A conspiração dos felizes. Adicional

A conspiração dos felizes (1989) surgiu de um impulso irresistível e pretendia ser apenas um conto. Surgiu a partir de um sonho que tive, daquela categoria de sonhos muito vívidos e nítidos, que na prática não transcorrem para além de alguns segundos quando recordados.

Como sucedeu a Rimbaud em relação a sua obra poética, o texto tinha a função de uma catarse devastadora. Anos depois, eu me dei conta disso e estive muito perto de destruí-lo, mas decidi que não deveria envergonhar-me disso, ao contrário, o texto agora me servia como uma espécie de lição sobre mim mesmo e podia ser visto sob outra óptica, pois contém inúmeras implicações de caráter inconsciente. O personagem-narrador é um rapaz frustrado e vingativo. Lembro-me de que certos trechos foram redigidos sob influência de uma forte carga emocional, sendo alguns entrevistos em sonhos (agora derivados deles), tal a intensidade e a frequência com que me entretinha com eles. A partir daí, passei a ampliar e aperfeiçoar o texto. Inicialmente desprovido de apuro técnico, era desenvolvido sob a tirania de certos impulsos e tinha em torno de quarenta páginas. Eu tentava também, confusamente, denunciar o nepotismo.

O subtítulo (“e outras histórias de febre e esperança”) refere-se às quatro narrativas que se seguem à principal, sobre uma premeditada vingança por motivos aparentemente absurdos, envolvendo a disparidade entre as classes sociais.

 

Renata era o nome de Vanessa na primeira versão – porque ressurge na vida do narrador-personagem, renasce. A opção por Vanessa tem a mesma razão pela qual foi escolhido o nome Vanda, de Os últimos dias de agosto, a de sugerir uma pessoa vã. Hesitei em repetir a ideia, mas não encontrei nada melhor pra o que pretendia.

Talvez o conto “Ana”, escrito no mesmo ano, enquanto trabalhava os rascunhos de A conspiração…, tivesse o efeito de uma compensação, que trata do amor sensual e compartilhado, em contraposição às intenções de vingança que derivam ao sadismo no caso do outro.

Comentar