Projeto esvanecendo-se. Quase todo um reino adormecido

Quando a carcaça do peixe bateu à praia era só uma curiosidade para os turistas, enquanto todos os heróis invisíveis do mundo somam um caldo espesso no ar, resistindo ao sufocamento.

O corpo agora relaxado reconfortado, na penumbra da tarde mansa, nu sob meios lençóis, silêncio agradável de crianças distantes, vozes inocentes alegres, aqui os olhos fechados, respiração suave, quase um felino adormecido, quase todo um reino adormecido, mas há uma faixa ainda uma frequência uma ansiedade que se extingue desacelerada pela ação do tempo que não existe mais, então lentamente, lentamente, eu acho, o poema que iria declamar no evento da escola e que se esqueceu de levar, para decepção e ressentimento da professora que esse menino representa, lentamente talvez, esse menino, esse poema tímido seria a única coisa de que poderia se orgulhar e com a qual poderia conseguir, entre os muitos de seu grupo, algum afeto em troca, mas é que ele era esquecido e entendia errado, sim, muitas coisas ele entendeu errado, e isso mil vezes o fez sofrer e humilhar-se, lentamente, eu dizia, a trilha de terra esburacada mal cuidada percorrida de bicicleta quase diariamente porque, não importa o que dizem, é uma trilha querida, atraente por si mesma, em toda a sua irregularidade, escolhida por ele com base em seus próprios critérios de beleza e solidão, lentamente também, páginas lentamente folheadas, era isso também, os gibis que não podia comprar porque não tinha dinheiro, o pai endividado, ninguém diz o que todos sabem, e o que conta é que não lhe sobram moedas para essas aventuras literárias inúteis, lentamente eu posso, não, eu não posso, não era bom nos esportes, em nenhum deles, não tinha como ser bom nos esportes, e ficava por último ficava para trás ficava na lanterna, não era querido, é claro, tolerado quando muito, auxiliado por algum colega generoso, mínimo traço de piedade, e quando a desastrosa jogada ganhava corpo, sempre ouvia de alguém: desgraçado, por que você não morre?, lentamente se quebrou, que era vidro e se quebrou, chamado de caolho por causa de seus óculos de aros escuros, miopia progressiva, suficiente para servir de alvo, quando o cercam e lhe quebram os óculos e o obrigam a voltá-los ao rosto, aros retendo uns últimos cristais destroçados, aproveitam para renovar um escárnio sem reservas, dizendo-lhe que não enxerga porque não quer, toma, vai assim pra casa, pode ser psicológico, gargalhadas agressivas, ele retendo, entre um dia e outro, retendo lentamente, lentamente o que lhe custa dizer, não sabem que estão diante de um herói, um herói silencioso que vale sim a virtude de um herói manifesto, só por não ter procurado a morte em meio a essa agitação sem sentido que parece ter sido sua longa enorme vida, lentamente a música, parece que lentamente, copos de cuba-libre, a garota de quinze anos como ele, a graça que lhe inspira uma grande paixão, quase toda a festa conversando sem rumo para que outro a levasse a dançar e a beijasse tão facilmente tão rapidamente tão intensamente, lentamente vamos embora daqui, vamos embora desse lugar, para sempre, lentamente o que seria então, o aniversário de dezoito anos, o pai não percebe que era ali um rapaz, tão ingênuo como aos quinze, é verdade, mas agora já lhe cresce a barba, uns poucos amigos solidários comparecem, para que o mínimo parecido com uma festa aconteça, talvez não viesse ninguém, foi por pouco essa, mas tiveram música bebida piadas, e tudo acabou cedo, não havia motivo para mais, despedindo-se do último convidado lá fora, alguém pede ajuda aos vizinhos, uma idosa passando mal, na verdade está morrendo, precisam levá-la até o carro, o amigo participa, e eles carregam essa senhora agonizante, que geme e ronca, transportam o corpo pesado mole malcheiroso, e enfim tudo termina, você se despede desse bom amigo, agradece constrangido e sincero, agradece o quanto pode, por um instante pensa em lhe pedir perdão, perdão por tudo, perdão por ser assim, por sua festinha medíocre, pelo incômodo da morte, agora que tem dezoito anos completos não deve contar aos outros como chorou no escuro ao fim da noite, lentamente a trama se desenvolve e o cerca, a porta de vidro da universidade, um último ato de coragem antes que tudo desmorone em silêncio outra vez, que é vidro e se quebra, pensa que vão quebrá-lo também, não sabem que estão diante de um herói, você tem direitos, a Adelaide, mas não, mas eu, eu não vou fazer nada disso, chegou o tempo de não se render, quando a carcaça do peixe bateu à praia era só uma curiosidade para os turistas, enquanto todos os heróis invisíveis do mundo somam um caldo espesso no ar, resistindo ao sufocamento, hoje nu sob meios lençóis, na penumbra da tarde mansa, o corpo relaxado reconfortado, sem abrir os olhos, melhor assim. Imerso em si mesmo. Algo entre a redenção e o alívio sobre as coisas que não existem mais. E porque o tempo dispersará tudo de qualquer maneira. Melhor assim. E tudo deixará de existir um dia. Olhos fechados. Melhor assim. Sente a presença dela, próxima: movimentos cuidadosos a não incomodá-lo, a não despertá-lo, pensa que está dormindo, inerte. Ele a chama a mais perto, sem abrir os olhos, um toque frágil da mão. Fica assim comigo… – a Josie se aproxima, toca-lhe a testa com os lábios, deixa um beijo suave sobre uma pálpebra, breve de um instante sobre sua boca… – enquanto eu descanso um pouco.

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Guia de leitura

Imagem: Ludwig Sander. Verdes. (detalhe superior). 1970.

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