Projeto esvanecendo-se. As festas na Maga. Pequenos atrevimentos

Eu sabia que algumas garotas ali não aprovavam a ideia, mas não protestaram.
Afinal era uma festa. Nem sempre fazemos festas. Afinal éramos todos humanos. Afinal a vida exige momentos de descontração e de subversão entre os dias e as noites.

Perto da meia-noite, alguém sugeriu que uma das convidadas mostrasse os seios. Ela estava próxima ao bar, que fica um degrau acima do piso da área externa, como um palco estendido entre dois quiosques, pouco antes da primeira fileira de mesas plásticas ao longo da borda da piscina. A Mig era quem estava eventualmente no centro das atenções. Ela devia ter uns vinte, vinte e um anos, não mais do que isso. Ela é Miguelita Herrera Bim, filha de um proprietário de supermercados de bairro e de uma engenheira química, e eu não me lembro de uma dessas noites na casa da Maga em que ela não estivesse presente. Não mesmo. Desde que comecei a frequentar, com a Marjorie, essas festas combinadas ou improvisadas de sua amiga Maga, sempre vi a Mig entre nós. A Marjorie a tem em boa conta porque ela promete seguir os passos do pai nos negócios, enquanto cursa Administração de Empresas – não sabemos, claro, se ela cumprirá a promessa ou se mudará de ideia. E o pedido seguia valendo. E a Mig ali, hesitante sorridente vaidosa, repetindo nãos enquanto se divertia com o tom de súplica de um rapaz que eu não conhecia, que parecia ter vindo com a Rafaela Brittes e uma de suas primas, não sei, eu não sabia, não tinha certeza. Mostra pra gente, vai, faz esse carinho. A Mig o afastava com um tapinha à toa. Não, Fred, que isso, tá louco? Outros engrossaram o coro e passaram a incentivar a brincadeira. Ao fundo, Lou Bega cantava seu “Mambo n. 5”. A essa hora da noite, soprava um ventinho gostoso e vivo, vindo dos descampados próximos ao condomínio. Vai, mostra rapidinho, vamos ver, que que custa, que que tem de mais? A Mig levou a mão à testa, cobrindo o rosto enquanto sorria. Gente, não. Tô com vergonha. Preciso de mais um drinque. Drinque, no caso, claramente um eufemismo – ela parecia ter tomado umas boas batidas de frutas bem a seu gosto. A Rose Levy deu-lhe um copo alto de vodca gelada, fatia de limão presa à borda. A Mig então tomou meio copo de uma vez, engasgando enquanto ria. Mesmo assim, indecisa teatral maliciosa, ameaçava a todos com a desistência e a frustração. O Gilberto Roma, marido da Verônica Braga, que estava ali, a meio passo de mim, acima do peso, caminhando para a calvície, mãos grossas prontas a aplaudir, convocou-me à ação. Fala alguma coisa, Pepo. Você é bom nisso. Fala. Eu sorri, toquei o braço dele em sinal de que prestasse atenção ao que eu diria em seguida. Vamos lá, Mig. Você sabe que é bonita. E está entre amigos. Isso dá um tom a nossa festa. E muitos pontos pra você. Homens e mulheres riram. Apoiaram arremedaram aplaudiram, sem tirar os olhos de cima dela. A Queen, num vão entre uma e outra pessoa, olhava-me especialmente. Séria ou apenas curiosa, não sei. (Uma observação: a Marje não comentou nada sobre isso, em nenhum momento. Eu nem sabia onde ela estava quando isso aconteceu – isso, eu digo, a minha fala incentivadora. O resto ela viu. Nem uma palavra. Mesmo. Nem na viagem de volta. Nem quando apaguei a última luz, em nosso quarto, ao fim de tudo. Nada.) Como parte de uma esperada encenação, a Mig tornou a cobrir a testa com uma das mãos enquanto com a outra fazia descer delicadamente pelo braço a alça esquerda de sua blusinha cor de vinho. Um murmúrio quase infantil de admiração e felicidade ocupou o espaço ali, partindo de diversos pontos, vozes masculinas e femininas, atravessando-nos a todos com um entusiasmo alternado entre uma ansiosa perspectiva de silêncio e um possível clamor de glória. Eu sabia que algumas garotas ali não aprovavam a ideia, mas não protestaram. Afinal era uma festa. Nem sempre fazemos festas. Afinal éramos todos humanos. Afinal a vida exige momentos de descontração e de subversão entre os dias e as noites. Afinal, não era algo tão absurdo assim. Era só uma brincadeira sensual, um capricho de momento. Afinal… não era nada. A Mig fez um charme de um instante e pôs à mostra um de seus peitinhos, um peitinho de agradável proporção, jovem e pronto, ligeiramente voltado para o lado externo do torso, aréola pequena castanho-clara coroando a forma macia que ela sustentava com a mão colada ao corpo, como apontando seu lindo seio, à prova de críticas, em nossa direção. Lou Bega cantava: … a little bit of Rita is all I need, a little bit of Tina is what I see… Fez um sinal para a Rose, pegou de volta a vodca, girou um dedo no líquido gelado e tocou-se no mamilo, arrepiando-se do próprio susto e provavelmente fazendo-o eriçado instantaneamente, o que eu não podia ver de onde estava. Risos e aplausos esparsos dirigidos à estrela do momento, que parecia nos dominar com seu feitiço enquanto a voz do cantor, sobrepondo-se às nossas, lembrava: you can’t run, you can’t hide, you and me gonna touch the sky. Isso não se estendeu por um minuto inteiro. A Mig subiu a blusa, guardou o seio.

Desde então, a festa parecia outra. Nossa memória dessa noite era outra. Nosso tempo cronológico não podia mais vencer o efeito desse capricho, desse encantamento, dessa magia simples. A Mig nunca mais foi a mesma para nós. Ela nos brindou com a libertação. Como eu previra, isso contou pontos para ela: todos passaram a simpatizar mais com ela, principalmente nós homens, tocados por um inconfessável sentimento de gratidão. Eu via esse gesto de ousadia malícia música e álcool como uma superação das culturas repressivas, um fator de redenção do que jazia estancado em nós mesmos, em nosso invisível ressentimento, uma conquista de todos. A estrela nascida do instante etílico, inspiradora de ansiedade e risos, realizando nossa reintegração à condição legítima de nossos hormônios. O momento de fazermos as pazes com o melhor de nossa natureza. A fêmea representativa, a musa da vez. A renovação dos votos de todos com nosso próprio senso de liberdade, com nossos caprichos sublimados, com nossa permissividade contida, com nossa inocência.

Projeto esvanecendo-se

 25. Quando nós ainda… – sequência

23. O jardim do hoje – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Fabián Perez. Sabá com copo de vinho tinto

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