Projeto esvanecendo-se. A primeira tarde de areia e mel

Seu sorriso de covinhas parecia radiante dessa vez.
Foi a primeira imagem que me afetou, o que primeiro me chamou a atenção, de olhos meus diretos em seu rosto.

Fui à casa da Joss Stone. Eu começava a ser feliz. Parecia, sim, que começava a ser feliz, como disse. Era uma expectativa, uma impressão. Não importa. No dilatado instante dessa impressão avulsa, eu me senti verdadeiramente legitimamente naturalmente um homem feliz. Preocupado também. Acho que nunca fui completamente feliz. Não bastassem os problemas que eu fingia não flutuarem por perto, ao meu redor e à minha sombra, talvez crescendo surdamente a cada dia, eu seguia por um caminho que quase colocava placas de alerta sob meu nariz. Não, eu não estava raciocinando muito bem. Isso de concordar comigo mesmo em merecer alguma felicidade não parecia marcar o compasso do que eu estava vivendo desde dois meses antes e só poderia piorar as coisas. Até mesmo piorar as coisas me parecia algo bom e necessário, como se isso fizesse surgir alguma resposta por obrigação, algum recurso inesperado e irrefreável, alguma solução catalisadora, nem de longe prevista até então.

Apertei o botãozinho azul, meio ovalado, do interfone protegido por uma grade frágil e sem pintura, calculada para ser de seu tamanho exato. Eu estava na calçada, nervoso indeciso ansioso, à frente de um portão estreito, esmalte marrom vencido, barras verticais meio descascadas, mais escuras em certos pontos, onde normalmente nossas mãos alcançam. Era a primeira entrada do condomínio. Um clique em seguida, fundo de ruídos rascantes longínquos, quase inaudíveis. Quem é? Oi, sou eu. Ah! Já vou abrir. Fiquei parado, quase envergonhado, mesmo que ninguém soubesse que eu estava li, a não ser três crianças que brincavam atrás de mim, do outro lado da rua, e um casal de idosos passando lentamente pela calçada, sem se incomodar com minha presença quieta. De onde eu estava, sob um telhadinho baixo, uma laje envelhecida que mal poderia proteger alguém de uma chuva fraca, medida para cobrir nada mais que essa entrada, e a estreita moldura de alvenaria que delimitava o portãozinho de grade, não era possível ver nada além de um trecho à frente, dando a uma parede encardida de cor bege, que era a cor da fachada toda. A entrada coberta para o prédio ficava à direita, fora do alcance da visão, e eu entendi que isso era interessante do ponto de vista da segurança. Mas não tinha certeza. Não havia câmeras, pelo que notei. Ninguém podia ver quem estava ali na frente, à espera. Podia ser perigoso do mesmo jeito. Ouvi uns passos, chegando perto, mas não era ela. Uma mulher alta, com um lenço na cabeça, bolsa a tiracolo, saindo. Destravou o portãozinho por dentro, plec!, eu me afastei um pouco, cordial e sem graça, ela passou por mim, trancou-o de novo. Cabeça baixa, olhou-me muito brevemente, sem sorrir. Boa tarde. Boa tarde. Esperei mais um pouco. Ouvi outros passos se aproximando, agora era ela. Oi. Seu sorriso de covinhas parecia radiante dessa vez. Foi a primeira imagem que me afetou, o que primeiro me chamou a atenção, de olhos meus diretos em seu rosto. Oi. Ela separou uma chave, errou, depois acertou enfiá-la em algum ponto que não se via pelo lado de fora. Plec… Plect! E eu entendi que todos tinham de destrancar esse tal portão por dentro, não havia outro tipo de controle que pudesse ser acionado a distância, sem sair dos apartamentos. Alguém tinha mesmo que descer, ir até a entrada, receber o visitante. Um lugar simples. Entra. Passei pelo portão aberto, estendi-lhe a mão direita, ela respondeu quase ao mesmo tempo, dando-me a sua. Tudo bem? Do mesmo jeito que a gerente do banco me cumprimentava. Por iniciativa dela, um costume automático, eu sei, trocamos um beijo rápido no rosto, quase sumido no ar. Entra, vem cá. Dá licença.

Fui andando ao lado dela, um mínimo atrasado, conservando firme minha fingida naturalidade. Ela carregava chaves, uma delas a do portão, sem dúvida, fazendo um fundo sonoro agitado mas singelo, um tilintar constante e quase cadenciado, enquanto entrávamos pelo primeiro corredor coberto, uma espécie de saguão estreito modesto retangular, aberto dos dois lados, iluminado pela oblíqua luz do dia, passando a impressão de que as lâmpadas do teto estivessem queimadas, e também enquanto subíamos, nós dois, os dois andares de escadas.

Aqueles pés, subindo pouco à frente, apoiados em calçados simples, supostamente rústicos, solado, duas tiras trançadas e um enfeite, revelavam-me uma fragilidade sólida, uma espontaneidade determinada, uma rusticidade delicada ou uma delicadeza rústica. No momento em que isso ocorria, enquanto avançávamos nos degraus, enquanto essa visão momentânea e duradoura fascinava e comprometia minha intelectualidade adestrada nas certezas e na busca pelas melhores palavras, eu reconhecia uma confluência de impressões que mais tarde entendi serem parte de tudo que a Josie significava para mim. E isso abalava meu mundo, no qual as coisas eram definidas de certa maneira, melhor dizendo, de maneira certa, sendo ou rústicas ou delicadas. Se o demônio está nos detalhes, isso mais uma vez se confirmava.

… certas memórias avulsas e despretensiosas nunca, nunca me deixaram. E são parte de uma coleção acidental de pequenos cristais que me motivam misteriosamente…

O demônio está nos detalhes. Aula de Semiótica. Eu tinha acabado de mostrar a cena de um filme em que a falsa estrela, caída do céu, se chamava Sirius. Pedia que os alunos associassem essas intromissões vocabulares com o tom da narrativa toda, lembrando que havia outros sinais de que tudo não passava de uma grande farsa. Vocês já ouviram isso de o demônio estar nos detalhes, eu sei. Agora, pensem nisso na prática. O divino também pode estar nos detalhes. Não na grandiloquência dos crepúsculos ou das sinfonias no auge da instrumentação. Não na opulência das grandes catedrais, mas talvez nos degraus em ruínas de uma trilha esquecida no bosque. Pensem nisso. Ruínas, uma trilha esquecida, degraus. O que será que deixamos passar em nossos caminhos de gente, em nossos processos civilizatórios, que pode ter nos afastado de coisas singelas, a que podemos chamar divinas, que pode ter nos afastado da beleza? Demônios, anjos e coisas divinas, isso tudo são elementos significativos, representativos, envolvendo personagens míticos, como um deus e seus antagonistas, e espaços imaginários, como Céu e Inferno, sem contar muitos outros, de outras culturas, diferentes da nossa. São elementos da literatura, da mitologia e, portanto, gerados por necessidades de nosso psiquismo. Nada disso existe fora de nossa imaginação, é claro. Vocês são adultos, sabem disso. Não, nem todos sabiam. A turma dos religiosos foi fazer uma reclamação à coordenadora do curso. Eu havia gerado um problema para ela. Um problema para todos eles. Um conflito filosófico-religioso-teológico-ridículo. Para minha sorte, isso não passou de um incidente sem maior importância. Ser antipatizado por alguns não muda muita coisa. A Maria Cláudia, coordenadora do curso de Arte, apenas me pediu que evitasse tocar nesses assuntos em sala de aula. Estes assuntos: significados e representatividade de elementos literários e mitológicos. Em uma aula de Semiótica.

Ainda lá fora, sob o sol, a Josie apertava os olhos enquanto me olhava de frente e sorria. Eu também fazia isso, embora ela é quem estivesse francamente contra a luz. Observei com gosto, com alguma alegria quase infantil, sua camiseta azul-clara larga solta e sem cintura, manchas intencionais na estampa, disfarçando magnificamente quaisquer relevos, sua bermuda jeans, que não chegava aos joelhos, seus chinelinhos de couro em forma de V, tirinhas trançadas à moda hippie, muito simples e mínimos, com um nozinho despontado em forma de flor no vértice dessas duas tiras, logo acima dos dedos, entre o primeiro e o segundo. Ela seguia ao meu lado nas escadas, mas um pouco a frente, atitude impensada de anfitriã orgulhosa, querendo apresentar o caminho, os lugares novos ao visitante. Faz tempo que você mora aqui? Quase dois anos. Conforme subíamos, deixando que ela mantivesse a vantagem de um ou dois passos sobre mim, eu ia admirando, dissimulado, suas pernas pouco menos que claras, levemente morenas, movimentando-se quase à altura de meu rosto, e seus pezinhos ativos, bem proporcionados. O som de seus chinelinhos na ardósia escura marcava meu arquivo de sensações não planejadas casuais acontecidas, com que minha memória costuma gratificar-se mais tarde. Mais um, já estamos chegando. A cada passo, eu vivia o encantamento do impossível, de uma realidade em andamento que pouco diferia de um sonho nítido, pelo tempo de umas horas de sol, de uma tarde alheia aos ofícios externos, um lapso de tempo em que meu coração se traía, por sorte em silêncio, absolutamente inescrutável, longe do alcance de quem quer que me conhecesse até então. A cada passo, acompanhando as pernas curtas da Josie, eu me orgulhava de minha pequena coragem. A ansiedade e a discrição que eu vinha ensaiando tinham que funcionar em equilíbrio. Talvez nós apenas conversássemos, e quem sabe eu poderia ajudá-la a encontrar algum trabalho. Nada mais. Talvez ela me seduzisse. Talvez ela não estivesse pensando em me seduzir, e apenas lhe seria interessante a amizade com alguém de outro meio, que pudesse lhe prover informações úteis, contatos, oportunidades. Eu, sempre exagerado e excessivo no plano de minhas associações imaginárias e memórias de livros, revia involuntariamente trechos de sagas e narrativas míticas, especialmente aquela em que a jovem conduzia o forasteiro perdido. “É ali o meu castelo. Venha, vou lhe dar abrigo. Está frio, e você pode se perder na floresta.”. O viajante percebe, depois, que a jovem está mudada, ela agora é uma feiticeira. Só que ele não sabe mesmo o caminho de volta. “É ali o meu castelo”, ela repete. “Venha, vou lhe dar abrigo. Veja, a noite caiu. Não há mais luz. E você não tem como voltar. Está frio, e você pode se perder na floresta. Venha. Você não sabe mais como voltar.”

Pobre Josie. Ela jamais passou perto de ser ou parecer uma feiticeira astuta e dissimulada. Aquilo tudo estava em mim. Minha imaginação agitada, meus exageros dramáticos, era tudo por minha conta. As imagens decorriam de eu ser como era, e talvez um dia eu não soubesse mesmo como voltar. Pobre Josie: do ponto de vista intelectual, uma menina inocente. (Que garota abençoada, diria um colega religioso.) Nem fazia ideia do que eu tinha em mente, de como eu ridicularizava a mim mesmo com aquelas encenações abstratas, tendo-a como personagem mítica, em uma espécie de continuidade paralela ao que de fato se realizava. Eu próprio me provocava com certas fantasias. E me encantava com as pernas dela, com o corpo jovem dela, promissor e propenso à unanimidade do gosto masculino. Era isso, em parte. Um pouco e tudo. Havia sim uma sensação nova, de estar sendo recebido acolhido auxiliado. A cada passo, eu subia mais e mais em minha excitação contida. E a cada passo eu assumia, quase conscientemente, os sinais mal definidos de uma anunciada sonora aromática irresistível decadência. Ela escolheu uma chave, destrancou a porta. É aqui. Entra.

Projeto esvanecendo-se

– sequência

17. Do que eu era – anterior

  Guia de leitura

Imagem: John  Singer Sargent. Escadaria em  Capri (detalhe inferior). 1878.