Referências biográficas

Imhotep (provavelmente 2650 a.C. – 2600 a.C.) Médico, engenheiro e arquiteto egípcio, o mais antigo nome conhecido, por meio de documentos históricos, do que hoje entendemos por cientista. Foi ministro-chefe do faraó Djoser, o segundo da terceira dinastia egípcia – na base de uma das estátuas do monarca, encontram-se inscrições que comprovam a existência de Imhotep. Projetou a Pirâmide de Sacara, conhecida como Pirâmide dos Degraus, e pode ter sido o primeiro a utilizar colunfas na arquitetura. Foi um dos poucos indivíduos elevados a um grau de figura sagrada, status que só cabia aos faraós e aos membros da família real, que se acreditavam filhos do Sol. Mais tarde, Imhotep passou a ser lembrado também como poeta e filósofo. É considerado o fundador da medicina egípcia.

As origens da civilização egípcia não podem ser estabelecidas com precisão, mas evidências arqueológicas sugerem o surgimento de um primeiro reino unificado em 3200 a.C. e das primeiras dinastias entre 3100 a.C. e 2755 a.C., tendo como capital Mênfis, ao norte. Djoser, da terceira dinastia, que reinou entre 2737 a.C. e 2717 a.C., promoveu a unificação nacional e deu início a uma era de ouro para a cultura egípcia.

En-Heduana (Acádia, na Suméria, atual Iraque, 2285 a.C. – 2250 a.C.) Filósofa também dedicada às ciências, a primeira mulher a assumir o cargo de alta sacerdotisa, o que no contexto de sua civilização significava um título de poder e de sabedoria. Filha de Sargão, rei acadiano que havia conquistado as cidades-estado da Suméria e iniciado uma dinastia, En-Heduana é a mais antiga autora da literatura conhecida pelo nome, mencionada em um disco de alabastro atualmente conservado no Museu da Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos. Como sacerdotisa, ela tinha o poder de administrar atividades envolvendo as artes, a agricultura e o comércio, além de ensinar ciências e outras matérias relacionadas ao conhecimento em geral, particularmente Matemática e Astronomia. Foi a primeira pessoa, até onde se sabe, a tentar compreender o movimento dos planetas rochosos. Compôs mais de quarenta hinos (que eram poemas narrativos referentes a templos de diversas cidades do império), vistos como a primeira tentativa sistemática de se organizar uma teologia. Referências a En-Heduana mostram-na como possuidora de grande erudição e conhecimento. Seus textos tratam de si mesma, mas falam também de religião e de política, que em seu tempo eram áreas diretamente interligadas. Em um desses poemas, ela descreve seu pai e as grandes cidades governadas por ele, conquistadas da civilização suméria, a mais antiga do mundo.

As provas arqueológicas que revelam En-Heduana foram descobertas pelo britânico Leonard Woolley em1925, em escavações no Iraque.

• Na segunda edição da série televisiva Cosmos, En-Heduana é citada como a primeira pessoa de cujos trabalhos se conhecem a autoria. Melhor dizendo, a primeira autora conhecida de toda a história humana.

Sargão foi o primeiro imperador a organizar um exército e promover a expansão de seu reino ao conquistar cidades das regiões vizinhas, com isso inaugurando o que podemos identificar, sob nosso critério atual, como as primeiras guerras da história.

Os sumérios foram os criadores da escrita, e a tudo que sucedeu antes dessa novidade chamamos Pré-História. Eles também dividiram o ano em doze meses, inventaram a matemática, a roda e a cerveja.

Ahmose (viveu provavelmente cerca de 1650 a.C.) Escriba egípcio responsável pelo papiro intitulado Instruções para alcançar o conhecimento de todas as coisas obscuras (também conhecido como Papiro Matemático de Rhind), trabalho que versa sobre equações simples e que atesta a antiguidade da matemática egípcia. Esse papiro, no qual cada problema (equações, cálculos de área etc.) é visto como um caso especial, fornece descrições detalhadas de métodos para se operar valores numéricos. É o mais antigo livro de matemática do mundo, com 87 questões e suas respectivas soluções, sendo as primeiras cinquenta sobre cálculos de áreas, envolvendo triângulos – a questão número 56 trata de pirâmides. O fato de esses estudos provavelmente não serem mantidos em segredo pelos matemáticos egípcios (como mais tarde fizeram os seguidores de Pitágoras, revelando-os somente aos supostos iniciados) pode ter permitido grandes avanços na área da geometria e da arquitetura. Talvez Ahmose tenha sido apenas o copista do papiro em questão, não o matemático. Mas a importância documental desse texto é reconhecidamente valiosa para os historiadores.

Ahmose (que significa filho da Lua) era um nome comum no antigo Egito, por isso pode ser confundido com diversas outras referências individuais, tanto da casta aristocrática como da hierarquia militar. Não há imagens disponíveis do escriba Ahmose.

Talvez o mais antigo texto literário do mundo seja a Epopeia de Gilgamesh, escrita pelos sumérios cerca de 5 mil anos atrás. A versão que chegou até nós foi organizada sob o governo do rei assírio Assurbanipal há 2.700 anos. Não se conhecem os autores.

Tales de Mileto (Mileto, Ásia menor, hoje Turquia, 624 a.C. – 546 a.C.) Descendente de fenícios, é o mais antigo filósofo ocidental conhecido, considerado o fundador da ciência e da filosofia gregas, do que passou a ser chamado a Escola Jônica. Tornou-se famoso por seus conhecimentos de astronomia, provavelmente adquiridos dos babilônios, que já realizavam estudos sobre corpos celestes dois séculos antes, tendo previsto o eclipse do Sol em 585 a.C. Também foi o primeiro a mostrar que a Lua é iluminada pelo Sol. Credita-se a Tales a introdução da geometria na Grécia, aperfeiçoada a partir dos egípcios, transformada por ele em um estudo abstrato, independente de linhas toscas e imperfeitas, com isso iniciando a matemática dedutiva, que viria a ser sistematizada mais tarde por Euclides. Tales acreditava que a substância primordial(a essência do universo) era a água, de onde tudo teria se originado e onde tudo se diluiria. Para ele, a Terra era um disco achatado flutuando em um oceano infinito. Foi o primeiro a supor que a vida teria evoluído a partir da água por processos naturais, mais de dois milênios antes de Darwin. Realizou experiências com o magnetismo, que na época era apenas uma curiosidade, quando se aproximavam objetos de ferro de certas rochas na cidade de Magnésia – de onde deriva a palavra. Antes dele, as explicações para o universo eram míticas. Seu enfoque no conhecimento por meio da razão, da observação da natureza, e não nas crenças religiosas, foi o nascimento do pensamento científico. Os escritos de Tales não sobreviveram. O que sabemos sobre ele encontra-se nas obras de Diógenes Laércio, Simplício e principalmente na Metafísica de Aristóteles. Tales foi um homem que buscou conhecer a verdade tendo como base a observação da natureza, desconsiderando a ação dos deuses.

Nem tudo que se atribui a uma só pessoa é produto de suas próprias descobertas e conclusões, mas reflete ensinamentos anteriores, provindos de mestres e povos mais antigos. Tales visitou o Egito e provavelmente a Babilônia, onde assimilou a erudição dos pensadores locais.

Medições astronômicas atuais datam o eclipse, previsto por Tales, em 28 de maio de 585 a.C. Os medos e os lídios, que estavam prestes a entrar em guerra, temendo o fenômeno, optaram por um acordo de paz e desistiram do conflito armado. Essa batalha, que não se realizou, tornou-se o primeiro acontecimento histórico datado com absoluta precisão.

Anaximandro (Mileto, 610 a.C. – 546 a.C.) Filósofo, astrônomo, geógrafo e matemático, discípulo e amigo de Tales. Considerado o fundador da astronomia grega, é o autor do primeiro trabalho escrito sobre o cosmo e a origem da vida. Imaginou a Terra em forma de um cilindro no interior de uma sequência de rodas cósmicas concêntricas, sendo o Sol um furo na mais externa das rodas e as estrelas, pequenos furos na mais próxima. Pela primeira vez, a noção das esferas invadiu o campo da astronomia, o que mais tarde viria a culminar com os sofisticados, porém errôneos, modelos cosmológicos de Ptolomeu. Imaginou a origem do universo pela separação dos opostos, o quente do frio, depois o seco do molhado, de maneira que tudo o que existe retornaria, de uma forma ou de outra, a seu estado original, por meio de transformações constantes. Para ele, o elemento primordial do universo (apeíron, que significa ilimitado, infinito) não surgiu em algum momento, mas sempre existiu, sendo assim eterno. Considerava a evolução dos animais a partir da lama, do lodo marinho, e do homem a partir dos peixes, com isso antecipando em muitos séculos a evolução darwiniana. Imaginou os primeiros peixes cobertos por espinhos. Mais tarde, alguns descendentes de tais peixes teriam deixado a água em direção à terra firme, onde se transmutaram, com o passar do tempo, em outros animais. Foi o primeiro grego a usar o relógio de sol (gnômon), já conhecido pelos egípcios e pelos babilônios, e o primeiro a fazer um mapa do mundo conhecido, sendo por isso um precursor da cartografia. Também foi um dos primeiros a fazer experiências: pela medição da sombra de uma vareta, pôde calcular com precisão a duração do ano e das estações.

Como lembra Carl Sagan: “Por muito tempo os homens usaram varetas para lutar ou matar, mas Anaximandro as usou para medir o tempo.”

A cratera lunar 66N 48W Anaximander tem esse nome em sua homenagem.

O mais antigo mapa conhecido, mostrando moradias ao longo de um rio, data de aproximadamente 10 mil anos. Foi encontrado na década de 1960 em Mezhirich, na Ucrânia, e é insculpido na presa de um mamute.

Anaxímenes (Mileto, 585 a.C. – 528 a.C.) Discípulo da chamada Escola Jônica, fundada por Tales, concordava com o apeiron de Anaximandro, mas acreditava que o elemento primordial do universo fosse o ar. Segundo ele, o ar podia ser rarefeito, tornando-se fogo, ou condensado, transformando-se em todas as coisas que existem, variando conforme o grau de condensação: vento, nuvem, água, terra ou pedra, o que fazia desse elemento alguma coisa viva e essencial. É possível que essa proposta, bastante aceitável em um contexto tão primitivo, tenha sido a origem da associação da ideia de vida com sopro, que se repete em diversas mitologias: de acordo com esse raciocínio, a suposta alma humana também seria constituída de ar. Escreveu Sobre a natureza e dedicou-se especialmente à meteorologia (da palavra metéoros, que significa elevado no ar, referindo-se a qualquer coisa que ocorresse na atmosfera terrestre). Como Tales, foi um dos primeiros a defender que a luz da Lua provinha do Sol. Naquele tempo, os gregos acreditavam que o arco-íris fosse a manifestação de uma deusa, mas Anaxímenes raciocinava que aquilo talvez fosse um fenômeno físico e não sobrenatural. Imaginou que as estrelas fossem fixas e que haviam sido formadas a partir da Terra, como formas rarefeitas de fogo terrestre. Ao contrario de Anaximandro, supunha que as estrelas estariam mais distantes da Terra do que o Sol, por isso não produziam calor que pudesse ser percebido – a Terra seria plana e estaria flutuando no ar infinito. Afirmar que todas as coisas são diferentes formas de ar equivale a dizer, atualmente, que todas as coisas são agrupamentos diferentes de átomos ou, na cosmologia mais recente, que tudo são vibrações de energia a partir de quarks e léptons, partículas subatômicas que formam todas as outras: elétrons, prótons e nêutrons. Por mais estranho que pareça, o raciocínio de Anaxímenes faz sentido e contém o mesmo princípio com o qual a ciência trabalha até hoje, o de que tudo o que existe deve ser formado por variações de um mesmo elemento original.

Pitágoras (Samos, ilha do mar Egeu, 570 a.C. – Metaponto, Itália meridional, 495 a.C.) Pouco se pode afirmar sobre a verdadeira biografia desse filósofo, astrônomo e matemático, porque ele se tornou objeto de relatos posteriores por vezes fantasiosos. Mas sabe-se que foi exilado, por razões ainda desconhecidas, para Crotona, Itália meridional, em 529 a.C., pelo tirano Polícrates, evento que teve como consequência a divulgação e ampliação do conhecimento dos gregos por mais terras do continente. Fundou uma escola mística e filosófica, tendo como símbolo um pentagrama, caracterizada por ser secreta, cultivando a harmonia matemática e o dualismo cósmico essencial. Foi o primeiro a usar a palavra filósofo. O culto pitagórico adquiriu certo poder político nos últimos anos da vida desse filósofo, o que motivou uma nova sentença de exílio. O pitagorismo sobreviveu por cerca de cem anos após sua morte. Por volta de 350 a.C., encontrava-se praticamente extinto. O maior êxito científico atribuído a Pitágoras foi a descoberta de que as cordas dos instrumentos musicais produziam um som tanto mais alto quanto mais curtas fossem: a altura do som estava diretamente relacionada com o comprimento da onda sonora. A Acústica (estudo do som) é o único ramo da Física que permanece inalterado desde os tempos dos antigos gregos até os dias de hoje. Pitágoras acreditava que todo o universo podia ser traduzido em números. Tanto ele quanto seus seguidores atribuíam aos números significados místicos, mas o importante é que isso os tenha encorajado a estudá-los. Assim, dentre as descobertas mais conhecidas desse grupo estão a questão da raiz quadrada de dois, que não pode ser encontrada entre os números inteiros, e o conhecido teorema de Pitágoras, que se aplica às proporções do triângulo retângulo. É difícil separar a verdade histórica das lendas atribuídas a Pitágoras, porque ele não deixou escritos, e o que se sabe sobre seus trabalhos deve-se a Filolau, que os relatou cerca de um século depois. Assim mesmo, ele é considerado o primeiro matemático, tendo usado pela primeira vez essa palavra (mathematikós, relativo à instrução). Na Astronomia, foi o primeiro a perceber que a Estrela d’Alva (matutina) e a Estrela Vésper (vespertina) eram a mesma – na verdade, elas são o planeta Vênus, não uma estrela. E, até onde se sabe, foi o primeiro a afirmar que a Terra era esférica. Notou que o Sol, a Lua e os chamados planetas (do grego planétes, errante) não possuíam o movimento uniforme das estrelas, com isso criando a noção de que várias esferas se moviam ao redor de vários planetas, equívoco eliminado por Kepler mais de vinte séculos depois.

Mais de mil anos antes, na Mesopotâmia, os sumérios já usavam o princípio de seu famoso teorema.

Eupalino (Mégara, próximo a Atenas, século 6 a.C.) Engenheiro e arquiteto responsável pela construção do que viria a ser chamado Aqueduto de Eupalino, obra encomendada pelo tirano Polícrates, que atravessa uma montanha na cidade de Samos com um túnel de pouco mais de mil metros de extensão, com a finalidade de conduzir água proveniente de uma rica fonte natural. Era impressionante que os procedimentos de perfuração, iniciados em duas frentes opostas, fossem concluídos com apenas 60cm de diferença. Sabemos, pela sofisticação de suas construções, que alguns povos da Antiguidade dispunham de inúmeros arquitetos e engenheiros brilhantes, porém a referência individual a Eupalino foi a primeira a chegar até nós. Seus trabalhos revelam uma estética na qual a forma e a função se equilibram ou quase não se distinguem. O historiador Heródoto, além de ver esse aqueduto em Samos como uma das mais importantes construções gregas, descreve em detalhes suas dimensões e o atribui a “Eupalino de Mégara, filho de Naustrofo”.

Polícrates, rei de Samos, além de oprimir seu próprio povo, havia entrado para a pirataria internacional. Grande parte do túnel projetado por Eupalino foi construído por escravos capturados e trazidos em navios piratas.

Xenófanes (Colofon, Jônia, 570 a.C. – 475 a.C.) Poeta e filósofo grego, primeiro pensador a considerar que o planeta Terra sofresse alterações físicas ao longo dos tempos a ponto de se tornar irreconhecível, com isso antecipando em mais de vinte séculos a Geologia moderna. Assim como seu mestre Pitágoras, deixou a Jônia, mas estabeleceu-se em Eleia, Itália meridional. Não concordava com o misticismo da doutrina pitagórica e propôs que a terra fosse o elemento primordial do universo. Em seus escritos, satirizava a crença nos deuses com forma humana, alegando que os animais, se pudessem pintar e esculpir, também fariam deuses a sua própria imagem e semelhança. Apenas alguns fragmentos de seus poemas sobreviveram. Seu pensamento sugerindo que as características do planeta Terra sofressem significativos processos de transformação no decurso dos tempos ficou praticamente abandonado até que Hutton, no século 18, o revestisse de seriedade científica.

Hecateu de Mileto (Mileto, c. 546 a.C. – c. 476 a.C.) Geógrafo, historiador e viajante grego, continuou a tradição racionalista de Tales, usando-a principalmente para descrever a superfície terrestre. De família aristocrática, parece ter passado a primeira parte da vida viajando pela Europa, pelo Egito e pelo Império Persa (que na época se chamava Ásia Menor), tendo reunido suas experiências em um livro – que não sobreviveu à viagem. Supõe-se que, nessas viagens, Hecateu tenha tomado consciência da verdadeira amplitude da Pré-História, quando os egípcios lhe mostraram documentos que remontavam a centenas de gerações anteriores. Ampliou o trabalho, começado por Anaximandro, de desenhar um mapa do mundo e dividiu a superfície terrestre em uma metade norte (Europa) e uma metade sul (Ásia), tomando como estrutura divisória a linha leste-oeste do mar Mediterrâneo e as montanhas do Cáucaso. Os dois continentes foram desenhados em forma de semicírculo e rodeados pelo oceano infinito (Oceanus, o oceano-rio). Mas, entre os povos da época, os gregos não eram grandes viajantes, a exemplo dos fenícios, que eram menos letrados e menos específicos. Hecateu racionalizou a história, assim como fez com a geografia, e redigiu o primeiro relato grego dos feitos e proezas daqueles que jamais aceitaram mitos ou deuses quando confrontados com os valores humanos. Adotou um ponto de vista cético e categoricamente desdenhoso quanto à tradição mítica. Sua historiografia não sobreviveu, e praticamente todas as informações disponíveis a seu respeito provém de Diodoro da Sicília e de seu grande sucessor, Heródoto, duas gerações à frente, que deu continuidade ao seu trabalho e para quem ele constituiu fonte de importante inspiração. Hecateu é considerado um dos maiores prosadores que, a partir do século 6 a.C., escreveram crônicas que resgatavam a tradição oral, o que habitualmente se fazia sob a forma de versos. Tratava com desprezo as obras de seus antecessores e também de seus contemporâneos que, segundo ele, compunham narrativas contraditórias. Sua obra, Descrição da Terra, resumia os conhecimentos geográficos dos gregos da época, e sua Genealogias passava em revista os dados históricos compilados até então, corrigindo as imprecisões. A maior importância de Hecateu talvez tenha sido a de assimilar o clima de renovação cultural que se manifestava na Jônia e que fora iniciado com os primeiros filósofos. Adotando a perspectiva intelectual dos físicos e dos matemáticos, deu início a um processo de racionalização dos fatos históricos, o que preparou o caminho para Heródoto e Tucídides. Testemunhando o que viu e ouviu nas viagens, Hecateu procurou traçar a história das diferentes regiões, mas principalmente buscando separar o real do imaginário, com base no bom senso e na razão, algo que Plínio, o Velho, não se preocupou em fazer.

Hecateu foi também um hábil político, opondo-se à revolta da Jônia contra a Pérsia (500–494 a.C.). Para ele, a única maneira de derrotar a supremacia persa seria ter o controle dos mares através da construção de uma frota (que deveria ser construída com somas do tesouro do templo de Apolo). Os jônios não aceitaram o projeto, classificando-o como sacrílego. Ao fim da guerra, Mileto foi incendiada pelos persas, e Hecateu foi escolhido como delegado para negociar a paz. A revolta jônica foi duramente aplacada, e o prestígio cientifico das cidades gregas dessa região, conservado intacto ao longo de um século e meio, entrou em declínio.

A obra de Heródoto sobreviveu, e com todo mérito, pois é uma das maiores de todos os tempos, tanto pela fina elegância estilística quanto por sua constante acuidade crítica. Heródoto é o primeiro historiador que se conhece, chamado o Pai da História, embora esse título coubesse melhor a Hecateu.

A Líbia (não o mesmo país que conhecemos hoje) tem esse nome desde os mapas de Hecateu de Mileto.

Heráclito (Éfeso, próximo a Mileto, Ásia Menor, hoje Turquia, c. 535 a.C. – c. 475 a.C.) Filósofo grego, chamado O obscuro, por causa de sua visão pessimista da vida e do universo, exposta em sua obra Sobre a natureza, da qual restam apenas poucos fragmentos. O historiador Diógenes Laércio relata que ele era um homem de sentimentos elevados, orgulhoso, e tinha o mesmo desprezo pelos poetas, pelos filósofos e pela religião – pensava que as respostas para os mistérios eram de ordem mais profunda e que a maioria das coisas em que as pessoas acreditavam eram semelhantes a ideias de crianças. Para ele, a única certeza era a de que tudo se transforma. Chamava de guerra entre os opostos o fato de as coisas quentes se esfriarem e as coisas frias se aquecerem. De acordo com essa ideia de que tudo é formado por opostos, se não houvesse a doença, não saberíamos o que é a saúde. Assim, o principio e o fim constituiriam um círculo que nunca se detém em uma das posições, configurando a eterna mudança. Sua tradição filosófica se apoia na ideia de que tudo flui como um rio. Portanto, a identidade das coisas é ilusória, uma vez que tudo é efêmero e sujeito à constante transformação. Imaginava que o Sol, que vemos todos os dias, não fosse o mesmo, sendo substituído por outros, quase idênticos, que nunca se repetiam. (Parece absurdo, mas quando Galileu descobriu as manchas solares, ficou claro que o Sol também se transforma a cada momento, não sendo o mesmo que teríamos visto no dia anterior.) Heráclito defendia que o fogo era a substância primordial do universo, o elemento transformador por natureza. Em seus últimos anos, isolou-se nas montanhas, alimentando-se apenas de plantas. Acometido de hidropisia, procurou um curandeiro que aconselhou um tratamento de imersão no estrume de vaca. Conta-se que seus cães, não o reconhecendo, o atacaram e o mataram. Mas o historiador Neantes de Cízico supõe que ele tenha morrido sufocado em uma dessas sessões, e que seu corpo teria sido deixado lá, sob o estrume.

Parmênides (Eleia, Itália meridional, c. 515 a.C. – 475 a.C.) Primeiro filósofo grego nascido em solo italiano, fundador da chamada Escola Eleática ou Eleata (Eleia é hoje Vélia, no sul da Itália). Defendia a ideia de que um objeto não poderia se transformar em outro que diferisse muito de sua essência, ao contrário de Heráclito, que acreditava na constante transformação de todas as coisas. Para Parmênides, seria mais razoável admitir que tanto a criação de alguma coisa a partir do nada como a destruição, isto é, a transformação de alguma coisa em nada, seriam impossíveis. Em sua opinião, os sentidos eram enganosos e não poderiam servir de guia para a compreensão da realidade, que deveria ser estudada somente pela perspectiva da razão. Essa era a pedra fundamental da Escola Eleata, que mais tarde teria Zenão como um de seus mais destacados representantes. Parmênides é visto como um dos fundadores da metafísica ocidental, tendo influenciado fortemente Platão. Escreveu uma única obra, em versos, em parte preservada por ter alguns de seus fragmentos citados por autores das gerações seguintes. Segundo ele, a realidade do universo seria imutável e essencialmente baseada na unidade de um ser divino, um pressuposto que orientou inúmeros pensadores ao longo do tempo até que Einstein, 2.400 anos depois, demonstrasse que o universo é um processo, não uma entidade estável, e que só pode ser compreendido como produto e gerador de constantes transformações, mais proximamente do que supunha Heráclito.

A necessidade de um pensamento matricial, isto é, tendo por base um deus único ou uma forma original (matriz) da qual seriam originadas amostras das formas perceptíveis, também alicerçou o pensamento platônico e indiretamente impediu por muito tempo a compreensão de uma natureza mutante, sem causa ou direção definidas.

Anaxágoras (Clazômenas, Jônia, norte de Mileto, c. 510 a.C. – Lâmpsaco, atual Lapseki, Turquia, 428 a.C.) Filósofo grego, último pensador jônico, fundador da primeira escola filosófica de Atenas. Como no caso de quase todos os outros filósofos gregos, afirma a tradição que Anaxágoras viajou intensamente durante a juventude. Por volta de 462 a.C., partiu de sua terra de origem, na Ásia Menor, para Atenas, que vivia então seu auge cultural, levando a tradição científica de Tales de Mileto, como fizera Pitágoras duas gerações antes. Mas enquanto Pitágoras cultivava o misticismo, Anaxágoras revelou-se um racionalista. Os fragmentos preservados de seu tratado Sobre a natureza versam sobre cosmologia, biologia e percepção. Estudando o movimento dos corpos celestes, explicou as fases da Lua e os eclipses lunar e solar. Para ele, o universo não teria se originado de um ato de criação, mas através da ação de uma razão abstrata sobre um número infinito de sementes, às quais chamou homeomerias (Leibniz, séculos depois, aproveitaria essa ideia), que seriam formas de átomos, cuja existência vinha sendo também proclamada por Leucipo. Assim, todos os corpos celestes teriam se originado pelos mesmos processos que teriam produzido a Terra, e todos os céus e terras seriam constituídos dos mesmos elementos – a queda de um meteorito no litoral norte do mar Egeu, em 468 a.C., pode tê-lo ajudado a chegar a essas conclusões. As estrelas e os planetas, segundo ele, eram formados por rochas flamejantes. O Sol era uma grande rocha incandescente do tamanho do Peloponeso. Para ele, o ser não podia ter sido criado, mas gerado pela ação dessas sementes, que continham um pouco de tudo e davam forma à diversidade do mundo real. Anaxágoras lecionou por trinta anos em Atenas, e sua escola consolidou a liderança filosófica dessa cidade sobre o resto do mundo grego, o que duraria cerca de dez séculos, pois mesmo no final do Império Romano, quando já se havia extinguido o sonho da antiguidade e da glória político-militar da Atenas, ela ainda se mantinha como referência de cidade universitária. Acusado de irreverência e ateísmo, Anaxágoras foi levado a julgamento, sendo este o mais antigo caso conhecido de um processo envolvendo um cientista com a religião oficial do Estado. Anaxágoras era amigo e mestre de Péricles, que conseguiu sua absolvição. Depois desse episódio, concluiu que seria arriscado permanecer na cidade, por isso retirou-se para Lâmpsaco, no Helesponto, onde permaneceu até sua morte. Seu contemporâneo mais jovem, Méton, continuou seus estudos astronômicos. Mas os pensadores da cidade, em razão dos riscos políticos, preferiram deixar de lado a filosofia natural e dedicar-se à filosofia moral.

Alcméon (Crotona, Itália meridional, c. 510 a.C. – ?) Filósofo e médico grego, discípulo de Pitágoras. Conservava algumas noções místicas, por exemplo, a de que o corpo seria um microcosmo, refletindo, em proporção menor, o universo (cosmo). Apesar disso, era um observador minucioso e de grande acuidade. Até onde se sabe, foi o primeiro a orientar trabalhos de dissecção em corpos humanos. Identificou o nervo óptico e o conduto que conecta o ouvido à boca, hoje chamado trompa de Eustáquio, que foi quem o redescobriu, vinte séculos mais tarde. Alméon distinguiu as artérias das veias, mas não identificou as artérias como vasos sanguíneos, pois nos cadáveres elas se apresentam vazias. Foi também um pioneiro da embriologia. Pressentiu que o cérebro era o centro da atividade intelectual, assim como pensaram Demócrito e Hipócrates, duas gerações à frente. Sugeriu que os sentidos estariam ligados ao cérebro, porque certas vias sensoriais terminavam no encéfalo. Essas concepções não foram aceitas por Aristóteles, e só chegaram até nós em tempos mais recentes.

A língua preserva palavras e expressões com determinados significados mesmo depois de esclarecidos certos fenômenos. Até hoje é comum as pessoas associarem sentimentos ao coração, que é apenas um músculo bombeador de sangue. Ainda nos referimos ao início do dia como o nascer do Sol, mesmo sabendo que a Terra é que gira. Falamos em estrelas cadentes, e elas são rochas. Há muitas ilustrações antigas apresentando cometas com rastros de fogo – atualmente sabemos que eles são formações de gelo. E como nos conta Fábio Sene, em seu Cada caso, um caso… Puro acaso, “Devido às informações e às discussões mantidas pela mídia, o DNA tornou-se mais conhecido, embora a expressão ‘sangue do meu sangue’, quando alguns pais se referem aos filhos, continue comum. Ainda não ouvi alguém dizer: – DNA do meu DNA.”

Hanão (Cartago, hoje próximo a Túnis, 500 a.C. – c. 440 a.C.) Almirante cartaginês, dito O navegador – os fenícios, dos quais os cartagineses eram uma ramificação, foram os grandes navegadores e exploradores do mundo antigo. De todas as expedições de Hanão, restou apenas um fragmentado e obscuro relato de viagem, conhecido como Périplo de Hanão, primeiramente gravado em uma estela do templo de Ba’al Hammon, a divindade dos cartagineses. O historiador Heródoto conta que Hanão pretendia circum-navegar a África. Os cartagineses acreditavam que, no extremo sul, o meio-dia ocorria dentro dos limites do hemisfério norte no céu. Heródoto pressentiu que isso seria impossível, portanto não deu crédito aos relatos do navegador. (Mas isso é o que de fato ocorre, e dificilmente alguém engendraria a descrição desse fenômeno se não o houvesse presenciado.) A expedição de Hanão realizou-se quando Cartago estava em seu auge e tinha como objetivo reconhecer e colonizar as costas atlânticas. O texto reconstituído do Periplus (cópia grega) consta de 18 parágrafos e narra, de forma linear e cronológica, a viagem de Hanão desde sua partida até o momento em que, por falta de mantimentos, decidiu regressar a Cartago. Seus relatos incluem a notícia de um vulcão em atividade na África (provavelmente o Monte Camarões), descrições de gorilas, elefantes, crocodilos, hipopótamos e outros animais, além de selvas tropicais, o que atesta a veracidade do texto. A expedição de Hanão constituía-se de uma frota de 60 navios e 30 mil homens e mulheres – talvez um número exagerado. Conforme rumava para o sul, ao longo da costa africana, descrevia selvagens vestidos de peles, que atiravam pedras, e etíopes (africanos de raça negra). Diferentemente de Plínio, o Velho, seus relatos não tratam de seres fantásticos, atendo-se apenas a descrições de locais e povos realmente visitados em suas excursões, o que, do ponto de vista científico, configura uma importante referência. É possível que Hanão tenha sido o primeiro navegador mediterrâneo a cruzar a linha do equador terrestre.

Empédocles (Akragas, hoje Agrigento, Sicília, 495/490 a.C. – 435/430 a.C.) Filósofo e médico grego. Combinando ideias de outros pensadores, que divergiam entre si sobre o universo ter como elemento primordial a água ou o ar, concluiu que tudo que existia era uma variação de arranjos de quatro elementos básicos: terra, fogo, água e ar. Acreditava que o coração era o centro do sistema cardiovascular (o que é correto) e também a matriz da vida – o que não chega a ser uma ideia absurda, apenas equivocada. Para ele, a morte era a desagregação dos elementos que formavam um ser. De certa forma, foi um precursor da teoria atomística de Demócrito. Com relação à natureza, seguindo Tales de Mileto (para quem o mundo teria evoluído da água por processos naturais), concluiu que o indivíduo melhor adaptado sobrevive, com isso antecipando a teoria evolucionista de Darwin em mais de dois milênios. Comprovou, com uma experiência simples e doméstica, a existência do ar. Tornou-se ainda uma figura lendária, pois ele mesmo atribuía-se poderes mágicos. Contam alguns que ele teria se atirado na cratera do vulcão Etna para demonstrar seus poderes, porém outras referências indicam que ele talvez tenha morrido na Grécia. Empédocles é considerado o último filósofo grego a escrever em versos, e os fragmentos que restam de suas lições estão em dois poemas: Purificações, do qual são conhecidos aproximadamente 100 versos, e Sobre a natureza, que chegou até nós com cerca de 450 versos.

Há muitas obras desse período com títulos semelhantes, a exemplo de Sobre a natureza. Os estudos e observações dos pensadores gregos costumavam ser abrangentes, tratando da natureza como um todo, daí porque muitos empregavam também a palavra cosmo. Eram tentativas importantes de se compreender a realidade e as causas das coisas, o que hoje se desenvolve em áreas específicas.

Um vulcão submarino no Mediterrâneo, próximo à Sicília, foi chamado Empédocles. Um asteroide, de número 6152, também tem seu nome.

Zenão (Eleia, Itália meridional, cerca de 490/485 a.C. – 430 a.C.) Filósofo grego, discípulo de Parmênides e líder da chamada Escola Eleata, cujo método pretendia mostrar que os sentidos não eram um caminho confiável para se chegar à verdade. Criou paradoxos (conhecidos como aporias eleáticas), como o de Aquiles e a tartaruga, no qual, sob a racionalidade dos cálculos matemáticos, o herói nunca alcançaria uma tartaruga em uma corrida. Acredita-se que Zenão tenha criado cerca de quarenta desses paradoxos, todos contra a multiplicidade, a divisibilidade e o movimento, que, segundo a Escola Eleata, não passariam de equívocos promovidos pelos sentidos. Tais paradoxos, ainda que baseados em dados ilusórios, foram de fundamental importância para a ciência, pois estimulavam o hábito do raciocínio. Juntamente com outros companheiros e conspiradores, Zenão tentou derrubar o tirano que governava a cidade, sendo por isso preso e torturado até a morte.

Leucipo (Mileto, 490 a.C. – ?) Filósofo grego, mestre de Demócrito e talvez, segundo Aristóteles, o verdadeiro fundador do atomismo, a ideia de que a matéria poderia ser fracionada sucessivamente até certo ponto, tornando-se então indivisível – átomo, sem partes. (Isso antecipava, em pelo menos vinte e três séculos, o modelo atômico de Rutherford, mais detalhado, que considerava cargas positivas em um pequeno núcleo orbitado por elétrons, de carga negativa.) Foi o primeiro a estabelecer o princípio da causalidade, o de que todas as coisas têm uma causa natural e não dependem das intenções nem dos caprichos de alguma divindade. Leucipo foi o último lampejo da tradição jônica, depois de as cidades litorâneas dessa região terem sido destruídas pelos persas. Quase nada se sabe sobre sua vida, e alguns chegam mesmo a questionar sua verdadeira existência. Outros lhe atribuem a autoria de um livro chamado A grande ordem do mundo (ou Grande cosmologia), no qual defende que os átomos estão constantemente submetidos a movimentos casuais e imprevisíveis, formando, em conjunto, um universo de forma esférica.

Hoje, a ideia mais amplamente aceita pelos físicos é a de que o universo seja plano (ou muito próximo disso), em razão da análise dos sinais emitidos pela radiação cósmica de fundo, registrados pelo satélite experimental COBE, em 1989. Outra teoria postulava que o universo poderia ter forma cilíndrica, sendo enrolado como um canudo, caso fosse infinito.

Em 1905, Einstein demonstrou a existência dos átomos por meio do movimento browniano. Antes disso, o átomo era apenas uma ideia, um conceito teórico.

Filolau (Tarento ou Crotona, Itália meridional, 480 a.C. – ?) Filósofo de cultura grega, foi o primeiro a divulgar as ideias de Pitágoras (que eram secretas e reservadas apenas aos discípulos) para o público em geral, em um livro que conserva os mais antigos relatos sobre as doutrinas de seu mestre. Os fragmentos desse livro influenciaram fortemente Platão, que teria mandado comprá-lo, pagando um valor relativamente alto. Por causa das perseguições que sofriam os pitagóricos no sul da Itália, Filolau teve de fugir para Tebas, na Grécia continental. A maioria de suas contribuições revelou-se altamente mística, mas um de seus pensamentos é de particular interesse, pois, entre os disparates pitagóricos, há algumas ocasionais e sagazes suposições, como no caso de Xenófanes, que presumiu, acertadamente, que o planeta Terra sofria transformações físicas ao longo dos tempos a ponto de se tornar irreconhecível. Filolau imaginou que nosso planeta não era o centro do universo e que, além disso, viajava através do espaço. Segundo ele, a Terra, assim como o Sol, a Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno e as estrelas circulavam em esferas isoladas em torno de um fogo central, do qual o Sol, sendo visível, seria apenas um reflexo. Isso perfazia um total de nove esferas girantes, às quais ele acrescentou uma décima, a que chamou Antiterra, um planeta sempre oculto para nós e situado do outro lado do Sol. Todo esse esquema foi idealizado simplesmente para associar-se aos poderes místicos do número 10, que era tido como mágico pelos pitagóricos apenas porque era a soma de 1 + 2 + 3 + 4. Essa foi a primeira especulação conhecida que se fez sobre a possibilidade de a Terra se mover pelo espaço. Dois mil anos depois, a teoria heliocêntrica de Copérnico foi classificada pela Igreja como uma heresia pitagórica.

Eurípides (Salamina, c. 480 a.C. – Pela, capital da Macedônia, 406 a.C.) O mais jovem e último dos três grandes autores trágicos da Grécia antiga. Escrevia sobre os vencidos e os marginalizados, que era como ele próprio foi visto durante sua vida, sofrendo críticas de seus contemporâneos, particularmente de Aristófanes, que o satirizava. Pouco se sabe sobre sua vida, e isso pode indicar que não tenha tido uma ascendência nobre, como era comum a outros homens letrados da época. Para ele, os mitos eram apenas representações que se substituíam no tempo, atualizando-se para suprir a necessidade de crenças mais antigas. Por isso suas peças tratavam dos homens reais, não de divindades, o que constitui uma peculiaridade notável no seu meio, num período em que se fazia quase obrigatório mencionar os deuses em obras de arte, como inspiradores ou homenageados. Nos dramas de Eurípides, personagens de nobres atuavam em conjunto com personagens de camponeses, vistos como seres humanos semelhantes na questão dos sentimentos e dos conflitos. Desiludido com a natureza humana, em idade avançada, passou a viver recluso. É possível que tenha escrito mais de noventa peças, das quais somente dezoito sobreviveram. Ésquilo e Sófocles, seus contemporâneos, foram mais reconhecidos e famosos em vida. Mas, talvez por ter criado recursos dramáticos que viriam a influenciar outros gêneros surgidos posteriormente, como o melodrama e a novela, Eurípides é hoje mais conhecido do que seus colegas. Foi o primeiro homem, de que se tem notícia, a formar uma biblioteca individual.

De Ésquilo e de Sófocles, restaram somente sete peças completas da autoria de cada um. Grande parte de todas essas obras pode ter se perdido na destruição da famosa Biblioteca de Alexandria, onde haviam sido guardados os livros trazidos da Grécia pelos romanos. Com a anexação, o polo cultural do mundo antigo gradualmente se deslocou de Atenas para Alexandria.

Uma versão sugere que Eurípides teria sido estraçalhado pelos cães de caça do rei Arquelau.

Sócrates (Atenas, 469 a.C. – 399 a.C.) Um dos mais importantes filósofos da tradição ocidental, costumava dizer que seus pensamentos nada tinham de originais e se deviam a seus mestres, Anaxágoras e Arquelau. O que mais chama a atenção em Sócrates é uma notável inteligência associada à sua característica humildade, o que poucas vezes foi igualado na história dos pensadores. O método da dialética, por meio do qual o mestre, em vez de passar conhecimentos, faz perguntas para provocar as respostas do interlocutor, tinha a função de despertar novas ideias, o que Sócrates chamou de maiêutica (que significa parteira), pois com isso ele acreditava estar dando à luz novos pensamentos. Sua influência foi tamanha que hoje se divide a cronologia do pensamento filosófico em períodos pré e pós-socrático. Tudo indica que não tenha escrito nenhuma obra, e o que se sabe dele é relatado por outros filósofos, particularmente por Platão, seu mais conhecido discípulo. Dedicava-se à filosofia e pouco se importava com sua família, o que era motivo de críticas por alguns de seus contemporâneos. Serviu o exército ateniense em diversas batalhas e mais tarde comparou tais atividades a sua situação diante do tribunal que o julgava por heresia, traição (ele não concordava com o modelo de governo aristocrático) e por corrupção da juventude: retirar-se da filosofia seria como a deserção de um soldado. Propunha que a melhor maneira de viver seria baseada no conhecimento e no desenvolvimento pessoal, não nos valores materiais, e afirmava que a virtude era a mais importante de todas as coisas. Durante seu julgamento, entre os itens citados na leitura da acusação, constava o fato de ele não acreditar na existência de deuses, embora houvesse firmado pactos com alguns deles, notadamente entidades malignas, que o teriam influenciado – ao que ele respondeu perguntando como seria possível não acreditar nos deuses e fazer acordos com eles. Foi condenado à morte por envenenamento, o que aceitou serenamente e sem resistência. (Nietzsche viu sua morte como o fim de uma era.) Por causa da admiração por Sócrates, e por meio da influência de Platão, o intelecto grego se voltou para o campo da filosofia moral, relegando ao esquecimento a filosofia natural (hoje chamada ciência), que nas gerações seguintes declinou completamente.

Anaxágoras, mestre de Sócrates, foi o mais antigo caso de um pensador processado por não ser religioso.

• O período da chamada Grécia clássica, entre os séculos 6 e 5 a.C., especialmente a partir de Tales de Mileto, marca uma importante transição na cronologia da ciência e da filosofia. Foi a primeira vez que o homem pensou, questionou, experimentou, sem o auxilio de mitos e livre das concepções religiosas, que frequentemente impediam a evolução do conhecimento, além de desmotivarem a investigação, por apresentarem explicações prontas.

Demócrito (Abdera, Trácia, costa norte do mar Egeu, 460 a.C. – 370 a.C.) Filósofo por vezes considerado pré-socrático (mas Sócrates era seu contemporâneo), foi discípulo de Leucipo e o último pensador da natureza. Na verdade, o mais bem sucedido dos representantes gregos dessa tendência, graças à notável acuidade de suas ideias. Ele supunha, por exemplo, que a Via Láctea fosse um grande conglomerado de minúsculas estrelas. E que a formação do universo teria sido o resultado cego de uma intensa movimentação de átomos, podendo, posteriormente, ter formado novos mundos – o que, de maneira impressionante, antecipou o que se conhece hoje sobre as origens do espaço-tempo, com a diferença de que as modernas concepções da ciência são alicerçadas sobre a experimentação, enquanto as conclusões de Demócrito eram apenas intuitivas. Mas sua fama se deve ao fato de ele ter sido o maior expoente do atomismo. É difícil distinguir de suas ideias as de seu mestre Leucipo, mas tudo indica que foi Demócrito quem sistematizou a teoria atômica, segundo a qual tudo que existe é composto por elementos indivisíveis chamados átomos (que significa, em grego, sem partes), uma ideia bastante ousada para a época. Ele entendia que essas unidades não poderiam ser divididas em unidades ainda menores, porque, se assim fosse, a natureza acabaria por se desintegrar totalmente. Além disso, os átomos teriam de ser eternos, já que a matéria não pode surgir a partir do nada, e não poderiam ser iguais, pois, se todos os átomos fossem iguais, não poderiam se combinar para constituir seres tão diferentes, por exemplo, uma montanha ou um pássaro. Como não acreditava em nenhuma divindade que pudesse intervir nos processos naturais, deduzia que as únicas coisas que existiam eram os átomos e o vácuo. O mundo e todas as coisas seriam formados por infinitos átomos de diversos formatos, que existem ao acaso e se chocam o tempo todo. Os átomos da água, por exemplo, seriam lisos e esféricos, para que ela pudesse fluir; os átomos do fogo seriam pontiagudos, por isso causavam a sensação de dor; os átomos da terra seriam ásperos e denteados, para que pudessem se encaixar melhor e formar substâncias duras, como uma rocha. Para Demócrito, o cosmo não é regido por um poder divino, mas sustenta-se por meio de um processo autocriador, no qual os átomos, atuando continuamente, aglomeram-se para constituir novas formas ou desagregam-se, desfazendo outras. Muitos consideram Demócrito o pai da ciência moderna, embora o título seja frequentemente atribuído a Aristóteles, que conheceu e admirou sua obra. Em vida, foi praticamente ignorado em Atenas – os discípulos de Sócrates rejeitavam suas concepções, e poucos se dispunham a segui-lo. Demócrito escreveu cerca de 90 obras, das quais se destacam Pequena ordem do mundo, Do entendimento e Preceitos. Nenhuma delas sobreviveu. Tudo que se sabe sobre ele vem de citações e comentários de outros autores, tendo restado apenas fragmentos de suas teorias.

A teoria atômica de Demócrito estava quase perfeita. Hoje se sabe que os átomos podem ser divididos em partículas ainda menores: prótons, nêutrons e elétrons. Essas partículas, por sua vez, podem ser redivididas em outras, menores ainda. Mas os físicos são unânimes em considerar que, em algum momento, deve haver um limite para essas divisões.

Demócrito era também conhecido como “O filósofo risonho”, talvez porque sua filosofia fosse essencialmente jovial – ou porque costumasse mesmo rir dos desmandos da humanidade.

• Tertuliano, um dos primeiros padres da Igreja, inventou a história de que Demócrito teria furado os próprios olhos para evitar o desejo sexual que as mulheres despertavam nele. Tais relatos difamatórios podem ter sido motivados pela aversão dos líderes cristãos aos filósofos com propostas científicas. Algo semelhante ocorreu com relação a Lucrécio, por meio dos relatos de São Jerônimo.

Hipócrates (Cós, ilha grega próxima da Turquia, 460 a.C. – Tessália, 370 a.C.) Considerado o precursor da medicina como a conhecemos, quase nada se sabe sobre sua vida. Algumas traduções contam que ele vinha de uma família de mágicos da ilha de Cós, que seriam, por sua vez, descendentes diretos de Asclépio, o deus da medicina – algo dessa versão pode ser verdadeira, por exemplo, o fato de que seus antepassados tenham sido interessados em assuntos da saúde e tenham trabalhado como curandeiros, tanto quanto permitiam os conhecimentos da época, daí serem citados como magos. Embora as informações sobre sua vida sejam imprecisas, é possível também que ele tenha conhecido o Egito e lá tenha aprendido algo da tradição médica iniciada por Imhotep. A importância de seu trabalho é devida ao fato de ele rejeitar superstições, como rituais religiosos e crenças místicas que serviam de base ao curandeirismo, e procurar respostas por meio de observações e experiências. Ele supunha que certas doenças fossem mais comuns em algumas regiões do que em outras, o que envolveria fatores climáticos; que determinada etnia apresentasse maior propensão a uma patologia do que outra, assim como diversos males se devessem à qualidade da alimentação ou à hereditariedade – apenas isso bastaria para se eliminar a participação das crendices da época, de que as doenças podiam ser provocadas por maldições, invejas ou por desígnios divinos. Hipócrates fundou, em sua terra natal, a ilha de Cós, a primeira e mais organizada escola de medicina de que se tem notícia na Antiguidade, e foi por causa dessa instituição que ele passou a ser chamado o Pai da Medicina – e não propriamente por ter sido o primeiro médico da história. Deixou instruções para se chegar a diagnósticos por meio de observações minuciosas e notáveis padrões de procedimento. A racionalidade que o orientava deixa clara a presença do caráter científico de sua obra, como se observa neste conselho passado a seus discípulos: “Não deixem nada ao acaso. Não percam nenhum detalhe. Combinem as observações contraditórias. Não tenham pressa.”.

• O ritual solene praticado ao final dos cursos de Medicina chama-se Juramento de Hipócrates, embora não se tenha como certa sua autoria, podendo ser atribuída a estudiosos posteriores. Foi atualizado em 1948 pela Declaração de Genebra.

Méton (Atenas, 460 a.C. – ? ) Astrônomo e matemático grego a quem se deve a descoberta de que 235 meses lunares correspondem a aproximadamente 19 anos solares, o que passou a ser conhecido como ciclo metônico, em sua homenagem – embora haja indicações claras de que esse calendário lunissolar já era usado pelos babilônios. De qualquer forma, essa descoberta foi o resultado de suas próprias observações, a partir do solstício de verão do ano 432 a.C., confirmadas por Aristarco mais de um século depois. Méton foi auxiliado em seu trabalho por Euctemon, de quem nada mais se sabe. Esse ciclo, que trabalhava ao mesmo tempo com as revoluções lunares e solares, foi o calendário grego e de boa parte do mundo antigo por quatro séculos. Posteriormente, o astrônomo Calipo, dando prosseguimento aos estudos de Méton, propôs um ciclo mais longo, cerca de quatro vezes maior, conhecido como ciclo calipiano, com um dia a menos no final das contas. (O chamado Mecanismo de Anticítera, possivelmente a mais sofisticada máquina construída na Antiguidade, trabalha com os dois ciclos, em mostradores distintos.) Esses ciclos e cálculos foram finalmente substituídos pelo calendário juliano em 46 a.C, desenvolvido pelo astrônomo Sosígenes e estabelecido por Júlio César, no qual a cada quatro anos se acrescentou um ano bissexto, com um dia extra para compensar as imperfeições que se acumulavam pelos fragmentos de horas e minutos ao longo do tempo. O pouco que se sabe sobre Méton nos chegou por meio de historiadores muito antigos. O dramaturgo Aristófanes o fez personagem secundário em uma de suas peças. As ruínas do observatório de Méton ainda podem ser vistas em Atenas, próximo ao prédio do antigo parlamento. Nenhum de seus trabalhos originais sobreviveu.

Os judeus conservam o calendário grego, por isso o ciclo metônico é usado até hoje, em função de suas tradições religiosas. A data da Páscoa, também na tradição cristã, é calculada com base no ciclo metônico.

Platão (Atenas, 424 a.C. – 348 a.C.) Seu nome era Arístocles, e ele ganhou o apelido de Platão, que significa amplo, largo, possivelmente por ter sido um homem robusto, de ombros grandes (de onde deriva omoplata). Pode ser, também, que se tratasse apenas de uma metáfora para a amplitude de suas ideias. As datas de seu nascimento e morte são incertas e variam de uma fonte para outra, mas sabe-se que teve origem em uma estirpe aristocrática, tendo inclusive um rei como ancestral, por parte de pai. Com Sócrates e Aristóteles, compõe o trio de filósofos mais influentes da cultura ocidental. Após dedicar-se ao serviço militar e ter cultivado ambições políticas, tornou-se discípulo de Sócrates, o que transformaria radicalmente sua vida. Com a condenação de seu mestre à morte, Platão deixou Atenas, tendo viajado, durante os anos seguintes, pela Itália e pelas cidades gregas da África. Ele acreditava que os povos deveriam ser governados por filósofos, e chegou mesmo a tentar instruir o rei Dionísio II, de Siracusa, com tal propósito, o de torná-lo um sábio. Mas o tirano não concordava com muitas de suas ideias, aborrecia-se com algumas de suas declarações, que não condiziam com seus planos de governo, e acabou vendendo Platão no mercado de escravos. Resgatado por outros filósofos, que o compraram, com muita dificuldade conseguiu escapar e voltar à Grécia a salvo, aprendendo assim a importante lição de que os homens sábios deveriam se afastar ao máximo dos governantes, sob risco de perderem a vida. De volta a Atenas, fundou o que pode ter sido a primeira universidade da história, que ele chamou de Academia, pelo fato de situar-se nos jardins onde teria vivido Academus, um lendário cidadão grego. Daí em diante, passou a dedicar-se inteiramente à filosofia – tanto como, na prática, à Academia –, e isso até o fim de sua vida, que se encerrou com uma morte calma, aos 80 anos de idade, enquanto dormia. Enquanto Sócrates evitava a escrita por entender que as ideias mudavam (e portanto não deveriam ser fixadas em palavras), Platão deixou talvez o conjunto de textos mais solidamente articulados jamais publicados por um filósofo – ele era também um grande autor, a quem se deve um estilo elegante e claro. Por meio de uma série de diálogos escritos, divulgou suas ideias e inclusive muito do que hoje se sabe sobre o seu célebre mestre. (Cuidadoso, Platão nunca se incluía nesses textos.) Entendia que o conhecimento não tinha uso prático, por isso dedicou-se apenas à filosofia moral, atribuindo à filosofia natural (que hoje se chama ciência) um segundo plano, menos relevante. Tomando por base a suposição de que o cosmo fosse perfeito, concluiu que os corpos celestes tinham uma forma geométrica exata, além de descreverem círculos perfeitos em sua órbita, o que mais tarde foi desmentido pelas leis de Kepler. Propôs também um esquema do universo que se manteve por quase dois milênios, até que as descobertas de Copérnico e Galileu o tornassem obsoleto. Acreditava que os seres vivos se originavam de uma matriz divina, da qual derivavam todos os indivíduos na realidade. Segundo essa concepção, os coelhos, por exemplo, apresentariam mínimas variações entre um indivíduo e outro, porém nunca deixando de ser, todos, um coelho, sem se afastar muito de sua forma original. A influência dessas ideias errôneas acompanhou a humanidade por muitos séculos, tendo inclusive desmotivado outras concepções menos fantasiosas e mais plausíveis. Em sua obra A República, Platão descreveu o chamado mito da caverna, segundo o qual tudo o que vemos é apenas uma tênue sombra do que realmente e essencialmente é, como se estivéssemos no interior de uma caverna, representação de nossas limitações sensoriais, sem acesso ao verdadeiro mundo “lá fora”. De acordo com essa fábula, todos nós seríamos habitantes de uma caverna, apenas vislumbrando manifestações de uma realidade além de nosso alcance. Outra interpretação sugere que a caverna seria o ambiente de nossas opiniões obscuras, enraizadas por meio da tradição, que poderiam ser transformadas pelo conhecimento de novas ideias e possibilidades de ver o mundo. Assim, sair da caverna e conhecer outras realidades que fizessem questionar a visão de mundo convencional, pressuporia sérios riscos, como o de ser tachado de louco ou mesmo ser morto por outros membros do grupo. (A condenação de Sócrates pode tê-lo inspirado a desenvolver essa alegoria.)

• O célebre biólogo Ernst Mayr sugeriu que a doutrina filosófica de Platão (hoje chamada essencialismo) foi o que retardou durante séculos a descoberta da evolução das espécies. Na concepção platônica, um cavalo nada mais era que uma pálida sombra ou uma variação imperfeita da forma ideal de um cavalo, que teria como matriz um Cavalo Essencial, perfeito, pairando em alguma parte do espaço conceitual.

• A Academia sobreviveu por vários séculos até que, em 529, Justiniano, imperador romano do Oriente, decretasse seu fechamento. Era, então, o último remanescente importante do paganismo no novo mundo cristão.

Eudoxo 34Eudoxo (Cnido, atual Tekir, sudoeste da Turquia, 408 a.C. – Cnido, 355 a.C.) Astrônomo e matemático grego, estudou na Academia platônica, depois foi ao Egito, cursar o que seria, à época, o equivalente a uma pós-graduação. Voltou a Atenas, onde lecionou por muitos anos. Suas demonstrações em geometria seriam aperfeiçoadas posteriormente pelo trabalho de Euclides, e seu sistema para calcular comprimentos e áreas que não podiam ser mensurados diretamente foi desenvolvido por Arquimedes, um século depois. Eudoxo foi o primeiro grego a demonstrar que um ano não tinha exatamente 365 dias, pois somavam-se seis horas a cada ciclo. Como os egípcios já sabiam disso, possivelmente ele foi apenas o divulgador desses cálculos, mais tarde estabelecidos no calendário juliano. Aceitava a ideia platônica de que os cinco planetas moviam-se em círculos perfeitos, mas, a partir de suas próprias observações, concluiu que o movimento real não confirmava tal proposição – mesmo assim, ele não divulgou os novos resultados de seu trabalho, talvez por receio de desagradar ao mestre. Desenhou um mapa do mundo conhecido melhor que o do pioneiro Hecateu de Mileto e foi o primeiro grego a esboçar um mapeamento das estrelas, aplicando ao céu divisões de latitude e longitude, como se faz com a superfície terrestre. Eudoxo criou diversos instrumentos para a observação astronômica e em sua cidade natal fundou um observatório. Como matemático, foi o precursor do cálculo integral.

Conta-se que seu mestre, Platão, o teria recebido com um banquete em Atenas. Eudoxo teria dirigido a Academia enquanto Platão esteve na Sicília, em 367 a.C.

Cícero considerava Eudoxo o maior astrônomo grego.

Uma cratera na Lua, uma cratera em Marte e o asteroide 11709 Eudoxus têm seus nomes em sua homenagem.

Aristóteles (Estagira, região da Trácia, 384 a.C. – Atenas, 322 a.C.) Com a morte do fundador da Academia, seu mestre Platão, a tendência era que Aristóteles assumisse a direção da primeira instituição de ensino superior do mundo. Era o mais brilhante entre os discípulos do renomado filósofo, que o chamava “A inteligência da Academia” e “O leitor”, em razão de sua incontida curiosidade. Mas, em seu leito de morte, Platão indicou um sobrinho ao cargo, e Aristóteles deixou Atenas, iniciando uma viagem a outras regiões da Grécia. Casou-se com a sobrinha de um tirano e, com a ascensão de Felipe II ao trono, foi chamado à Macedônia, onde se tornaria preceptor de Alexandre, o Grande, nessa época com 14 anos de idade. Com o tempo, Alexandre passou a preparar-se para uma vasta campanha militar, e não mais dispunha de tempo ou vontade para educar-se com seu mestre. De volta a Atenas, Aristóteles fundou o Liceu (Lúkeion), uma instituição de ensino semelhante à de Platão, porém voltada para as ciências naturais. O fato de ele ministrar suas aulas ao ar livre, por vezes caminhando entre as árvores próximas ao Liceu, deu origem a que se definissem seus alunos como peripatéticos, isto é, os que passeiam, circulam, caminham enquanto aprendem. Após a morte precoce de Alexandre, o filósofo decidiu deixar Atenas, que agora, por razões políticas, se voltava contra os macedônios. Em suas palavras, ele queria evitar que se cometesse um segundo crime contra a filosofia – uma referência à condenação de Sócrates. Com exceção da matemática, sua obra examina todas as formas de conhecimento, da ética à poesia, da ciência à metafísica. Suas ideias influenciaram o judaísmo, o islamismo e o cristianismo. Suas concepções sobre as ciências físicas permaneceram com aura de autoridade por muitas gerações seguintes, predominaram no pensamento medieval e só foram substituídas pelo mecanicismo de Newton. Porém, na biologia, algumas de suas anotações foram confirmadas ainda no decorrer do século 19. Antecipou de maneira brilhante a noção de evolução das formas vivas, e seus cadernos de desenho, tratando de anatomia comparada tendo como base animais marinhos, indicavam que ele parecia estar no caminho certo, por pouco não atinando com a origem comum das espécies, descrita por Darwin muitos séculos mais tarde. Ironicamente, sendo ele de cultura ocidental, seus textos foram redescobertos pela Europa cristã por meio dos árabes, que o reverenciavam e o consideravam o preceptor da inteligência humana. Por isso, sua obra só foi traduzida para o latim tardiamente, entre os séculos 12 e 13. A Igreja assimilou muitas de suas concepções errôneas (por exemplo, ele acreditava que o coração fosse o centro da vida e que o cérebro servisse apenas para resfriar o sangue) e subestimou aquelas que lhe conferiam o mérito de um pioneirismo científico sem precedentes. Estranhamente, quanto mais errava, mais era admirado e cultivado pela Igreja. Por causa dessa curiosa singularidade, ele, que ficou conhecido como “O pai da ciência”, teve seu pensamento contestado pelos representantes da Revolução Científica.

• Cerca de um terço de seu trabalho sobreviveu. Tanto quanto Platão, Aristóteles tinha um talento especial com as palavras, cujo estilo Cícero chamou de “rio de ouro”, referindo-se à elegância do fluxo de seu texto. Mesmo assim, a autenticidade de parte de sua obra ainda é questionada.

Calístenes, sobrinho de Aristóteles, optou por acompanhar Alexandre, o jovem conquistador, sendo, mais tarde, executado por ele.

Epicuro 3 4Epicuro (Samos, ilha do mar Egeu, 341 a.C. – Atenas, 270 a.C.) Filósofo grego que considerava o prazer como o maior bem do ser humano. Por causa disso, o termo “epicurismo” muitas vezes é usado equivocadamente como sinônimo de “hedonismo”, o que pode ter sido resultante de distorções ensinadas mais tarde por seus seguidores. Foi o primeiro filósofo a pensar seriamente na felicidade humana e em como alcançá-la. Desde criança, financiado por seu pai, teve oportunidade de estudar com reconhecidos mestres do pensamento, o que nem sempre o satisfazia em sua busca por respostas. Naquela época, Hesíodo afirmava que todas as coisas provinham do caos, e isso parecia contentar a boa parte dos pensadores. Mas Epicuro se perguntava, então, de onde teria vindo o caos. Em Téos, cidade marítima da região da Jônia, estudou com Nausífanes, que fora discípulo de Demócrito, e foi então que teve contato com a teoria atomística, uma ousada explicação do universo que outros pensadores negavam e mesmo ridicularizavam, mas que Epicuro considerou a melhor resposta para explicar a existência de todas as coisas – de certa forma, a ciência já orientava seu pensamento. Depois de ensinar em vários locais do mundo grego, instalou-se em Atenas, em 306 a.C., onde fundou uma escola chamada “O jardim”, que se tornou muito popular – foi a primeira escola a admitir mulheres, o que chocou o ambiente erudito da época, exclusivamente masculino. Epicuro considerava a fama, a glória e a ambição por bens materiais desejos criados pela sociedade, portanto artificiais. Acreditava que a felicidade consistia em viver com moderação, comportar-se com brandura, sem medo dos deuses e da morte. Para ele, a morte não afetava e não deveria incomodar nem aos vivos nem aos mortos: aos vivos, simplesmente porque estavam vivos e não mortos; e aos mortos, porque estes não existiam mais. Dentre outros pensamentos, considerava a amizade mais importante que o amor, uma das razões, apenas, de ter sido sempre muito querido por amigos e discípulos. Seus ensinamentos perduraram por sete séculos, alcançando o fim do Império Romano, até que as correntes mais fortes do cristianismo varressem da cultura ocidental todos os pensamentos pagãos.

Epicuro sofria de cálculo renal, um mal que provoca dores intensas, o que pode ter contribuído para que ele valorizasse ainda mais o bem-estar e as sensações de prazer físico.

Nada sobreviveu de seus escritos, que perfaziam algo em torno de 300 trabalhos. Mas duraram os bastante para alcançar Lucrécio, que foi um grande divulgador de suas ideias e cuja obra alcanço a atualidade.

Em A divina comédia, de Dante Alighieri, Epicuro e seus discípulos foram condenados ao Inferno dos cristãos, onde permaneciam em túmulos abertos e ardentes.

As concepções de Demócrito, que propunham a existência dos átomos, apesar de menosprezadas por outros filósofos e denegridas pelos religiosos, nunca foram totalmente esquecidas.

Arquimedes (Siracusa, Sicília, 287 a.C. – 222 a.C.) Filho de um astrônomo sobre quem nada se sabe, é visto como o maior cientista e inventor da Antiguidade. Sua excepcional inteligência e sua capacidade inventiva somente foram comparadas às de Isaac Newton, que viveu dois milênios mais tarde. Em Alexandria, foi aluno e amigo de Cônon, que por sua vez fora discípulo do célebre matemático Euclides. De família aristocrática, Arquimedes não dependia da ajuda dos reis egípcios, por isso deixou o grande centro cultural que era Alexandria (o que não era comum na época, entre os jovens aprendizes e pensadores) e retornou a sua cidade natal. Certa vez, Hierão II, rei de Siracusa, pediu a ele que encontrasse uma maneira de determinar se uma coroa, que o tirano acabara de receber de seu ourives, era realmente de ouro puro ou se continha alguma mistura de prata. Em outro momento, ao entrar em sua banheira, o cientista observou que o volume de água que transbordava era igual ao volume de seu corpo, que tomava o lugar dela. Entendeu que poderia usar o mesmo raciocínio, com maior grau de precisão, para medir o volume da coroa sem danificá-la: se os volumes comparados, entre peças de ouro e de prata, fossem iguais, a coroa seria mesmo de ouro; se fosse uma falsificação, teria um volume maior, pois o volume da prata é maior que o do ouro. Entusiasmado com a descoberta, saiu correndo nu, pelas ruas da cidade, gritando Eureka! – que significa achei, encontrei. (Essas anedotas dificilmente podem ser confirmadas: não constam da obra do próprio cientista e, além disso, no caso específico da coroa, o método exigiria uma precisão que talvez não fosse possível com as técnicas disponíveis na época.) Arquimedes inventou o princípio da alavanca, no qual o peso e a distância são inversamente proporcionais, e criou o cilindro helicoidal oco, que servia como bomba d’água ao ser girado, e que ficou conhecido como Parafuso de Arquimedes, embora os egípcios já o usassem muito tempo antes. Com tais invenções, fundou a ciência da hidrostática e expôs pela primeira vez a lei do empuxo e a noção de centro de gravidade. Outra das ironias da história, ele não se orgulhava de seus inventos, que não considerava dignos de um filósofo, por isso só publicou seus trabalhos matemáticos. Chegou ao mais preciso valor de pi (π, razão entre o comprimento de uma circunferência e seu diâmetro) que se conhecia até então, superando os cálculos de seus predecessores. Arquimedes era também um guerreiro. Em 218 a.C., teve início a segunda Guerra Púnica, travada entre Roma e Cartago, a famosa cidade-estado fenícia, cujo líder, Aníbal, acabara de invadir a Itália. O sucessor de Hierão II posicionou-se ao lado de Cartago, o que motivou os romanos a atacarem Siracusa. Essa guerra, planejada para ser breve, esbarrou na engenhosidade de Arquimedes, que passou a criar uma série de armas e estratégias surpreendentes para resistir aos invasores. Entre elas, estreitas ameias de onde partiam setas, sem que os arqueiros pudessem ser contra-atacados, e guindastes mecânicos que podiam virar navios inimigos que se aproximassem da costa. Falava-se também de um sistema de lentes que concentravam a luz do Sol e podiam incendiar as embarcações romanas em pleno mar, relato que, como outros, não pôde ser confirmado. O cerco estendeu-se por três anos, até que, por fim, Siracusa caiu em mãos inimigas. O general Marcelo, comandante da missão, admitia que, de certa forma, aquela fora uma guerra de muitos contra um homem só: Arquimedes, o cérebro por trás da resistência. Durante a ocupação da cidade pelos romanos, o inventor mostrou-se indiferente e altivo, ignorando a rendição. Estava entretido com um problema teórico, desenhando figuras geométricas na areia, quando foi abordado por um soldado que anunciou sua prisão, ordenando-lhe que o acompanhasse, ao que teria respondido: “Não perturbe meus círculos.” O soldado, ao que tudo indica, um homem prático e sem tempo para antipatias, matou-o com sua espada. Marcelo, cujas ordens eram para que capturassem Arquimedes com vida e o tratassem com distinção (uma atitude incomum para um líder da época e, talvez, para qualquer época), lamentou sua morte e promoveu funerais dignos de um homem ilustre. O general levou, como única pilhagem pessoal de Siracusa, um artefato construído pelo genial inventor: um engenhoso planetário que foi admirado e estudado em Roma.

• Conta-se que a coroa avaliada por Arquimedes continha, de fato, porcentagens de uma liga de prata, o que levou à execução do ourives. Se for verdadeiro o relato de que o cientista correu nu pela cidade até o palácio do rei, é preciso lembrar que a nudez não incomodava os gregos, e isso pode ter sido visto apenas como uma divertida curiosidade.

• O princípio da alavanca explica por que um grande bloco de pedra pode ser erguido por um simples pé de cabra e ajuda a compreender melhor a construção de algumas das magníficas construções da Antiguidade. A tradução dos trabalhos de Arquimedes para o latim, que se deu somente em 1544, contribuiu para os estudos de cientistas como Stevinus, Huygens e Galileu.

• Os romanos não primavam pelas inovações. Usavam a ciência apenas com funções militar e política, enquanto outros povos, contemporâneos desse mesmo período, desenvolviam a matemática, a astronomia e outras ciências. Sobre Arquimedes, admitiam que não possuíam, de seu lado, ninguém como ele.

• A segunda Guerra Púnica ficou célebre por causa da travessia dos Pirineus e dos Alpes pelos exércitos de Aníbal, um dos mais brilhantes estrategistas da Antiguidade, o único que se atreveu a atacar Roma, tendo chegado muito perto de capturá-la, o que teria sido um feito notável. Foi bem sucedido em muitas batalhas, mas entre as baixas sofridas durante a travessia das cordilheiras, estavam muitos de seus elefantes de guerra, que sucumbiram por hipotermia.

EratóstenesEratóstenes (Cirene, atual Shahhat, na Líbia, 276 a.C. – Alexandria, 194 a.C.) Um gênio múltiplo, quase esquecido, que foi matemático, astrônomo, geógrafo, gramático, crítico literário, tendo se destacado até mesmo na música, segundo Ptolomeu III, que o havia trazido de Atenas para trabalhar na célebre Biblioteca de Alexandria, o maior centro cultural de toda a Antiguidade. Entre suas inúmeras obras, destacam-se o tratado Astronomia (seu mapa celeste incluía 675 estrelas) e Sobre os significados, este último citado como um notável trabalho de Geometria, antes de extraviar-se definitivamente, talvez no século 4. No que se refere a seus estudos matemáticos, o chamado Crivo de Eratóstenes, um sistema para determinar números primos, ainda é uma ferramenta útil na teoria dos números. Escreveu uma obra chamada Geográfica, na qual utiliza termos específicos (como geógrafo, por exemplo) para uma matéria até então vista como apenas técnica – por causa disso, é considerado o fundador da disciplina Geografia. Foi o primeiro estudioso a se preocupar com datas precisas e propôs uma cronologia que tomasse por base a Guerra de Troia, ocorrida mil anos antes. Atribuía a invenção da cartografia a Anaximandro, talvez desconhecendo que essa técnica já era usada em Mileto. Ele próprio estudou descrições de expedições empreendidas durante a expansão do império macedônio, sob o comando de Alexandre, o Grande, para compor o maior e mais completo mapa do mundo conhecido, abrangendo desde as Ilhas Britânicas até o Ceilão (hoje Sri Lanka), num desenho de tal amplitude que só seria superado mais tarde por Hiparco e por Estrabão. Também sugeriu que se acrescentasse um dia ao calendário a cada quatro anos, o que foi rejeitado pelos conservadores e aceito somente nos tempos de Sosígenes, um século mais tarde. Apesar de tantas e múltiplas habilidades, Eratóstenes é especialmente lembrado por um feito particularmente simples, mas muito engenhoso: a medição da circunferência da Terra. Por volta de 240 a.C., leu num papiro a intrigante informação de que em Siena, localidade próxima à primeira catarata do rio Nilo, ao meio-dia, no solstício de verão, as varetas e colunas não faziam sombra. Como o Sol está tão distante que seus raios são paralelos quando chegam à Terra, a única explicação possível era a de que havia algum tipo de curvatura entre um local e outro. Os mapas da época eram feitos como se o observador os visse do alto, e eram corretos em relação à região do Mediterrâneo. Porém, iam ficando cada vez mais imprecisos conforme os viajantes se afastavam do núcleo civilizatório que ocupava essa região. Eratóstenes enviou alguns homens a Siena e os orientou a medir o comprimento da sombra das varetas em determinada data, comparando posteriormente as informações com as sombras que podia, ele próprio, medir em Alexandria em unidades gregas de distância (stadia). Com a diferença encontrada, determinou ângulos resultantes dessa curvatura e os multiplicou supondo que o planeta fosse esférico, chegando a 40 mil quilômetros, o que é praticamente certo. Em razão dessa dimensão gigantesca, jamais imaginada até então, ele concluiu que os mares eram muito maiores do que supunham seus contemporâneos, e deviam ser unidos de alguma forma. Isso significava que todo o mundo conhecido ocupava apenas uma pequena porção de superfície do planeta. Pior ainda: a maior parte devia ser ocupada por água. A verdadeira dimensão da Terra, em relação ao pensamento dos homens da época, era estonteante e os fazia se sentir menores, afinal as terras sob seus domínios já pareciam muito extensas, apoiando motivações de patriotismo e sonhos de grandeza quanto à expansão de seus territórios, e eles simplesmente tinham dificuldade em assimilar que todas essas “grandezas” fossem tão pequenas. Um valor menor, calculado depois por Possidônio, foi melhor aceito, fazendo declinar o trabalho de Eratóstenes ao esquecimento. Com a ascensão da Igreja, essas e muitas outras conquistas dos cientistas antigos permaneceram ignoradas por séculos, até que no período do Renascimento voltaram a ser seriamente consideradas, principalmente por sua utilidade. Aos 82 anos, cego e cansado, Eratóstenes parou de se alimentar e se deixou morrer.

• A comprovação de que todos os mares eram unidos só seria feita quase dois milênios mais tarde, com as viagens de Fernão de Magalhães, o primeiro a circunavegar toda a Terra.

• Os três volumes que compunham a Geográfica foram quase inteiramente perdidos, restando apenas fragmentos. Essa obra foi citada por Plínio, o Velho, o primeiro enciclopedista e precursor das descrições de terras longínquas.

• O apelido de Eratóstenes era Beta, a segunda letra grega, porque seus contemporâneos, talvez enciumados, alegavam que ele era sempre o segundo em tudo, tendo suas áreas de conhecimento um representante máximo. Para se ter uma ideia, ele foi amigo de Arquimedes e tinha interesses universais como Aristóteles.

• Seu livro Sobre a medição da Terra, com os detalhes de seus procedimentos, também se perdeu.

Lucrécio (Titus Lucretius Carus) (Roma, c. 99 a.C. – c. 55 a.C.) Filósofo e poeta romano, viveu num período de dominação do Império, que primava pela liderança política, militar e econômica, mas nunca pela inovação científica, que continuaria em mãos dos gregos até o fim da Antiguidade, no século 5. Nada se conhece sobre sua vida, exceto que morreu relativamente jovem. Cícero editou seus livros, sendo o mais famoso, em forma de versos, Sobre a natureza das coisas, no qual defende a filosofia de Epicuro como uma chave para a compreensão dos segredos do universo e para a realização da felicidade humana, razão pela qual se propôs a ingrata tarefa solitária de tentar libertar os romanos do domínio religioso por meio do conhecimento da realidade das coisas. Concordava com as ideias de Demócrito, convencido de que tudo que existe seria formado por átomos, inclusive a luz visível e até mesmo objetos imateriais, como a mente, talvez constituídos por partículas mais delicadas do que as que formavam a matéria bruta. Lucrécio imaginava um universo em evolução, um conceito extremamente avançado para a época, segundo o qual, a partir de um passado irreconhecível, todas as coisas, inclusive a sociedade humana, teriam evoluído lentamente até o estado atual. Acreditava na existência de criaturas vivas que, mesmo invisíveis, poderiam causar doenças – o que antecede em quase 20 séculos a microbiologia. Segundo ele, a alma é mortal, e o medo da morte teria motivado a criação do mito da eternidade individual. Sugeriu que, logo após a morte de alguém, restaria um simulacro temporário, o que explicaria a visão dos fantasmas que assombravam os vivos. Seu trabalho tem também grande valor literário, o que o consagrou como um dos mais importantes poetas latinos. Mesmo assim, seus poemas sobreviveram precariamente, não tendo sido publicados durante toda a Idade Média, período sob domínio do cristianismo.

• Um de seus manuscritos foi redescoberto em 1417. Com a invenção da imprensa pouco tempo depois, o poema foi impresso e largamente difundido, o que fez de Lucrécio uma referência na divulgação das teorias atomísticas de Demócrito, estendendo sua influência até Dalton.

• São Jerônimo, quatro séculos mais tarde, inventou a história de que Lucrécio sofria surtos de loucura e teria escrito seu livro mais importante em intervalos de lucidez. Além disso, teria ingerido veneno (um filtro de amor) para suicidar-se. Provavelmente essa versão trágica e falsa se deva ao fato de Jerônimo sentir aversão pela figura de Lucrécio, como também por suas ideias, declaradamente perigosas para a religião.

Lucrécio foi um importante divulgador dos trabalhos de Epicuro, um precursor do pensamento voltado para a felicidade humana.

HorácioHorácio (Quintus Horatius Flaccus) (Venúsia, 65 a.C. – Roma, 8 a.C) Considerado o primeiro literato profissional da Roma antiga, participou da conspiração que culminou com o assassinato de Júlio Cesar e chegou a comandar uma legião de soldados que lhe foi designada por Bruto. Filho de um escravo liberto que prosperou trabalhando como tesoureiro de leilões, Horácio pôde, a despeito de sua origem simples, beneficiar-se de uma boa formação acadêmica, que iniciou em Roma e completou em Atenas. Parte de seus poemas revela influência da filosofia de Epicuro e trata da brevidade da vida e da questão de se aproveitar o tempo, ideias recuperadas na poesia do Arcadismo, muitos séculos depois. Anistiado posteriormente, trabalhou em Roma como escrivão, atividade que mais o aproximou da filosofia e das letras. Seu amigo Virgílio, o célebre poeta autor da Eneida, apresentou-o a Caio Mecenas, que era então ministro e homem de confiança do imperador Augusto. Com essa amizade, Horácio passou a frequentar os salões da aristocracia romana, ficou conhecido por seus versos e recebeu apoio financeiro para dedicar-se inteiramente a sua arte. Um de seus poemas mais conhecidos, a “Ode n. 11”, aconselha a aproveitar o tempo presente e a descrer do futuro (“Carpe diem, quam minimum credula póstero.”), tornando-se, para muitos, uma espécie de filosofia de vida.

Caio Mecenas, cujo nome passou a significar patrocinador das artes, foi um dos mais importantes estadistas romanos. Destinava parte da fortuna de sua família ao incentivo da literatura entre os círculos intelectuais do império, que vivia seu auge.

Plínio, o Velho (Caio Plínio Segundo) (Como, 23 – Stabia, próximo a Nápoles, 79) Naturalista e autor romano, caso raro em que um mesmo homem conciliou uma importante carreira militar com a erudição, alistando-se primeiro na cavalaria, sendo promovido, no decorrer da vida, a cargos mais altos e terminando como comandante de navios de guerra da frota romana – no tempo em que o comandante realmente ia à guerra. Plínio era o modelo perfeito do pesquisador compulsivo: se não estava lendo ou ouvindo alguma coisa de alguém, estava escrevendo. Em suas viagens, anotava inúmeras observações, tentando satisfazer sua incontrolável curiosidade e busca por conhecimento. Usava todo tempo livre para o estudo, tendo sido um importante compilador de textos de seus antecessores. Sua obra mais conhecida, História natural, em 37 volumes, é o mais próximo que se pode ter de uma enciclopédia na Antiguidade, tendo se tornado um modelo para trabalhos posteriores, com descrições de animais, vegetais, pedras e toda sorte de fenômenos geográficos, além de estudos sobre costumes e comportamento de outros povos, numa antecipação da Antropologia como a conhecemos. O Império Romano vivia sua fase de ouro, e a expansão sob o domínio dos césares permitiu a Plínio, como líder de diversas missões militares, conhecer lugares distantes, faunas e floras nunca vistas por seus compatriotas. O problema com seu compêndio enciclopédico, um vasto trabalho individual tentando abranger todas as áreas do conhecimento, é que Plínio, o único romano a realizar tal feito, não usava critérios científicos (como fazia Aristóteles, por exemplo) e aceitava como verdade informações passadas por viajantes das mais diversas procedências. Descrevia lobos e também lobisomens, mesmo sem alguma vez ter visto um – sendo possivelmente a primeira vez que se tenha mencionado, em um documento escrito, a figura do lobisomem, mais tarde parte integrante do folclore medieval, trazido à América por colonizadores europeus. Plínio considerava com naturalidade a existência de sereias, dragões (que ele pensava serem inimigos naturais do elefante) e inúmeros casos bizarros dos confins da Terra, como os homens sem boca, que se alimentavam do aroma das flores. Sugeriu que o avestruz (recém-descoberto pelos romanos) fosse o cruzamento de uma girafa com uma melga, assim como achava possível que o Minotauro fosse resultado do acasalamento de um touro com uma mulher. Seus escritos enumeravam uma lista de bestas lendárias, entre basiliscos, crocotas e mantícoras, que posteriormente povoariam o imaginário medieval. Era um tempo mágico e fascinante, uma era pré-Darwin, quando ainda se podia considerar a existência de certas espécies como produtos de cruzamentos improváveis, tanto quanto era possível acreditar em sereias, anjos e cavalos com asas. Ironicamente, o mérito da obra de Plínio foi justamente mesclar a realidade e a imaginação, mantendo aceso o fascínio pela exploração do mundo e dos fenômenos naturais durante os séculos seguintes, até que, logo após o Renascimento, a Revolução Científica passasse a revestir de métodos mais confiáveis os objetos de investigação em geral. Não há evidências de que Plínio tivesse a pretensão de elaborar uma enciclopédia. O fato é que ele se interessava por uma grande diversidade de assuntos e era obcecado por saber tudo. Como filósofo da natureza, considerava o elefante o animal mais próximo do homem, por agir orientado por virtudes, como a prudência, a equidade e por sentir amor ao próximo. Quanto aos seres humanos, alegava ser impossível definir a felicidade, por tratar-se de algo subjetivo e não passível de conclusões finais. Dedicou especial atenção a refletir sobre os partos, por assinalarem uma fronteira decisiva: dependendo das dificuldades envolvidas, quem existe poderia não existir ou ser diferente, portanto muito do destino humano era decidido ali, naquele momento singular. Plínio entendia que as esperanças e os medos de um além-túmulo eram ilusórios. Para ele, a alma não sobrevivia à morte, quando então se iniciaria uma não-existência equivalente (e simétrica) àquela que precedia o nascimento. Também por isso, aconselhava que se vivesse plenamente o presente, permitindo que a alma se dobrasse sobre si mesma, fruindo assim dos encantamentos do mundo natural. Segundo ele, mesmo quando os fenômenos são esclarecidos, eles não deixam de ser maravilhosos. Plínio morreu asfixiado pelos gases tóxicos do Vesúvio, que tinha acabado de soterrar as cidades de Pompeia e Herculano, do qual tentou se aproximar, movido por sua irrefreável curiosidade científica. Ele estava com sua frota em uma base naval a alguns quilômetros dali quando foram surpreendidos pela erupção. Ordenou que lhe preparassem um barco e uma pequena tripulação, rumou em direção a Pompeia, mas antes disso teve que aportar em Stabia, em razão das altas temperaturas e das nuvens de gases vulcânicos desviadas pelo vento. De lá, ele seguiu por terra enquanto os moradores do local tentavam fugir, em sentido contrário. Pouco depois, seu corpo foi encontrado por seus companheiros.

Plínio, o Velho, não se casou nem teve filhos. Plínio, o Jovem, era seu sobrinho, filho de sua irmã, que se chamava Plínia.

Em Otelo, de Shakespeare, o personagem-título encanta Desdêmona com narrativas extraídas dos textos de Plínio.

Na língua inglesa, a Vulcanologia usa o adjetivo plinian, referindo-se a erupções em série, como as que destruíram Krakatoa no século 19.

Hipácia (Alexandria, 355 ou 370 (?) – 415) Matemática e filósofa de cultura grega, filha de Téon, um importante homem de ciências que era também diretor da histórica Biblioteca de Alexandria, foi a única mulher erudita da Antiguidade. Influenciada pelo pai, seguiu a carreira acadêmica, tornando-se professora de Filosofia e Astronomia. Como revelam seus contemporâneos, ela ensinava sem distinção a cidadãos de Alexandria e a estrangeiros, muitas vezes expondo seus conhecimentos em público, em atenção às pessoas que a abordavam pelas ruas. Hipácia era admirada por sua inteligência e por sua atuação em diversas áreas, desde a Álgebra até a Oratória, e alguns dos renomados estudiosos da região chegavam a lhe pedir conselhos. Tinha fama de solucionar intrincados problemas matemáticos que haviam desafiado e vencido outros pensadores de seu tempo. As descrições de sua beleza física somam-se às suas principais qualidades como estudiosa e motivaram diversas propostas de casamento, que ela recusou em nome de sua carreira, à qual se dedicava com prioridade. (Sabendo-se que Hipácia, desde menina, seguia a rigorosa disciplina, ensinada por seu pai, de conservar a mente sã num corpo são, é bem possível que tenha sido fisicamente bela). Mas todo o potencial dessa mulher especialmente brilhante, que primava pela razão e por um incansável interesse no conhecimento, seria em breve aniquilado. O bispo católico Cirilo, então nomeado Patriarca de Alexandria, era um forte defensor da doutrina cristã, atuando na erradicação e na condenação das heresias, enquanto Hipácia, possuidora de notável inteligência e orientada por sólida formação científica, não compartilhava de suas crenças. Cirilo incitava a população a perseguir os pagãos (o que era muito comum nos primeiros séculos do cristianismo), e assim, em um desses episódios de hostilidade e violência que pontuam a história humana, um grupo de cristãos indignados acercou-se de Hipácia, retirou-a de sua charrete, arrastou-a pelas ruas até uma igreja, rasgou suas vestes e, utilizando-se de cacos de cerâmica e conchas afiadas, arrancou sua pele, procedendo a um brutal linchamento que a levou à morte. Os membros de Hipácia foram arrancados, e o que restou de seu corpo, lançado às chamas. Ela foi a última representante do esplendor cultural da Antiguidade e a última pessoa a trabalhar na Biblioteca de Alexandria antes de sua destruição e antes que o mundo ocidental sucumbisse, por mil anos, à chamada Idade das Trevas.

• Nas palavras de Carl Sagan: “A glória da Biblioteca de Alexandria é agora uma lembrança apagada. Seus últimos remanescentes foram destruídos logo após a morte de Hipácia. Foi como se uma civilização inteira tivesse sofrido uma cirurgia cerebral autoinfligida, e a maioria dessas lembranças, descobertas, ideias e sentimentos fossem extintos inexoravelmente. A perda foi incalculável.”

O mitologista Joseph Campbell lembra que “no tempo de Teodósio, no quarto século, a única religião permitida era aquela do trono bizantino [o cristianismo]. O vandalismo envolvido na destruição dos templos pagãos da Antiguidade poucas vezes foi igualado na história mundial.”

O dia de São Cirilo, bispo e doutor da Igreja, é comemorado todo 27 de junho.

FibonacciLeonardo Fibonacci (Pisa, c. 1170 – c. 1250). Matemático italiano considerado o mais importante da Europa medieval. Escreveu diversos livros sobre álgebra e geometria, sendo sua obra principal o Liber abaci (livro do ábaco e, por extensão, livro do cálculo), de 1202, o mais relevante trabalho no campo da matemática desde os estudos de Eratóstenes – que havia calculado a circunferência da Terra, dez séculos antes. A importância desse livro reside no fato de Fibonacci ter trazido à Europa, por meio dele, os algarismos arábicos, que substituíram os numerais romanos e são usados até hoje, praticamente em escala mundial. O livro foi rapidamente adotado em todo o continente europeu, e isso representou uma revolução nas relações comerciais e um avanço na direção de um renascimento das ciências exatas no Ocidente. Mas Fibonacci não foi apenas um mero divulgador desses conhecimentos: também era, ele próprio, um matemático brilhante. Em sua época, Pisa era um dos maiores centros comerciais da Itália, e seu pai, um rico comerciante, dono de uma casa de artigos manufaturados, tinha acesso aos portos marítimos do Mediterrâneo, o que facilitou ao filho suas viagens por outras partes do mundo. Fibonacci chegou a conhecer Constantinopla, mas principalmente viajou pelo norte da África, onde passava longos períodos aprendendo a matemática árabe. Em contato com o mundo islâmico, conheceu o sistema algébrico de Al-Khwārizmi (nome que deu origem à palavra algarismo), que por sua vez havia aprendido com os hindus – daí se chamarem esses numerais, inicialmente, hindu-arábicos. O Liber abaci apresentava o elegante sistema numérico de 0 a 9, além da notação posicional, que faz com que números como 213, 123, 132, 321, 231 e 312 tenham valores diferentes. Isso já havia sido demonstrado um século antes por Adelardo de Bath, porém foi a publicação do Liber abaci que disseminou esses conhecimentos entre os europeus. Parece pouco aos nossos olhos de hoje, mas isso foi um salto muito significativo para os que trabalhavam com o método de letras romanas. O livro trazia também muitos problemas de matemática e suas resoluções. Entre eles, o que tratava de uma crescente população de coelhos tinha como parte da resposta uma sucessão numérica que ficou conhecida como sequência de Fibonacci. Ela começa com 0 e 1. Os números seguintes são sempre uma soma dos dois números anteriores, portanto: 0, 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34… 987, 1593, 2580… A partir do número 2, quando se divide um desses elementos pelo seu correspondente anterior, obtém-se o valor aproximado de 1,618. Esse resultado era visto como uma constante transcendental, chamada razão de ouro e também número de Fibonacci, embora os indianos já a conhecessem desde o século 6. De volta à Itália, após muitas de suas viagens, Fibonacci recebeu um convite do imperador Frederico II, que lhe ofereceu uma renda vitalícia para que se dedicasse inteiramente ao estudo das ciências exatas, depois de ter sido informado sobre suas habilidades em solucionar alguns dos mais complicados problemas dos matemáticos da corte. Embora o velho sistema de numeração romana tivesse sofrido seu golpe de misericórdia com a publicação do Liber abaci, ele ainda se preservou na denominação de ocasiões e itens cerimoniosos, porque às elites intelectualizadas agrada a distinção do conhecimento popular – o interlocutor não compreenderá o código das velhas letras romanas sem um certo grau de cultura. Depois de 1228, não há mais notícias sobre Fibonacci, que morreu, provavelmente, em 1250. Provavelmente em Pisa.

• O pai de Fibonacci se chamava Guglielmo dei Bonacci, e o sobrenome de Leonardo, por alguma razão, resultava de uma forma abreviada de filius Bonacci, ou filho de Bonacci.

• Ainda na Idade Média, livres da influência da Igreja, os árabes viviam seus séculos de ouro, de grandes avanços em muitas áreas do conhecimento, como na matemática, na medicina e na astronomia. Os islâmicos se orientavam por adágios como: “A tinta dos cientistas vale tanto quanto o sangue dos mártires”, o que deixa claro o valor do conhecimento para eles.

• O asteroide 6765 Fibonacci tem esse nome em sua homenagem.

Andreas VesaliusAndreas Vesalius (Bruxelas, 1514 – proximidades da ilha de Zante, atual Zákhintos, Grécia ocidental, 1564) Médico anatomista de origem flamenga, seu trabalho pôs fim a uma era e deu início a outra, a era moderna da medicina. Sua mãe era inglesa, seu pai trabalhava para o imperador Carlos V como farmacêutico da corte e vinha de uma linhagem de médicos procedente de Wesel, na Alemanha, de onde deriva seu sobrenome, em forma latinizada. Vesalius estudou na Bélgica e na França, entre mestres conservadores. Em seus estudos, ele refutou grande parte das teorias do precursor greco-romano Galeno, que eram a base do conhecimento médico da época, o que lhe causou desentendimentos com um de seus professores. Serviu como cirurgião militar no norte da Europa, mas sua vocação maior apontava para o estudo da anatomia, o que não era fácil num período em que certos procedimentos eram tidos como heréticos e perigosos, do ponto de vista da Igreja. Mudou-se para a Itália, que vivia ainda entre os últimos lampejos do Renascimento e onde poderia trabalhar com mais liberdade intelectual do que em outras partes da Europa – também na Itália, a dissecção de cadáveres não era bem vista, mas as autoridades não se importavam muito com isso, o que favoreceu pesquisadores como Mondino de Luzzi, que puderam destacar-se, mais de dois séculos antes, com obras do gênero. Desse estudioso, Vesalius retomou o costume de realizar pessoalmente as demonstrações anatômicas, em razão do amadorismo dos assistentes. Graduou-se em Medicina em 1537 e lecionou em Pádua, Bolonha e Pisa, tornando-se um famoso conferencista, muito requisitado pelos estudantes, entre os quais jovens talentosos como Gabriele Falloppio, criador do preservativo masculino. Vesalius reuniu seus trabalhos em um dos maiores livros da historia da ciência, o célebre De humani corporis fabrica (Da estrutura do corpo humano), a primeira obra precisa sobre a anatomia humana. Uma importante vantagem desse livro sobre os anteriores consistia nas ilustrações impressas, que podiam ser reproduzidas em número ilimitado, porque, antes da invenção da imprensa, as palavras podiam ser copiadas com fidelidade; mas as ilustrações, não. Alem de precisas, as ilustrações eram de uma notável beleza, realizações de excelentes artistas, contratados especialmente para essa tarefa. O corpo humano era mostrado em atitudes naturais, e os desenhos dos músculos eram tão exatos que nunca foram superados. Tratava-se de uma realização extraordinária para um homem que não tinha ainda 30 anos. Infelizmente, os trabalhos desse jovem médico encontraram uma ferrenha oposição, ainda que representassem o fim de toda uma era regida sob as ideias de Galeno. A obra de Vesalius não foi um falso alarme como o de Mondino: ele realmente demarcou o inicio da anatomia moderna. Apesar de ser um admirável anatomista, ele se apegava a algumas ideias fisiológicas antiquadas – lembrando que a anatomia trata da estrutura dos organismos vivos; e a fisiologia, de seu funcionamento. Por exemplo, aceitava o conhecimento vigente sobre a circulação sanguínea e acreditava que o sangue passasse de um ventrículo para outro através de poros microscópicos situados na parede muscular interventricular – mas a verdadeira fisiologia circulatória já existia, por meio dos estudos de Miguel Servet. Discordava de Aristóteles quanto à convicção do grego de que o coração seria o centro da vida, da mente e das emoções: Vesalius atribuía todas essas funções ao sistema nervoso, como hoje podemos confirmar. Desde então, não houve mais discussão sobre o assunto. Vesalius encerrou seus trabalhos quando seu livro foi publicado, provavelmente desiludido com a ira e a oposição suscitadas, lideradas por seu velho mestre parisiense, que o levaram a abandonar a pesquisa. Mas ele já era muito famoso como médico, e dificilmente conseguiria sair de cena. Seus inimigos o acusaram de heresia, roubo de cadáveres e dissecção. Durante algum tempo, tudo indicava que ele seria executado, mas suas ligações com a corte de Carlos V o salvaram, e a sentença foi comutada em uma peregrinação à chamada Terra Santa (hoje Israel). Na volta dessa viagem, o navio que o transportava foi lançado pelo mar às costas gregas, e Vesalius morreu no naufrágio. Ele ficou conhecido como o Pai da Anatomia Moderna.

• O trabalho principal de Vesalius é um verdadeiro atlas do corpo humano e um magnífico exemplo do que havia de melhor na produção de livros no pós-Renascimento. Obra de aproximadamente setecentas páginas de fina impressão, dividida em sete partes, chamadas livros, um estudo completo sobre o tema. Para sua confecção, Vesalius não poupou gastos: contratou os melhores artistas e técnicos, tendo como impressor Johannes Oporinus, de Basileia, chegando a ir até essa cidade para supervisionar os trabalhos pessoalmente. No livro VI, ele faz uma observação importante sobre a notável semelhança do coração com um músculo.

•  Em suas demonstrações, Vesalius obtinha sucesso com algo tão simples como fazer constatar que o homem e a mulher tinham o mesmo número de costelas, pois na Idade Média era comum que as pessoas acreditassem no gênese bíblico, segundo o qual o homem teria uma costela a menos, utilizada para dar origem a uma mulher completa. Como se sabe, as ideias medievais não desapareceram com o Renascimento e perduraram até alguns séculos depois, num processo lento e conflituoso.

• Eram tempos perigosos para os cientistas. Pouco antes das acusações contra Vesalius, o próprio Servet, que descobrira a circulação pulmonar, havia sido queimado vivo, acusado de heresia.

• Por uma coincidência curiosa, os livros de Vesalius e de Copérnico foram publicados no mesmo ano, e os dois significaram importantes marcos para as ciências biológicas e físicas. Na verdade, eles constituem o nascimento da chamada Revolução Científica.

James Hutton (Edimburgo, 1726 – 1797) Geólogo escocês, fundador da moderna concepção da evolução gradual da crosta terrestre. Inicialmente estudou nas universidades de Edimburgo, Paris e Leiden, formando-se em Medicina. Trabalhou como químico agrícola e montou uma fábrica de cloreto de amônia cuja renda lhe proporcionou tranquilidade financeira para dedicar-se à investigação de seu maior interesse: a formação do planeta Terra. Rejeitou a teoria do catastrofismo, muito popular em seu tempo, segundo a qual o planeta teria sofrido transformações drásticas e não graduais. Os catastrofistas acreditavam que somente um evento cataclísmico de grandes proporções poderia alterar a formação da Terra, mas Hutton formulou o princípio da uniformidade, de acordo com o qual as forças que atuam hoje sobre o planeta (como o vulcanismo e a erosão) sempre atuaram de uma mesma maneira, com uma mesma média de frequência, velocidade e ritmo durante longos períodos de tempo. Isso contrariava os conservadores, que postulavam a idade da Terra em torno de 6 mil anos, de acordo com os relatos bíblicos, e por esse motivo Hutton foi combatido por alguns de seus contemporâneos. Hoje conhecido como o Pai da Geologia, reuniu suas ideias no livro Teoria da Terra, publicado em 1785.

Hutton viveu num tempo em que a Revolução Francesa estava em seu auge. A Inglaterra sofria fortes reações conservadoras, e qualquer ideia nova parecia perigosa. Por isso, sua obra principal só foi reconhecida e popularizada meio século depois de sua morte.

Jacques Boucher (de Crèvecoeur) de Perthes (Rethel, 1788 – Abbeville, 1868) Arqueólogo francês, filho de um botânico de certa projeção no período napoleônico, ele inicialmente pretendia ser escritor, mas seus interesses eram amplos e diversificados. Em 1838, na região de Somme, norte da França, desenterrou machados grosseiramente moldados que, dada sua posição nas camadas escavadas, sugeriam ter muitos milhares de anos – eram os primeiros sinais do homem da Idade da Pedra. Boucher publicou o resultado de suas cuidadosas observações sobre tais artefatos, o que causou uma verdadeira revolução, pois o homem era visto como um ser muito recente, e Cuvier e suas teorias catastrofistas ainda tinham muitos seguidores. As teses catastrofistas admitiam a idade dos fósseis, supondo que a Terra, periodicamente, sofria grandes e súbitas mutações drásticas, mas rejeitavam qualquer sinal de ancestralidade remota do ser humano, que seria uma criatura jovem, não podendo, portanto, ultrapassar em idade mais do que 6 mil anos –  até porque uma datação diversa contradiria os relatos bíblicos, tidos como verdadeiros. Entendendo que não conseguiria convencer seus contemporâneos, Boucher continuou seus trabalhos sozinho e acabou descobrindo novas evidências da ancestralidade humana. Em pouco tempo, outros arqueólogos conseguiram mais dessas evidências, o que chamou a atenção de alguns cientistas ingleses, entre eles o renomado geólogo Charles Lyell, que foram à França conhecer a região onde Boucher fizera seus achados. Lyell passou a apoiar abertamente seu colega francês e escreveu um livro sobre o tema. Com isso, a Royal Society britânica aceitou oficialmente a nova antiguidade do homem. Boucher ainda observou distinções no que se referia à manufatura de certos objetos, feitos em sílex, sendo alguns lascados, outros polidos. Chamou o período das pedras lascadas de antediluviano (nomenclatura em desuso), dado que à época acreditava-se no Dilúvio como fato, não como lenda. Não apenas Boucher havia encontrado utensílios remontando a muitos milhares de anos, como também descobriu restos de algumas espécies extintas, como o mamute, e de seres humanos de espécies diferentes da homem moderno. Isso desencadeou uma linha de pesquisa que iria estabelecer uma teoria revolucionária sobre um ponto polêmico e muito sensível: a ascendência do homem. Era o surgimento da Pré-História como área de conhecimento da ciência.

As definições Paleolítico e Neolítico foram criadas posteriormente pelo naturalista inglês John Lubbock, autor de Prehistoric times, para distinguir as divisões da Idade da Pedra. Esse livro foi um sucesso de público e despertou o interesse de novas gerações de cientistas e amadores pela Pré-História.

Johannes Brahms (Hamburgo 1833 – Viena, 1897) Compositor alemão considerado um dos maiores nomes do Romantismo. A amizade com o casal Schumann (os compositores Robert e Clara) influenciou decisivamente sua vida e sua carreira. Aos 20 anos, foi recebido por eles em Düsseldorf como um artista genial, e Robert o chamava de jovem águia. Manteve-se fiel à música pura, em oposição a Liszt e Wagner, que lideravam as vanguardas com suas inovações. Enquanto sua obra alcançava notável equilíbrio e a perfeição formal, o músico ironizava, lembrando que duas coisas não eram para ele: a ópera e o casamento. Sua busca por beleza e grandeza na música leva a um tema central: a transitoriedade da vida humana. Nos últimos anos de Robert Schumann, que faleceu precocemente após o agravamento de uma enfermidade mental, correram boatos do envolvimento de Brahms com Clara, com quem manteve uma amizade especial e afetuosa até a morte – para muitos, uma forte paixão não correspondida, que ele retratou em trabalhos musicais como as Seis peças para piano. Quando Clara morreu, nas palavras de Catherine Lépront, “ele acabara de perder aquela que deslumbrara sua vida de compositor e desnorteara sua vida de homem, excluindo, por sua simples presença, todos os outros amores.” No ano seguinte à morte de Clara, Brahms ficou doente pela primeira vez na vida: vitima de câncer no fígado, faleceu aos 64 anos, em Viena.

Na vasta correspondência escrita com Clara Schumann, Brahms nunca cita a religião quando trata de problemas da vida. O compositor Dvořák tinha dificuldade em aceitar que, sendo ele um “homem generoso e de alma generosa, não acreditasse em nada”. Mas tudo indica que Brahms, um dos últimos românticos, se orientava por um agnosticismo estoico, como expresso no Schicksalslied, segundo seu biógrafo Malcolm MacDonald.

John Frederick Peto (Filadélfia, 1854 – Island Heights, 1907) Artista norte-americano que cultivou o gênero conhecido como trompe l’oeil, que se utiliza de técnicas para enganar o olho do observador. Como seu amigo William Harnett, pintou naturezas-mortas com extrema habilidade e realismo, dando preferência a objetos gastos e usados. Porém, esses dois artistas não tiveram a mesma sorte: Harnett foi bem sucedido e influenciou novos artistas em seu meio, enquanto Peto, depois de mudar-se para Island Heights, Nova Jersey, passou a viver na obscuridade até o fim de sua vida. Muitas vezes os negociantes de arte passavam suas telas com o nome de Harnett, pois isso as valorizava comercialmente, e essa é uma das razões de Peto ter caído no esquecimento até que sua obra fosse redescoberta mais tarde, sob a assinatura de seu contemporâneo. Casado e com filhos pequenos, passou a enfrentar sérias dificuldades financeiras, apesar de sua vida simples e no limite da pobreza. Como também era músico (tocava na banda do Corpo de Bombeiros em sua cidade natal), conseguia trabalhos avulsos em eventos ocasionais, o que mal remediava o sustento da família, à qual se dedicava fielmente. Em seu ateliê solitário, cercado dos objetos velhos que serviam à sua arte, pobre e doente, Peto morreu esquecido e sem honrarias. Até seus trinta e poucos anos, inscreveu-se regularmente para as mostras anuais da Academia da Filadélfia. Mesmo assim, nunca teve uma exposição em vida.

Paul (Abraham) Dukas (Paris, 1865 – 1935) Compositor e crítico musical francês que, diferentemente de outros artistas hoje consagrados, não apresentou nenhuma aptidão especial para a música em sua infância, tendo-a desenvolvido um pouco mais tarde, quando passou a frequentar o Conservatório de Paris, aos 16 anos, onde teve aulas de composição com Ernest Guiraud, entre outros mestres de seu tempo. Lá conheceu também Claude Debussy, outro importante nome do Modernismo, que se tornaria seu grande amigo por toda a vida. Casou-se com Suzanne Pereyra, de origem portuguesa, com quem teve uma filha. Apesar de rigoroso com a técnica, Paul dizia a seus alunos que a música deveria vir “de seu coração, não da cabeça.” Seu trabalho mais conhecido, O aprendiz de feiticeiro, inspirado em um poema de Goethe, ficou mundialmente famoso ao integrar a trilha sonora do filme de animação Fantasia, de 1940, no trecho em que Mickey Mouse protagoniza o jovem mago em apuros, que perde o controle sobre poderes que ainda não conhece perfeitamente. Talvez aparentando algo de divertido por associação à célebre animação dos Estúdios Disney, essa peça é na verdade um belo poema sinfônico que, ironicamente, causava ao autor certa irritação por ter se destacado de outras composições suas, às quais atribuía maior valor. Exigente e dedicado, chegou a trabalhar durante sete anos em uma mesma ópera. Em razão de seu extremo perfeccionismo, antes de morrer, ele destruiu a maior parte de suas obras, por sentir-se insatisfeito com seus resultados – mesmo tendo sido premiado por algumas delas. Declarava, como artista, que vivia em busca de algo que estava acima de suas forças.

Duas peças musicais de Dukas sobreviveram ao seu deliberado ato de destruição. Os manuscritos foram encontrados nos anos 1990, e as obras, apresentadas ao público nessa mesma década.

Walt Disney, com a ajuda de Leopold Stokowski, escolheu, para a trilha sonora de Fantasia, peças musicais de autores mortos, para não ter de pagar direitos autorais. A exceção foi Stravinski, cuja obra A sagração da primavera foi aproveitada na sequência da formação do mundo. Quando os negociadores do estúdio descobriram que os direitos de Stravinski haviam sido registrados na Rússia pré-revolucionária e que ele agora morava em Paris, ofereceram-lhe 5 mil dólares como pagamento, por meio de um telegrama, deixando claro que, aceitando ou não, usariam sua música do mesmo jeito.

Käthe Kollwitz (Königsberg, 1867 – Moritzburg, 1945) Artista alemã com influências naturalistas e expressionistas que enfocou em seu trabalho a pobreza, a guerra e as precárias condições de vida da classe operária na primeira metade do século 20. Começou a estudar desenho aos 12 anos e na adolescência passou a retratar pessoas da classe trabalhadora, como marinheiros e camponeses. Aos 24 anos casou-se com seu namorado, Karl, agora um médico que atendia pessoas de baixa renda em Berlim, para onde se mudou. O casal morava em um grande apartamento que se tornou o estúdio e o lar da artista até ser destruído na Segunda Guerra Mundial. Käthe considerava as pessoas da alta burguesia desinteressantes, enquanto mais se atraía pelas situações de sofrimento e injustiça que moldavam a vida da classe trabalhadora, com a qual se envolveu a ponto de torná-la seu tema permanente. A morte de seu filho caçula em um campo de batalha, durante a Primeira Grande Guerra, a afetou muito, causando-lhe um prolongado estado de depressão. Nos anos 1930, com a ascensão do nazismo, seus desenhos e gravuras foram banidos dos museus. (Ironicamente, apesar de proibidas suas exposições, os nazistas usaram um de seus trabalhos para propaganda política.) Em 1936, confrontados pela Gestapo, ela e seu marido foram ameaçados de serem deportados para campos de concentração – o casal decidiu suicidar-se, caso isso viesse a acontecer. Mas agora Käthe era uma artista reconhecida internacionalmente, o que dificultava as coisas para as autoridades do governo, que acabaram desistindo de persegui-los. No seu aniversário de 70 anos, ela recebeu inúmeros telegramas e cartas enaltecendo sua arte, incluindo convites para deixar a Alemanha e estabelecer-se nos Estados Unidos, que ela recusou por receio de que outros membros de sua família fossem prejudicados. Karl morreu doente em 1940, e seu filho mais velho morreu em combate dois anos depois. Käthe teve que fugir de Berlim em 1943. Nesse ano, sua casa foi destruída durante um bombardeio, e muitos de seus trabalhos e documentos perderam-se para sempre. Curiosamente, os únicos retratos pessoais que ela realizou durante a vida foram os de si mesma – como se todo aquele ambiente de injustiça e miséria que testemunhou tão ostensivamente fizesse parte de sua própria fisionomia e por meio dela refletisse sua compaixão, seu interesse pelos menos favorecidos, sua observação realista e sem retoques do interminável drama que é a condição humana. Como Rembrandt, contou-nos sua vida através de autorretratos, um depoimento sem disfarces, de uma profundidade psicológica incomum. Käthe morreu alguns dias antes da tomada de Berlim e do final da guerra.

Henrietta Leavitt.Henrietta (Swan) Leavitt (Massachusetts, 1868 – Cambridge, Massachusetts, 1921) Astrônoma norte-americana cujas descobertas permitiram a Hubble concluir que o universo estava em expansão. Henrietta, conhecida por sua personalidade ativa e entusiasmada, começou como voluntária no observatório da Universidade de Harvard. Como as mulheres não podiam trabalhar com telescópios, coube a ela catalogar fotografias de estrelas de acordo com seu brilho. Com o tempo, ela passou a estudar as estrelas variáveis, que são aquelas cuja luminosidade varia em menos de cem anos, algumas em poucos dias. Até os primeiros anos do século 20, pensava-se que todas as estrelas integravam uma única galáxia, a Via Láctea. A maior parte das estrelas tem luminosidade regular, como é o caso de nosso sol, por isso as estrelas variáveis eram assunto de grande interesse para os cientistas da época. Henrietta descobriu e registrou mais de mil estrelas na Nuvem de Magalhães e concluiu que algumas delas apresentavam um padrão: as mais brilhantes variavam em períodos de tempo maior. Isso significava que a luminosidade da estrela era proporcional a seu período de variação, o que tornava essas relações bastante precisas. As Cefeidas, que são estrelas gigantes, serviram como referência para os cálculos de Henrietta e foram as primeiras velas-padrão, nome que se dá a uma estrela de brilho conhecido a partir da qual se infere a distância de outros corpos celestes, por comparação. Com isso, passou a ser possível calcular a distância de qualquer estrela de brilho intenso, mesmo as muito afastadas, com grande precisão – uma extraordinária conquista para a ciência, pois até então só se podia estimar as distâncias de corpos celestes mais próximos, usando o método comparativo da paralaxe, criado por Bessel. O que os astrônomos chamavam de nebulosas espirais mostrou-se ser, na verdade, outras galáxias, surpreendentemente até muito distantes da própria Via Láctea. Isso mudou decisivamente a visão que até então tínhamos do universo: a de que ele todo se resumia a uma galáxia – a nossa. Os desdobramentos de tais conclusões, incluindo a curva periódica de luminosidade, elaborada por Henrietta e por seu colega Shapley, incluíam nada menos que a célebre e inquietante descoberta de Hubble de que o universo estava se expandindo continuamente. Henrietta morreu aos 53 anos, vítima de um câncer, no ano em que fora nomeada chefe de fotometria estelar em Harvard. Com as crescentes referências a Hubble, Einstein e outros renomados cientistas da época, seu nome foi injustamente esquecido, identificado apenas por especialistas e aficionados da área. De acordo com seus amigos, ela era uma pessoa cheia de vida, para quem as coisas se tornavam belas e cheias de significado.

Por sua dedicação e pelos excelentes resultados de seu trabalho, o observatório de Harvard contratou Henrietta Leavitt, que havia começado como voluntária, por 30 centavos de dólar a hora. Mais de um século depois, esse valor, evidentemente, corresponde a algo um pouco mais considerável, mesmo assim irrisório. O diretor, Edward Pickering, com certeza não imaginava que ela pudesse realizar descobertas tão importantes.

O método da paralaxe consiste na comparação de dados colhidos por observadores em determinadas posições. Assim como, quando olhamos pela janela de um veículo em movimento, vemos as árvores próximas passarem por nosso campo de visão mais rapidamente e as distantes mais lentamente, os astrônomos cruzam informações de observatórios em diversos pontos da Terra e calculam as distâncias das estrelas por meio de triangulações. Mas esse método não funciona para longas distâncias.

Edwin Hubble dizia abertamente que Henrietta Leavitt merecia ganhar o prêmio Nobel. Um dos membros da Academia Sueca sugeriu sua inscrição em 1924, mas foi informado que ela havia morrido três anos antes. Hubble também foi ignorado pelo Nobel.

O asteroide 5383 Leavitt tem esse nome em sua homenagem.

Tom (Thomas John) Thomson (Claremont, 1877 – Canoe Lake, 1917) Artista canadense que influenciou diretamente o grupo de pintores que viria a se chamar O Grupo dos Sete. Após diversas atividades profissionais, incluindo a de bombeiro e guia de uma reserva florestal, a partir de 1913 passou a ser um artista em tempo integral. Thomson desapareceu durante um percurso de canoa, e seu corpo foi encontrado oito dias depois. As circunstâncias que envolvem sua morte nunca foram devidamente esclarecidas, suspeitando-se, inclusive, que ele tenha sido assassinado.

Lise Meitner (Viena, 1878 – Cambridge, 1968) Física austríaca, descobridora da fissão nuclear. Interessou-se por ciência após ler um trabalho da família Curie. Educou-se nas Universidades de Viena e Berlim, num tempo em que as mulheres praticamente não podiam frequentar um curso superior. Foi aluna de Boltzmann e de Planck, o autor da teoria quântica. Em parceria com o químico Otto Hahn, com quem trabalhou durante trinta anos, descobriu um novo elemento, o protactínio. Após a anexação da Áustria pelos nazistas, mudou-se para a Suécia, onde continuou seu trabalho, relacionado à pesquisa sobre a teoria atômica. Em 1939, numa carta à revista Nature, publicou pela primeira vez a explicação física sobre o processo da fissão nuclear, tendo como base a divisão do átomo de urânio em átomos de bário e criptônio. Em seus estudos sobre a radioatividade, previu a existência da reação em cadeia. Sua descoberta mobilizou vários outros cientistas, que se uniram e solicitaram ao célebre Albert Einstein que escrevesse uma carta ao presidente norte-americano sobre os perigos da fissão nuclear. Otto Hahn não a mencionou em seu discurso ao receber o Prêmio Nobel de Química, em 1944, o que não apenas configurou uma clara injustiça, visto que as descobertas da colega pesquisadora eram até mais relevantes do que as dele, como fez Lise pensar que seria esquecida pela posteridade. Mas ao visitar os Estados Unidos, em 1946, foi tratada como celebridade. A imprensa norte-americana se referia a ela como “a mulher que saiu da Alemanha com a bomba na bolsa.” Lise Meitner nunca se casou. Sua dedicação à ciência foi absoluta. Com Marie Curie e Rita Levi-Montalcini, está entre as mulheres mais importantes da ciência do século 20. Morreu poucos dias antes de completar 90 anos, apenas três meses depois de seu colega Otto Hahn.

O elemento 109, o mais pesado do mundo, foi chamado meitnério (Mt) em sua homenagem.

Franz Kafka (Praga, 1883 – Klosterneuburg, 1924) Escritor tcheco de expressão alemã, criador de clássicos como a novela A metamorfose, hoje incluído na seleta galeria dos mais importantes autores do século 20, ao lado de Joyce, Proust e Borges. A maior parte de sua obra ficou incompleta e só foi publicada após sua morte. Era o filho mais velho de uma família de classe média e praticamente foi criado por governantas, na ausência dos pais, que trabalhavam juntos no negócio da família. Em carta a uma namorada, Franz confessa que se sentia um estudante medíocre, com dificuldades de aprendizado, e duvidava que fosse capaz de terminar o ensino médio. Na literatura, seu estilo é uma das primeiras amostras da modernidade, uma escrita imparcial, simples, sem ornamentos, descrevendo situações insensatas, em tom de pesadelo, como no caso do romance O processo, em que o protagonista, Joseph K., é indiciado e condenado por um crime que desconhece e que não lhe é revelado. Os personagens de seu universo são desorientados e não encontram propósito em viver. Transitam por um mundo burocrático, com sistemas de controle absurdos, sem que, em troca, lhes sejam esclarecidas as razões para a existência desses mesmos sistemas, dos indivíduos e da sociedade em que vivem. Os conflitos com o pai autoritário estão presentes em boa parte de sua obra e são responsáveis por muito da insegurança e dos mais profundos questionamentos desse autor. Após alguns casos amorosos mal resolvidos, marcados por frustrações e inconformidade, o escritor optou por não se casar. Faleceu aos 41 anos, em um sanatório próximo a Viena, vítima de tuberculose. Antes de morrer, pediu ao grande amigo Max Brod que destruísse seus originais, impedindo assim sua publicação. Graças à desobediência de Brod, que não respeitou as últimas vontades do amigo escritor, o conhecimento da obra genial de Kafka, que ainda exerce significativa influência na atualidade, chegou até nós.

Hermann, o pai de Franz Kafka, era um comerciante de roupas. Seu estabelecimento tinha como logomarca a figura de uma gralha (kavka, em língua tcheca).

Durante a Segunda Guerra Mundial, as três irmãs mais novas de Kafka foram enviadas a campos de extermínio nazistas, aos quais não sobreviveram.

Michael Loew (Nova York, 1907 – 1985) Artista norte-americano, expressionista abstrato. Integrante da vanguarda nova-iorquina, passou a fazer exposições regularmente desde a década de 1930. Alistando-se na Marinha, documentou com suas aquarelas o trabalho na base aérea em Tinian Island, de onde partiu o bombardeiro que lançou a bomba atômica no Japão. Sua abordagem da geometria mantém uma estética suave e sensual, inspirada na natureza. Durante sua vida, sua obra foi exposta incansavelmente em inúmeras galerias e museus. Foi amigo de Willem de Kooning.

Gagárin 2Yuri (Alekseyevitch) Gagárin (Gzhatsk, região de Smolensk, 1934 – Kirzhach, região de Vladimir, 1968) Cosmonauta soviético, filho de um carpinteiro, nascido em uma fazenda coletiva, foi o primeiro homem no espaço. Teve de interromper a escola primária para fugir com seus pais da invasão nazista. Após a guerra, especializou-se em trabalhos de fundição. Na Escola Superior da Força Aérea Soviética chegou a tenente, destacando-se com louvor, e passou a atuar como piloto de provas. Em 1961, aos 27 anos, escolhido para tripular a nave Vostok (que significa Oriente), permaneceu em órbita por cerca de 90 minutos a uma altura de 250 quilômetros e a velocidades que chegavam a 28 mil km/h, perfazendo uma volta completa ao redor da Terra. Dentre as transmissões radiofônicas desse voo pioneiro, registram-se trechos como: “Eu vejo a Terra. A visibilidade é boa. Ouço vocês perfeitamente.” Só isso já seria emocionante, considerando-se que era aquela a primeira vez que nosso planeta era visto por alguém. Mas as palavras que se tornaram históricas, embora até hoje sua veracidade seja discutível, foram: “A Terra é azul. Como é maravilhosa. Ela é incrível!” (Durante a Guerra Fria, muitas informações eram classificadas como segredo de Estado, e era comum, tanto aos Estados Unidos quanto à União Soviética, manipularem frases de efeito incorporadas a sua propaganda oficial.) Gagárin ejetou depois de reentrar na atmosfera, completando o percurso de descida utilizando um paraquedas. Quando chegou ao solo, após esse feito heroico, não havia ninguém a sua espera: um erro de cálculo fez que a nave caísse a mais de 300 quilômetros do local do lançamento. Gagárin morreu vítima de um acidente aéreo, com um MIG-15, nunca devidamente esclarecido, apenas um ano antes de a Apollo 11 levar os primeiros homens à Lua.

No mesmo ano, os soviéticos bateram o recorde de permanência no espaço, com a Vostok II, tripulada Gherman Titov, até hoje o mais jovem cosmonauta da história. Ele pegou no sono, já que os controles eram automáticos, tornando-se assim o primeiro ser humano a dormir no espaço. Foi também o primeiro a sentir enjoo em órbita.

O lançamento do Sputnik (que significa amiguinho ou companheiro), em 1957, foi o marco da chamada Corrida Espacial: o primeiro satélite artificial da Terra.

Carl (Edward) Sagan (Nova York, 1934 – Seattle, 1996) Astrônomo americano muito conhecido por seu trabalho de divulgação da ciência. Doutorado pela Universidade de Chicago em 1960, transferiu-se em 1968 para a Universidade de Cornell, onde lecionou Astronomia e Ciências Espaciais. Liderou diversos projetos com apoio da NASA, entre eles o lançamento das sondas exploratórias Mariner e Viking, além da pioneira busca por vida extraterrestre. Escreveu Cosmos, que se tornou uma premiada série televisiva. Foi também um importante autor de livros esclarecedores sobre ciência, pseudociência e superstição. Entre eles, destacam-se Os dragões do Éden (Prêmio Pulitzer) e O mundo assombrado pelos demônios.

O asteroide 2709 Sagan tem esse nome em sua homenagem.

Lea Kelley (Bellingham, 1959 – ) Artista americana, uma das pioneiras do movimento denominado Expansionismo Abstrato, no qual o artista parte de um autorretrato simbólico até alcançar um resultado de significado universal. Estudou na Academia de Arte de San Francisco. Suas viagens pelo mundo e a assimilação de diversas culturas a influenciaram muito, contribuindo para a profundidade e para o significado de sua obra. Sua atração por mitologia e história da arte a inspiraram a questionar o sentido da existência, buscando respostas pessoais à percepção subconsciente. Por muitos anos, ela própria se perguntou a razão de sua necessidade de pintar. E lembra que Carl G. Jung considerava ser uma função da consciência não apenas reconhecer e assimilar o mundo exterior por meio dos sentidos, mas traduzir para uma realidade visível o mundo interior. Lea complementa sua resposta: “Eu pinto por causa de uma compulsão interior. Eu pinto porque tenho medo de morrer.”

Fiona Rae (Hong Kong, 1963 – ) Artista britânica abstracionista que integra o grupo conhecido por Young British Artists (YBAs). Depois de uma exposição na década de 1980, teve seus trabalhos adquiridos por um importante publicitário e colecionador de arte, o que posteriormente popularizou suas telas e as elevou a um nível de reconhecimento oficial no cenário artístico do Reino Unido. Em 1991 foi indicada ao Prêmio Turner e, mais tarde, eleita para a Academia Real de Artes, em Londres. Em seu trabalho, Fiona tenta criar novas e inesperadas justaposições, o que pode ser uma versão contemporânea do expressionismo abstrato, servindo-se da profusão de elementos visuais característicos da modernidade enquanto parece sugerir a sedução, as contradições e frustrações decorrentes da vida e da cultura contemporâneas.Jessica Siemens 1

Jessica Siemens (Kansas, 1987 – ) Artista norte-americana atualmente residente em Nova York, para onde se mudou pensando em ser atriz, antes de se voltar definitivamente para as artes plásticas como forma de expressão. Inicialmente inspirada por Jackson Pollock, passou a concentrar-se em elementos cotidianos, que tornou os temas principais de seu trabalho. Costuma pintar séries de pedras e folhas, amostras simples da natureza, que acabam ignoradas justamente por serem muito comuns, elementos aos quais normalmente não se dá atenção. Mas as cores com que ela os reveste parecem lembrar o observador do aspecto transcendente dessa matéria, o objeto principal de sua arte. Jessica se concentra em um mesmo objeto repetidamente, explorando-o com o máximo rigor, em suas minúcias. Apesar disso, o aspecto geral da obra acaba por inspirar suavidade e harmonia. Utilizando telas muito largas, com imagens em grande escala, ela força o observador a aproximar-se para conferir detalhes, só então o convencendo a valorizar as sutilezas de uma pequena rocha ou de uma folha caída entre muitas outras. Nas palavras da artista: “Sou propensa a criar pinturas que representem nosso planeta. Sou as plantas que como, e o cobre e o ferro circulam por minhas veias. Eu observo a forma singular de cada pedra para tentar compreender minhas origens.”

(As imagens das pessoas mais antigas não são confiáveis. Muitas vezes são representações de um tipo étnico, não correspondendo às feições reais do indivíduo retratado.)

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