Projeto esvanecendo-se. Casinha de gengibre e os ventos seguintes

O rodo lhe servia como um cajado, um cetro.
Deixou-se cair sentada, uma das mãos cobrindo o rosto enquanto chorava.

chelsea-james-tanque-2-2009-1Nos primeiros anos de casados não tínhamos empregada doméstica. Nos fins de semana, dividíamos alguma faxina e tarefas que pediam nossa semana seguinte. O apartamento era pequeno estreito contido, vivíamos apaixonados, e mesmo as dificuldades inevitáveis interpretavam-se mais leves, tudo era motivo de entusiasmo e bom consumo de nossas energias. Para se ter uma ideia, a pegada do sexo podia acontecer entre uma tarefa e outra, só por culpa da proximidade física – e isso, como bem sabemos os adultos, não é pouco, vamos admitir. Mas essa fase de casinha de broa de gengibre, como todas as que eu e a Marjorie vivemos, passou.

Um dia ouvi ruídos mais fortes vindos do banheiro, depois de a Marjorie ter entrado lá com balde bucha rodo sapólio sabão de coco e uns panos. Ela vinha da lavanderia, camiseta verde-clara com um nó lateral, shorts e havaianas, reclamando de umas manchas no ladrilho e em algum canto de parede. Umas pancadas. Um ritmo meio nervoso, agitado. Quase um vidro quebrado. Pact, bléim! Cheguei perto para ver. A Marjorie estava suada e um pouco suja, os cabelos presos em parte soltos desprendidos teimosos livres de uma ou outra presilha ou elástico, nem reparei direito. Então ela parou, encostou-se à parede, ainda apoiada no rodo, e foi descendo ao chão com uma careta de amargura. O rodo lhe servia como um cajado, um cetro. Deixou-se cair sentada, uma das mãos cobrindo o rosto enquanto chorava. Não era essa vida que eu queria pra mim. Não eeeera. Não era isso que eu queria pra miiiiim. Agachei a sua frente, tentei abraçá-la. Me larga! Marje… Me larga, vai. Vai! Que foi, que aconteceu? Me diz. Era melhor nem tocar nela. Apoiei a mão esquerda na parede, o outro braço solto sobre o joelho, fiquei agachado ali, olhando suas pernas com indiferença, só porque estavam próximas expostas propensas ao toque, e seus pés bonitos brancos molhados rígidos, nas havaianas tiras cor de vinho – a Marjorie tem um gosto especial com essas coisas. Agora era um choro de soluços, as duas mãos cobrindo o rosto. Marje, vem comigo… Me larva, já falei! Ela disse larva, estava engasgando com as palavras, coitada. Eu achei aquilo um pouco engraçado, e por sorte ela não me viu começando um sorriso de boca presa. Você disse larva, você quer que eu te lave? Não, claro que a Marjorie não queria nada disso, e meu bom humor imprevisto, fora de contexto, só piorava a situação.

Ela ficou sem falar comigo uns dias. Só o essencial, como dizem. Mas para mim isso significa só o superficial, que o essencial não é isso, não é isso de trocar informações básicas, fechou o lixo? vou chegar um pouco mais tarde, lembrou de abastecer o carro? tem que comprar pão de forma, fazer lanche hoje, a Coco Chanel, está acabando a ração dela, coisas avulsas e rotineiras por necessidade de comunicação. O essencial era que essa crise de choro imprevista da Marjorie, apoiada num rodo e declinando ao desânimo, fazia dela a primeira de nós a perceber que as coisas que as nossas coisas que as estações que os ciclos que os réveillons que os brindes que as festas na Maga que os ventos haviam mudado.

Projeto esvanecendo-se

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 Guia de leitura

Imagem: Chelsea James. Tanque 2. 2009.

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