Projeto esvanecendo-se. O jardim do hoje

O dia passava.
Qualquer coisa que eu dissesse a mim mesmo não impediria o avanço das eras seguintes.

jose-antonio-turci-escada-de-pedra-1Coco Chanel geralmente fica comigo quando vou mexer no jardim. Ela persegue insetos e lagartixas, que lhe escapam com facilidade. Ela não se importa muito, logo se esquece, desiste. Nesse dia, eu revolvia parte de um canteiro com uma velha pazinha esmaltada em laranja, de ponta enferrujada, pensava em começar ali um manjericão. Distraído, mesmo assim a engrenagem das associações girava em minha cabeça quieta. Mesmo que essa terra seja nova, despejada aqui ao término da construção da casa, ou substituída depois, uma vez e outra, mesmo assim, abaixo dela há mais terra e mais terra, e um escuro silêncio secreto reina sobre os restos de todos os tempos. Restos que não existem mais, nem mesmo são restos. Mas foram. Meus olhos pareciam nublados por essa conclusão simples. Com a mão encardida, acariciei a cabecinha a nuca o dorso liso de Coco Chanel. Fiquei com pena de saber que um dia ela teria de ser enterrada – mas curiosamente não sentia pena de mim, que naturalmente também acabaria enterrado. Parecia que toda a sua delicadeza, seus mínimos gestos, seu elegante movimento de cabeça ao observar um detalhe e outro ali por perto, que tudo isso era sofisticado demais para se perder na podridão. Mas essa era a lição que me chegava de todos os gatos que existiram. E Coco Chanel, como todos os gatos que existem, é a cópia variável de todos os gatos que existiram. Mexi na terra um pouco, parei, tornei a mexer. Revolvi um pouco de terra fresca úmida marrom-escura, e percebi que estava fazendo aquilo por nada, só por fazer, um hábito, um gesto mecânico. Todos os gestos anteriores desapareceram. Todos os meus gestos anteriores, todos os gestos do mundo. No fundo da terra, restos de animais e vegetais e até minerais de algum tipo, sobrepondo-se e desaparecendo ao longo de muitos milhões de anos, quando esta mesma parte deste jardim desta casa desta cidade deste continente localizava-se em outra parte do planeta, enquanto se movia sempre, sobre uma profundidade de massas moles e absurdamente incandescentes. Um arrepio muito leve – talvez eu nem o tenha sentido de fato. Não sei. Soltei a pazinha. Ergui os olhos, olhei à toa ao redor, observei a grossa corrente de ferro pendendo de uma quina do telhado, junto à calha. Nenhuma oscilação. Estática firme sólida. Irmã da gravidade que a chama o tempo todo para baixo. Em dias de chuva forte, ela parece viva, rugindo surdamente, fazendo a água contorcer-se por seu corpo escuro antes de despencar de vez. As gavinhas de uma trepadeira delicada chegam até ela, enroscam-se no trecho superior, entre os primeiros elos. Mas por que eu estava olhando essa corrente, que tanto servia de adorno como condutora de águas? Lembro de como fiquei encantado ao vê-la pela primeira vez, nesse ponto da área externa. Esta casa onde moramos é de meu sogro, esse militar aposentado que é um poço de retidão e honestidade. Duvido que ele tenha alguma vez se encantado com isso. Parei de olhar, voltei-me para a modesta porção de terra que tentava modificar com a pequena pá, o que também estava desistindo de fazer. Sentado na mureta de um dos canteiros, apoiei os antebraços nos joelhos, deixei as mãos entrelaçadas frouxas caídas entre as pernas. Olhei para a árvore maior, para o alto. Observei Coco Chanel lambendo com calma sua própria espádua, a lateral de seus ombrinhos delicados. Meu pensamento não continuava. Uns passarinhos cantavam distantes discretos e distraídos, como é normal nessa hora do dia. O que era esse peso invisível que parecia tocar meus ombros? Logo abaixo acumulavam-se pórticos e cacos de colunas, ossos de impérios inteiros, seus deuses e armas vencidos, e a cada passo eu os enterrava mais fundo ainda. O dia passava. Qualquer coisa que eu dissesse a mim mesmo não impediria o avanço das eras seguintes. Esta terra sobre a qual existo também estará em outra parte do mundo, carregada pelas placas subterrâneas gigantescas e imperiosas. Mas isso não importa. Não importa em que parte do mundo a gente esteja agora. Minha total inexistência futura não causará nenhum efeito sobre quem quer que esteja por aqui em outro dia como este, assim como eu também não me importo com os guerreiros antigos que desapareceram. Tive a impressão de ter ficado um bom tempo olhando a brisa entre as folhagens sobre o fundo de nuvens. Lembrei do dia nublado em que surpreendi a Josie no ponto de ônibus. Pensei em muitas pessoas e no tempo que ainda restava a todos nós antes que chegassem outras estações, outro vasto verão apodrecendo os mortos, outro outono arrancando folhas a nossa pele, outro inverno suspenso entre os milênios, outra primavera de perfumes prenhes. Coco Chanel não estava mais ao meu lado. Eu a procurei com os olhos. Levantei-me, andei à frente. Ali, entre os arbustos de bela-emília. Ela havia adormecido na relva.

Projeto esvanecendo-se

 21. A primeira tarde de areia e mel – anterior

23. As festas na Maga. Pequenos atrevimentos – sequência

 Guia de leitura

Imagem: José Antônio Turci. A escada de pedra (detalhe superior). 1998.

Uma resposta para “Projeto esvanecendo-se. O jardim do hoje”

  1. Raríssimas pessoas quando começam a pensar nas nossas origens e destino conseguem dar continuidade. Como você fez. A gente abandona logo . Pra não sofrer aquele arrepio. Escapamos da realidade.
    Então voltamos às ilusões com uma taça de vinho.
    Tim Tim.

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