Projeto esvanecendo-se. O que ela faz durante o dia?

Nossa civilização não está pronta para isso.
E minha ociosidade não pode converter-se em frivolidade, algo assim sem rumo, não pode declinar à rendição.

O que ela faz durante o dia? Não pode ser que fique à toa na maior parte do tempo e em sua restrita dimensão de espaço, esperando que eu me prontifique a vê-la. Não existem dessas graças assim disponíveis, à mão de um oportunista hesitante que nem mesmo a sustenta. Não na vida real. Eu não me perguntava isso antes, porque não tinha nada a ver com a sua vida. Mas agora tenho. Então, o que ela faz durante o dia? Versão Josie: currículos em consultórios médicos dentários clínicas e similares, quer ser mais ou menos o que era antes, atendente secretária assistente meio telefonista meio sorrisos de covinhas, a sorte daqueles que a encontram e se alegram com seu rostinho de frente. Sabe atender sabe agradar sabe cobrar, débito ou crédito, via do cliente, agenda com fitinha azul, como não? Não. Não pode ser só isso. Entregar currículos? O dia todo? Todos os dias? Essa menina tem um currículo? Certificado do ensino médio, talvez. Ou nem tanto, será que ela terminou o curso? Mas pode ser que sim, já que ela pensa em fazer faculdade, é estranho… – lembrar de perguntar-lhe isso.

Por causa da solidão e da privacidade, será que ela anda nua pela casa? Ou seminua, que seja. Que diferença isso faz, se não estou lá para ver? Não importa. A curiosidade nos levou às estrelas. E minha curiosidade particular, com variações de voyeur adolescente, é apenas uma amostra sem futuro de tantas conquistas maravilhosas. A Josie seminua, melhor que nua. Fascínio de preliminares. Melhor que nua, sim, é o que sinto, o que penso. Vestida a cada novo encontro, quando me espera. Uma conquista maravilhosa. Acidental. Aconteceu de ser. Ela não fazia parte das metas. Não faz ainda hoje. E isso me encanta e gratifica justamente. O acidente o acaso a oportunidade me atraem. A intromissão na ordem esperada das coisas. Enquanto eu, o velho bom menino, aceito e obedeço, contido e conduzido pelo conjunto de decisões alheias, desde a voz mais próxima até as emanações quase abstratas de poderes inacessíveis, eu quase sucumbindo a um conformismo absoluto, acontece algo que desorienta os organizadores do mundo, que os surpreende, e, guardado em segredo, continuará desorientando ainda suas linhas traçadas nas tábuas nos códices nas pedras, desrespeitando suas projeções desafiando sua supervisão ameaçando sua ilusão episcopal de controle – sem que eles saibam! Que são as ações motivadas por fortelatentes sinais de vitalidade. Alheias às agendas. Golpeando seus projetos de construção social com a natureza provisória das situações improváveis que ocorrem entre os dias devidamente numerados, como os bemóis e os sustenidos cravam-se entre as teclas brancas e sua sequência lógica. Em minha imaginação de hormônios inquietos, auxiliares de minha desonra, a Josie passeia despretensiosa pela casa. Passa de uma divisão a outra, distraída. Em minhas noites brancas ela se move naturalmente à luz do dia em seu alvéolo, simples e silenciosa, com sua calcinha preta.

A Josie deve se sentir sozinha. Por muito tempo do dia. É assim quando estamos fora de alguma coisa do mundo. E… que mais? Ontem eu fui com a Quiel no centro. Ver umas coisas com ela, bater perna, comprar. Ver lojas, na Barão. Umas roupas. Coisas de maquiagem, de mulher. Só isso? Mas não todos os dias, suponho, e o dinheiro dela não vai durar sempre. Você quer ir comigo, lindo, vamos um dia lá no centro, nós dois, vamos, passear um pouco? Ah, eu ia amar você comigo, vendo lojas… Sim, eu sei que é espontâneo da parte dela, sei sim, pelo jeito falar, esse improviso, a entonação de voz, é algo de agora, não planejado, num instante ela me viu ao seu lado, centro da cidade, vagando ante as vitrines de umas ruas de vidro. Comprar-lhe um presente talvez. Comprar-lhe coisas, de vez em quando, pense nisso. Não. Não. Definitivamente não. Diga isso a ela, educadamente. Diga que não será seu companheiro de passeios de mulher. Mas calma, tenha paciência. Ela está sendo espontânea, só isso, não merece respostas bruscas. Imagine-se a cena, eu e a Josie, juntos por aí. Mãos dadas, quem sabe. Braços dados, à moda antiga. Não posso (versão real: não quero), de jeito nenhum. Não podemos. Nossa civilização não está pronta para isso. E minha ociosidade não pode converter-se em frivolidade, algo assim sem rumo, não pode declinar à rendição. Ainda estou inteiro, com tudo que fortemente penso.

Projeto esvanecendo-se

– sequência

27. Sonho com Josie na galeria – anterior

Guia de leitura

Imagem: Pintura de Scott Harding.

Projeto esvanecendo-se. Sonho com Josie na galeria

Ela não reage. Seu rosto parece sem cor. Talvez esteja morta.
Talvez seja apenas uma impressão, devida ao excesso de luz ambiente.

O sonho, Juan. Sentada ao meu colo, ela me beija fortemente, ao que correspondo com igual vontade, deliciado com esse privilégio. Estamos sobre uma mureta larga, de superfície lisa, pedra imitando mármore com manchas claras, em meio a uma galeria de lojas ou algum outro tipo de núcleo comercial de estética fria, mas limpa. Pessoas passam calmamente por nós, interessadas em outras mil coisas, e tudo indica que elas nos veem, não percebem nossa presença. Também sentado na mureta, a dois braços de distância, um homem grisalho, discreto e silencioso, nos observa e aos nossos beijos incontroláveis, porém com mínima curiosidade, alternando o foco de seu olhar entre nosso momento mágico e outra coisa qualquer ao redor, como se tudo fizesse parte de um mesmo contexto sem surpresas, declinando à neutralidade. Entre um beijo e outro, entre mechas soltas dos cabelos dela, que me obstruem a visão, identifico por um ou outro instante o teto muito alto e iluminado desse lugar, talvez todo estruturado em vidro, quase uma película nos separando a todos do céu claro logo acima. Deve ser um dia lindo, penso. Os cabelos dela têm a cor da areia, com mechas escuras irregulares, como se estivessem sujos. Algo me chama a atenção nessa coincidência de tons: as manchas na pedra lisa da mureta, a luminosidade, as manchas nos cabelos dela, algo alternando imagens limpas e sujas, claros e menos claros – mas nunca escuros. Ela tem as pernas bem delineadas sob a pressão da calça justa, camisa um pouco aberta no peito, seios no sutiã, cabelos despenteados por todos os movimentos que nos controlam, mais do que nós a eles. Em algum momento, vejo suas mãos bonitas, uns anéis pequenos mas encantadores, com detalhes coloridos. Também em algum momento, vejo seus pés, tão belos quanto suas mãos, em algum tipo de sandália baixa, com brilhantes. Então eu afasto seu rosto, subitamente preocupado com a situação, que só agora me incomoda, despertando-me uma preocupante ansiedade. Observo sua boca ainda úmida, refletindo o brilho desse ambiente amplo e iluminado. O homem grisalho ao nosso lado torna a nos inspecionar, rosto impassível, nenhum ar de crítica, apenas nos percebe ali, depois volta-se para umas vitrines ali perto, em frente a nós. Digo a ela palavras parecidas com estas: Ei, espere. Espere um pouco, escute… Nós estamos em público. Num lugar público. Está ouvindo? Essas pessoas todas, olhe. Veja você mesma. Ela não move a cabeça, apenas espera. É como se algo a imobilizasse. Continua de olhos baixos. Inerte. Só consigo ver suas pálpebras. Fico em dúvida se ela também está olhando minha boca ou algo à altura do meu peito ou, enfim, se está morta – o que, curiosamente e sem nenhum espanto, me parece o mais provável. O homem grisalho ergue um braço, apontando algo na vitrine à frente. Aqueles são os relógios!, com algum sinal de entusiasmo. Eu o considero, intrigado, olho para a vitrine que me aponta, mas não consigo identificar nada ali. Volto-me para ela, a garota agora quieta junto a mim. Veja, você mesma, essas pessoas todas. Está vendo? Ela não reage. Seu rosto parece sem cor. Talvez esteja morta. Talvez seja apenas uma impressão, devida ao excesso de luz ambiente. Nós estamos em público. Ouviu? Finalmente ela move a cabeça, concordando. Ainda sem olhos. Rosto voltado para baixo. Pálpebras de uma morta. Uma jovem morta. Mas eu continuo falando a ela. Me procure. Vamos sair juntos. Outro lugar. Um horário qualquer. Agora ela está de perfil, ainda sentada sobre minhas pernas, braços ao redor de meu pescoço, cabelos presos num rabo de cavalo – mas não entendo como, em que lapso de tempo, ela fez isso, prender os cabelos, se um instante atrás estava morta e com os cabelos soltos. Com o rosto de lado, como se avistasse algo a distância, no vértice das galerias, sem olhar para mim, finalmente escuto sua resposta. Não. É imprudente. É arrogante. O quê? Arrogante? Sim. Você acha que eu estou a sua disposição. Mas daqui a pouco não serei mais nada. E você nunca mais vai me ver. As chances se extinguem, não entende? Se extinguem para sempre.

Meus sonhos intrigam o doutor Stabile. É que eu não conto a ele mais do que isso, ficam faltando peças ao quebra-cabeça. Ele talvez desconfie, experiente, que essa garota se repete em algumas de minhas maravilhosas produções involuntárias em meio ao sono, interrupção inevitável da vigília. As peças que faltam, que sempre faltarão, é a Josie. Sobre quem ninguém, absolutamente ninguém, ninguém mesmo, pode saber.

Projeto esvanecendo-se

28. O que ela faz durante o dia? – sequência

26. O anjo de ficar – anterior

Guia de leitura

Imagem: Pablo Picasso. O guitarrista (detalhe). 1910.

Sonho 3588. Prokofiev à porta

Entenda, eu estava exausto.
Era um momento de minha vida em que as coisas estavam perdendo todo o significado.

O sonho é bem simples, Juan. Parece ser. Não sei. Uma conversa tranquila, sob as árvores lá da frente. Frente de casa. Prokofiev ali, ao portão. Calvo óculos olhos claros. Então, é aqui que você mora? Ele me entrega uma pasta fina, papéis dentro, vejo que são partituras amareladas mal arranjadas, margens escapando do retângulo verde-escuro que é a pasta. Eu lhe trouxe um último concerto. Um último concerto? Como? Não compreendo. Isso me fazia culpado, repentinamente. Culpado, constrangido. Olha, Sergei Senhor Prokofiev, é, foi assim mesmo que eu disse, coisa de sonho. Sou um grande admirador do seu trabalho, de seu trabalho magnífico intenso emocionante. Para o senhor ter uma ideia, a única coisa de que eu me arrependo em toda a minha vida foi daquela vez em que dormi durante um de seus concertos, particularmente o Número 2, para piano. É o mais lindo. O que mais me fascina. E eu adormeci. Eu estou em falta com muitas pessoas, com muitas coisas, comigo mesmo até, nem sei mais com que e com quem mais. Na verdade, eu cochilei apenas, sem defesa. Dois ou três minutos, quando muito. Sem defesa. Mas eu estava exausto, entenda. Entenda, eu estava exausto. Era um momento de minha vida em que as coisas estavam perdendo todo o significado. Em que eu não conseguia mais ver as coisas que eu-mais-tinha. E a sua música ainda era o que de melhor e mais humano eu podia identificar. Um último sinal de vida nas trevas. Quando eu era adolescente, sabe, sonhei que os Beatles é que tinham ido até minha casa. Mas eu cresci. E hoje é o senhor quem está aqui, comovendo-me sem saber, intenso. Prokofiev entrega-me a pasta, tranquilo neutro genial. Tome, fique com esse último concerto.

Leia mais sonhos: Sonho 1204 A estação orbital

Imagem: Sergei Prokofiev (1891-1953).

Projeto esvanecendo-se. Maga

Os boatos sobre um possível amante da Maga eram, no meu modo de ver, parte da necessidade da maioria das pessoas por não admitirem que alguém ficasse sozinho por muito tempo.

A Maga era Magali Lyngstad da Silveira. Descendente de família nórdica por parte de mãe, herdara dela uns olhos cinzentos, por vezes azuis esmaecidos esgazeados, outras vezes variando a imitar levemente algum lilás difuso, fazendo-se, como resultado da luz incidente, dois círculos vivos de ametista – olhos de uma bruxa enrustida. Mas não, ela não era nada disso, é claro. Nem gostava desses misticismos avulsos. Não se importava nada com superstições e pseudomistérios, pelo que ouvíamos dela. No que eu acredito? Sei lá. Não dava a mínima, e ria. Corpulenta robusta consistente. Também um pouco acima do peso, como dizem – por minha conta, sempre achei algo tola essa expressão, acima do peso: acima de que peso? Seja como for, ela estava acima do peso, sempre. Mas pouco, entenda-se, pouco porque era principalmente robusta, como disse. Sim, e bem-proporcionada sólida roliça, por inteiro, das mãos até os pés, desafiando os simplistas que a definiam de maneira eufemística ou equivocada como gordinha. A Maga não era gorda, de maneira alguma. Eventualmente, como todos nós, claro que podia estar, em uma fase ou outra, acima do peso – de novo essa expressão patética, agora já foi, deixe estar.

A impressão que a Maga me passava, eu dizia, estava longe de se preocupar com uma coisa dessas. Sua feminilidade me parecia intensa. Ela realmente me atraía, assim como era – e justamente por ser assim, como era. Para mim, uma mulher forte. Em todos os sentidos. Pele clara que se podia adivinhar sardenta na adolescência. E o formato das pálpebras escandinavas que se estreitavam nas laterais superiores, algo oblíquas, como se apenas uma parte das órbitas pudesse ser inteiramente visível, parecia emprestar-lhe uns olhos austeros enigmáticos traiçoeiros, que ao mesmo tempo eram os primeiros sinais de vida quando se mostravam entre sorrisos de dentes pequenos e sutilmente amarelados. Uma mulher bonita, sem dúvida. Havia também algo curioso: o conjunto de seus olhos e sobrancelhas fazia parecer que estivesse sempre zangada – tais eram as impressões de quem a encontrasse pela primeira vez, de quem a conhecesse apenas fisicamente, antes de trocar uma palavra com ela. E quem visse sua foto em um documento, rosto sério ou neutro, não poderia desenvolver delinear desenhar para si mesmo a mulher fascinante magnética rara que ela era. Sua boca, de sorriso fácil (mas que também se desfazia logo) reorganizava e equilibrava essas impressões equivocadas, porque, mesmo sem sorrir, sua boca, eu dizia, parecia disposta a florescer, aguardando um instante, apenas, para dilatar-se. O câncer que a Maga escondeu de todos e que abreviava progressivamente seu tempo de humana atingiu como uma descarga de alta voltagem a rotina acostumada, de tensão mais ou menos prevista, que compartilhávamos cegamente os vivos. Porque ninguém sabia. Porque ninguém esperava. Um período mais longo sem sinal das festas, um hiato estendido entre nossos encontros noturnos, e alguns de nós comentando que ela não estava bem, ouvi dizer que ela não está bem, parece que ela está com algum problema de saúde, não sei, alguém conseguiu falar com ela? Sua morte teve o impacto do fim de uma era para a Marjorie e para algumas outras suas amigas tempos de escola, que ainda se reencontravam entre si e com a Maga nesses eventos avulsos, essas festas sem nome em sua grande casa aberta. O fim de uma era, de certa forma, para todos nós.

Quando a gente chegava a uma dessas festas que ela aprontava em noites de sexta ou de sábado, nosso carro ficava a pouco mais de um quarteirão de seu endereço, numa das ruas estreitas e bem cuidadas do condomínio, e conforme eu e a Marjorie nos aproximávamos daquele jardim de verdes anoitecidos e daquela fachada bonita entre arbustos de espécies diferentes, na clara penumbra preservada por lampiões ornamentais, cada um deles um olho sonolento sustentado por uma haste de ferro  escura, a primeira imagem que nos cativava a atenção enquanto caminhávamos em direção à conhecida casa da Maga, era a grande janela da sala da frente, que se erguia a apenas meio metro do gramado e se estendia quase até a saliência da primeira laje, como uma grande tela envidraçada mostrando silhuetas e contornos contra a luminosidade âmbar por trás das cortinas bege translúcidas. As formas movimentavam-se sobrepunham-se curvavam-se e eventualmente riam. Para mim, isso era encantador. Para a Marjorie… Para a Marjorie também era, sim, também era, porque ela via essas coisas como representações de grande estilo, enquanto eu sorria quieto como diante de um antigo projetor de imagens ou de um teatrinho de sombras para crianças.

A Maga tinha a idade da Marjorie. Colegas-amigas de escola. Separada do segundo marido há quase cinco anos, estava sozinha agora. Trinta e sete anos e contando dois divórcios. Mas não aparentava nenhuma mudança por isso. Parecia tão feliz e tão fútil como antes, sendo solteira ou casada ou divorciada. Os boatos sobre um possível amante partiam, a meu ver, da necessidade da maioria das pessoas por não admitirem que alguém ficasse sozinho por muito tempo. Alguns rumores fortes, recorrentes. Pequenos episódios dados como certos, outros esvanecendo-se naturalmente, de tão forçados. E muitas entre as pessoas que conhecíamos perguntavam-se quem seria ele, por que não aparecia por lá, por que ela não o apresentava a todos nós, e assim em diante, aqui e ali, uma ciranda irresistível, mas inofensiva, de perguntas-fofocas. Ninguém sabia nada.

A Maga gostava de mim. Especialmente. Ah, eu quero você pra mim. A Marjorie se aproximava, duas taças de vinho branco. A Maga enlaçando meu braço. Marje, eu quero seu marido pra mim, vou roubar ele pra mim. Abraçada, cabeça deitada em meu ombro. A Marjorie entregando-me uma das taças clarinhas, vinho gelado. Não senhora, esse gato já tem dona. Sim, a Magali Lyngstad da Silveira gostava de mim. Na verdade, ela me admirava. Em parte porque eu era um estranho: filho de uma classe trabalhadora, não de uma classe empreendedora. E pelo fato de eu ter partido de um meio simplório, gente pobre e honesta, de não ter me tornado rico e mesmo assim ter alcançado alguma cultura, além de um forte interesse por intelectualidade arte beleza e outras coisas inúteis, com exceção da ciência. Sob o ponto de vista das relações sociais, isso não valia muito. Mas eu entendia que ela me posicionava em um degrau mais alto que aos demais, agora sob o ponto de vista da sensibilidade e da percepção. A Maga compreendia, pelo que eu também compreendia, que foi isso que atraiu a Marjorie, como se lhe faltasse esse fator de verdadeiro gosto pelo conhecimento para que o casal idealizado por ela se mostrasse completo. Nem ela, a Marjorie, competiria comigo nesse campo, nem eu competiria com ela na busca do que se convencionou ser o sucesso. A Maga, sim, era inteligente perceptiva observadora. Eu também entendia que sua futilidade e seu comodismo eram resultado de sua inteligência, de sua clara visão de mundo, o entendimento de quem não via por que cultivar algo muito além do cotidiano, que já lhe bastava de maneira tranquila. Eu brincava quando nos encontrávamos. E a senhora, dona Magali, cada dia mais linda. Ah, mas eu preciso de mais amigos como você, Pepo. Marje, ele é lindo, viu? A Marjorie sorria de boca fechada, lábios dilatados na horizontal. A Maga me beijava o rosto, expansiva e feliz. Tinha um sorriso firme consistente sem hesitações e sem automatismos, embora simulasse um ar ranzinza quando não estava sorrindo: as sobrancelhas juntavam-se apontando para baixo, logo acima do nariz, uma rapinante delicada.

A Maga já havia morado no exterior. Estudara francês, arranhava alemão. Um irmão no Rio. Perdera a mãe muito cedo, uma artista amadora, autora de aquarelas que eram vistas no maior shopping center da cidade, em armações de vidro, que cortara os pulsos quando soube que o marido, filho de fazendeiros, bem-sucedido empresário dos agronegócios, tinha outra família. Não lhe era estranho que ele, como tantos outros endinheirados, mantivesse alguma agenda incluindo acompanhantes e meninas de programa, mesmo porque, quando se realizavam certos eventos e feiras anuais em nossa cidade, todos sabiam dos ônibus e vans que chegavam com prostitutas de toda a região. Mas a descoberta de uma segunda família mostrara-se devastadora, e ela escolhera desistir. E eu ficava pensando, sobre essas tais histórias das quais as pessoas envolvidas preferem afastar-se, em como após tantos cuidados com a vida, tantos esforços pela prosperidade ou mesmo pela manutenção de um status quo adquirido da família de origem, em como tudo isso se desfaz por um momento de emoção sem controle, talvez mesmo incluindo-se a razão a atitude a ideia de matar-se, tudo isso mal refletido em uma simples lâmina brilhando sangue.

Ela nunca me dissera com palavras, mas eu pressentia que a Maga dedicava, entre suas receitas íntimas, algum carinho especial por mim, como se compreendesse valorizasse admirasse a seu modo esta espécie de sobrevivente, o menino sem recursos, estudante a duras penas a duros pelos e a duras contenções de hormônios, ele, sua irmã adotada e seu irmão mais novo alegres divertidos fazendo palhaçadas quando a família recebia embrulhos de roupas usadas fornecidas pela parenta-amiga generosa que não precisava mais delas, brincando de vesti-las umas sobre as outras até não suportarem mais o calor e o peso de alguns trajes adultos que lhes caíam até os joelhos ou até os pés, e ele relutava com tais memórias, tentando dissociá-las dos valores conotativos que lhes foram ensinados mais tarde, não querendo suportar esse peso e esse calor que sufocavam sua dignidade hoje, como outras lembranças que soavam em parte humilhantes e que poderiam fazê-lo cair de joelhos diante da condição tranquila dos mais abastecidos ou mesmo cair de joelhos, curvado dentro de si mesmo, envergonhado só por recordá-los, e algumas imagens mescladas de ternura seguiam de mãos dadas com o avô pela Francisco Junqueira em busca de botinas Tyresoles, solados reforçados com borracha de pneumáticos, e não que ele e o avô precisassem delas para alguma atividade específica, era só porque duravam mais do que os sapatos comuns, um ano inteiro de escola, no bairro distante de ruas de terra, percorrido com o mesmo par de botinas que não se dariam por vencidas ao final do ano nem ao final do ano seguinte, não, nada disso, que duravam toda uma fase da vida, uma coleção de invernos, um ciclo de novidades misteriosas e de choros sentidos, e o adolescente já se dava conta disso, há algum tempo essa consciência de circunstâncias o atormenta e o desafia, esse garoto pálido quieto frágil que só aos treze anos viu o pai comprar o primeiro carro, um Volkswagen azul-claro usado e já muito velho mesmo à época, esse mesmo pai desorientado, que um dia silenciaria para sempre entre dívidas incontroláveis, sempre lembrando que havia situações bem piores do que a nossa em todo o mundo, era bom que não nos esquecêssemos disso, tudo soando uma filosofia consoladora, quantas desgraças se repetem sobre a Terra, e nós agora temos um carro. Sim, senhor. Eu compreendo. Eu sei. Mas antes de cair aos pés dos mais sortudos ou dobrar-me dentro de mim mesmo, esse menino-adolescente-homem-eu escolhera seguir com sua força invisível, sem ressentimentos sem autopiedade sem anjos da guarda, eu agora sem trabalho, driblando um terapeuta experiente com as ruínas de meus sonhos e envolvido com uma jovem vulnerável e carente, simples e sensualmente ativa, entendia-me, à parte de todos os conceitos alheios, o cara mais forte e privilegiado do mundo. E sabia, sem que ela me dissesse, que a Maga gostava de mim apenas por eu ser como era. E que isso não teria mudado até o dia de sua morte, entre a surpresa geral que ela causara com seu silêncio e entre os rumores repetitivos sobre seu namorado secreto.

Projeto esvanecendo-se

14. Casinha de gengibre e os ventos seguintes – sequência

12. Cintilações que não podem ser – anterior

Guia de leitura

Imagem: Paul Cézanne. Jas de Bouffan, a piscina. 1876.

Projeto esvanecendo-se. O anjo de ficar

Mas isso da primeira vez que estive ali.
Depois, era como se as paredes se deslocassem naturalmente ao meu redor, meus passos não pensavam mais, o espaço andava por mim.

Primeira vez na Josie. A Joss Stone de meu agourento ano novo. Nos primeiros dias de 2005, ainda em janeiro, essa trilha de pólvora branca serpenteando até a rua onde ela mora. Bairro trapézio, retângulos agrupados, quarteirões calçadas condomínios. A pequena sala-cubo-entrada podia ser vencida com três ou quatro passos tranquilos. A cozinha, quatro passos curiosos. Retângulos, três e quatro fizeram-me pensar tolamente em uma foto 3 x 4, comparada a uma imagem de maior tamanho, um imóvel mais amplo. O rosto da Josie olhando de frente no documento plastificado, parte dos cabelos caída na lateral da testa, cercada de contextos, seu país e seu tempo, mais uma pessoa infinita. E a entrada do quarto de dormir-pensar-sonhar, tão próxima tão sugestiva tão inspiradora, antecipava-me não sei, não lembro, quantos quatros passos ansiosos. Mas isso da primeira vez que estive ali. Depois, era como se as paredes se deslocassem naturalmente ao meu redor, meus passos não pensavam mais, o espaço andava por mim. Não era muito diferente nas outras divisões desse seu modesto apartamento alugado, e eu nunca pensei, sinceramente, que uma pessoa precisasse de mais do que isso para viver. Somente o dormitório fazia um retângulo-quase-quadrado algo mais espaçoso, significando uma cama de casal (por que ela tem uma cama de casal?) encostada a duas paredes, fechando o vértice desse recorte como os de tantos recortes se fecham em infinitas plantas de infindáveis imóveis empilhados estendidos construídos diariamente em nossa cidade, estruturas pelas quais meu amigo Nilson del Lama era em parte responsável e culpado. Por causa da posição da cama, sobravam ali dois espaços-corredores estreitos, limitados a uma parede com um espelho e a um armário de roupas embutido. A janela ao lado da cama (porque era a cama, é claro, que estava ao lado da janela) remetia a umas ilustrações de casas europeias em que as janelas partem de um pequeno balcão onde se pode sentar e observar o ambiente externo, mas isso, isso que ninguém perceberia fora de mim, porque os arquivos de imagens sépia e bico de pena eram todos meus, foi só uma faísca pueril de memória, pois não havia balcão nenhum ali, como se imagina, e essa janela, como as outras, seguia rente à parede, molduras finas de alumínio, exata e cirúrgica, sem relevos ou desvios. De qualquer forma, essa janela permitindo que, sentados na cama, assistíssemos invisíveis ao mundo lá fora já parecia algo muito atraente e especial para mim. Tudo nesse apartamento discreto, nesse cantinho pequeno e limpo, era aconchegante e sedutor. O caso era que eu me apropriava mentalmente do lugar. Isso, como disse antes, logo na segunda vez, a partir da segunda vez que o penetrei. Com a insensatez de um namorado potencial. A familiaridade rapidamente instalada. Uma parte da cama. Do colchão, dos lençóis. O espaço feminino acolhedor de seus colhões, a um homem imprudente e frágil, covardemente impetuoso, a caminho de ser o que só ele sabia possível a partir de si mesmo: um amante perigoso e egoísta. E esse autorreconhecimento oculto silencioso intransferível refazia suas forças. O que pode haver de mais poderoso que um segredo?

Ela parece à vontade até o momento de entrar no quarto. Agora quase gagueja, cor de rosa nas maçãs do rosto. Aqui é… o meu cantinho, a minha… cama e… Não sabe o que fazer com os braços. Mais um instante e começará a tremer. Antes que isso aconteça, o personagem eu, atuando enquanto o recordo em mim, vai até ela protetor carinhoso decidido, ganha um abraço morno e firme de quem se entrega para não cair – ou encerra essa breve encenação conseguindo o conforto esperado. Foi a primeira vez que se abraçaram. Um ponto que não se desfaz, um pacto instituído, sem voz. Delimitando todos os momentos até então. Marco zero da permissividade. A primeira vez de todas as outras primeiras vezes. Não, não era uma encenação. Ele tinha toda certeza disso. Sentia na lateral do pescoço a força do rosto dela nariz boca queixo colados, respiração nervosa, quase mordendo seu ombro, palpitante morna amedrontada. Se esse homem com mais de trinta afoga-se em ansiedade, clone de um adolescente, nesse abraço carregado de hormônios, imagine-se ela, mais jovem e mais próxima dessa fase perdida.

O sol mudou de posição. Ele a penetrou desejando reter o tempo, tomando para si todas as horas encantadas e estas irmãs: a surpresa a conquista e a posse. A tarde declinou, cansou-se esse estado de graça. Lá fora, estão vivas todas as suas preocupações.

Fica mais. Só mais um pouquinho. Preciso de você, não tá vendo? E você não tem que ir agora, não é?, eu sei que não. Carinhos horizontais. Mão em meu rosto, beijo em meu pescoço. Eu sei, linda, mas eu… eu preciso mesmo, preciso ir. Eu me sentia bem ali, é verdade que sim. Mas no fundo tentava aproveitar um momento meu desprovido de forças para me obrigar a voltar para casa, pensando num jeito rápido de me despedir, encerrar tudo no minuto seguinte. Até mesmo sair de lá correndo. A preocupação com o risco que eu me impunha, que eu me impunha tanto a preocupação quanto o risco, se é que não ficou claro, subia e descia, como num gráfico de oscilações, desaparecia por um tempo, voltava como o toque de um sino num campanário distante, torre de pedras escuras, um anjo consciente aconselhando-me a voltar enquanto outro anjo (a Josie), este verdadeiro, com cheiro de pele e suor de fêmea, cabelos de areia e sorriso de covinhas, convidava-me a ficar.

Projeto esvanecendo-se

 27. Sonho com Josie na galeria – sequência

25. Quando nós ainda… – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Edgar Degas. Mulher com uma toalha. 1898.

Projeto esvanecendo-se. Quando nós ainda…

O que de fato contava era que ela acreditava em mim.
Considerava meu potencial de entrelinhas meu bom humor involuntário minhas ironias benignas.
 

Eu e a Marjorie fomos felizes por um tempo, um bom tempo, claro que sim, eu me lembro. Unidos próximos cúmplices, compartilhando especificidades e caprichos entre aquelas coisas que-só-nós-mais-tínhamos, como certas canções tristes, de querer morrer, e momentos cinematográficos de arrepiar a nuca e estrangular o esôfago, de tão sensíveis e impactantes. Eu engasgava com a saliva. Nossa, que foda essa cena, hein? Ela, em parte sensível, em parte gratificada com sua própria atuação dramática. Ai, olha, vou chorar de novo com essa cena, olha….

Nos primeiros meses nesta nossa casa aqui, cedida por meu sogro de alto escalão a sua filha merecedora e responsável, nossos dias de folga eram mais leves, nossas noites mais intensas. Nada de incomum nesse casal jovem, em meio a tantos outros sortudos mundo afora – eu com vinte e cinco, ela vinte e sete anos. Não era difícil entender e explicar a mim mesmo o tesão que eu sentia pela Marjorie. Mas não ficavam claros os motivos do tesão dela por mim. Não podia ser algo apenas físico, era o que eu concluía. Algo envolvendo o que eu era, talvez, com as coisas que-eu-mais-tinha. Ela dizia brincando, no fundo em tom sério e assertivo, que eu seria ainda o autor de qualquer coisa importante, mas nem eu nem ela adivinhávamos do quê, embora ela insinuasse a perspectiva de algum trabalho acadêmico ou algo como uma teoria científica ou filosófica ou, enfim, nem sei mais, mas como isso não passava de uma ilusão mal agendada, pouco me importava que porcaria de grande trabalho autoral seria esse. O que de fato contava era que ela acreditava em mim. Considerava meu potencial de entrelinhas meu bom humor involuntário minhas ironias benignas. E tentava erguer-me pontualmente de meu comodismo e de uma conveniente congênita modéstia, tentando ativar meu ego preguiçoso como se me cutucasse com um tição. Tinha esperanças, digamos, intelectuais em mim. Talvez uma aposta em algumas daquelas coisas que-eu-mais-tinha, como disse, por conta de minhas paixões como leitor ou como apreciador de música e de pintura, pois eu não fingia, vivia apaixonado e encantado pela arte pelo texto pelo fogo libertador e opressivo das ideias.

Numa dessas noites, em meio ao estágio entorpecente alienante de nosso sono profundo e interrompendo a viagem da lua, um estrondo deflagrou um clima inesperado de terror. Despertamos ansiosos e sussurrantes, temendo que alguém houvesse invadido a casa. Ficamos sob a influência de um silêncio suspeito após o ruído forte e repentino de algo sendo destruído no andar de baixo. Desci para ver. Era o relógio de parede, da cozinha, em queda livre e autônoma – um desses relógios Herweg, que prometem durar toda uma vida, mas, no caso, por falta de habilidade minha em fixá-lo a contento, finou-se jovem e desastrosamente, espatifando-se com um som cristalino e apavorante, e o vidro que antes protegia o mostrador claro limpo conciso craquespalhava-se no piso da cozinha, como se ali houvessem chovido grãos lascas e miçangas transparentes.

Comprei outro relógio na Avenida da Saudade, numa loja de quinquilharias para o lar. Quadrado, cantos arredondados, mostrador branco, no centro o desenho estilizado de uma galinha em alto contraste, pezinhos em movimento, simpática altiva e sempre em frente, como se cacarejasse keep walking enquanto o ponteiro-agulha vermelho dos segundos avançava sem dó. Quis surpreender a Marjorie, achei que ela adoraria, que ela quedaria encantada com aquela galinha positiva determinada autoconfiante e me brindaria com um belo beijo. Que isso, Pepo! Que coisa brega, meu Deus! Onde você achou isso? Vamos pôr isso na parede?! Eu estava feliz assim mesmo, e ria. Marje, olha só essa galinha, não é demais? A Marjorie parecia bem-humorada também, e suas imprecações simulavam as de uma comediante consciente. Ah, não, você está de brincadeira comigo! Está ou não está? Mas por que não, Marje? Você sempre gostou de galinhas. Você tinha até um pijama de galinhas, lembra? Você às vezes parecia uma galinha. (O pijama dela era amarelo-claro estampado com inúmeras minúsculas galinhas, umas azulzinhas outras pretinhas outras branquinhas…) O quê? Eu parecia uma galinha? É, quando sua franja se arrepiava de manhã, quando acordava com os cabelos desfiados apontando pra cima. Palhaço! Me solta! Vem cá, minha cocó linda… Corria atrás dela. Para com isso, me larga, tenho mais o que fazer! Ela torcia o corpo entre os móveis, agitando os braços, brincando de se livrar de mim. Eu não vou pôr isso aí na parede, já falei! Ai, me solta! A Marjorie é forte, e eu tenho que ser firme quando quero prendê-la. Depois percebo que ela não faz tanta força assim, está se divertindo também. O relógio nos serviu por um bom tempo. Eu e a Marjorie fomos felizes por um bom tempo. Nossa juventude, transuberando de erotismo, sempre nos garantia um bom tempo, mesmo sob os ventos eventuais de alguma situação nublada. Aliás, já ia me esquecendo de dizer que, depois daquele susto pavoroso com o relógio espatifado, voltei para a cama, e nós nos pegamos com toda força gosto e vontade, em meio à mesma viagem da lua. Nosso casamento aconteceu no auge do verão e reuniu apenas parentes próximos e uns raros amigos íntimos. Eu tinha vinte e cinco anos, caso não tenha contado ainda. Ela, vinte e sete. Isso foi em janeiro.

Projeto esvanecendo-se

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  Guia de leitura

Imagem: Chelsea James. Cômoda branca. 2009.