Bellow – Herzog

Saul Bellow

Ele se tornou o que parecia improvável para um imigrante judeu e pobre: um dos mais importantes escritores norte-americanos do século 20. Seus heróis são homens comuns, por vezes um tanto intelectualizados, lutando para manter sua integridade em um mundo devastado pelo materialismo, pelo consumismo, pela arrogância e pelas atitudes egoístas visando à ascensão social. Com Herzog, romance autobiográfico, escrito num período em que se angustiava com a dissolução de seu casamento, depois de constatar que sua esposa (Madeleine, na ficção) o estava traindo com seu melhor amigo, alcançou notável popularidade e firmou-se como um dos autores mais representativos de sua geração. Bellow ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1976.

No trecho escolhido, observa-se a habilidade do autor em localizar no tempo e no espaço algo tão drástico quanto um pedido de divórcio, em meio à beleza contagiante de reflexos e cores a partir de objetos simples.

Na estante de prateleiras de vidro, erguia-se uma coleção ornamental de garrafinhas de vidro, venezianas e suecas. Vieram com a casa. O sol agora batia nelas. Eram atravessadas pela luz. Herzog viu as ondas, os filamentos de cor, as barras transversais espectrais, e em especial um grande borrão de branco flamejante no centro da parede acima de Madeleine. Ela estava dizendo: “Não podemos mais viver juntos.”.
 

Saul BellowHerzog.

Leia sobre curiosidades literárias: Alice, a bagaceira, o sonho de um homem ridículo.

Artistas da palavra

Quintana – Dorme, ruazinha… É tudo escuro!…

mario quintana

Em sua própria definição, ele foi um menino que envelheceu de repente. Sua sensibilidade parece ser o ponto de maior destaque entre ele e os outros modernistas. Seus temas procuram enfatizar um bem que nos toca, que nos é caro, mas que, naturalmente, todos nós perdemos: a inocência. Conheça um de seus poemas, desses que nos fazem outra vez crianças. Leia sem malícia. Relaxe sua crítica severa. Acompanhe os passos do poeta, sua simplicidade. Talvez essas ruas, por onde passeava nossa inocência, não existam mais.

Dorme, ruazinha… É tudo escuro….
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranquilos…
Dorme… Não há ladrões, eu te asseguro…
Nem guardas para acaso persegui-los…
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos…
 
O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um cão…
Dorme, ruazinha… Não há nada…
Só os meus passos… Mas tão leves são,
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração…
 
 

Mário QuintanaDorme, ruazinha… É tudo escuro…

Leia sobre outro importante poeta modernista.

Artistas da palavra

Drummond – Os ombros suportam o mundo

drummond

Um jovem tímido, formado em Farmácia. Um de muitos irmãos, vindo da fazenda do pai. Mineiro calado e introspectivo, incomodado por certa rebeldia silenciosa. Homem simples, mas curioso. Casado, uma filha. Mais tarde, aposentado como funcionário público. Dizia ter tido sorte de ter bons amigos que gostavam de literatura. Dizia também que a poesia era sua cachaça. O intelectual e crítico literário Alceu Amoroso Lima, ao longo de mais de uma década de correspondência, tentou convertê-lo ao cristianismo. Esse homem magro e pouco expressivo, que escreveu ter murmurado, à sombra de um mundo injusto, “um protesto tímido”, poderia ter passado como um cidadão comum por seu país e por seu tempo. Mas alcançou o status de um dos maiores poetas brasileiros do século 20. E deixou a marca de sua inquietação e de seus questionamentos entre nós, brasileiros, em geral pouco atentos a pensamentos profundos. A amostra escolhida é um trecho de um de seus poemas mais conhecidos e um de meus prediletos. Nossos ombros suportam Drummond.

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
[…]
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de AndradeOs ombros suportam o mundo.

Leia algo sobre outro importante nome de nossa poesia.

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Cortázar – Verão

cortazar

Um de meus autores prediletos, entre os mais criativos prosadores do século 20, assumiu as inovações estruturais do conto e do romance sem perder sua visão de mundo sempre aguda, irônica e por vezes quase infantil diante de situações beirando o colapso, como se estivesse sempre prestes a rir da vida. Em Último round, um desses livros-colagem, que ele chamava de almanaque, confessa-se seguidor das técnicas de Edgar Allan Poe, com as quais compôs alguns de seus contos mais memoráveis, com economia de recursos narrativos visando chegar mais rapidamente ao clímax – por vezes tão disfarçado que nos desvia da iminência de um impacto posterior. A amostra citada é parte do conto “Verão”, da coletânea Octaedro. Mariano e Zulma, um casal tranquilo que vive há muitos anos em sua casa de campo, recebe a filha de um amigo, uma criança que irá pernoitar ali até que seu pai venha buscá-la na manhã seguinte. O que ocorre nessa noite é de tirar o sono – não apenas dos personagens, mas do leitor que se aventura a conhecer parte do universo imprevisível de Cortázar.

Quando Zulma ouviu o primeiro barulho, Mariano estava procurando nas pilhas de discos, tinha uma sonata de Beethoven que não escutara naquele verão. Ficou com a mão no ar, olhou para Zulma. O barulho parecia na escada de pedra do jardim, mas àquela hora ninguém vinha à cabana, nunca ninguém vinha de noite. Da cozinha acendeu a lâmpada que iluminava a parte mais próxima do jardim, não viu nada e apagou-a. Um cachorro que estava procurando comida, disse Zulma. Soava esquisito, assim como alguém bufando, disse Mariano. No janelão chicoteou uma enorme mancha branca, Zulma sufocou um grito, Mariano de costas voltou-se tarde demais, o vidro refletia só os quadros e os móveis da sala. Não teve tempo de perguntar, o bufo soou perto da parede que dava para o norte, um relincho abafado como o grito de Zulma que tinha as mãos contra a boca e se grudava à parede do fundo, olhando fixo para o janelão. É um cavalo, disse Mariano sem acreditar, parece um cavalo, ouça os cascos, está galopando no jardim. As crinas, os beiços como que sangrando, uma enorme cabeça branca roçava o janelão, o cavalo apenas olhou para eles, a mancha branca apagou-se para a direita, ouviram outra vez os cascos, um brusco silêncio do lado da escada de pedra, o relincho, a corrida. Mas não há cavalos por aqui, disse Mariano […] Quer entrar, disse Zulma grudada à parede do fundo. Mas não, que bobagem, deve ter fugido de alguma chácara do vale e veio até a luz. Estou lhe dizendo que quer entrar, está louco e quer entrar. […] o sono veio antes, sem imagens, o nada total do qual saiu num dado momento despertado por um pânico indescritível, a pressão dos dedos de Zulma num ombro, o arfar. Quase antes de compreender já estava escutando a noite, o perfeito silêncio pontilhado pelos grilos. Durma, Zulma, não há nada, você deve ter sonhado. Insistia que ela concordasse, que tornasse a se estender de costas para ele, agora que de repente retirara a mão e estava sentada, rígida, olhando para a porta fechada. Levantou-se ao mesmo tempo que Zulma, incapaz de impedir que ela abrisse a porta e fosse até o começo da escada, grudado a ela e perguntando-se vagamente se não seria melhor esbofeteá-la, trazê-la à força até a cama, dominar finalmente tanta distância petrificada. Na metade da escada Zulma parou, segurando-se ao corrimão. Você sabe por que é que a menina está aí? Com uma voz que ainda devia pertencer ao pesadelo. A menina? Outros dois degraus, já quase na curva do corrimão que se abria em cima da cozinha. Zulma, por favor. E a voz quebrada, quase de falsete, está aí para deixá-lo entrar, eu digo que vai deixá-lo entrar.

Julio CortázarVerão.

Leia também sobre um de nossos contistas mais talentosos, mestre da técnica narrativa e da inovação.

Artistas da palavra

Roth – A marca humana

phillip roth

Um dos maiores autores de língua inglesa do século 20, esse escritor de Newark produziu romances de notável qualidade literária, com visão crítica de seu próprio país e da hipocrisia moralizante que controla os seres humanos. A fundação Library of America, que se dedica à publicação da obra dos expoentes da literatura norte-americana, anunciou, em 2013, a edição completa do trabalho de Philip Roth, com isso tornando-o o único autor vivo a receber essa honraria. A amostra escolhida integra o romance A marca humana, tratando do caso de um professor universitário que se envolve com uma mulher mais jovem e menos escolarizada, despertando reações de diversas pessoas, com seus preconceitos e ressentimentos, além de mostrar uma difícil realidade envolvendo um ex-combatente de guerra sob tratamento psiquiátrico, pretexto para desmascarar a hipocrisia na política e na sociedade em geral. Um romance com o tom do universo masculino, com a visão natural dos homens sobre a vida e sobre as mulheres, no qual se lê que “quando a gente não chega ao nível de franqueza sobre a sexualidade e em vez disso age como se nunca tivesse pensado no assunto, a amizade entre dois homens é incompleta.” Philip Roth e sua marca humana.

Quem são eles agora? São as versões mais simples de si próprios. A essência da singularidade. Tudo o que é doloroso imobilizado na paixão. Talvez já nem lamentem as coisas não serem diferentes do que são. A repulsa que acumularam é demais para permitir isso. Conseguiram sair debaixo de tudo aquilo que foi empilhado em cima deles. Nada na vida os tenta, nada na vida os excita, nada na vida atenua o ódio que sentem pela vida tanto quanto essa intimidade. […]

“Depois que você morre”, pergunta ela, “o que é que tem se você não se casou com a pessoa certa?”

“Não tem importância nenhuma nem mesmo quando você ainda está vivo. […]”

[…] nós deixamos uma marca, uma trilha, um vestígio. Impureza, crueldade, maus-tratos, erros, excrementos, esperma – não tem jeito de não deixar. Não é uma questão de desobediência. Não tem nada a ver com graça nem salvação nem redenção. Está em todo mundo. Por dentro. Inerente. Definidora. A marca que está lá antes do seu sinal. Mesmo sem nenhum sinal ela está lá. A marca é tão intrínseca que não precisa de sinal. A marca que precede a desobediência, que abrange a desobediência e confunde qualquer explicação e qualquer entendimento. Por isso toda essa purificação é uma piada. E uma piada grotesca ainda por cima. A fantasia da pureza é um horror. É uma loucura. Porque essa busca de purificação não passa de mais impureza. Tudo o que Faunia estava dizendo sobre a marca era que ela é inevitável. É claro que é assim que Faunia vê as coisas. Criaturas inevitavelmente marcadas pela impureza que somos. Resignadas com a imperfeição horrível e fundamental. Ela é como os gregos, os gregos de Coleman. Como os deuses deles. Eles são mesquinhos. Brigam. Lutam. Odeiam. Matam. Trepam. […] Para o rei dos deuses, carne nunca é demais, perversão nunca é demais. Toda essa loucura que o desejo traz. A dissipação. A depravação. Os prazeres mais grosseiros. E a fúria da esposa dele, que vê tudo. Não é o deus dos hebreus, infinitamente solitário, infinitamente obscuro, com sua monomania de ser o único deus que existe, que já existiu e que há de existir, e só se preocupa com os judeus e mais nada. E também não o homem-deus totalmente assexuado dos cristãos, com sua mãe imaculada e toda aquela culpa e vergonha que essa perfeição celestial inspira.

Philip Roth,  A marca humana.

Conheça aqui outro interessante escritor e sua visão crítica da hipocrisia humana.

Tchekhov – Angústia

tchekhovUm dos mais importantes contistas do mundo, lembrado entre mestres como Maupassant, Poe e Cortázar. Sua visão humana sobre as pessoas, sua neutralidade ao narrar episódios da vida comum e sua brilhante técnica narrativa fizeram dele um escritor como poucos, com textos primorosos, sem omissões e sem excessos, na medida exata para que não se perdesse o retrato psicológico das personagens nem o ambiente que frequentam. Tchekhov faleceu vítima da tuberculose, que tentou curar na Alemanha. De acordo com os relatos de sua esposa, em seus últimos momentos ele se sentou na cama, pediu champanhe, bebeu-a, sorriu olhando o copo vazio, inclinou-se sobre o travesseiro e morreu tranquilamente, como uma criança que dorme. A amostra a seguir é um trecho do conto “Angústia” (que traz como subtítulo “A quem confiar minha tristeza?”), no qual um velho carroceiro chamado Iona Potapov tenta contar a alguém sobre o episódio dramático que se abateu sobre ele há alguns dias, em meio à neve e aos rigores do inverno russo, na cidade grande.

Encolhido o mais que pode se encolher um corpo vivo, está sentado na boleia, sem se mover. […] Seu rocim está igualmente branco e imóvel. Graças a sua imobilidade, à angulosidade das formas e à perpendicularidade de estaca de suas patas, parece mesmo, de perto, um cavalinho de pão de ló de um copeque. Seguramente, ele está imerso em meditação. Não pode deixar de meditar quem foi arrancado do arado, da paisagem cinzenta e familiar, e atirado nessa voragem, repleta de luzes monstruosas, de um barulho incessante e de gente correndo. […] Iona estremece e vê, através das pestanas cobertas de neve, um militar de capote com capuz.

“Para a Viborgskaia!”, repete o militar. “Está dormindo? Para a Víborgskaia!”

[…] O militar senta-se no trenó. […] O cavalinho estica também o pescoço, entorta as pernas, que parecem estacas, e desloca-se com indecisão.

“Aonde vai, demônio?!”, ouve, logo depois, Iona exclamações partidas da massa escura de gente, que se desloca em ambos os sentidos. “Para onde te empurram os diabos? Mantenha-se à direita!”

“Não sabe dirigir! Olha a direita”, zanga-se o militar.

O cocheiro de uma carruagem solta impropérios; um transeunte, que atravessou a rua correndo e chocou-se com o ombro contra a cara do rocim, lança um olhar rancoroso e sacode a neve da manga. […] Iona volta-se para o passageiro e move os lábios. Sem dúvida, quer dizer algo, mas apenas uns sons vagos lhe saem da garganta.

“O quê?”, pergunta o militar.

Iona torce a boca num sorriso, faz um esforço com a garganta e cicia:

“Pois é, meu senhor, assim é… Perdi um filho esta semana.”

“Hum!… De que foi que morreu?”

Iona volta todo o corpo na direção do passageiro e diz:

“Quem é que pode saber! Acho que foi de febre… Passou três dias no hospital e morreu… Deus quis.”

“Dá a volta, diabo!”, ressoa nas trevas uma voz. “Não está mais enxergando, cachorro velho? É com os olhos que tem que olhar!”

“Anda, anda…”, diz o passageiro. “Assim, não chegamos nem amanhã. Mais depressa!”

[…] O cocheiro estica novamente o pescoço, ergue-se um pouco e agita o chicote, com uma graciosidade pesada. Depois, torna a olhar algumas vezes para o passageiro, mas este fechou os olhos e parece pouco disposto a ouvir.

Anton Tchekhov,  Angústia.

Conheça outro mestre russo e algo sobre uma de suas novelas aqui.

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