Eudoxo

Um discípulo discreto mas brilhante

Eudoxo

Eudoxo

(Cnido, atual Tekir, sudoeste da Turquia, 408 a.C. – Cnido, 355 a.C.)

Astrônomo e matemático grego, estudou na Academia platônica, depois foi ao Egito, cursar o que seria, à época, o equivalente a uma pós-graduação. Voltou a Atenas, onde lecionou por muitos anos. Suas demonstrações em geometria seriam aperfeiçoadas posteriormente pelo trabalho de Euclides, e seu sistema para calcular comprimentos e áreas que não podiam ser mensurados diretamente foi desenvolvido por Arquimedes, um século depois. Eudoxo foi o primeiro grego a demonstrar que um ano não tinha exatamente 365 dias, pois somavam-se seis horas a cada ciclo. Como os egípcios já sabiam disso, possivelmente ele foi apenas o divulgador desses cálculos, mais tarde estabelecidos no calendário juliano. Aceitava a ideia platônica de que os cinco planetas moviam-se em círculos perfeitos, mas, a partir de suas próprias observações, concluiu que o movimento real não confirmava tal proposição – mesmo assim, ele não divulgou os novos resultados de seu trabalho, talvez por receio de desagradar ao mestre. Desenhou um mapa do mundo conhecido melhor que o do pioneiro Hecateu de Mileto e foi o primeiro grego a esboçar um mapeamento das estrelas, aplicando ao céu divisões de latitude e longitude, como se faz com a superfície terrestre. Eudoxo criou diversos instrumentos para a observação astronômica e em sua cidade natal fundou um observatório. Como matemático, foi o precursor do cálculo integral.

• Conta-se que seu mestre, Platão, o teria recebido com um banquete em Atenas. Eudoxo teria dirigido a Academia enquanto Platão esteve na Sicília, em 367 a.C.

Cícero considerava Eudoxo o maior astrônomo grego.

• Uma cratera na Lua, uma cratera em Marte e o asteroide 11709 Eudoxus têm seus nomes em sua homenagem.

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(Imagens de pessoas tão antigas não são confiáveis. Muitas vezes são representações de um tipo étnico, não correspondendo às feições reais do indivíduo retratado.)

Henrietta Leavitt

A estrela esquecida

Henrietta Leavitt.

Henrietta (Swan) Leavitt

(Massachusetts, 1868 – Cambridge, Massachusetts, 1921)

 Astrônoma norte-americana cujas descobertas permitiram a Hubble concluir que o universo estava em expansão. Henrietta, conhecida por sua personalidade ativa e entusiasmada, começou como voluntária no observatório da Universidade de Harvard. Como as mulheres não podiam trabalhar com telescópios, coube a ela catalogar fotografias de estrelas de acordo com seu brilho. Com o tempo, ela passou a estudar as estrelas variáveis, que são aquelas cuja luminosidade varia em menos de cem anos, algumas em poucos dias. Até os primeiros anos do século 20, pensava-se que todas as estrelas integravam uma única galáxia, a Via Láctea. A maior parte das estrelas tem luminosidade regular, como é o caso de nosso sol, por isso as estrelas variáveis eram assunto de grande interesse para os cientistas da época. Henrietta descobriu e registrou mais de mil estrelas na Nuvem de Magalhães e concluiu que algumas delas apresentavam um padrão: as mais brilhantes variavam em períodos de tempo maior. Isso significava que a luminosidade da estrela era proporcional a seu período de variação, o que tornava essas relações bastante precisas. As Cefeidas, que são estrelas gigantes, serviram como referência para os cálculos de Henrietta e foram as primeiras velas-padrão, nome que se dá a uma estrela de brilho conhecido a partir da qual se infere a distância de outros corpos celestes, por comparação. Com isso, passou a ser possível calcular a distância de qualquer estrela de brilho intenso, mesmo as muito afastadas, com grande precisão – uma extraordinária conquista para a ciência, pois até então só se podia estimar as distâncias de corpos celestes mais próximos, usando o método comparativo da paralaxe, criado por Bessel. O que os astrônomos chamavam de nebulosas espirais mostrou-se ser, na verdade, outras galáxias, surpreendentemente até muito distantes da própria Via Láctea. Isso mudou decisivamente a visão que até então tínhamos do universo: a de que ele todo se resumia a uma galáxia – a nossa. Os desdobramentos de tais conclusões, incluindo a curva periódica de luminosidade, elaborada por Henrietta e por seu colega Shapley, incluíam nada menos que a célebre e inquietante descoberta de Hubble de que o universo estava se expandindo continuamente. Henrietta morreu aos 53 anos, vítima de um câncer, no ano em que fora nomeada chefe de fotometria estelar em Harvard. Com as crescentes referências a Hubble, Einstein e outros renomados cientistas da época, seu nome foi injustamente esquecido, identificado apenas por especialistas e aficionados da área. De acordo com seus amigos, ela era uma pessoa cheia de vida, para quem as coisas se tornavam belas e cheias de significado.

Por sua dedicação e pelos excelentes resultados de seu trabalho, o observatório de Harvard contratou Henrietta Leavitt, que havia começado como voluntária, por 30 centavos de dólar a hora. Mais de um século depois, esse valor, evidentemente, corresponde a algo um pouco mais considerável, mesmo assim irrisório. O diretor, Edward Pickering, com certeza não imaginava que ela pudesse realizar descobertas tão importantes.

O método da paralaxe consiste na comparação de dados colhidos por observadores em determinadas posições. Assim como, quando olhamos pela janela de um veículo em movimento, vemos as árvores próximas passarem por nosso campo de visão mais rapidamente e as distantes mais lentamente, os astrônomos cruzam informações de observatórios em diversos pontos da Terra e calculam as distâncias das estrelas por meio de triangulações. Mas esse método não funciona para longas distâncias.

Edwin Hubble dizia abertamente que Henrietta Leavitt merecia ganhar o prêmio Nobel. Um dos membros da Academia Sueca sugeriu sua inscrição em 1924, mas foi informado que ela havia morrido três anos antes. Hubble também foi ignorado pelo Nobel.

O asteroide 5383 Leavitt tem esse nome em sua homenagem.

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Fibonacci

A revolução dos números

Leonardo da Vinci. Mona Lisa. 1506 Leonardo Fibonacci

(Pisa, c. 1170 – c. 1250)

Matemático italiano considerado o mais importante da Europa medieval. Escreveu diversos livros sobre álgebra e geometria, sendo sua obra principal o Liber abaci (livro do ábaco e, por extensão, livro do cálculo), de 1202, o mais relevante trabalho no campo da matemática desde os estudos de Eratóstenes – que havia calculado a circunferência da Terra, dez séculos antes. A importância desse livro reside no fato de Fibonacci ter trazido à Europa, por meio dele, os algarismos arábicos, que substituíram os numerais romanos e são usados até hoje, praticamente em escala mundial. O livro foi rapidamente adotado em todo o continente europeu, e isso representou uma revolução nas relações comerciais e um avanço na direção de um renascimento das ciências exatas no Ocidente. Mas Fibonacci não foi apenas um mero divulgador desses conhecimentos: também era, ele próprio, um matemático brilhante. Em sua época, Pisa era um dos maiores centros comerciais da Itália, e seu pai, um rico comerciante, dono de uma casa de artigos manufaturados, tinha acesso aos portos marítimos do Mediterrâneo, o que facilitou ao filho suas viagens por outras partes do mundo. Fibonacci chegou a conhecer Constantinopla, mas principalmente viajou pelo norte da África, onde passava longos períodos aprendendo a matemática árabe. Em contato com o mundo islâmico, conheceu o sistema algébrico de Al-Khwārizmi (nome que deu origem à palavra algarismo), que por sua vez havia aprendido com os hindus – daí se chamarem esses numerais, inicialmente, hindu-arábicos. O Liber abaci apresentava o elegante sistema numérico de 0 a 9, além da notação posicional, que faz com que números como 213, 123, 132, 321, 231 e 312 tenham valores diferentes. Isso já havia sido demonstrado um século antes por Adelardo de Bath, porém foi a publicação do Liber abaci que disseminou esses conhecimentos entre os europeus. Parece pouco aos nossos olhos de hoje, mas isso foi um salto muito significativo para os que trabalhavam com o método de letras romanas. O livro trazia também muitos problemas de matemática e suas resoluções. Entre eles, o que tratava de uma crescente população de coelhos tinha como parte da resposta uma sucessão numérica que ficou conhecida como sequência de Fibonacci. Ela começa com 0 e 1. Os números seguintes são sempre uma soma dos dois números anteriores, portanto: 0, 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34… 987, 1593, 2580… A partir do número 2, quando se divide um desses elementos pelo seu correspondente anterior, obtém-se o valor aproximado de 1,618. Esse resultado era visto como uma constante transcendental, chamada razão de ouro e também número de Fibonacci, embora os indianos já a conhecessem desde o século 6. De volta à Itália, após muitas de suas viagens, Fibonacci recebeu um convite do imperador Frederico II, que lhe ofereceu uma renda vitalícia para que se dedicasse inteiramente ao estudo das ciências exatas, depois de ter sido informado sobre suas habilidades em solucionar alguns dos mais complicados problemas dos matemáticos da corte. Embora o velho sistema de numeração romana tivesse sofrido seu golpe de misericórdia com a publicação do Liber abaci, ele ainda se preservou na denominação de ocasiões e itens cerimoniosos, porque às elites intelectualizadas agrada a distinção do conhecimento popular – o interlocutor não compreenderá o código das velhas letras romanas sem um certo grau de cultura. Depois de 1228, não há mais notícias sobre Fibonacci, que morreu, provavelmente, em 1250. Provavelmente em Pisa.

• O pai de Fibonacci se chamava Guglielmo dei Bonacci, e o sobrenome de Leonardo, por alguma razão, resultava de uma forma abreviada de filius Bonacci, ou filho de Bonacci.

• Ainda na Idade Média, livres da influência da Igreja, os árabes viviam seus séculos de ouro, de grandes avanços em muitas áreas do conhecimento, como na matemática, na medicina e na astronomia. Os islâmicos se orientavam por adágios como: “A tinta dos cientistas vale tanto quanto o sangue dos mártires”, o que deixa claro o valor do conhecimento para eles.

• O asteroide 6765 Fibonacci tem esse nome em sua homenagem.

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Imagem: Leonardo da Vinci. Mona Lisa. 1506 – mostrando as proporções da razão de ouro.

Andreas Vesalius

A revolução na anatomia

Andreas Vesalius

Andreas Vesalius

(Bruxelas, 1514 – proximidades da ilha de Zante, atual Zákhintos, Grécia ocidental, 1564)

Médico anatomista de origem flamenga, seu trabalho pôs fim a uma era e deu início a outra, a era moderna da medicina. Sua mãe era inglesa, seu pai trabalhava para o imperador Carlos V como farmacêutico da corte e vinha de uma linhagem de médicos procedente de Wesel, na Alemanha, de onde deriva seu sobrenome, em forma latinizada. Vesalius estudou na Bélgica e na França, entre mestres conservadores. Em seus estudos, ele refutou grande parte das teorias do precursor greco-romano Galeno, que eram a base do conhecimento médico da época, o que lhe causou desentendimentos com um de seus professores. Serviu como cirurgião militar no norte da Europa, mas sua vocação maior apontava para o estudo da anatomia, o que não era fácil num período em que certos procedimentos eram tidos como heréticos e perigosos, do ponto de vista da Igreja. Mudou-se para a Itália, que vivia ainda entre os últimos lampejos do Renascimento e onde poderia trabalhar com mais liberdade intelectual do que em outras partes da Europa – também na Itália, a dissecção de cadáveres não era bem vista, mas as autoridades não se importavam muito com isso, o que favoreceu pesquisadores como Mondino de Luzzi, que puderam destacar-se, mais de dois séculos antes, com obras do gênero. Desse estudioso, Vesalius retomou o costume de realizar pessoalmente as demonstrações anatômicas, em razão do amadorismo dos assistentes. Graduou-se em Medicina em 1537 e lecionou em Pádua, Bolonha e Pisa, tornando-se um famoso conferencista, muito requisitado pelos estudantes, entre os quais jovens talentosos como Gabriele Falloppio, criador do preservativo masculino. Vesalius reuniu seus trabalhos em um dos maiores livros da historia da ciência, o célebre De humani corporis fabrica (Da estrutura do corpo humano), a primeira obra precisa sobre a anatomia humana. Uma importante vantagem desse livro sobre os anteriores consistia nas ilustrações impressas, que podiam ser reproduzidas em número ilimitado, porque, antes da invenção da imprensa, as palavras podiam ser copiadas com fidelidade; mas as ilustrações, não. Alem de precisas, as ilustrações eram de uma notável beleza, realizações de excelentes artistas, contratados especialmente para essa tarefa. O corpo humano era mostrado em atitudes naturais, e os desenhos dos músculos eram tão exatos que nunca foram superados. Tratava-se de uma realização extraordinária para um homem que não tinha ainda 30 anos. Infelizmente, os trabalhos desse jovem médico encontraram uma ferrenha oposição, ainda que representassem o fim de toda uma era regida sob as ideias de Galeno. A obra de Vesalius não foi um falso alarme como o de Mondino: ele realmente demarcou o inicio da anatomia moderna. Apesar de ser um admirável anatomista, ele se apegava a algumas ideias fisiológicas antiquadas – lembrando que a anatomia trata da estrutura dos organismos vivos; e a fisiologia, de seu funcionamento. Por exemplo, aceitava o conhecimento vigente sobre a circulação sanguínea e acreditava que o sangue passasse de um ventrículo para outro através de poros microscópicos situados na parede muscular interventricular – mas a verdadeira fisiologia circulatória já existia, por meio dos estudos de Miguel Servet. Discordava de Aristóteles quanto à convicção do grego de que o coração seria o centro da vida, da mente e das emoções: Vesalius atribuía todas essas funções ao sistema nervoso, como hoje podemos confirmar. Desde então, não houve mais discussão sobre o assunto. Vesalius encerrou seus trabalhos quando seu livro foi publicado, provavelmente desiludido com a ira e a oposição suscitadas, lideradas por seu velho mestre parisiense, que o levaram a abandonar a pesquisa. Mas ele já era muito famoso como médico, e dificilmente conseguiria sair de cena. Seus inimigos o acusaram de heresia, roubo de cadáveres e dissecção. Durante algum tempo, tudo indicava que ele seria executado, mas suas ligações com a corte de Carlos V o salvaram, e a sentença foi comutada em uma peregrinação à chamada Terra Santa (hoje Israel). Na volta dessa viagem, o navio que o transportava foi lançado pelo mar às costas gregas, e Vesalius morreu no naufrágio. Ele ficou conhecido como o Pai da Anatomia Moderna.

• O trabalho principal de Vesalius é um verdadeiro atlas do corpo humano e um magnífico exemplo do que havia de melhor na produção de livros no pós-Renascimento. Obra de aproximadamente setecentas páginas de fina impressão, dividida em sete partes, chamadas livros, um estudo completo sobre o tema. Para sua confecção, Vesalius não poupou gastos: contratou os melhores artistas e técnicos, tendo como impressor Johannes Oporinus, de Basileia, chegando a ir até essa cidade para supervisionar os trabalhos pessoalmente. No livro VI, ele faz uma observação importante sobre a notável semelhança do coração com um músculo.

•  Em suas demonstrações, Vesalius obtinha sucesso com algo tão simples como fazer constatar que o homem e a mulher tinham o mesmo número de costelas, pois na Idade Média era comum que as pessoas acreditassem no gênese bíblico, segundo o qual o homem teria uma costela a menos, utilizada para dar origem a uma mulher completa. Como se sabe, as ideias medievais não desapareceram com o Renascimento e perduraram até alguns séculos depois, num processo lento e conflituoso.

• Eram tempos perigosos para os cientistas. Pouco antes das acusações contra Vesalius, o próprio Servet, que descobrira a circulação pulmonar, havia sido queimado vivo, acusado de heresia.

• Por uma coincidência curiosa, os livros de Vesalius e de Copérnico foram publicados no mesmo ano, e os dois significaram importantes marcos para as ciências biológicas e físicas. Na verdade, eles constituem o nascimento da chamada Revolução Científica.

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Imagem: Ticiano. Retrato de Andreas Vesalius. 1545.

Eratóstenes

O homem que mediu o tamanho da Terra

Bernardo Strozzi. Eratóstenes ensinando em Alexandria.

Eratóstenes

(Cirene, atual Shahhat, na Líbia, 276 a.C. – Alexandria, 194 a.C.)

Um gênio múltiplo, quase esquecido, que foi matemático, astrônomo, geógrafo, gramático, crítico literário, tendo se destacado até mesmo na música, segundo Ptolomeu III, que o havia trazido de Atenas para trabalhar na célebre Biblioteca de Alexandria, o maior centro cultural de toda a Antiguidade. Entre suas inúmeras obras, destacam-se o tratado Astronomia (seu mapa celeste incluía 675 estrelas) e Sobre os significados, este último citado como um notável trabalho de Geometria, antes de extraviar-se definitivamente, talvez no século 4. No que se refere a seus estudos matemáticos, o chamado Crivo de Eratóstenes, um sistema para determinar números primos, ainda é uma ferramenta útil na teoria dos números. Escreveu uma obra chamada Geográfica, na qual utiliza termos específicos (como geógrafo, por exemplo) para uma matéria até então vista como apenas técnica – por causa disso, é considerado o fundador da disciplina Geografia. Foi o primeiro estudioso a se preocupar com datas precisas e propôs uma cronologia que tomasse por base a Guerra de Troia, ocorrida mil anos antes. Atribuía a invenção da cartografia a Anaximandro, talvez desconhecendo que essa técnica já era usada em Mileto. Ele próprio estudou descrições de expedições empreendidas durante a expansão do império macedônio, sob o comando de Alexandre, o Grande, para compor o maior e mais completo mapa do mundo conhecido, abrangendo desde as Ilhas Britânicas até o Ceilão (hoje Sri Lanka), num desenho de tal amplitude que só seria superado mais tarde por Hiparco e por Estrabão. Também sugeriu que se acrescentasse um dia ao calendário a cada quatro anos, o que foi rejeitado pelos conservadores e aceito somente nos tempos de Sosígenes, um século mais tarde. Apesar de tantas e múltiplas habilidades, Eratóstenes é especialmente lembrado por um feito particularmente simples, mas muito engenhoso: a medição da circunferência da Terra. Por volta de 240 a.C., leu num papiro a intrigante informação de que em Siena, localidade próxima à primeira catarata do rio Nilo, ao meio-dia, no solstício de verão, as varetas e colunas não faziam sombra. Como o Sol está tão distante que seus raios são paralelos quando chegam à Terra, a única explicação possível era a de que havia algum tipo de curvatura entre um local e outro. Os mapas da época eram feitos como se o observador os visse do alto, e eram corretos em relação à região do Mediterrâneo. Porém, iam ficando cada vez mais imprecisos conforme os viajantes se afastavam do núcleo civilizatório que ocupava essa região. Eratóstenes enviou alguns homens a Siena e os orientou a medir o comprimento da sombra das varetas em determinada data, comparando posteriormente as informações com as sombras que podia, ele próprio, medir em Alexandria em unidades gregas de distância (stadia). Com a diferença encontrada, determinou ângulos resultantes dessa curvatura e os multiplicou supondo que o planeta fosse esférico, chegando a 40 mil quilômetros, o que é praticamente certo. Em razão dessa dimensão gigantesca, jamais imaginada até então, ele concluiu que os mares eram muito maiores do que supunham seus contemporâneos, e deviam ser unidos de alguma forma. Isso significava que todo o mundo conhecido ocupava apenas uma pequena porção de superfície do planeta. Pior ainda: a maior parte devia ser ocupada por água. A verdadeira dimensão da Terra, em relação ao pensamento dos homens da época, era estonteante e os fazia se sentir menores, afinal as terras sob seus domínios já pareciam muito extensas, apoiando motivações de patriotismo e sonhos de grandeza quanto à expansão de seus territórios, e eles simplesmente tinham dificuldade em assimilar que todas essas “grandezas” fossem tão pequenas. Um valor menor, calculado depois por Possidônio, foi melhor aceito, fazendo declinar o trabalho de Eratóstenes ao esquecimento. Com a ascensão da Igreja, essas e muitas outras conquistas dos cientistas antigos permaneceram ignoradas por séculos, até que no período do Renascimento voltaram a ser seriamente consideradas, principalmente por sua utilidade. Aos 82 anos, cego e cansado, Eratóstenes parou de se alimentar e se deixou morrer.

• A comprovação de que todos os mares eram unidos só seria feita quase dois milênios mais tarde, com as viagens de Fernão de Magalhães, o primeiro a circunavegar toda a Terra.

• Os três volumes que compunham a Geográfica foram quase inteiramente perdidos, restando apenas fragmentos. Essa obra foi citada por Plínio, o Velho, o primeiro enciclopedista e precursor das descrições de terras longínquas.

• O apelido de Eratóstenes era Beta, a segunda letra grega, porque seus contemporâneos, talvez enciumados, alegavam que ele era sempre o segundo em tudo, tendo suas áreas de conhecimento um representante máximo. Para se ter uma ideia, ele foi amigo de Arquimedes e tinha interesses universais como Aristóteles.

• Seu livro Sobre a medição da Terra, com os detalhes de seus procedimentos, também se perdeu.

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(Imagens de pessoas tão antigas não são confiáveis. Muitas vezes são representações de um tipo étnico, não correspondendo às feições reais do indivíduo retratado.)

Imagem: Bernardo Strozzi. Eratóstenes ensinando em Alexandria. 1635.

Arquimedes

A razão contra a guerra

Arquimedes

(Siracusa, Sicília, 287 a.C. – 212 a.C.)

Filho de um astrônomo sobre quem nada se sabe, é visto como o maior cientista e inventor da Antiguidade. Sua excepcional inteligência e sua capacidade inventiva somente foram comparadas às de Isaac Newton, que viveu dois milênios mais tarde. Em Alexandria, foi aluno e amigo de Cônon, que por sua vez fora discípulo do célebre matemático Euclides. De família aristocrática, Arquimedes não dependia da ajuda dos reis egípcios, por isso deixou o grande centro cultural que era Alexandria (o que não era comum na época, entre os jovens aprendizes e pensadores) e retornou a sua cidade natal. Certa vez, Hierão II, rei de Siracusa, pediu a ele que encontrasse uma maneira de determinar se uma coroa, que o tirano acabara de receber de seu ourives, era realmente de ouro puro ou se continha alguma mistura de prata. Em outro momento, ao entrar em sua banheira, o cientista observou que o volume de água que transbordava era igual ao volume de seu corpo, que tomava o lugar dela. Entendeu que poderia usar o mesmo raciocínio, com maior grau de precisão, para medir o volume da coroa sem danificá-la: se os volumes comparados, entre peças de ouro e de prata, fossem iguais, a coroa seria mesmo de ouro; se fosse uma falsificação, teria um volume maior, pois o volume da prata é maior que o do ouro. Entusiasmado com a descoberta, saiu correndo nu, pelas ruas da cidade, gritando Eureka! – que significa achei, encontrei. (Essas anedotas dificilmente podem ser confirmadas: não constam da obra do próprio cientista e, além disso, no caso específico da coroa, o método exigiria uma precisão que talvez não fosse possível com as técnicas disponíveis na época.) Arquimedes inventou o princípio da alavanca, no qual o peso e a distância são inversamente proporcionais, e criou o cilindro helicoidal oco, que servia como bomba d’água ao ser girado, e que ficou conhecido como Parafuso de Arquimedes, embora os egípcios já o usassem muito tempo antes. Com tais invenções, fundou a ciência da hidrostática, expondo pela primeira vez a lei do empuxo e a noção de centro de gravidade. Outra das ironias da história, ele não se orgulhava de seus inventos, que não considerava dignos de um filósofo, por isso só publicou seus trabalhos matemáticos. Chegou ao mais preciso valor de pi (π, razão entre o comprimento de uma circunferência e seu diâmetro) que se conhecia até então, superando os cálculos de seus predecessores. Arquimedes era também um guerreiro. Em 218 a.C., teve início a segunda Guerra Púnica, travada entre Roma e Cartago, a famosa cidade-estado fenícia, cujo líder, Aníbal, acabara de invadir a Itália. O sucessor de Hierão II posicionou-se ao lado de Cartago, o que motivou os romanos a atacarem Siracusa. Essa guerra, planejada para ser breve, esbarrou na engenhosidade de Arquimedes, que passou a criar uma série de armas e estratégias surpreendentes para resistir aos invasores. Entre elas, estreitas ameias de onde partiam setas, sem que os arqueiros pudessem ser contra-atacados, e guindastes mecânicos que podiam virar navios inimigos que se aproximassem da costa. Falava-se também de um sistema de lentes que concentravam a luz do Sol e podiam incendiar as embarcações romanas em pleno mar, relato que, como outros, não pôde ser confirmado. O cerco estendeu-se por três anos, até que, por fim, Siracusa caiu em mãos inimigas. O general Marcelo, comandante da missão, admitia que, de certa forma, aquela fora uma guerra de muitos contra um homem só: Arquimedes, o cérebro por trás da resistência. Durante a ocupação da cidade pelos romanos, o inventor mostrou-se indiferente e altivo, ignorando a rendição. Estava entretido com um problema teórico, desenhando figuras geométricas na areia, quando foi abordado por um soldado que anunciou sua prisão, ordenando-lhe que o acompanhasse, ao que teria respondido: “Não perturbe meus círculos.” O soldado, ao que tudo indica, um homem prático e sem tempo para antipatias, matou-o com sua espada. Marcelo, cujas ordens eram para que capturassem Arquimedes com vida e o tratassem com distinção (uma atitude incomum para um líder da época e, talvez, para qualquer época), lamentou sua morte e promoveu funerais dignos de um homem ilustre. O general levou, como única pilhagem pessoal de Siracusa, um artefato construído pelo genial inventor: um engenhoso planetário que foi admirado e estudado em Roma.

• Conta-se que a coroa avaliada por Arquimedes continha, de fato, porcentagens de uma liga de prata, o que levou à execução do ourives. Se for verdadeiro o relato de que o cientista correu nu pela cidade até o palácio do rei, é preciso lembrar que a nudez não incomodava os gregos, e isso pode ter sido visto apenas como uma divertida curiosidade.

• O princípio da alavanca explica por que um grande bloco de pedra pode ser erguido por um simples pé de cabra e ajuda a compreender melhor a construção de algumas das magníficas construções da Antiguidade. A tradução dos trabalhos de Arquimedes para o latim, que se deu somente em 1544, contribuiu para os estudos de cientistas como Stevinus, Huygens e Galileu.

• Os romanos não primavam pelas inovações. Usavam a ciência apenas com funções militar e política, enquanto outros povos, contemporâneos desse mesmo período, desenvolviam a matemática, a astronomia e outras ciências. Sobre Arquimedes, admitiam que não possuíam, de seu lado, ninguém como ele.

• A segunda Guerra Púnica ficou célebre por causa da travessia dos Pirineus e dos Alpes pelos exércitos de Aníbal, um dos mais brilhantes estrategistas da Antiguidade, o único que se atreveu a atacar Roma, tendo chegado muito perto de capturá-la, o que teria sido um feito notável. Foi bem sucedido em muitas batalhas, mas entre as baixas sofridas durante a travessia das cordilheiras, estavam muitos de seus elefantes de guerra, que sucumbiram por hipotermia.

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Imagem: Giulio Parigi. Arquimedes e o raio da morte. 1600.

(Afresco na Galeria Uffizi, Florença.)