sobre quem quer que passe por aqui em outro dia como este, assim como eu também não me importo com os guerreiros antigos que desapareceram. Tive a impressão de ter ficado um bom tempo olhando a brisa entre as folhagens sobre o fundo de nuvens. Lembrei do dia nublado em que surpreendi a Josie no ponto de ônibus. Pensei em muitas pessoas e no tempo que ainda restava a todos nós antes que chegassem outras estações, outro vasto verão apodrecendo os mortos, outro outono arrancando folhas a nossa pele, outro inverno suspenso entre os milênios, outra primavera de perfumes prenhes. Coco Chanel não estava mais ao meu lado. Eu a procurei com os olhos. Levantei-me, andei pouco mais à frente. Ali, entre os arbustos de bela-emília. Ela havia adormecido na relva. Isso foi em fevereiro.

Projeto esvanecendo-se

 21. A primeira tarde de areia e mel – anterior

23. As festas na Maga. Pequenos atrevimentos – sequência

 Guia de leitura

Imagem: José Antônio Turci. A escada de pedra (detalhe superior). 1998.

Uma resposta para “Projeto esvanecendo-se. O jardim do hoje”

  1. Raríssimas pessoas quando começam a pensar nas nossas origens e destino conseguem dar continuidade. Como você fez. A gente abandona logo . Pra não sofrer aquele arrepio. Escapamos da realidade.
    Então voltamos às ilusões com uma taça de vinho.
    Tim Tim.

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