Invasão (busca e apreensão) para nosso bem

Willem de Kooning. Rainha de copas. 1946

Entraram sem muito alvoroço, eram apenas ordens, não tinham nada a dizer. Mesmo assim, não pude evitar surpreender-me: homens fortemente armados, fuzis de repetição, alguns mais ao fundo carregando pesados explosivos, uniformes de camuflagem na selva, equipamentos de sobrevivência em ambientes hostis. Por que tudo aquilo? Hostis eram eles. Todo aquele aparato parecia desnecessário, até ridículo, para qualquer ação contra civis inofensivos como nós.

Andar superior, envidraçado, de nossa mansão no campo. Vivemos cercados de verde, verdes claros e escuros, copas e arranjos de toda espécie, somos habituados aos pássaros, aos jardins cultivados, durante décadas, pela família, da qual só restamos hoje eu e Patrícia, minha sobrinha adolescente. Nunca pensei que fôssemos acabar assim. Acuados. Impotentes. Nossa propriedade violentada por estranhos. Subjugados por um poder que mal podíamos identificar e contra o qual não saberíamos reagir.

Entre os homens, uma mulher aparentemente muito nervosa, com certeza líder da comitiva, indicava com mínimas palavras os locais a ser revistados. Ela era magra e feia, talvez houvesse sofrido muito por sua feiura, assim tornando-se vingativa, quem sabe, porque, não importa o que se diga, todas as boas almas do mundo procuram a companhia dos belos e tentam educadamente afastar-se dos feios.

Sentados em duas cadeiras, uma de cada lado da escrivaninha, mãos atrás da nuca, Patrícia e eu observávamos tudo, em silêncio. De minha parte, pensava mesmo em não dizer nada, procurando irritá-los o menos possível. Os soldados reviraram tudo e não encontraram as joias mais valiosas, que estavam tão à vista no grande armário do fundo, eu não entendia como, pois não pareciam tão incompetentes. Talvez fossem. As aparências de todos são sempre boas.

Patrícia atreveu-se a perguntar: “Vocês são os famosos nazistas?”

“Claro que não”, disse a mulher, mal-humorada. “Mas temos aliados por toda parte.”

Voltei-me para minha sobrinha, com um mínimo movimento fisionômico que significava: não fale com eles, fique quieta, por favor.

A mulher aproximou-se. Deteve-se diante de nós.

“Lembrem-se de que estamos aqui em nome de Deus. E para o seu bem.”

Notei um crucifixo oscilando sobre seu peito, como se essa peça a acompanhasse em sua fala, vibrando conforme sua obstinada energia se manifestava.

Eu compreendia, subitamente: meu tio-avô fora um dos homens que haviam demonstrado ser os livros sagrados todos falsos. Havia provas de sua pesquisa, dados históricos e contundentes interpretações de aspectos mitológicos, associados a cada povo e sua época. (Por isso eles não viram as joias.) Sempre se repetiu que todo pioneirismo tem um preço. Mas a punição parecia estar chegando tarde demais, eu não sabia por quê. Nem podia culpar meu falecido parente, que apenas havia buscado e encontrado a verdade. Todos sabem que a evolução do conhecimento humano nunca pôde ser detida. Porém, para os crentes, qualquer descoberta é uma ameaça; toda ideia nova, preocupante e perigosa, principalmente algumas gerações atrás, quando se acreditava que um deus existia de verdade, não como um mito. E meu ancestral era parte dessa legião de transgressores, mesmo que eu não o admirasse por isso.

Sobre a escrivaninha que nos separava, entre papéis e objetos dispersos, minha sobrinha apontou um livro aberto, de poemas, no qual ela havia sublinhado algumas palavras e expressões como 7 de setembro e horizonte. Alguns versos abaixo, destacava-se a palavra lago. Sim, claro. Olhei pelo outro lado dos vidros. O lago fazia fronteira com o país vizinho. Se conseguíssemos atravessá-lo, de barco ou a nado, estaríamos a salvo. Era a independência, a perspectiva de fuga, o horizonte possível. Patrícia, uma esfinge, aguardava minha resposta codificada. Olhei firmemente para ela, dando a entender que havia compreendido sua mensagem. (Sei que posso fazer isso só com meus olhos. Não sei como. Mas posso. Ela entendeu perfeitamente.)

Mais vozes lá embaixo. De onde estávamos, podíamos ver que estavam arrombando a porta da pequena construção em forma de casa de bonecas, na verdade um baixo mausoléu remontando a quase um século.

“Estão abrindo a cripta da família”, anunciou Patrícia como se eu não estivesse vendo.

Sem um gesto, ficamos assistindo a mais esses procedimentos. Vimos como retiravam os corpos de nossos ancestrais e como os deixavam sobre a relva, sem nenhum critério. Fiquei atônito ao ver que todos os corpos estavam nus, a pele muito escurecida, como se houvessem sido carbonizados, porém apresentando ainda uma forma humana perfeitamente distinta.

“Como podem conservar-se em tão bom estado? Alguns morreram há mais de um século! Eles estão apenas escuros, como se a pele houvesse se tornado da cor da terra. Como é possível?”, eu quase perdia a voz, em minha agonia.

“Em nossa família, tanta coisa aconteceu…”, disse minha sobrinha sem se espantar muito.

Alguém gritou lá embaixo, chamando outros, dizendo que era preciso ver aquilo. Haviam encontrado algo surpreendente dentro da cripta. Eu não fazia ideia do que fosse.

Aproveitando a atenção dos soldados, que correram às grandes laterais de vidro, Patrícia fez um novo sinal, apontando os olhos para os versos no livro e para o lago. Eu não sabia como responder. Mas ela deixou a cadeira num gesto rápido, saiu correndo porta afora, desaparecendo de minha visão, num instante. Os tiros pareciam sem resultado. Ela provavelmente teria saltado ao andar térreo, quase voando por sobre as escadas. Na confusão, fiz o mesmo, levantei-me como se escoiceasse qualquer coisa, num pulo disparei atrás dela. Ouvi a explosão dos tiros, o ruído agressivo das armas de repetição, sinal de que não me acertavam. Tentei gritar por Patrícia, e nem percebia que emudecia, que a voz não me chegava, no instante em que bruscamente caía com um golpe de

 Inconsistência dos retratos

Imagem: Willem de Kooning. Rainha de copas. 1946.

Os amantes das irmãs Novaes

Henry Asencio. Luz da tarde. 1972Entre eles, também havia o predileto. Elas o dividiam. Nunca houve questão quanto a isso. De resto, não era de se esperar que duas estudantes vindas da capital, hoje ocupando um discreto apartamento na parte alta do bairro universitário, tivessem quaisquer caprichos além dos que unem as garotas de sua idade. Os colegas acostumaram-se à rotina dos pretendentes frustrados, entre os rapazes da turma e de outros cursos, mas respeitavam a obsessão delas pelo estudo. As amigas receavam apresentá-las aos seus flertes ou namorados, mesmo constatando sempre que nenhum deles chegava sequer a aguçar-lhes o interesse. Berenice Rosário, professora de uma delas no terceiro ano, era a única que suspeitava de algo difuso e bem dissimulado entre as aparências, quase o pressentindo. E estava certa.

Alana e Alícia Novaes, tão parecidas como duas irmãs podem ser, tinham um mesmo estilo de beleza e porte quase altivo, atenuado pela descontração com que contagiavam as colegas. Admiradas por umas, invejadas por outras, não se alteravam por causarem reações, com isso apenas reafirmando o que quase igualmente se observava na mais jovem como na primeira, uma personalidade segura, em parte alicerçada na convicção natural da beleza física e alimentada por uma indisfarçável inteligência. Tanto que Alícia percebia claramente a argúcia com que Berenice Rosário esquadrinhava seus gestos na sala de aula, terminando por preferir ignorar as atenções dela, sabendo de antemão que nada além daquilo poderia alcançar.

Fora da escola, funcionavam como uma tediosa demarcação dos dias os telefonemas periódicos da mãe, avisando que já lhes enviara dinheiro, perguntando quase com indiferença quando voltariam para um fim de semana no sítio ou no apartamento do litoral, depois pelo desempenho escolar, sendo sempre a resposta as excelentes notas de Alícia no terceiro ano, as não tão perfeitas de sua irmã Alana no primeiro, que nem tudo as identificava com a mesma regularidade. Dos cabelos sim, se poderia dizer idênticos: lisos e castanhos, quase sempre oscilantes de tão leves, o comprimento, o volume, a impressão de fragilidade e dissimulação – mas esta talvez fosse uma característica imaginada por uns rapazes levianos, talvez despeitados, que cultivavam suspeitas sobre a sexualidade delas, frisando inclusive sua condição de lésbicas, o que nunca foram.

Ninguém sequer suspeitava sobre seus amantes. Entre eles, havia também o predileto – elas o dividiam. Não havia questão quanto a isso. Serviam-se deles em momentos que só elas sabiam como cultivar, muitas vezes acariciando-os quase com respeito antes de usá-los, algo como quando se examina o produto em uma loja antes de decidir-se por ele. O tubo de um condicionador de cabelos, longo e cilíndrico, outro de desodorante, além de um bastão digno de nota, uns que as preenchiam tão inteiramente que mal podiam mover-se dentro delas. Já outros, menos volumosos, mas fazendo-se de excelente manipulação, de toda forma levando-as ao mesmo longo orgasmo que parecia não ter fim, objetos que elas descobriam, como feitos especialmente para tais funções, caso do artefato que era a imitação perfeita de uma portentosa vela natalina e seu complemento mais próximo, um castiçal de linhas concisas, haste de menor dimensão, ainda assim bem próxima da similaridade fálica, tanto quanto o cabo rombudo de uma escova ainda em uso – este, após introduzido, fazendo surgir junto ao púbis, ou entre as nádegas, uma sugestiva flor de cerdas negras.

Acontecia-lhes, não com frequência, improvisar uma noite de brincadeiras com alguns deles, começando, às vezes, como uma traquinagem sem pretensões e terminando em vastos delírios, o que mais recentemente dera-se numa quarta-feira, em meio à semana e à absoluta rotina das aulas: Alícia e Alana beberam vinho e viram-se como numa festa sem par, com a ajuda de lubrificantes caseiros, óleo de milho, manteiga acetinada e creme de margarina, Alana comentando, em certo momento, que, se alguém viesse a saber, não deveria se surpreender, pois ela já havia visto, em filmes e revistas especializadas, verdadeiras doentes obsessivas que se aproveitavam de artefatos bem mais bizarros e desproporcionais, incluindo certas frutas, legumes, peças de automóveis, armas e outros tantos e até inomináveis que fariam vexado um adolescente lascivo, acostumado a ver perversidades, enquanto os amantes delas eram menos fesceninos e escolhidos entre os mais razoáveis, sempre semelhantes às configurações de um adulto normal. Quem sabe Berenice Rosário, que secretamente buscava decifrá-las, caso experimentasse também o bastão ou o castiçal, por exemplo, compreendesse sem dificuldade os motivos delas.

Assim como um dia qualquer tornava-se inesperadamente um pequeno festim, outros havia em que o tédio as limitava, por sorte nem sempre influenciando-as ao mesmo tempo. Uma tarde de sábado, Alana à janela do apartamento, observando o céu encoberto, ocasionalmente supondo ser invadida por uma lenta e pesada nuvem que levava a alguma outra parte a substância de que se fazia seu sorriso, em contrapartida trazendo-lhe recordações autônomas, indesejadas mas inevitáveis, como perfeitamente podia rever a gaveta do criado-mudo onde seu pai guardava o revólver, ela com mãos frágeis abrindo-a lentamente, então examinando aquele objeto escuro com grande medo, associando-o de alguma forma à sua infância no colégio de freiras, onde as colegas tinham o vício de furtar-lhe pequenos objetos pelos quais sentia, antes de seu zelo habitual, um afeto inconfessável. Também passando-lhe como à sua frente, desenvolviam-se as nuvens: sempre que voltava da escola magoada por lhe haverem infligido alguma injustiça, tornava a puxar a gaveta proibida de seu pai e corajosamente tomava a arma entre as mãos por um espaço de tempo que durava bem menos do que parecia fazer supor, Alana outra vez ante a janela de tempo infinito, a gaveta com cheiro de pólvora e o colégio onde as meninas roubavam, enquanto o céu lá fora anuncia o que ela não sabe, pois, quando as nuvens passam, o que elas carregam é o silêncio que só romperão outras tormentas.

A porta, com um ruído de chaves, trazendo Alícia e um sorriso.

“Algo muito interessante à janela?”

“Não. Estava distraída. Acho que esqueci alguma coisa, mas…”

“Então venha aqui ver o que encontrei”, disse Alícia separando duas sacolas de compras da bolsa larga que deixou sobre o sofá. Ela havia adquirido um colherão de madeira cujo cabo, longo e abaulado, era como feito para elas. Não era fabricado com esse fim, obviamente, o que o tornava ideal e até raro. Alana mal pôde esperar que Alícia o mostrasse muito, que pouco depois o levava ao quarto, untando-o com um de seus melhores cremes, livrando-se da saia com um gesto rápido, de costumeira habilidade, descendo a calcinha quase como se a fizesse cair aos joelhos, depois aos tornozelos, trocando os pés para deixá-la no chão, porém sem mesmo se desfazer da blusa de alças ou descalçar os sapatos, senão o essencial para que se movimentasse sem embaraços. Alícia, que não tinha a mesma pressa, foi à cozinha em busca de um refrigerante, então suspirou com uma estranha sensação de felicidade, imaginando que logo mais iria encontrar o novo parceiro já aquecido de uma primeira investida e bem melhor lubrificado.

“Alô. Quem? Ah, sim. Como vai, professora? Não, estamos estudando. Adiado por quê? Ah, sim, agora me lembro, ele já havia me prevenido, que cabeça a minha… Como? Não entendi. Claro, ela está aqui. Por quê? Você… A senhora pensou que por algum motivo… Ah, sim. Quer que deixe o recado? Não, mas acho que ela… Não sei, deve estar descansando, acho. Em todo caso… Seria um prazer, mas posso entregar-lhe na quinta. Se preferir… A senhora também gosta de vinho, eu sei, posso até deixar uma… Me desculpe, não, não estou rindo, desculpe, acho que confundi as coisas. Tenho estudado muito e… Claro, sabe como é, não? Como? Quem? Não, não. Ele não é meu namorado. Não, nem mesmo um amigo. Só um colega. Por que a senhora pensou que… Ah, mas que coincidência. Não, não sei. Não estou sabendo. Não. Não… Sem dúvida. Na quinta, a senhora disse? Então está certo. Eu é que agradeço, obrigada.”

“Quem era ao telefone?”, Alana saindo de um banho, cabelos escorridos e mais escuros.

“Adivinhe. Só uma chance. Continua insidiosa, mas está cada vez mais confusa”, Alícia com uma risada tão meiga que lhe compensava o gosto pelas pequenas maldades.

“Ela mencionou a tese?”

“Não. Acho que vai ter de inventar outro pretexto para nos entrevistar. Espero que não desista. Só de imaginar a cara dela quando souber…”

“Não fale por mim. Eu não gostaria que ela soubesse”, a caçula não correspondendo às sutilezas da irmã, imaginando que Berenice Rosário se encontrasse ainda frente a um mistério irresolúvel, Alana, então, voltando ao quarto, transida de um enigmático silêncio, os pés descalços como se não tocassem o chão, assim não se ouvindo sequer o som de seus passos no corredor.

Alícia passou a observá-la com outros olhos a partir desse dia. Às vésperas dos exames finais e entre os últimos dias de aula, viu que alguma mudança dava sinais de possuir a irmã mais nova, especialmente quando a vira chegar bem mais tarde que o costume, abraçada aos cadernos, Alana detendo-se por um instante frente ao silêncio interrogativo que a esperava e lendo nos olhos da irmã a pergunta. Ambas tinham em mente o rosto calmo e alegre de um rapaz do segundo ano, pouco mais alto que Alana, a curta distância harmonizando-se ao seu lado, da mesma maneira jovial, descontraído e, segundo ela, não menos inteligente. Estiveram juntos todo o intervalo, em pouco pareciam conhecer-se há muito tempo, logo estavam bem próximos e dialogavam com agradável fluência, Alana quase sempre sorrindo. Alícia era bastante observadora, dispensando-se no caso que o fosse, para detectar, entre um breve jogo de palavras e um par de gestos, que algo começava ali, entre eles. Alana chega com cadernos. Entende que também num instante se responde nos olhos da irmã a pergunta. Inicia um sorriso malicioso antes de passar ao quarto e reencontrá-la. “O nome dele é Alonso”, diz.

Nessa noite, declarou à irmã que não tinha vontade de estudar, que sentia faltar-lhe algo, mas não sabia o quê. “Quer brincar com algum deles?”, perguntou Alícia tentando motivá-la. Alana não tinha certeza, como também não lhe ocorria claramente o motivo de sua ansiedade, ainda que a memória das feições de Alonso insistisse em incomodá-la. Foram ao quarto, e ela pediu a Alícia que a ajudasse a preencher-se simultaneamente com dois membros de sua coleção, o que não costumava fazer com frequência, para isso assumindo uma posição especial que consistia em estar de joelhos, com uma das pernas sobre a cama, a outra retesando-se até o chão, como buscando a maior distância possível, curvando o corpo para a frente e tendo de apoiar-se na grade da cama, ela própria manejando frontalmente o bastão, Alícia inserindo-lhe com delicadeza o colherão entre suas nádegas, vendo que ela mais e mais se torcia numa satisfação crescente até entregar-se sem defesa ao seu último limite, gemendo de prazer, melancolia e incerteza.

Alícia não está em casa quando Alana põe-se ao espelho, confundindo a lembrança de Alonso à realidade de sua nudez, quando percebe que não consegue esquecê-lo, certa variação de temperatura e um ligeiro avolumar-se dos seios fazendo-a acreditar que está apaixonada. Enquanto se dispersa entre pensamentos mal concluídos, traz por sobre um ombro os cabelos de filandras castanhas, alisando-os, percorrendo-os com as duas mãos, depois simulando prendê-los num rabo de cavalo, sempre sem perder de vista o rosto e o sorriso de Alonso, chegando mesmo a imaginar que um dia pudessem morar juntos, que ele a faria feliz porque talvez a amasse, que a deixaria levar consigo sua coleção de objetos mágicos e a poria a brincar com eles sempre que ela quisesse.

Inconsistência dos retratos

Leia mais histórias com mulheres: Vanda pela manhã

Sua canção de enganar

Imagem: Henry Asencio. Luz da tarde. 1972.

O inverno segundo teu semelhante

Em um mundo onde as coisas tendem à dissolução, onde o tempo e a morte minam o rosto das pessoas e as arrastam em seu torvelinho cotidiano de estranhas situações, no meio de tudo, um menino pede socorro.
.

Francis Bacon. Autorretrato (detalhe).Não há nada e nem pode haver algo mais caro ao ser pensante do que a vida.

– Giacomo Casanova, Memórias, 1826.

Por fim, a hora do almoço. Deixo o escritório, mais deprimido que quando cheguei, pela manhã. O sol ausente, o céu brumoso de inverno e minha última jaqueta sem esperança de reforma me oprimem com sua propriedade de infligir pensamentos obscuros, como a súbita e conturbada lembrança de que não conto com dinheiro algum e não posso sequer almoçar nesse dia.

Resisti, por não sei que abomináveis vícios de nossa formação moral, a embolsar furtivamente uma quantia, cujo comprovante tinha em meu poder, destinada a engordar a receita do escritório onde tenho de me enfiar todos os dias para sobreviver. Depois de repassá-la ao nosso supervisor, senti remorsos, condenando-me pelos sintomas de covardia instintiva que faziam de mim um escravo desprezível como os outros.

Olho ao redor. Pessoas em movimento, automóveis, figuras avulsas, fachadas repetindo-se em perspectiva pelas ruas do centro comercial. Por toda parte, umas papeletas impressas suplicam ajuda ao menino gravemente enfermo, cuja única esperança é uma onerosa cirurgia a realizar-se em outro país. Ouvi sobre a campanha na TV: donativos chegam de todos os estados, toda a nação está mobilizada. Em um mundo onde as coisas tendem à dissolução, onde o tempo e a morte minam o rosto das pessoas e as arrastam em seu torvelinho cotidiano de estranhas situações, no meio de tudo, um menino pede socorro.

Preciso comer. Não tenho como pensar em qualquer outra coisa agora. O menino anseia pela vida. Eu também. Além do mais… Que é isso? Alguém me agarra de repente. Nunca vi essa senhora enrugada e simplória que me retém pela manga, mas ela age como se me conhecesse. Parece ter pressa.

“Sei que você, meu filho, é um rapaz honesto e trabalhador. Quando voltar, me faça essa graça de depositar na conta do menino. Minha patroa me mandou, mas sou doente, não posso esperar na fila. Deus abençoe.”

Faz um sinal da cruz sobre o meu rosto e desaparece entre os passantes. Volto-me para o que tenho em mãos, e meus olhos nublam-se por um momento, atordoados pelo insólito: uma nota de cem reais, clipada à guia de depósito preenchida em favor do menino doente. Percebo que estou em frente ao banco, e minha jaqueta tem a cor do uniforme dos funcionários. Meu crachá do escritório, esquecido no peito. Cem reais.

Dou uma volta ao quarteirão, talvez me ajude a aclarar as ideias. Pressinto que algo me encobre e desafia, assim como é este dia de nuvens e verdades mal reveladas, apresentando-se aos homens como a metade de outro silencioso pesadelo. Posso simplesmente ir ao banco, com isso libertar-me dos demônios que por vezes frequentam minha consciência tendenciosa. Só preciso de tempo. Dou outra volta. Tento esquecer. Sinto fome.

Posso almoçar, depositar o restante. Ninguém saberá. Mas eu sim. Terei doado uma parte, e isso me fará sentir melhor. A cédula de pouca circulação mostra-se ainda em perfeito estado, como se assumisse na unidade de suas cores e nuanças a condição de uma peça inteiriça, que não pode ser gasta ou trocada, maculada por uma transação avulsa que resulte em cédulas menores, encardidas e ordinárias. Além disso… Mas como? Onde estou com a cabeça? É apenas dinheiro. Dinheiro! Uma cédula tão suja como qualquer outra, como qualquer quantia ganha honestamente ou não, o que faz mover a engrenagem do mundo na esteira das desgraças e dos conflitos coletivos e separa a vida agourenta dos que não o possuem da vida patética dos que o possuem.

O frio é intenso. Decido que devo guardar minha cédula até o dia seguinte. Mastigo um sanduíche de queijo na lanchonete imunda do largo, onde conheço o proprietário, um alagoano grosseiro e antipático, que pendura minhas contas e pode esperar mais uns dias. Lá assisto, por acaso, às últimas notícias sobre o garoto. Falta pouco para perfazer o montante necessário. Atores e atrizes da telenovela reforçam os apelos. A família já dispôs de tudo que possuía. Os médicos, também envolvidos, estão… Não posso. Não posso mais. Como pude pôr em dúvida um gesto assim? Vou agora mesmo ao banco, aguardo na fila, sacrifico meu breve intervalo, chego atrasado, não importa! – saio engasgado com o refrigerante que mal terminei.

No caminho, ocorre-me que tantas crianças, em nosso país, morrem por inanição e falta de cuidados médicos. Ninguém as manda ao exterior. Ninguém responde por elas. Não se encontram, como agora, bonecos da televisão que ocupem alguns preciosos segundos da rede por sua causa. Mesmo a rede, ela própria tão poderosa empresa, não poderia então patrocinar a tal cirurgia, uma vez que o menino enfermo lhes serve tanto às melhores audiências? Claro, tudo faz parte da política a que tão facilmente nos habituamos, a dos canalhas sensacionalistas. O menino-símbolo atrai todas as atenções para a sua emissora, na verdade só o que querem é sempre enganar a todos. Chega a ser irônico, até vagamente cruel, que esse pobre menino, especialmente, tenha a sorte de estar sendo ajudado. E pensar que é apenas mais um menino entre milhões de nós. E pensar que estou sem dinheiro, e ninguém saberá…

Passo pela galeria, onde se expõe um carvão cujo motivo é uma criança nua com uma bola. Um menino. Claro que não me interesso muito pela figura humana, mas aqueles traços particularmente me atraem de uma maneira sombria. Vejo o corpo frágil de uma criança na mesa de operações, um calafrio percorre-me os ossos. Posso adivinhar que, após diversos esforços e a despeito de tantas correntes de orações, o menino vem a falecer. Já aconteceu tanto, com outros. Antigamente não havia tais recursos, isso de cirurgias, que usavam-se tisanas, triagas, unguentos vulnerários e outros tantos preparos e processos, próprios da quimiatria rudimentar, nunca nada tão traumático e sinistro como essas mesas glaciais, instrumentos esterilizados, aparelhos de precisão, gráficos computadorizados, e as pessoas morriam doentes. Na cama. Em casa. Era muito melhor.

Retomo o caminho do banco, apalpo a cédula no bolso. Detenho-me à porta envidraçada, observo a multidão em fila, os funcionários muito atarefados, o olhar simpático e astucioso dos gerentes, e algo me impede de entrar. Este é o banco que tomou para si a arrecadação geral dos donativos, sei. Engordam seus totais com mais essa conta e ainda posam de altruístas. Pena que a população não perceba o jogo desses abutres. E agora, justo eu, que tão bem conheço seus truques e artimanhas, tenho de participar da fila para, diretamente, incrementar-lhes o lucro. Não, nada feito. Não mesmo. Não hoje. Amanhã. Tão certo quanto hoje, mais um entre os infinitos outros dias que ainda haverão de se abater sobre a Terra. Assim, tenho a noite para decidir.

Decidir? Ficou algo por decidir? Começo a andar em círculos pelo quarto, olhando, de minuto em minuto, a cédula sobre a escrivaninha. O menino pode morrer, mesmo que eu deposite o dinheiro. Ninguém saberá. Sento-me na cama, fico olhando a parede de cor neutra. Fico assim, olhando. A parede. De cor neutra. Isso, essa grana, me ajudará a desfazer-me de minha crise mais recente. Posso saldar pequenas dívidas com colegas ou, ao menos, almoçar todos os dias. Mordo as unhas, os dedos. E se aquela mulher tivesse ido, ela própria, ao banco? Se não me encontrasse e nada disso acontecesse? Que deuses do acaso terão enviado aquela senhora sofrida e feia às portas de meu destino? Para fazer-me centro de uma questão ominosa, especialmente para confranger-me com tais pensamentos, não bastasse o que já me aflige entre os processos naturais de meu trabalhoso cotidiano? E não é que se trata de um destino apenas viver e morrer? Não sou eu o responsável pela saúde do garoto. A natureza prega tais peças a seus indivíduos, não observa idade ou tipo físico. Há milhões de anos isso acontece. Nós, vivos, somos o elo entre o passado e o futuro, representantes microbianos da inumerável, gigantesca, multifacetada família humana. Já Deus é a absoluta plenitude: para Ele, não há mais nada a fazer. Portanto…

Desperto de um cochilo em frente à TV. Pensei ter ouvido alguma coisa sobre o caso, mas não, não pude confirmar. E daí, se ele morrer? Quem não vai morrer? Morreremos por dedução lógica – uma continha simples e trágica. Porque ninguém sobreviveu antes de nós. Não há um só exemplo de um homem ou de uma mulher do passado que… Se pelo menos houvesse uma estatística de 0,0001%. Mas não há. Nenhuma chance. Chance zero. Lembrei-me de que, há poucos dias, uma colega perguntou, brincando, como eu gostaria de morrer, se pudesse escolher. Estranho. Por que eu não poderia escolher? Há tantas maneiras boas de se morrer que eu nem soube lhe responder de momento, nem saberia decidir com certeza, afinal. Mas, pensando na maravilhosa sensação de entorpecimento que proporciona o ruído manso da TV, acho que eu gostaria de morrer de sono – uma possibilidade exclusiva da era tecnológica. Gostaria de morrer de sono.

Hoje é sábado. Até o momento, pelo que sei, o dia mais frio da estação. Saio do escritório, onde acabo de esperdiçar outra manhã de minha vida e para onde só voltarei na segunda-feira. Por um motivo irrisório, como também não pude afastar essa memória recente da continuidade de meu dia, ainda há pouco minha colega sorriu-me, porém sem reação de minha parte, em troca de eu ter-me oferecido para ajudá-la com uma tarefa, dizendo que talvez o mundo fosse melhor se mais pessoas fossem assim, como eu. Ora, e não são? Por que não o seriam? Seja como for, esse seu elogio inocente e desastroso desabou sobre mim com o efeito de uma chuva ácida, apenas contribuindo para aumentar o gosto de minha crise. Vou almoçar na detestável lanchonete do alagoano, pois ainda não tive coragem de fazer uso da infausta nota de cem. Preciso relaxar, mas não consigo. Vou continuar bebendo até que entre o noticiário. Mesmo que procure esquecer, mais e mais anseio por novas sobre o menino. Assisto ao bloco local, ao regional, ao nacional e ao internacional, passando pelas desorientadas surpresas da economia, como também pelas futilidades do esporte. Nem uma palavra sobre o que mais me interessa. Penso que já se esgota o tempo do jornal, eis que o apresentador assume de repente um semblante grave e põe-se a falar, com boa e clara dicção, sobre o estado clínico do paciente mais famoso do país. Deixaram esta por último, os salafrários. Mas não tenho como considerá-los agora. O menino entrou em coma.

Sinto que o mundo mal pesa sobre meus ombros, mal a realidade filtra-se através de meus olhos, caminho como se flutuasse, não ouço meus passos. Detenho-me junto ao portão de grade ornamentada, entrevejo os anjos e as árvores lá dentro. Sei que esse homem mexendo na torneira é o funcionário que procuro, pego-lhe o braço, tenho-o à minha frente.

“O senhor me enterre! Me enterre agora mesmo!”

“Que isso? Você está bêbado!”

“Me enterre agora mesmo, ande! Me enterre com esta nota, está vendo? Esta maldita nota!”

“Você está bêbado, Deus o perdoe. Vá, se vá daqui, homem…”, empurra-me para fora do cemitério, devolvendo-me ao incrível mundo insano, tumultuoso, injusto e sempre mais absurdo onde me cabe viver. “Deus o perdoe…”

Ele não pode morrer hoje. Nem amanhã. Pois na segunda-feira serei o primeiro a entrar no banco. Faltarei ao serviço. Farei qualquer coisa para pôr fim a este pesadelo em que me embaracei como em uma rede de tentações mal elaboradas. E então verei sair de mim, afastar-se de mim, desaparecer para mim, esta nota avernal e aziaga, da qual não me esquecerei tão cedo.

À noite, torno a rastrear os noticiários televisivos. Encontro por fim o que procuro, mas os pilantras ainda fazem suspense em torno da situação, como de propósito para exasperar-me ainda mais. Finalmente expõem os fatos. Meus olhos estão fixos, petrificados. Aos poucos, as palavras, as frases claramente pronunciadas tomam o curso do que mais receio ouvir. Mas ainda espero.

76. A arte é o cristal – o resto é a vida – sequência

74. Livre para fracassar – anterior

Guia de leitura | Sobre o livro

Imagem: Francis Bacon. Autorretrato (detalhe).

Eco, a cidade dos demônios

Chang Chao Tsung. Autorretrato.Como parte da rotina e invariavelmente, qualquer morador podia ver o senhor Antão Antônio de Deus pintando o muro de sua casa pela manhã, pois o muro absorvia toda a tinta do dia anterior e o forçava a pintá-lo novamente no dia seguinte, quando tornaria a absorver toda a tinta outra vez, como no dia anterior. Após sua morte, venderam a casa, derrubaram o muro e construíram ali a nova sede do clube dos militares, que em noites vagas servia também às solenidades da Academia Municipal de Letras.

O transcorrer de tais ciclos sem função, que caracterizava o cotidiano sem esperanças da longínqua Eco das Almas, foi aos poucos sendo minado por certos incidentes curiosos, o que já prenunciava a chegada dos demônios.

Durante a procissão, a imagem da padroeira caiu de seu sustentáculo, fazendo-se em muitos pedaços. Não por descuido dos que a carregavam, mas um cão escuro e furtivo, a confundir-lhes as pernas, fora a causa do ocorrido constrangedor – o animal havia desaparecido tão depressa como surgira, entre a multidão de fiéis.

Eco alvoroçou-se com a notícia de que o respeitado professor Caio Cosme, astrônomo amador e funcionário público nas horas vagas, havia constatado a trajetória, em linha reta, de um meteoro na justa direção da cidade. O professor Cosme cuidadosamente calculou que o sinistro corpo errante levaria uma semana para chegar, porém todos agiam como se o mundo fosse acabar em apenas um ou dois dias. Como já se poderia esperar, desencadeou-se um pandemônio sem precedentes em que todos, quase ao mesmo tempo, decidiram pôr em prática tudo o que não lhes era permitido, realizando assim seus instintos e desejos, por mais extravagantes que fossem, nos últimos dias do mundo.

Entre os inúmeros casos de saques, demolições, porres e festins coletivos, vinganças, estupros e suas variações, houve a revelação pública e eloquente de certo vereador da oposição, que se confessou perdidamente apaixonado pela esposa do vice-prefeito, tendo inclusive se masturbado muitas vezes por ela.

A notícia era falsa. O professor Cosme teve de admitir os resultados equivocados de suas meticulosas equações, e o asteroide apocalíptico acabou caindo bem longe do interior e da minúscula Eco, aliás, na mais profunda faixa abissal do Oceano Pacífico. Os cidadãos, pouco afeitos às ciências, suspeitavam que algum tipo de demônio houvesse induzido o astrônomo a erro, ele que era o único ateu da cidade, e ficaram muito tempo sem sair de casa e sem se falarem uns aos outros pelas ruas.

Por fim, os demônios chegaram. A princípio, ninguém os reconheceu. Eram semelhantes aos moradores de Eco, de tal forma que se supunha estar vendo um inofensivo vizinho, quando se tratava de seu respectivo demônio.

Quando o prefeito e o secretário das finanças, voltando cada um a sua casa, descobriram-se roubados, notaram que seus cofres particulares haviam sido esvaziados em joias e apólices na mesma proporção das verbas por eles desviadas do erário municipal no mesmo ano.

“Assim não é possível!”, desabafou o secretário. “Onde é que nós vamos parar?”

Um garoto foi a primeira vítima a ver seu demônio. Tinha sua mesma altura e aparência, e também hesitava com uma pedra na mão. Ameaçava apedrejar um cão sarnento no terreno baldio onde brincava. Mas o demônio imitava seus gestos, como num espelho. Quando, por fim, a pedra rasgou a orelha do cão, o menino sentiu que sua própria orelha ardia com a pedrada idêntica. Entrou em casa chorando, manchado de sangue.

“Quem te fez isso, meu querido?”

“Foi um demônio, mamãe… Um demônio!”

Os habitantes já não podiam viver tranquilos. Tudo o que apenas imaginavam praticar secretamente voltava-se contra eles próprios, pois esses tais demônios vinham de uma estirpe que fora gerada entre velhos espelhos de um sótão, assimilando desde cedo travessuras desse tipo, brincando de refletir uns e outros em cacos irrecuperáveis.

Conta-se que um repórter salvou a cidade sem saber, ao persuadir um general do exército a voltar atrás, num plano considerado de rotina. O militar, oriundo de Eco, onde tinha ainda sua família, servia na capital e estudava uma estratégia que incluía a devastação de uma pequena cidade estrangeira. Os demônios sobrepuseram ao seu mapa um mapa semelhante, no qual a cidade-alvo chamava-se Eco das Almas. E riam-se às escondidas.

Na cidade, tudo se transformara num inusitado, patético pesadelo.

“Deus nos ajude!”, clamavam as beatas. “Que será de nós, com tantos demônios?”

Eco das Almas, que, como toda cidade, dizia-se hospitaleira e acolhedora, já não atraía sequer retirantes sem rumo. A notícia se espalhara pelas regiões vizinhas, e todos temiam ser agredidos e prejudicados por algum demônio que lhes correspondesse. A sequência de incidentes incômodos culminou com a morte de um caçador e seu filho, cujos corpos foram encontrados com balas, de suas próprias armas, no peito e na cabeça.

“Vocês não podem fazer isso!”, lamentava-se a viúva. “É cruel demais.”

“Podemos tudo”, eles respondiam. “Somos demônios.”

O único meio de fazê-los parar foi novamente a reclusão dos habitantes, bem como a suspensão de quaisquer atitudes que pudessem lesar a outrem. Até o prefeito desistiu temporariamente de suas falcatruas, por receio de perder o que ainda possuía.

Com a escassez das intenções, atitudes e pensamentos perniciosos, os demônios acabaram se entediando. Assim, decidiram partir em busca de outros lugares onde havia gente. Despediram-se de Eco com caretas de escárnio e gestos de desprezo aos moradores assustados, que os espiavam de suas janelas, vendo-os diminuírem de tamanho contra o horizonte.

Só o bispo, que não revelou a ninguém as desventuras que lhe impusera seu demônio, reivindicou para si e ao fervor de suas orações o poder de afugentá-los da cidade. Convocou os cidadãos a uma missa de graças, garantindo à população que eles jamais voltariam a incomodá-los – no que, naturalmente, ninguém acreditou muito.

E quem visse a madrugada serena sobre os telhados, as casas baixas, de tetos tão familiares, mal poderia crer que tantos demônios usaram uma vez como palco de suas diabruras a pequena e esquecida Eco das Almas. Também punham em dúvida o que contavam uns vizinhos de uma família tradicional, jurando ter ouvido, poucas noites depois, gritos abafados de pavor.

Imagem: Chang Chao Tsung. Autorretrato.

O beija-flor de Ruschi

David R. Darrow. Curl

Segunda-feira

Desde que me dou por gente sou tratada que nem filha nessa casa. Porque nunca tive pai nem mãe e ninguém eles me criaram me deram roupa e comida e me ensinaram ler e escrever. Nunca me deram dinheiro mas nem nunca eu precisei. Eles me dão tudo. Sou que nem filha pra eles.

Durmo no quarto lá fora o de empregada mas eles não Durmo no quarto lá fora o de empregada mas eles não gostam que chame assim. É pequeno mas limpo e confortável. Tenho até um quadro de Nosso Senhor e uma imagem da padroeira que sempre me protegeu e me guiou e eu já tenho quinze anos.

Pra não dizer que nunca eu quis nada hoje mesmo eu caí em tentação vendo um vestido numa vitrine quando fui pagar o crediário da caçula na rua das lojas. Como era lindo! Simples de tecido barato mas vermelho e lindo. Estava em promoção e custava 500. Nem dava pra acreditar! Li no anúncio que era só até sábado. Promoção é sempre até sábado. Mas parei de ver e fui embora. Não preciso disso. Vestido é o que não me falta. Tenho até mais bonitos mais finos do que aquele. Eram das meninas. Elas sempre me deram tudo. Depois eu não ia ter coragem de pedir. A patroa ia ficar ofendida ela que nunca me deixou faltar nada. E vaidade de coisa terrena quando a gente não precisa pra que serve se a gente tem Deus no coração e uma madrinha padroeira pra olhar pela gente? Voltei pra casa e parei de pensar nisso. Era segunda-feira e eu tinha uma semana inteirinha pela frente.

Terça-feira

Na terça chegou da capital o primo das meninas. Faz séculos que ele não vem. Hoje tem mais de vinte anos ele. Homem feito e bonito. Me tratou bem que nem os daqui e me agradava perguntando de mim se eu ia estudar se eu tinha namorado e essas coisas. Eu não. Pra que estudar? E casar e sair dessa casa? Nem pensar. Gosto demais daqui. Estou acostumada com todo o serviço e sou tratada que nem filha. Pra que arriscar vida dura por aí com um que não teve a minha sorte? Graças a Deus nunca me faltou nada. E namorar pra ficar se esfregando Deus me livre que pra mim não serve. Minha santa gosta de mim é assim que sempre fui moça direita e honesta de coração. Então não me educaram e me cultivaram na fé cristã? Então não sempre me deram tudo? Pra que que eu vou me sujar? Deus me perdoe.

Quarta-feira

Quarta-feira só.

Quinta-feira

Quinta de noite já depois de tudo terminado o serviço de casa fui pro quarto ver minha televisão. Tenho TV toca-disco com rádio e gravador que eles me deram. Nessa noite me voltou o vestido na cabeça e eu não percebia que nem prestava atenção no filme e já era quase meia-noite e eu nem sentia sono eu que sempre durmo às dez. Só pensava no vestido mas como era lindo! Tão simples e lindo. Vermelho. 500. Como que eu ia pedir não tinha coragem. Iam ficar magoados isso é ingratidão o que é. Pedi à padroeira que me livrasse de pensar assim à toa e fiz uma oração agradecendo a Deus que eu tinha mais era de agradecer da sorte que eu tinha quando tanta gente que nem eu passa fome lá fora e não tem onde morar nem o de vestir e gente órfã também que ninguém dava nada e nem tratava que nem filho.

Mas então quando ainda eu rezava e agradecia levei um susto de baterem de leve na porta. Abri depressa que pensei que precisassem de mim mas o primo das meninas que entrou sozinho me olhando bem nos olhos mas de rosto amigo e bonito. Fiquei com vergonha que eu já estava de camisola e pensei de ser a patroa ou uma das meninas.

“Deixa eu ficar aqui com você”, ele me falou. “Quero só conversar.”

Falei que não que não podia que eu ia dormir que ele tinha o quarto dele lá dentro lá em cima. Mas ele pediu só pra ver um pouquinho de televisão e eu comecei a tremer que ele fechou a porta de depois de entrar. Aí falou que as meninas eram todas umas vaquinhas vagabundas e mijonas (Deus me perdoe!) e andavam agitando o rabo com qualquer babaca por aí mas que não queriam era nada com ele. Imagina que as meninas tão de boa família assim e educadas que nem eu na fé cristã iam dar de sair e… Deus me livre de pensar delas assim! E ele ficou falando e eu ouvindo. Ia acender um cigarro mas eu pedi que não que me fazia mal e ele guardou e não acendeu. Aí pediu pra eu contar o filme e eu fui contando como eu lembrava esquecendo pedaço e voltando pra emendar e ele ouvia e perguntava. Falei de novo que eu ia dormir, que ele devia ir subir e dormir também. Ele disse não, era cedo, só queria conversar mais, estava querendo não ficar sozinho muito, se ele podia pelo menos assistir o filme comigo, eu disse então certo, só o filme então, já estava mais da metade mesmo, mas depois eu tinha que dormir mesmo e ele também. Ele ficou quieto, assistiu mais partes do filme. Mas aí perguntou de novo se eu não tinha sono toda noite e eu não entendi. Ele perguntou se eu tinha sono ou ficava pensando coisas… Mas que coisas? Um monte de coisas, coisas de pensar, coisas de tirar o sono, mas eu disse que não, eu só rezo, mas não rezo muito, o resto eu faço na igreja, depois eu durmo mesmo. Mas aí eu falei mais um pouco e até perguntei de onde ele morava e estudava. Ele foi falando. Mas parava logo, fazia uma careta bem rápida e dizia que isso não tinha importância nada. Eu falei que eu também estava tudo bem. Que as pessoas daquela casa eram boas demais pra mim. Que as meninas me davam tudo e… De repente ele me tapou a boca com um beijo, quase caiu em cima de mim, e me prendeu os braços com força que eu não conseguia me livrar. Forcei de debater e caí com ele no chão sem ele me largar. Então ele puxou a toalhinha que forra o criado e derrubou o terço o evangelho a imagem da santa minha padroeira tudo no chão e ela quebrou a cabeça e rolou pro canto mais escuro que nem eu via mais. Amarrou na minha boca a toalhinha e me prendeu a voz de tão firme que eu não podia tirar com o dente nem gritar. Meu coração pulava e pulava de medo e horror! Gritava sem nada de sair grito e ele me disse que não gritasse por favor. Mas eu esperneava e batia nele de joelho e pontapé mas ele forte que nem parecia, era forte mesmo e eu não, até que me arrancou a camisola a calcinha e me jogou na cama e me prendeu duma vez, embaixo dele, eu não conseguia mais sair, me prendeu duma vez, assim mesmo. E eu senti que doía de calor por dentro quando ele me entrou sem nem esperar muito e me sangrou de tudo que era sensação tão forte de úmido e quente que eu nem sabia mais o que fazer nem pensar. Chorava e esperneava de desespero e dor que não queria aquilo nem daquele jeito Deus do Céu, mas de jeito nenhum! Não era meu o pecado, era dele, mas eu estava junto. E sentia tudo descontrolado e Deus sabia no fundo da tentação que eu sentia e aquele calor de afogar a garganta, pois Deus não tudo pode, vê a gente por dentro? E ele falava coisas do meu corpo e corria a mão nele todo. Falava bem que nunca ninguém tinha falado assim daquele jeito do meu corpo antes e isso me dava mais calor e coisas que eu nem sei de dizer como são. E falou no meu ouvido tanta coisa que moça não pode falar no meio da respiração forte dele. E quente que também babava no meu rosto meu pescoço sua gosma de cigarro e homem aceso. Me enchia de horror mas me virava outra de tanta sensação tão assim que eu não conhecia.

Depois de tudo que eu nem me mexia mais de choro e cansada de dor e sangue e uma delícia estranha de só ver em moça de filme e levar a gente ao céu ele me soltou desamarrou minha boca pra eu respirar direito que sabia que eu não ia gritar mais. Virei na cama de vergonha senti o cheiro do meu sangue no lençol enfiei a cara chorando de soluço no travesseiro. Então ele pôs a roupa dele e chegou perto me deu um beijo no ombro nas costas e enfiou uma nota dobrada na gaveta do criado.

“Estou de passagem. Vou embora amanhã”, ele me falou. “Isso é pra você comprar um presente. Não esquece que é tudo segredo nosso. Ouviu? Não esquece.”

Sexta-feira

Acordei muito cedo lembrei tudo aquilo de ontem e chorei de vergonha e angústia mas lembrando também de como foi tão estranho depois de ele me render na cama e me encher o coração de ar e a boca de saliva que eu fiquei atordoada e perdida e gemia de medo e gosto. Troquei o lençol com meu sangue arrumei o quarto. Tentei consertar a imagem não consegui. E deixei encostada na parede pra não cair. Meu coração doía de remorso e pecado vendo ela assim trincada e esfolada. Pensei nele de novo. Pensei em mim. Pensei nele o dia todo. Pensei que era segredo, tinha que ser tudo segredo, pelo amor, pelo amor de Deus! Que mais eu pensava? Que mais não eu lembrava de remorso, que tantas e tantas muitas vezes pensei de novo? Não sabia nem mais. Mas… aí lembrei da nota na gaveta. E abri e peguei pra ver na mão. O rosto de um homem pacato e bom e o desenho colorido dum beija-flor. Fiquei olhando e olhando os dois lados. 500.

Sábado

Deus meu eu queria era apagar tudo da cabeça e não conseguia parar de pensar. Queria contar pra alguém mas como que eu ia poder contar isso tudo? Morria de vergonha de mim. Entendi que não podia contar nada era pra ninguém e só sei que eu saí pensando que estava tudo escondido no meu quarto em mim mesma que ninguém nunca ia lá. E o que eu tivesse que esconder no meu quarto eu ia esconder que ninguém mais sabe nem vê. Só eu. Botei um vestido mais bonito e mais caro que o da vitrine. Que me deram e tantos outros. Que sempre me deram tudo. Lembrei da nota e o beija-flor escondido na bolsa e meus pés iam me levando no caminho da rua das lojas que eu desde cedo quando acordei já sabia o que era que eu queria fazer.

Imagem: David R. Darrow. Curl.

Relógios

Sobre a mesa tosca, os mecanismos desmontados aguardavam a vez de viver novamente.
Numa estante de vidro, uns relógios recuperados sorriam horas exatas.

Este foi meu primeiro conto publicado em livro, aos 21 anos, por meio de um concurso literário. Dá para sentir o amadorismo, a ingenuidade, a linguagem convencional, pretendendo ser a melhor possível. (Meu consolo é que Dostoiévski também foi jovem e sonhador.) Na época, pensei que fosse escrever mais alguns destes e não muito mais que me gratificasse ou me animasse além disso. Algo por aí, no limite de minha preguiça mental, enquanto rabiscava uns poemas. Mas escrever ficção acabou se tornando uma paixão invencível.

Tudo parecia estar dando errado. O carro enguiçara pela manhã, atrasando-me duas horas no trabalho, horas valiosas que teriam de ser repostas para meu próprio bem, para que meu serviço não se tornasse uma dor de cabeça ainda maior.

Cerca de cinco da tarde, o escritório em pleno alvoroço de um expediente na metrópole, e eu não conseguira ainda deixar as coisas em ordem. Dezenas de máquinas de escrever produziam sons simultâneos, como metralhadoras. Pessoas passando umas pelas outras, urgências lembrando uma guerra, de certa forma uma pequena guerra de rotina, a eterna competição entre os homens – e quando não disputam entre si, estão ocupados combatendo na guerra contra os números, contra as máquinas, contra processos que desafiam sua inteligência, enfim, um clima que põe os nervos de um homem já perturbado num estado arrasador.

Era o meu caso. Ligeiras pontadas em um dos molares, lembrando-me de que há muito não procurava o dentista. Minha camisa predileta manchada com uma tinta de carimbos pela qual nutria um ódio homicida. Claro: quando meu relógio parou, tive ímpetos de atirá-lo pela janela, salvando-o no último segundo – quem sabe ainda um sintoma de que poderia salvar-me também.

“Maldita droga!”

Sabia que não poderia confiar em quinquilharias contrabandeadas, mas sabia também que não viveria sem ele, pois tudo o que fazia em minha vida era baseado em seus ponteiros, antes precisos.

Caminhando pelo centro da cidade, avistei, entre outras, uma placa no meio do quarteirão: RELOJOEIRO. Dizeres menores aos quais não dei atenção. Deparei com uma pequena entrada, nada atraente. Um antigo sobrado entre dois prédios de última linhagem, uma dessas fachadas obscuras que parecem só existir em ilustrações a bico de pena ou em sonhos imprecisos, e passam despercebidas ao caos urbano. Apesar da pressa, hesitei entre procurar algo lá dentro, quando havia relojoarias com serviço garantido em cada esquina. Mas algo em mim reclamava um ambiente sombrio como aquele.

No fim do corredor, uma escada de madeira levou-me ao primeiro andar, rangendo e estalando conforme eu pisava um ou outro degrau. A luz vinha de uma porta à esquerda. Meus passos transformaram-se, para minha surpresa, e eu entrei silenciosamente na pequena oficina.

Ali trabalhava um homem semicalvo, debruçado sobre um minúsculo relógio, à luz de uma luminária direcional. Parecia muito concentrado, e não percebeu minha chegada. Aproximei-me do balcão e, intencionalmente, provoquei um ruído que alertasse o relojoeiro. Ele levantou a cabeça, sorriu ao ver-me – rugas que pareciam sorrir. Falei-lhe de meu relógio. Ele meneava a cabeça, seguro de conhecer o defeito.

“É um conserto bastante simples”, disse educadamente. “Se puder esperar, eu o apronto agora.”

Concordei em esperar, e ele, voltando ao fundo da oficina, murmurou o nome de algumas peças antes de se alojar novamente sob a luz.

Só então, em minha conturbada rotina de ocupações, pude esvaziar a cabeça por uns minutos, dirigindo minha atenção à pequena oficina mal disfarçada entre gigantes de concreto. Um aroma agradável de madeira penetrava o peito provocando uma espécie de puro prazer, alguma embriaguez nostálgica e envolvente – eu o inspirava deliciado, como provando de um vinho raro. Cada móvel e objeto pareciam em seu lugar, uma estranha e inusitada harmonia. Sobre a mesa tosca, os mecanismos desmontados aguardavam a vez de viver novamente. Em uma estante de vidro, uns relógios recuperados sorriam horas exatas. Os mais antigos, de parede, pareciam observar-me com suspeita. Todos eles filhos das mãos habilidosas às quais se submetiam para renascer. Eram poucos os objetos modernos. Em minha mente perturbada, os móveis pareciam felizes. Felizes com seu destino anônimo, valorizados por seu dono, e tudo ali parecia fazer parte dele, do velho relojoeiro, uma espécie de projeção material do que sua personalidade teria construído aos poucos ao longo da vida. Vi como ele desmontava cuidadosamente meu relógio, interessado em seu mecanismo, e eu, vendo-o assim, pensei por um instante que o mundo era diferente para cada pessoa. No mundo burocrático do qual eu vinha, uma cena como aquela não tinha maior importância, e ridículo seria mencioná-la. No seu mundo de relógios, com ritmo próprio, engraçado seria ver-me correndo atrás de alguns papéis. Mas de alguma forma nos completávamos e, interagindo entre uma infinidade de mundinhos, formávamos um vasto sistema, um vasto mecanismo no qual nem sempre as coisas estavam certas. O que seria de mim seu meu relógio, e de meu relógio sem ele? Que seria dele sem homens como eu, com relógios por consertar? Cada um de nós uma peça indispensável, talvez, apesar de minúscula, parte de tudo o que gira ao redor, imperfeitamente engrenado no tempo e no espaço, enquanto o planeta desloca sua massa pelo infinito, um imenso relógio que nunca se quebra, e nunca se cansa, e nunca termina.

Despertando-me de minhas filosofias baratas, o homem voltou ao balcão com o relógio montado.

“Foi muito simples”, explicou.

Deu-me alguns detalhes técnicos que fingi estar entendendo. Mesmo com tantos anos de profissão, o velho ainda se entusiasmava com essas pequenas coisas. Por fim, cobrou-me uma quantia irrisória, levando-se em conta o papel que as horas representavam em minha vida.

Parece que tudo acabou aí, mas, não sei por que razão, eu quis ficar um pouco mais, respirar o ar antigo, sentir meu corpo presente naquele lugar, entre móveis e peças que eu não conhecia, como num sonho. Tinha necessidade de ficar, fugir ao meu mundo por algum tempo, conhecer um pouco mais daquele outro.

Perguntei-lhe, a pretexto de prolongar meu prazo, se há muito trabalhava ali, naquela sua oficina. Ele respondeu que sim, e não sabia fazer outra coisa senão consertar relógios. Também era justamente o que queria fazer. Ele parecia disposto a conversar, mas, ainda que eu me esforçasse, os ponteiros de meu mundo já me obrigavam a voltar.

Desci as escadas pensando nos problemas que me aguardavam no serviço e fora dele. Meu relógio, agora consertado, mostrava-me seus minutos preciosos, seu tempo que era o meu e que voava, pondo-me a correr novamente, atrás de meus compromissos inadiáveis. Desesperei-me com a volta à guerra. O tempo que eu vivera na velha oficina servira-me de trégua, momentos de cristalina lucidez que, eu já suspeitava, haveriam de ficar para sempre.

A atmosfera, a estranha magia dos objetos e o sorriso do velho relojoeiro voltavam-me com frequência, como qualquer acontecimento muito importante. E tinha sido. Não propriamente a visita à oficina, mas a inegável metamorfose mal delineada em minha visão mecânica das coisas. Não podia mais encarar meu pequeno mundo como antes era meu natural. Enquanto tantos se esbarravam e se atropelavam na cidade aqui fora, o velho relojoeiro conservava intacto seu universo de criaturas enfermas, carentes de seus cuidados.

Tomado pelo desejo de passar em frente à entrada da oficina, observar de longe suas escuras entranhas, imaginar o velho lá dentro, com ele a certeza de vida ao fim da escada de madeira, deliciar-me com a visão do pequeno sobrado e assim saciar minha estranha necessidade, consegui algum tempo em meu intervalo, e apressei-me a dobrar esquinas que me guiassem à realização desse meu modesto sonho.

Não avistei a placa que me havia alertado da primeira vez. Nem a entrada. Nem o sobrado. Um grande vazio. Um estreito terreno em fase de terraplenagem sendo trabalhado ruidosamente por uma monstruosa retroescavadeira. O homem da loja em frente não sabia para onde se transferira o velho relojoeiro; confessou-me, afinal, que nem mesmo o conhecera.

Misturado à multidão, retomei minhas conhecidas fronteiras, um pouco aturdido, mas sorrindo em silêncio: havia mais da vida a ser explorado, o velho dos relógios sem saber despertara-me de um sono mecânico. Pequenas, mínimas mudanças. Caminhava mais lentamente, tinha tempo ainda. Tempo demais pela frente.

Imagem: Karin Jurick. Avenida Madison, Nova York (detalhe superior).