Coisas que ninguém viu nos contos de fadas

1-os-sete-anoes-1Os pais deixam os filhos pequenos na floresta para que morram de fome. João e Maria conseguem voltar e, milagrosamente, ainda amam os pais. Os pais, frustrados, tentam de novo e desta vez conseguem: os pequenos realmente se perdem. Depois de quase morrerem nas mãos de uma senhora solitária e louca, eles a matam, roubam suas joias e voltam para casa. Milagrosamente, eles ainda amam os pais. E os pais se alegram com sua volta. Os pequenos assassinos estão carregados de joias, roubadas da vítima. Todos ficam felizes.

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O lobo está sozinho com a menina indefesa, no meio da floresta, sem ninguém por perto. Pode atacá-la ali mesmo, sem nenhum impedimento, sem nenhuma testemunha. Mas prefere trapacear, fazendo-a tomar outro caminho para que ele próprio, por um atalho, chegue antes à casa da avó dela, onde mais tarde, depois de uma sessão de fingimento mal ensaiado, tenta dominá-la.

Preliminares? Ou esse lobo gosta mesmo é de teatro?

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Todo dia os sete anões trazem da mina sacos de diamantes e pedras preciosas. Com alguns meses de trabalho, certamente teriam se tornado os homens mais ricos da Europa. Mas moram numa casinha tosca. Usam roupas remendadas. E não tinham faxineira até a coitada da Branca de Neve chegar.

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A madrasta da Rapunzel foi uma precursora da boa forma. Escalar uma torre daquela altura subindo por uma corda de tranças de cabelos, depois fazer rapel na volta não é para qualquer um. a mulher devia estar em ótima forma. Madrasta fitness.

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Entendendo que não conseguirá persuadir Wendy, Peter Pan recorre ao seu plano B: a minúscula fada Tinker Bell, que deixa cair sobre eles um pó mágico. Todos passam a ter pensamentos felizes e adquirem o dom de voar. Wendy, até então ajuizada e boa argumentadora, se esquece imediatamente de tudo o que dizia um minuto atrás. Agora todos estão prontos para a viagem. Já estão, de alguma forma, viajando em si mesmos, encantados e entregues, aptos a longos e arriscados voos – afinal, vão enfrentar piratas armados, deixar a proteção de sua casa aconchegante, correr riscos. Aspirar o pó mágico afastou seu medo, aniquilou sua consciência. Peter Pan drogou as crianças.

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Nos bons tempos dos contos de fadas, era muito fácil enganar os outros. Um leão jogava às costas uma pele de cordeiro e se fazia passar por um. Um lobo imitava horrivelmente a voz da mamãe cabra e tentava entrar na casa dos cabritinhos. Outro lobo enfiava uma touca na cabeça, uns óculos por cima do focinho comprido e pronto: “Não me reconhece, querida? Sou a sua vovozinha.” O mais divertido mesmo é que a personagem-vítima ainda franze a testa, leva a mão ao queixo, desconfiada, como se pensasse: “Hum… Há algo estranho por aqui…”.

Viajando com Peter Pan

Constanza

Imagem: Walt Disney Productions. Branca de Neve e os sete anões. 1937.

O poeta e a coca-cola, fracos sem vez, carta do pai Queirós

1-irmaos-coenO slogan “Primeiro estranha-se, depois entranha-se” foi criado em 1929 pelo poeta Fernando Pessoa para uma campanha publicitária da Coca-Cola. Pessoa, lembrado por seus geniais heterônimos, com estilos e biografias distintas, trabalhava à época na agência Hora, à qual foi encomendada a campanha. Nada disso funcionou. Desmotivada por razões políticas, a Coca-Cola só entrou no mercado de bebidas português muito tempo depois – e o slogan não chegou a ser usado.

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O filme Onde os fracos não têm vez, dirigido pelos irmãos Joel e Ethan Coen, é baseado no romance homônimo de Cormac McCarthy, um dos mais importantes escritores norte-americanos de sua geração. O título da obra, no original, No country for old men, é uma referência a um poema de W. B. Yeats, “Sailing to Bizantium”, que abre com os versos:

That is no country for old men. The young
In one another’s arms, birds in the trees,
– Those dying generations – at their song…
 

O romance Desonra, de J.M. Coetzee, que trata, entre outros temas, do envelhecimento do personagem central, o professor Lurie, também menciona os versos de Yeats.

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O clássico romance O primo Basílio não agradou muito ao pai do autor, que o entendeu um tanto ousado e vulgar e lhe escreveu isto, em uma carta:

No ponto de vista da escola realista que te domina, o romance é uma obra de arte perfeita. Entretanto eu creio que, mesmo nessa escola, há um ponto além do qual não é permitido. Ou pelo menos não é conveniente passar. Pode-se mostrar a chaga, e o realismo está nisso; mostrar porém toda a podridão não dá mais caráter à escola realista e leva ao exagero, que é um defeito em todo gênero de composição.”.”

.Mais curiosidades literárias: O bom ladrão, os dentes da caveira, atentado em Paris, cômico por ter sido sério

Imagem: Joel e Ethan Coen durante as filmagens de  Onde os fracos não têm vez (2007).

O bom ladrão, os dentes da caveira, atentado em Paris, cômico por ter sido sério

Hamlet 1964Machado de Assis pagava pela publicação de seus livros. Conta-se que o editor, Baptiste Louis Garnier, acabava ficando com parte dos lucros das vendas (poucas, na época), além de usar parte do capital do autor para outros fins não declarados. Mas como ele incentivava Machado a publicar sempre mais, era conhecido, por causa das suas iniciais, B.L., como o Bom Ladrão Garnier.

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Na cena em que Hamlet segura uma caveira e observa o encaixe de seus dentes, Shakespeare faz referência a um tipo de documento feito à época – pelo menos no século 13, na Dinamarca. O contrato, escrito à mão, sem cópia, era rasgado em duas partes: uma ficava com o proprietário, outra arquivada no equivalente a um cartório, uma entidade oficial do reino. Um papel rasgado aleatoriamente é como uma impressão digital. Só os verdadeiros donos das duas partes poderiam juntá-las perfeitamente quando fosse preciso.

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Aos 32 anos, Samuel Beckett foi esfaqueado por um mendigo em Paris, que depois declarou não saber por que tinha feito aquilo – diz uma versão que foi pelo fato de o autor ter-lhe recusado uma esmola.

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No prefácio da quinta edição portuguesa do romance Amor de perdição, Camilo Castelo Branco afirma ironicamente: “Eu não cessarei de dizer mal desta novela que tem a boçal inocência de não devassar alcovas, a fim de que as senhoras a possam ler nas salas, em presença de suas filhas ou de suas mães, e não precisem de esconder-se com o livro no seu quarto de banho. Dizem, porém, que o Amor de perdição fez chorar. Mau foi isso. Mas agora, como indenização, faz rir: tornou-se cômico pela seriedade antiga […]. E por isso mesmo se reimprime. O bom senso público relê isto, compara com aquilo, e vinga-se barrufando com frouxos de riso realista as páginas que há dez anos aljofarava com lágrimas românticas.”

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.Mais curiosidades literárias: Ossos do Quixote, metamorfoses, Fabiano e Baleia, Pompéia na noite de Natal

Imagem: Anastasia Vertinskaya e Innokenty Smoktunovsky em cena do filme Hamlet (1964), dirigido por Grigori Kosintsev.

Sapatinhos vermelhos, o ermitão, voyeurismo, fracasso de Bambi

O mágico de OzCansado de contos de fadas e historinhas moralistas, o público leitor do final do século 19 ansiava por histórias para crianças que fossem apenas entretenimento. Quem soube muito bem farejar essa tendência foi L. Frank Baum, que em 1900 lançou O maravilhoso mágico de Oz (no cinema, apenas O mágico de Oz), um sucesso de vendas em uma época de escasso mercado editorial para o público infantil. Mas, como nada é de graça, os críticos viram na obra de Baum alusões quase evidentes à realidade de seu país e de seu tempo. Ele era do Partido Populista (que depois deixou de existir, integrando-se ao Republicano), e como sua turma andava pregando investir na prata para quebrar o monopólio do ouro, Dorothy ganha sapatinhos prateados com os quais caminha sobre a estrada de… tijolos amarelos. amarelos. (Oz é abreviatura de onça, unidade de massa com a qual se pode avaliar o peso de algum material, inclusive ouro e prata.) O espantalho era o homem do campo, que não tinha voz, mas gostaria de ter. O homem de lata era o lenhador do norte, alienado pelo trabalho semiescravo. E o leão covarde era Bryan, líder de seu partido, que falava muito bem em público, mas que, na última hora, nunca ganhava eleição alguma. (No cinema, Dorothy ganhou sapatinhos vermelhos, porque os filmes em cores eram ainda uma novidade fascinante e exploravam ao máximo esses recursos.)

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Bernardo Guimarães foi o primeiro escritor regionalista brasileiro, com o romance O ermitão de Muquém.

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O mais antigo texto conhecido dos primórdios de nossa língua chama-se “Cantiga da Ribeirinha”, escrito por Paio Soares de Taveirós. As datas são incertas, mas sempre são apontadas duas: 1189 ou 1198. Coincidência? Ou a dezena final foi trocada por erro? É um poema centrado no voyeurismo, em que o eu lírico se apaixona e se incomoda depois de ver, secretamente, a jovem Maria Ribeira se trocando. Nossa literatura começou com essa pequena sacanagem.

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O escritor austríaco Felix Salten escreveu, sob pseudônimo, o romance erótico Josephine Mutzenbacher, de 1906, baseado nas experiências de uma prostituta de Viena. Com a anexação da Áustria pelos nazistas, Salten, que era judeu, exilou-se na Suíça, onde morou até a morte. Seu trabalho mais conhecido é Bambi, uma vida na floresta, de 1923, vendido por mil dólares à Walt Disney Productions, que lançou a animação em 1942. Apesar de bem-sucedido nas bilheterias, Bambi não conseguiu cobrir seus custos de três anos de produção. O cartaz original do filme era a imagem de um livro. Um xará, Perce Pearce, foi um dos roteiristas.

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Mais curiosidades literárias: Alice, a bagaceira, o sonho de um homem ridículo

Imagem: Judy Garland em cena do filme O mágico de Oz (1939), dirigido por Victor Fleming e George Cukor.

Ossos do Quixote, metamorfoses, Fabiano e Baleia, Pompéia na noite de Natal

O homem de La ManchaDom Quixote pôs fim aos ciclos de novelas de cavalaria, populares durante a Idade Média. Cervantes estava consciente de que decretava, com seu romance, o fim de uma era. Tanto que escreveu:

“Só para mim nasceu D. Quixote, e eu para ele: ele para praticar as ações e eu para as escrever. Somos um só, a despeito do escritor fingido que se atreveu a contar as façanhas do meu valoroso cavaleiro […] e a esse advertirás, se acaso chegares a conhecê-lo, que deixe descansar na sepultura os cansados e já apodrecidos ossos de D. Quixote […] e eu ficarei satisfeito de ter sido o primeiro que gozou inteiramente o fruto de seus escritos, como desejava, pois não foi outro o meu intento, senão o de tornar aborrecidas dos homens as fingidas e disparatadas histórias dos livros de cavalarias, que vão já tropeçando com as do meu verdadeiro D. Quixote, e ainda hão de cair de todo, sem dúvida.”

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Metamorfoses é de autoria de Ovídio; A metamorfose, de Franz Kafka.

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Fabiano e Baleia, de Vidas secas (Graciliano Ramos), são considerados os personagens mais conhecidos da literatura brasileira, seguidos de Bentinho, de Dom Casmurro, e Brás Cubas (Machado de Assis), do romance inovador que consagrou o autor internacionalmente. Harold Bloom considera Machado de Assis um dos maiores autores da literatura ocidental. Em algumas edições de língua inglesa, Memórias póstumas de Brás Cubas é conhecido como Epitaph of a small winner (Epitáfio de um pequeno vencedor), e “Quincas Borba” foi publicado com o título Philosopher or dog? e também The dog and the philosopher.

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O ateneu, de Raul Pompéia, é claramente baseado em suas memórias do colégio interno. Todas as decepções e sofrimentos vividos, durante a adolescência, nesse lugar, foram muito fortes para um menino sensível e esperançoso. Raul Pompeia suicidou-se em uma noite de Natal.

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Mais curiosidades literárias: Dezena invertida, apontando lápis ao amanhecer, o bom aluno na África

Imagem: Peter O’Toole e James Coco em cena do filme O homem de La Mancha (1972), dirigido por Arthur Hiller.

Dezena invertida, apontando lápis ao amanhecer, o bom aluno na África

1984O verdadeiro nome de George Orwell era Eric Arthur Blair. Ele adotou o pseudônimo para não comprometer a família, que tinha origem em classes sociais tradicionais e abastadas. Nasceu na Índia, foi policial na Birmânia (hoje Myanmar) e jornalista na França. Lutou na Guerra Civil Espanhola, quando foi ferido no pescoço, o que tornou sua voz ligeiramente afeminada. Andava pelas favelas de Londres para conhecer o que seriam alguns cenários de seus romances, como para as expedições de Winston pelo bairro dos proles e para o esconderijo onde seu personagem se encontrava com Julia, no clássico 1984, romance publicado em 1949 mas terminado em 1948 – Orwell aproveitou o ano como título e inverteu a última dezena, assim chamando-o 1984 e localizando-o no futuro. No túmulo de Eric Blair, não há nenhuma referência ao pseudônimo que o consagrou.

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Graciliano Ramos, em determinada fase de sua vida, quase como num ritual diário, acordava antes do nascer do sol e punha-se a apontar lápis, alguns lápis, tranquilamente, longamente, que eram esses os seus instrumentos de trabalho. Nesse momento, segundo ele, é que tinha as melhores ideias para seus livros. Lápis, papel, ideias: um escritor não precisa de mais do que isso. Amanhece. Lápis apontados. Papel em branco. Um gênio começa seu dia.

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Fernando Pessoa, a quem associamos à imagem de um boêmio de vida instável, era bilíngue, foi educado na África do Sul, e desde menino um excelente aluno, destacando-se por seu desempenho brilhante. No Liceu de Durban, era um dos mais destacados e costumava ser aprovado com distinção nos exames. Seus primeiros poemas e seus primeiros contos (inacabados) eram escritos em inglês. Aos quinze anos, foi admitido na Universidade do Cabo com a melhor nota entre centenas de candidatos, razão pela qual recebeu o prêmio Rainha Victoria. Na juventude, leu quase todos os clássicos latinos e ingleses. Aos onze anos, com o pseudônimo de Alexander Search, enviava cartas para si mesmo. Sua obra poética principal, pela qual se tornou célebre, não foi publicada em vida.

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Mais curiosidades sobre literatura: Não me venham falar da Lua

Imagem: John Hurt e Suzanna Hamilton em cena do filme 1984 (1984), dirigido por Michael Radford.