Dobal – O mundo revivido

Samuel Beckett declarava que a vida de um escritor não é importante, não tem nada de extraordinário, e o que conta é a sua obra. Até hoje tenho concordado com essa ideia. E isso apenas se reforça quando leio certos autores que conseguem tornar suas impressões da vida textos literários de atraente qualidade. Muitas vezes o que está contido na narrativa poética não é mesmo incomum, não tem mesmo nada de extraordinário, e o que se espera e o que se preserva é o resultado desse trabalho de palavras, isso tudo confirmando a opinião do grande artista irlandês. Alguns poetas conseguem, em uma única peça literária, impressionar-nos com sua estética, sua concisão, sua dramaticidade e, ao mesmo tempo, com a neutralidade técnica necessária para lidar com elementos que deflagram emoções e comoções profundas, principalmente quando envolvem diretamente, pessoalmente, o autor. Segue, como amostra, um belo soneto de H. Dobal (Hindemburgo Dobal Teixeira), poeta piauiense que integrava o chamado Movimento Meridiano, grupo literário que reunia diversos autores da linhagem modernista. Uma obra-prima, na medida certa entre o clamor e o silêncio.

Sobre esta casa e as árvores que o tempo
esqueceu de levar. Sobre o curral
de pedra e paz e de outras vacas tristes
chorando a lua e a noite sem bezerros.
Sobre a parede larga deste açude
onde outras cobras verdes se arrastavam,
e pondo o sol nos seus olhos parados
iam colhendo sua safra de sapos.
Sob as constelações do sul que a noite
armava e desarmava: as Três Marias,
o Cruzeiro distante e o Sete-Estrelo.
Sobre este mundo revivido em vão,
a lembrança de primos, de cavalos,
de silêncio perdido para sempre.

H. DobalO mundo revivido.

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