Lisette Maris em seu endereço de inverno

Lançamento da nova edição

A terceira edição de Lisette Maris em seu endereço de inverno ficou pronta. Esse livro, que reúne contos muito variados, foi escrito entre momentos sombrios e outros de intensa luminosidade. Não era (como nenhum livro meu é) um projeto, mas uma seleção resultante da atividade literária de um período em que predominavam os temas do realismo mágico entre meus textos. Por isso, podemos acompanhar o filho mais velho voltando para enfrentar um demônio, apreciar a presença fascinante de Cissa ante o desenhista clandestino, caminhar em uma noite azul dentro de um pesadelo ou conviver, em meio ao ambiente metropolitano, com o fantasma intrigante de uma princesa egípcia.

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Sendo o mais velho, cabia a mim enfrentar e destruir o que ainda se instalava no fundo do último quarto, cuja parede fazia fronteira com noites de ramos e corujas esquecidas. A casa era tão grande que tinha uma face para o dia, fundos para a noite. Degraus da plataforma, trilhos abandonados de uma estação que eu amava observar e de onde partiam trens para todas as viagens. Cabia a mim eliminar de uma vez para sempre o que havia sido a causa dos sofrimentos de minha mãe, a ruína de meu pai, a morte violenta de minha irmã, o isolamento gradual e definitivo de meu irmão.

Não me faltavam coragem nem ódio. Mas prosseguia com cautela, tocando os batentes, quarto após outro. Não ia armado, claro. Só o que levava era minha coragem – que outras armas se podem usar contra um demônio? Principalmente contra aquele, conhecido como um dos mais terríveis, cujo nome todos evitavam pronunciar e a quem todas as correntes e novenas do mundo nunca haviam sido suficientes para intimidar.

Lisette Maris, 3a. edição

Liu Maoshan. Impressão de Moscou 2.
A gárgula de caninos dourados prenuncia as presas ruidosas que investem contra a grade do jardim. Uma criada inexpressiva aconselha que eu entre pelo portão lateral. Damares mora nesse sobrado razoavelmente luxuoso, mas que também não é a oitava maravilha mais antiquada do mundo. Cozinha: copa: antessala: corredor: a criada, que nunca me olha nos olhos, informa que ela está ouvindo música na saleta contígua, a das almofadas. O cão, do qual suponho estar livre, entrou certamente por outra porção de seu conhecido labirinto e ataca-me tão logo avisto Damares pela porta aberta. Ela se ergue da almofada.

“Papa, não faça isso!”

O cão não lhe obedece. Abocanha meu punho contraído e surpreendentemente se detém, como se algo o houvesse paralisado. Ergo o braço, o punho cerrado entre suas presas, ele se permite içar, mantém-se suspenso e oscilando, com o peso dos enforcados.

“Papa, que coisa feia…”, diz ela ao aproximar-se. “Não sabe que é meu convidado?”

Com um gesto habilidoso, desarma as mandíbulas e livra-se do mastim. Ele ainda rosna, mas sai pelo corredor. Damares sorri de encontro a meus olhos, o cão rosnando à distância empresta-me que essa engrenagem atravessa também os dentes de seu sorriso, Damares rosnando surdamente, sorrindo em silêncio. Seu sorriso, aliás, pela primeira vez endereçado a mim, pareceu-me dividido em duas fases distintas, quase imperceptíveis: a primeira metade abrindo-se como uma cortina apresenta o dia, outra derivando a uma consideração velada e faiscante, como uma centelha. Blusa larga de inverno, calça justa, pés descalços sobre o carpete, assim emerge Damares dessa sala de almofadas.

“Desculpe a cena”, ela diz. “Meu pai é muito impulsivo e não compreende perfeitamente uma situação.”

 

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O que tenho em comum com os tiranossauros

Judy Mackey. Vestido vermelho. 2010Ante a nudez da menina rendida, a saliva escorre-me entre os dentes afiados. A fome e a sede forçam-me a dominar essa adolescente frágil a quem não resta senão sucumbir às vontades que amplamente se desenvolvem na penumbra do predador lascivo, poderoso, efêmero.

Lisette Maris em seu endereço de inverno

53. Antropologia aplicada – próximo

51. Brinquedos – anterior

Guia de leitura

Imagem: Judy Mackey. Vestido vermelho. 2010.

O caminho das ruas de flores vermelhas

Liu Maoshan. Paisagem 15.Se lhes digo “Olá!”, então passa um silêncio. Se me aproximo calado, ouço que murmuram entre si segredos inacessíveis. Ignoram-me. Mas estão ali. Eu as reconheço, sem dúvida, mas elas não a mim. Peço-lhes que me escutem ou devolvam um sinal que me permita compreender. Algo, o que finalmente me faça compreender. Depressa, antes que se vá de uma vez outra primavera, deixando-me sozinho novamente. Sozinho como sempre, sem as respostas para que tudo continue. Sozinho ante o que jamais se revela.

Lisette Maris em seu endereço de inverno

50. O esquife de prata ornamentado – próximo

48. Óculos – anterior

Guia de leitura

Imagem: Liu Mao Shan. Impressão de Moscou.

Braile contra a luz

Admirava-me que as palavras estivessem presas às coisas e não caíssem como um ramo seco de uma árvore.
Que um vento não as embaralhasse e uma árvore não passasse a se chamar poste ou cavalo. Um cão, menino. Uma casa, ratoeira. Um homem, pedra.
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Georges Braque. A mesa. 1928

A literatura não é outra coisa que um sonho dirigido. […] Cada linguagem é uma tradição, cada palavra um símbolo compartilhado.

            – Jorge Luis Borges, prefácio a O informe de Brodie, edição de 1970.

Os professores repreendiam-me, estranhavam que tanto eu pressionasse o lápis sobre o papel. Mais tarde, a caneta. Nunca soube escrever de outra maneira, e não me desenvolvi. O adolescente não podia evitar que os tipos datilografados perfurassem o papel – e os acentos, aspas, vírgulas e interrogações remetiam ao braile, não sem alguma alusão oportuna, minhas dúvidas e escuridão. Não me ocorre, mesmo hoje, a razão pela qual necessito firmar minha escrita, meu código de forças, minha ativa mão, meus dínamos em meio a um mundo insólito e perpassado pela indiferença, por mais que eu avance ferindo os papéis. O texto é meu objeto, meu homem de argila. E nenhum papel foi jamais suficiente para mim.

O registro, resto de uma verdade que me atraísse, não era senão a sobra, a perda. No último degrau do pátio, caderno sobre os joelhos, sozinho ante o muro em cuja base os brotos de hera buscam firmar-se, o menino intui que as palavras se transformam, que se modificam conforme os olhos de quem as considera, que não podem ser transcritas. Que viajam. E se deslocam entre os dias e os gestos, e se dissolvem para germinar, desaparecem como os antigos idiomas e os povos reciclados pela terra. Não existe o ponto, nós o inventamos. Para que a frase se detenha. E o texto não se confunda com o universo ou com a sombra.

“Bom dia. Tão cedo no portão de casa?”

“Bom dia. Que dia é hoje?”

“Quarta-feira.”

“E como se chama esta manhã?”

A empregada ria de minhas perguntas, chamava-me bichinho complicado. Eu lhe perguntava o nome das coisas, ela aceitava a brincadeira. Bolsa, vestido. Dentes? Sorriso, que significa ao mesmo tempo dentes, lábios e manhã. A moça subia os degraus do alpendre, deixava meu campo de visão, levando com ela seu próprio nome, seus sonhos e os nomes de seus sonhos.

Quando eu despertava, pensava em meu nome como reafirmando que ainda era o mesmo após uma noite inteira de sono. Admirava-me que as palavras estivessem presas às coisas e não caíssem como o ramo seco de uma árvore ou a casca de um ferimento em vias de cicatrização. Que um vento forte não as embaralhasse e essa árvore não passasse a se chamar poste ou cavalo. Um cão, menino. Uma casa, ratoeira. Um homem, pedra. Queria saber mais da porta de madeira cujas formas pareciam observar-me: que nome teriam cada uma daquelas nódoas, as estrias e os anéis concêntricos? Por pouco suspeitava que, se descobrisse a palavra-chave, desvendaria o segredo da seiva ressecada em rugas, de sua gravidade e austeridade, do passado que não me revelavam as grandes árvores e a memória velada das florestas. Eu não tinha esse poder. Mas silenciava diante das portas, para alcançar ler o que cada uma trazia em seu próprio idioma, sua versão de fóssil.

De pé, junto ao último degrau. O muro coberto pela hera é o mesmo muro? O que são as palavras? O nome dos mortos continua nas trevas? Eu, que há tanto me alimentava de perguntas e palavras, desejava saber agora onde estaria o texto final, o relevo em pedra, a inscrição no milenar sepulcro que resumisse magicamente o que sempre eu buscara em vão, como quando acreditava poder encontrar-me com Deus e desvendar seu verdadeiro nome, a palavra que infinitamente lhe coubesse. Mas as palavras, como Deus, só existem em nossa imaginação, nossa invenção, nosso abismo. E meu homem de argila arrasta-se ainda na penumbra, na obscuridade, nos papéis insuficientes.

Caderno sobre os joelhos, caneta acrescentando relevos ao papel ordinário. Sinal do intervalo. E os olhos, involuntariamente, dão com os brotos de hera por realizar-se, antes que o menino se levante e se misture à correria das crianças rumo às salas de aula, onde os professores certamente haverão de estranhar que assim ele pressione a caneta sobre sua única chance.

Lisette Maris em seu endereço de inverno

16. O telefone pela manhã – próximo

14. Hoje, acabaram-se as xícaras – anterior

Guia de leitura

Imagem: Georges Braque. Natureza-morta sobre uma mesa com Gillette. 1914.

Estudo com cristais. O réquiem das crianças (13/13)

Penso ver em seu rosto todos os rostos.
Em todos, o preço da paz. Em todos, o impulso da vida. Em todos, a face da morte.
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Wassily Kandinsky. Outono na Bavária. 1908.A trilha de lajes hexagonais atravessa a noite – e a tormenta. Leva-me a essa manhã de árvores que aos poucos se dividem e se alinham entre alamedas, muretas e estreitas calçadas. Sofro uma estranha comoção, algo como um choque de luz e voz de pássaros, pois detém-me um ramo inclinado, a folha em detalhes à frente de meus olhos. Perto de onde estou, um grupo de crianças posa para uma foto, enquanto eu, somente eu, busco a folha singular, a nervura central, o minúsculo, o grão, o átomo. O mínimo cristal.

Por minha sombra de pernas magriças e cabeça desproporcional, vejo que não sou mais do que um menino e assim me aproximo das crianças, que não me veem. Elas entoam uma espécie de hino coral, alegre e harmonioso, acompanhadas de instrumentos que eu não previa. Uma suave, contagiante felicidade as perpassa e as une, circula entre os sorrisos, os gestos avulsos, as vozes em encantadora ressonância. Em todas, no braço direito, uma tarja de intenso violeta. Eu as sigo como posso. Por que caminham como se dançassem?

O grupo dobra esquinas, entre as alamedas, ao som de suas próprias canções. No meio das crianças, confundindo minha sombra às suas sombras de mesmo sol, compreendo por fim a razão do cortejo: seis meninos, como uniformizados em predominante violeta, carregam o pequeno esquife que atravessa o parque. A urna sextavada: o hexágono próprio ao meu último corpo e aos réquiens que se podem cantar sorrindo. Deixo-me ficar, deixo-me ir. O grupo se distancia e vai diminuindo de tamanho na perspectiva infinita das árvores.

Tomo outro caminho, bifurcação entre as alamedas desertas, desço e embrenho-me sob a sombra de copas mais espessas que gradualmente anoitecem essa outra senda. A trilha de folhas ressecadas dá na margem de um lago silencioso onde um barco adormecido sob azuis irradia lentos vincos sob a superfície de lua. O barco é coberto, de cor indefinida, não pela noite que outra vez presencio, mas sim por causa de meus olhos fartos de arco-íris, como também de trevas. Subo ao convés e passo pela porta aberta de esperar-me. Lá dentro, meus olhos varam a escuridão. Aí está ela: Clave de Sol sentada no leito, nua e ao meu alcance. Não associada a uma cor ou a uma canção, mas a um sentimento de silêncio somente invadido pelo lento sinal de um sorriso esboçado. Penso ver em seu rosto todos os rostos. Em todos, o preço da paz. Em todos, o impulso da vida. Em todos, a face da morte. Tudo o que significou Clave de Sol para mim, todas as formas que encarnou. E um silêncio sem dramas, como apenas pode ser, sem apoteoses ou grandes fogos brancos. Sono e sonho esvanecendo-se, abro os olhos. Talvez seja tudo uma maneira de dizer. Palavras. Talvez não seja nada. Não lhe ocorre, ainda assim, que sou um geômetra, também secreto. Porque ela sempre soube que tinha em mim um homem qualquer. Sei também que o tempo se dilui. Mas é tão grande…

Clave de Sol aconchega entre os seios meu rosto de menino. Um último e duradouro gesto antes que o barco deixe lentamente a margem rumo ao coração dos cristais que se fossilizam após todos os encontros. Após todos os conflitos. E antes que se adense o que já é a noite, com seu escudo de estrelas.

Lisette Maris em seu endereço de inverno

39. A mesma aventura – próximo

Estudo com cristais 12. Marina – anterior

Guia de leitura

Imagem: Wassily Kandinsky. Outono na Bavária. 1908.