Inconsistência dos retratos. Adicional

Sete anos em Manhattan

Eu havia reencontrado um amigo dos tempos de escola, numa livraria, mas ainda não fora esse episódio isolado, inicialmente desprovido de maior significado, o que deflagrou a ideia do conto. Em outro momento, fiquei pensando na vida de todos nós, filhos do capitalismo, das ilusões materiais e das ideologias que nos obrigam, desde cedo, a ser bem-sucedidos em alguma coisa. Criei essa metáfora de um reencontro, associando a lembrança de meu amigo distante, tendo como narrador-personagem um homem não propriamente bem-sucedido financeiramente, mas bem-sucedido no processo de construção de sua “casa”, isto é, sua pessoa, sua estrutura interna, enfim, sua vida – enquanto o outro, movido por todas as recompensas materiais e morais propostas pelas ideologias vigentes, não havia encontrado a si mesmo. Tento cultivar essa lição a partir de minhas próprias composições: a ilusão de ser um escritor famoso ou bem pago por seus livros não se compara à gratificação que um texto, bem-sucedido em si mesmo, pode proporcionar a seu autor. Não vale a pena ser um Hemingway, se o preço disso é suicidar-se vitimado pela angústia. Afinal, o que podemos aprender ou ensinar uns aos outros? Tomara que seja a verdade.

Um par de amigos, um caso ímpar e A prometida história de fantasma, com os mesmos personagens, seriam os primeiros contos de uma série tratando da amizade entre os homens, seu cotidiano, seus interesses, usando uma linguagem acessível, tons de bom humor e mencionando atualidades.

 

Schiavo, Quinlan, Aurora

Nos contos de fadas, podia-se dormir cem anos e voltar do coma.
Dava para esperar pelo príncipe prometido e finalmente por seu beijo – e não era o beijo da morte.

A esperança é a última que morre – porque os médicos ainda não puseram as mãos nela: ou a esperança estaria condicionada a algum aparelho e não morreria nunca. A esperança é uma característica humana, não há como negligenciar isso. Os casos sempre polêmicos de doentes terminais provocam nossa capacidade de julgamento, de argumentação, de senso crítico, o que nem sempre leva a alguma conclusão confortável.

Confortável até demais encontrava-se uma dessas vítimas, a americana Terri Schiavo, inconsciente e inerte durante quinze anos, até que se decidiu por sua morte natural. Se estivesse em estado vegetativo, como atestaram os médicos, claro que não deve ter sofrido por seu destino ou por sua morte virtual. Mas se pudesse compreender o que se passava, então sim, estaria sofrendo de fato, e talvez desejasse a própria morte. Mas quem responde por ela? Os exames. Os laboratórios. Os gráficos.

Há pouco mais de cinco décadas, não se deflagravam tais discussões, pelo menos não com tanta frequência, pois a medicina não dispunha senão de recursos precários para manter um paciente terminal em sobrevida. Era quase impossível sobreviver a um colapso cerebral. Hoje, admitindo-se francamente que o organismo humano assemelha-se a uma máquina, é possível compreender o que o mantém em funcionamento e com isso promover, artificialmente, a continuidade de suas funções. Fazer o quê? Mais um risco para todos nós.

Outra americana, também célebre por razões trágicas, a jovem Karen Ann Quinlan, havia entrado em coma devido a uma overdose. Internada em um hospital de New Jersey, recebeu, após alguns meses, o diagnóstico de que não mais retornaria a um estado cognitivo sapiente. O Comitê de Ética do Hospital St. Clair, criado especialmente para o caso, não sabia ainda como se portar. O juiz da Suprema Corte acreditava que todos os hospitais da América possuíssem um comitê como aquele, o que não existia até então. Desativado o aparelho que mantinha sua respiração, Karen só faleceu nove anos depois, sem nenhuma melhora em seu estado clínico, como previsto anteriormente.

Um caso semelhante, o de Nancy Beth Cruzan, legou-nos o primoroso epitáfio: “Nascida em 20.07.57. Morta em 11.01.83. Em paz em 26.12.90.”.

E qual de nós, quando crianças, não sentiu um frio na espinha ao imaginar a doce princesa Aurora, jovem e bela, adormecida por cem anos devido a uma maldição? Antes disso, observe-se: a roca que a princesa usava para fiar nada mais era que um mecanismo de tempo, cadenciado, imprimindo um ritmo aos seus dias, tecendo, articulando algo para o futuro, cuja demarcação se fizera pelo acidente que culminou com uma picada em seu dedo e o consequente estado de coma. (Será que os contistas previam as agulhas injetáveis e as drogas? As lendas com vampiros preconizavam a propagação da aids? Bem, não exageremos. Uma polêmica por vez.)

Nos contos de fadas, podia-se dormir cem anos e voltar do coma. Dava para esperar pelo príncipe prometido e finalmente por seu beijo – e não era o beijo da morte. O que tem isso com o resto da história? Pense por si mesmo. Afinal, não é você que se diz sempre consciente?

Imagem: Eliseu Visconti. Nu feminino. 1896.

Marcas de gentis predadores. Adicional

O fato de Danilo reencontrar Verne, no final da narrativa, e não outros de seus antigos amigos, este que era visto como o mais ingênuo da turma, é significativo porque suaviza uma falsa situação de tormento. O caso Ana Lúcia deixa de ser o pesadelo que aparentava ser. Tudo se dilui […].

 

A conspiração dos felizes. Adicional

A conspiração dos felizes (1989) surgiu de um impulso irresistível e pretendia ser apenas um conto. Surgiu a partir de um sonho que tive, daquela categoria de sonhos muito vívidos e nítidos, que na prática não transcorrem para além de alguns segundos quando recordados.

Como sucedeu a Rimbaud em relação a sua obra poética, o texto tinha a função de uma catarse devastadora. Anos depois, eu me dei conta disso e estive muito perto de destruí-lo, mas decidi que não deveria envergonhar-me disso, ao contrário, o texto agora me servia como uma espécie de lição sobre mim mesmo e podia ser visto sob outra óptica, pois contém inúmeras implicações de caráter inconsciente. O personagem-narrador é um rapaz frustrado e vingativo. Lembro-me de que certos trechos foram redigidos sob influência de uma forte carga emocional, sendo alguns entrevistos em sonhos (agora derivados deles), tal a intensidade e a frequência com que me entretinha com eles. A partir daí, passei a ampliar e aperfeiçoar o texto. Inicialmente desprovido de apuro técnico, era desenvolvido sob a tirania de certos impulsos e tinha em torno de quarenta páginas. Eu tentava também, confusamente, denunciar o nepotismo.

O subtítulo (“e outras histórias de febre e esperança”) refere-se às quatro narrativas que se seguem à principal, sobre uma premeditada vingança por motivos aparentemente absurdos, envolvendo a disparidade entre as classes sociais.

 

Renata era o nome de Vanessa na primeira versão – porque ressurge na vida do narrador-personagem, renasce. A opção por Vanessa tem a mesma razão pela qual foi escolhido o nome Vanda, de Os últimos dias de agosto, a de sugerir uma pessoa vã. Hesitei em repetir a ideia, mas não encontrei nada melhor pra o que pretendia.

Talvez o conto “Ana”, escrito no mesmo ano, enquanto trabalhava os rascunhos de A conspiração…, tivesse o efeito de uma compensação, que trata do amor sensual e compartilhado, em contraposição às intenções de vingança que derivam ao sadismo no caso do outro.

Os últimos dias de agosto. Adicional

Em Os últimos dias de agosto, há uma particularidade com relação à divisão interna, uma demarcação intencionalmente irônica e bem-humorada. O romance é dividido em duas partes. A primeira se chama “Os últimos dias de agosto”, e, na edição da All Print, de 2008, vai da página 9 até a 304. A segunda parte, chamada “Setembro”, vai da página 309 até a 311, na prática perfazendo duas páginas e meia de texto. Um desenho de três xícaras fumegando abre essa segunda e última parte.

Notas de uma crise pessoal – esse seria, inicialmente, um subtítulo.

Um sincero sentimento de gratidão pelo músico que me levou , ao caixa do banco onde eu trabalhava, em São Paulo, alguns dados sobre Albinoni. Ele era cliente do banco, eu lhe contei que escrevia e que queria algo mais sobre o músico barroco, que eu mencionava em um trecho de “Os últimos dia de agosto”, àquela altura em fase final, após oito anos de elaboração.

Quando Júlio relembra algumas mulheres de sua adolescência e juventude, menciona Ana, Dulce, Treze e Cátia… – essa ordem sugere uma sequência numérica.