Projeto esvanecendo-se. Dos primeiros dias inúteis

Não queria ressentimentos.
Não queria ficar assistindo a imagens do passado no cinetoscópio precário da memória.

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Já em janeiro, mal me adaptando à nova rotina ociosa e à margem dos chamados dias úteis, passei a observar com mais apuro o mundo ao redor. O mundo ao redor, nesse caso, eram as ruas próximas de casa. E também as menos próximas. Os limites de nosso bairro, o Parque Industrial, por onde eu caminhava e corria, querendo fazer sair de mim, com a rápida expulsão do ar pela boca e com o suor manchando a velha camiseta cinzenta, as toxinas de meus pensamentos mal formulados. Podia sentir meu corpo como há tempos não o experimentava. A exaustão me devolvia vida. O ar que entrava com força em meus pulmões passava a existir de verdade. De verdade, digo, porque ele está aí o tempo todo, esquecido, esperando ser inspirado por alguém, com a violência que faça dele uma entidade também viva.

Mas meu corpo não tem nenhuma função fora de si mesmo. Ele se energiza se fortifica se conserva para depois entregar-se, sem defesa, à própria destruição. A pessoa mais privilegiada do mundo ou a mais desafortunada, a princesa de Mônaco e o pedinte em Marrocos, são todos como eu, com seus corpos, e por isso, por essa mesma razão que a minha, não têm nenhuma chance de sobrevivência no futuro. Mas eu não queria carregar comigo esses pensamentos tóxicos traiçoeiros semitrágicos. Não queria carregar o que havia acontecido comigo recentemente. Nem o que havia acontecido comigo antigamente. Não queria ressentimentos. Não queria ficar assistindo a imagens do passado no cinetoscópio precário da memória. Queria correr, suar. Dar força a mim mesmo.

… eu existo hoje porque meus ancestrais morreram. A vida se sucede, é herdada repassada reciclada, mas os indivíduos deverão necessariamente desaparecer. Nascemos para ser órfãos e para deixar órfãos outros como nós, atravessando o tempo. Para Helena Cronin, por exemplo, somos arquivos autênticos dessa ancestralidade remota; nossos corpos e nossa inteligência, monumentos vivos dos raros sucessos daqueles que bravamente nos antecederam. Somos a prova de que eles conseguiram. Não, mas eu não acho que esteja raciocinando bem…

Essas folhas caíram de ontem para hoje. Secas e quebradiças, carpetes irregulares. Passo por elas, pisando-as. Chaf chaft chasft… O planeta girou um dia. Velhos agonizaram. Bebês morreram. Seu movimento suave esconde um monstro. Gira enquanto corro. Mas não conto a ninguém. Que se esqueçam de mim. Eu sou o monstro que eliminou a totalidade de teus ancestrais. Que distribui ossos delicados pelo mundo. O monstro aleatório ou cirúrgico que conduz multidões ruidosas ao silêncio. Você sabe, pela posição do sol, que está correndo em sentido anti-horário, correndo contra o tempo, sentido antimorte. Rosto e peito suados, corre intenso contra o giro enorme. Mais um dia a menos. Inspirando áspero o ar seco que o alimenta. Um giro implacável, um exército de bactérias invencíveis carregando os continentes, matando gente antiga e os filhotes de um dia. As fantasias místicas tentam deter-me, não podem. Eu sou aquele que não se rendeu, que não se renderá. Corre e pisa as folhas secas, velhas e novas, chaft chasft… Eu sou o monstro que trabalha à noite, sob a indiferença das estrelas. O monstro que desfolha as árvores. O assassino da Joss Stone.

Nossa casa fica na parte leste do bairro, onde as fábricas não entram. É que essa região foi formada ao acaso, um lote após o outro, delimitada por um córrego quase invisível, não mais que uma valeta seguindo ao longo das ilhas da última avenida. Os prédios comerciais se detêm pouco antes da rodovia que leva ao sul do estado, uma entre as vias que se cruzam nesse ponto. Outra, que nasce de uma bifurcação, leva à região oeste de Minas Gerais. Tudo isso envolvendo um confuso emaranhado de saídas e desvios, acima e abaixo de uns pontilhões e viadutos que custaram caríssimo à prefeitura, ao que disseram. Por muitas e muitas extensas quadras, quase inteiramente desenhadas por muros e cercas, estende-se uma sequência de construções, em maioria baixas: galpões estacionamentos estruturas de armazéns pátios antigos e novos, caracterizando a geografia das empresas que por aqui se instalaram desde uns cinquenta anos antes, quando essa parte da cidade nada mais era que a última porção urbanizada antes das várzeas nativas e dos campos cultivados – enfim, o limite da cidade. De certos pontos, avista-se ao longe uma barreira mais densa de árvores, diminuídas pela distância, interrompendo uma linha de colinas azuladas e suaves que sobem e descem como se eu as desenhasse com os olhos enquanto sigo sua vontade viva de viajar para longe e sobre as quais tenho vontade de fazer um carinho com a mão. Não sei ao certo que cidade é aquela. Ou que cidades. Pode ser uma entre duas ou três que se localizam por aqueles lados. Não me importo com essas informações definições precisões. Na verdade, eu desprezo tranquilamente esse tipo de coisa. Faço questão de não saber. Que nunca se instalem entre as coisas que-eu-mais tenho. Amo chegar a esse ponto do bairro, a essa altura do ultimo aclive irregular, e ver aquelas árvores escurecidas minúsculas delicadas e aquelas colinas deslizando até o limite em meu alcance de visão. A que município pertencem? Que linhas traçaram para delimitá-las? Não dou a mínima. As cidades não existem. Não são alguém, não são alguma coisa. São nomes, nomes inventados para identificar conjuntos de terras e todas as coisas que existem (sim, aí sim, as coisas que existem) nelas. Uma convenção idiota que provoca noções de responsabilidade e orgulho nos habitantes dessas terras-nomes. Além disso, essa bobagem toda só piora quando se pensa que alguns políticos locais… Não, não, eu sei: não estou raciocinando direito.

Dessa parte eu me lembro bem. Não imaginava, é claro, que um dia viria a morar aqui. Quando crianças, vínhamos aqui perto, eu e meus primos, trazidos por meu pai e por um tio, para empinar pipas e observar alevinos agitando-se em alguns pontos junto à margem do riacho de águas claras, meio escondido pelo capim alto, que hoje não existe, por ser subterrâneo, sob placas de concreto. Em outra fase da história particular desse ponto mínimo do planeta, nas proximidades de todas essas fábricas e distribuidoras, os namorados vinham de carro esconder-se dos pais e da sociedade entediante que fingia não saber desses condados obscuros onde se exercia anonimamente a liberdade.

O tempo passou, a cidade cresceu. E esses casais se tornaram seus pais, livres das desconfortáveis condições da clandestinidade. Alguns bairros emendaram-se uns com outros irregularmente, sem planos definidos, e se fundiram se fundaram se moldaram à paisagem própria do lugar, que não é a melhor sugestão que nos pode passar a palavra paisagem.

Projeto esvanecendo-se

22. A primeira tarde de areia e mel – sequência

20. Do que eu era – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Manhã de neblina no Parque Industrial. 2016.

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