Sonho 3457. Acompanhando Camila

Subitamente, fui tomado por uma impressão incômoda de que podiam ser os vestidos de três mulheres mortas.
Talvez tivessem sido enterradas ali, sob o piso da sala, e inexplicavelmente teriam descido ao fundo da terra sem que lhes acompanhassem suas roupas.

Amadeo de Souza-Cardoso. Cozinha da casa de Manhufe, 1913.Eu voltava com ela de algum lugar, não sabia qual. Mas sabia que estávamos, até então, conversando em alguma parte da noite na cidade, e eu a estava acompanhando até sua casa. Era algo como os princípios de um namoro, algum ritual de aproximação. Talvez (pois eu não tinha certeza) já tivéssemos nos beijado.

Entramos por uma passagem estreita, seguida à porta da frente, que levava a uma sala mais larga e a outros espaços maiores, externos e internos, porém indefinidos para mim. A casa parecia vazia, mas, mesmo assim, entendi que era hora de me despedir de Camila e deixá-la.

“Você pode ficar mais”, ela me disse. “Fique mais um pouco. Vamos ficar mais um pouco.”

Eu olhava seu rosto bonito. Havia alguma neutralidade, uma espécie de tristeza disfarçada em suas expressões faciais, quase imperceptíveis. Quase nada. Mas eu percebia.

Então surgiram duas mulheres envelhecidas, com roupas de serviçais, lenços prendendo os cabelos, uma delas com um pano de limpeza entre as mãos – esta saída da cozinha, a outra tendo atravessado uma das paredes. A que me pareceu mais velha tinha um rosto amarelado e rígido, como uma daquelas puritanas inglesas que eu conhecia das ilustrações de livros. A outra, mais baixa e morena, vinha logo atrás, seguindo a primeira.

“Você pode ficar mais, se quiser”, disse a mulher que estava à frente. “Ela está sozinha. E está triste. Fique um pouco mais.”

Moveram a cabeça, um mínimo aceno respeitoso, e entraram pela porta da cozinha, sugerindo com isso que se dedicariam, em seguida, a algum tipo de serviço doméstico.

“Vou pegar umas bebidas”, disse Camila sem sorrir.

Correspondendo e querendo agradá-la, eu lhe disse que pegaria bebidas também.

Ali perto, em um canto obscuro da sala, vi três vestidos estendidos paralelamente, como para secar ao sol. Mas isso não era possível, pois estavam no chão, um chão de lajes escuras e frias. Como podiam estar ali para secar ao sol?  Subitamente, fui tomado por uma impressão incômoda de que podiam ser os vestidos de três mulheres mortas. Talvez tivessem sido enterradas ali, sob o piso da sala, e inexplicavelmente teriam descido ao fundo da terra sem que lhes acompanhassem suas roupas. Não, era absurdo, eu não podia aceitar o que me passava essa impressão insólita e ridícula, por isso desviei-me dessa conclusão imatura, quase infantil, e ao mesmo tempo perturbadora.

“Não pode ser…”, murmurei a mim mesmo.

Entre um vestido e outro, próximo ao rodapé da parede, encontrei o que estava procurando: bebidas. Havia uma lata de refrigerante, rótulo vermelho, e um copo. Abaixei-me para pegá-los, voltei-me para Camila, a uns passos de dali. Abri a latinha de coca-cola, despejei seu conteúdo no copo e verifiquei, surpreso, que aquilo era cerveja.

“Nosso contrabando vai ser um sucesso”, brinquei.

Algumas pessoas que eu não conhecia acharam isso engraçado. Mas logo misturaram seus risos a outros ruídos e vozes, e não era possível saber do que estavam rindo de fato. Olhei ao redor, e agora estávamos entre muitas mesas festivas, com famílias e crianças, um dia de sol, à margem da piscina. Ninguém percebia minha presença, e Camila não estava mais comigo. Intrigado, girei a cabeça, girei o corpo, procurando por ela. Um dos meninos, de uma mesa próxima, olhou para mim e disse, erguendo um pouco a voz para destacar-se das outras muitas vozes:

“Ela não está mais aqui! Deve ter entrado!”

Permaneci em silêncio, sem reação, sem agradecer ao menino que tentava me ajudar. Voltei-me para a casa novamente, a uma larga porta lateral que separava, dos limites da casa, o terraço onde se dava essa festa familiar ruidosa, e era a entrada para outra grande sala que eu não conhecia.

Em contraste com as cores das paredes, de umas cortinas aparentemente sem função, uns enfeites e vasos ornamentais, em contraste com tudo que se via nitidamente sob a claridade do sol, o interior da casa era escurecido, cinzento e azulado, cheio de poeira. Cheguei mais perto, fiquei à entrada por um instante e então passei a caminhar lentamente em direção ao interior.

“Camila…”, chamei em voz baixa. “Onde você está? Estou com as bebidas. Quero ficar um pouco mais.”

Havia ferramentas no chão, espalhadas com certa desordem. Também mesas toscas, improvisadas, e pedaços de tábuas irregulares, como se a casa estivesse passando por alguma reforma. Havia também teias de aranha e pontos negros nas paredes, que podiam ser insetos de alguma espécie. Tudo opaco, empoeirado e sem brilho. Entendi que não se tratava de um trabalho de reforma. Era uma casa abandonada há muito tempo. Em ruínas.

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Imagem: Amadeo de Souza-Cardoso. Cozinha da casa de Manhufe. 1913.

Sonho 3428. Viagem com Cris

Penso, com uma tranquila certeza, que ela foi condenada.
Depois, revendo seu sorriso de lábios presos, tenho outra certeza, a de que ela foi absolvida.
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Christopher Clark. Imperia, Itália, a cidade velha II.Cris vai ser julgada. Eu a acompanho até o tribunal. Estamos em viagem num trem silencioso, com mínimas vibrações mostrando que o comboio está em pleno trajeto, talvez em altíssima velocidade, e eu sinto um pouco de medo por isso. Não podemos ver nada lá fora. O vagão em que viajamos não é bem um vagão, mas um quarto de dormir. Cris está deitada de lado sobre uma cômoda com gavetas, à minha frente. Usa uma camisola curta, mais ou menos dourada, e está descalça. Ela me olha com sono, abre e fecha os olhos com algo de carinhoso, mantendo um sorriso de boca fechada, apenas dilatando um pouco os lábios. Um sono de quem se entorpece suavemente com a viagem. Seu corpo se agita quase imperceptivelmente sobre a cômoda, conforme a velocidade estável do trem. Não sei por que ela fica assim, num lugar tão desconfortável, como se estivesse posando para uma foto de algum outdoor. Enquanto eu a considero, ela adormece.

Agora não sei mais se estamos num trem. Pode ser mesmo um quarto, apenas. Mas como estamos em viagem rumo ao tribunal, há ainda uma vibração muito suave por toda parte. Fico em dúvida sobre isso. Tudo indica que seja um trem em movimento, e a viagem segue sem problemas. Mesmo assim, estamos num quarto de dormir, meio desarrumado, com o cheiro característico de lençóis amanhecidos. Uma espécie de casa que viaja.

Cris fecha os olhos. Faço-lhe um carinho para que adormeça tranquila. Tenho pena dela e me preocupo – ela pode ser mesmo condenada.

Abro uma gaveta grande da cômoda. Não sei o que procuro, e também não vejo nada que me chame a atenção ali.

Cris acorda porque abri a gaveta, e isso a fez tremer um pouco, assustada.

“Não é nada”, eu lhe digo. “Só esta gaveta.”

“Você acha que eu vou ser salva?”, ela pergunta sem nenhuma ênfase especial.

Não sei, penso. Mas não respondo.

Então me ocorre subitamente que preciso dar um nome, etiquetar, rotular uma antiga fita cassete com músicas que nós dois gostávamos de ouvir. Abro todas as gavetas, uma a uma, fechando-as em seguida. Talvez essa fita estivesse ali, em uma delas. Não, não há nada ali. Preciso muito escrever os nomes dessas canções na fita que não encontro. Mas não consigo, e desisto. Cris sorri mansamente, em silencio. Eu entendo que isso não tem importância, nem para mim nem para ela. É só uma antiga mania minha de rotular as coisas.

Amanhece, um sol fraco mas brilhante. Estamos de pé, lado a lado, em frente a um espaço aberto entre a confluência de umas ruas, em uma cidade desconhecida. O caminho largo entre as construções é como um grande pátio pavimentado com pedras, como era usado nas ruas mais antigas.

Um vento muito leve passa. Estamos agora em uma das margens desse pátio aberto, olhando uma rua muito larga, uma rua imensa, que entra em declive após uns degraus, já não são mais pedras, mas não sei do que é feito esse pavimento que desce  à nossa frente nessa rua cujo destino se perde de vista. Sabemos que o tribunal fica aqui perto, estamos bem próximos, seja onde for. Estamos agora dentro dele, um lugar silencioso, de móveis pesados. Não sabemos para onde foram os jurados, o juiz, os funcionários – ou por que não vieram. Cris não está mais comigo. Sei que ela foi julgada em algum outro lugar. Eu não vi o final do julgamento e não pude ajudá-la. Ela não está aqui. O vento sopra muito leve. Penso, com uma tranquila certeza, que ela foi condenada. Depois, revendo seu sorriso de lábios presos, de boca fechada, tenho outra certeza, a de que ela foi absolvida.

Há uma cama com três crianças entre os lençóis. É manhã, e elas acabaram de acordar. Sentado de um lado da cama, um homem que deve ser o pai; do outro lado, a mãe, também sentada. Todos me olham em silêncio, esperando que eu conte o que aconteceu.

“Cris foi condenada”, digo a eles tristemente emocionado.

Mas não tenho certeza disso, como também não tinha antes. Agora, não sei por qual motivo, não posso voltar atrás no que disse.

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Imagem: Christopher Clark. Itália, a cidade velha II.

Sonho 3415. A barricada das assassinas

Com essa visão terrível, o copo cai de minha mão.
Sem ruído algum, nem mesmo um mínimo tilintar distante de cacos de vidro.
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Georges Seurat. Mulher de preto. 1882.No telejornal, a notícia de que as três assassinas estão em fuga. O apresentador agora pergunta a um especialista, sentado próximo a ele no estúdio, se a surpreendente barricada que elas montaram em certa parte do caminho teria dificultado a operação da polícia ou se aquilo não passava de um disfarce.

Deixo a sala, desinteressado. Sigo em direção ao meu quarto levando um copo d’água, como costumo fazer quando vou ler por mais tempo, no fim da noite.

Ao chegar à entrada do quarto, um arrepio de surpresa e medo: bloqueando a porta do banheiro anexo, erguem-se alguns dos móveis da casa, a cômoda de madeira escura, cadeiras sobre ela, pequenas caixas e objetos que eu nem conhecia, além do próprio criado-mudo sobre o qual pretendia deixar o copo d’água que venho carregando. Com essa visão terrível, o copo cai de minha mão, estilhaçando-se por todo o piso à minha frente – porém sem ruído algum, nem mesmo um mínimo tilintar distante de cacos de vidro. Entendo, confusamente, que a ausência de sons me protege e me favorece, evitando alertar, com minha chegada, o ente invisível que teria construído essa barricada de móveis e objetos. Vou me aproximando com cautela, olhos atentos de ansiedade, coração acelerado. Olho por cima da barricada, e ali estão, de pé sobre o parapeito de uma grande janela aberta (não mais o estreito e conhecido vitrô vertical do banheiro), prontas a saltar para o espaço externo, para a liberdade, as assassinas em fuga. Mas são apenas duas. Elas são jovens e cinzentas. São imagens em preto e branco, como numa foto antiga de jornal. Por um instante elas se voltam e me veem, enquanto começo a gritar, tentando denunciá-las. Elas ficam ali, inertes, me olhando, sem reação, duas das três assassinas cinzentas.

Leia mais registros de impressões oníricas: Sonho 3402. Voos noturnos

Imagem: Georges Seurat. Mulher de preto. 1882.

Sonho 3402. Voos noturnos

Nossa casa, para efeitos noturnos, é um avião.
Voando sobre certas regiões da Europa, podemos ver sinais dos festins das bruxas.
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Joan MIró. Estrela azul. 1927.Nossa casa, para efeitos mágicos, é um avião. À noite, depois de fecharmos tudo, a jovem nobre Dona Isaura de Bor e eu, depois de trancarmos a porta envernizada da sala, que separa de nós o jardim frontal de caminhos de pedra, e a última porta de tela que limita os fundos da casa, ela entende (a casa, não Isaura) que pode voar.

Ontem, pela grande janela da sala, vimos passar as ilhas Hébridas – eu as reconheci de imediato por causa da música de Mendelssohn, algo distante, mal encoberta pelo som de nossos poderosos ventiladores de teto, mas ainda assim identificável.

A jovem nobre, Dona Isaura de Bor, com seu ar de adolescente mestiça, morena de olhos carinhosos, senta-se ao meu colo como costuma fazer.

“Quer um conhaque?”

“Olhe”, eu disse, apontando a paisagem que avistávamos pela grande vidraça lateral. “Parece que estamos sobrevoando a Rússia. Melhor uma vodca.”

Dona Isaura de Bor volta com os drinques. Hoje estamos sem sono. Podemos ver mais do mundo.

“E aquela, veja, é Leningrado. Como é bonita na escuridão clara das noites russas.”

“É linda…”, encanta-se Isaura. “Mas como sabe que não é Volgogrado?”

“Escute. Escute com atenção. Porque dá para ouvir um dos momentos mais emocionantes da sinfonia de Shostakovich.”

Nossa casa, para efeitos noturnos, é um avião. Voando baixo sobre certas regiões rurais da Europa, podemos ver sinais dos festins das bruxas, com pessoas verdadeiras, com verdadeiros desejos, participando de encontros nos arredores dos Alpes italianos ou no norte da Espanha, longe do alcance da Igreja, o que permitiu que sobrevivessem enquanto sobrevoávamos, isso por muito tempo, séculos e até milênios, enquanto matronas, fadas, feiticeiras e outras divindades benéficas e mortuárias, habitavam, invisíveis, o velho continente de influência céltica.

Eu e a jovem nobre, Dona Isaura de Bor, de pé junto à grande janela de vidro da sala, assistimos à passagem dos recortes dos vales, das terras cultivadas e dos recantos de florestas desgarrando-se da assimetria forçada que é a marca dos homens, nossos cabelos agitados pelo vento contínuo dos vastos ventiladores de teto.

Abraço Dona Isaura de Bor ao ombro, ela enlaça-me a cintura. É uma linda noite.

“Veja aquilo. São os sabás das bruxas. Alguns cavalos negros voando entre as nuvens. O brilho das fogueiras…”

“Que lindo…”, ela murmura. “Conseguiram sobreviver à fúria dos cristãos. E trouxeram suas fadas e duendes até nós.”

“E ouça, preste atenção. Está ouvindo? É a música maravilhosa de Goya.”

“Música de Goya?”, estranha Dona Isaura de Bor.

“Sim, a genial música de Goya. Compreende?”

Ela tem razão. Amanhece. Meus sonhos aterrissam. Os ventiladores de teto reduzem seu giro. Meus olhos se abrem sem a escuridão clara de nossas noites.

Um de nós faz o café. Logo sairemos para trabalhar. Cada um leva uma chave. Beijo e despedida. Para sair, temos que atravessar nosso jardim de caminhos de pedra.

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Imagem: Joan Miró. Estrela azul. 1927.

Sonho 1664

Clyfford Still. Sem título. 1954Agradou-me a primeira sala, onde se dispunham um sofá, mesa de centro, duas poltronas convidativas e umas plantas artificiais. Estranhei o aviso pregado à porta pelo lado de dentro, porque, em vez da costumeira relação de itens informando as normas da casa, lia-se em maiúsculas uma curiosa mensagem: CUIDADO. VOCÊ ESTÁ EM OUTRO LUGAR.

Deixei a porta aberta, fui conhecer o outro aposento da suíte. Não, não estranhei o aviso. Não mesmo. E não me incomodei com isso. Não sou dado a sinais misteriosos ou aparentemente sinistros. Considero a realidade como ela se apresenta, com praticidade, sensatez – por vezes até com bom humor.

Abri a caixa envernizada, de madeira verde, envernizada, como disse, de madeira verde, isso mesmo, que era a caixa de sugestões de lazer do hóspede. Deparei surpreso com alguns palitos de fósforo queimados, uns quebrados ao meio, espalhados, dançando fragilmente sobre um jogo de cartas de baralho dispostas em duas colunas. Olhei ao redor e vi, sobre um móvel baixo, um aparelho de TV, modelo antiquado, com um robusto seletor de canais, que parecia não mais existir, não em atividade, especialmente em um hotel. A TV não tinha fios ou cabos, nem havia qualquer tomada por perto. Ao redor dela, sobre a madeira escura do móvel que a acomodava, inúmeros palitos de fósforo riscados, muito semelhantes aos que havia dentro da caixa de sugestões. Quem fosse o hóspede anterior, havia tentado ligar a TV acendendo fósforos. Com certeza não pôde ver nada. E eu, agora, podia menos ainda.

Voltando-me à caixa, olhando melhor, constatei que não era bem um jogo de cartas convencional, mas uma série de cartões ilustrados com casais em posições eróticas. As ilustrações eram tão perfeitas que me confundiram: poderia jurar que eram fotos, imagens verdadeiras de pessoas que se submetiam a tais sessões de ousadia, por algum dinheiro. A caixa era alta e funda. Embaixo dos cartões, havia um livro encadernado numa imitação de couro. Curiosamente, eu levantava os cartões, para alcançar o livro, quando ouvi que alguém mexia ruidosamente na sala ao lado.

Ajoelhada sobre o piso acarpetado, uma faxineira, vestida com o uniforme do hotel, limpava alguma coisa do chão, nessa sala agora sem a maior parte dos móveis. Fiquei atônito com aquilo, pensando em como teria sido possível que se transportassem tantos móveis em tão pouco tempo, sem que eu percebesse, pensando em quem teria feito aquilo e por quê.

“O que você está fazendo?”, disse eu enquanto me aproximava dela por trás, caminhando lentamente ao seu redor e procurando ver seu rosto. A mancha que ela limpava se parecia muito com sangue.

“Você não deveria ter feito isso”, disse ela com voz neutra, sem lamentações nem sinais de irritação. Voltou-me o rosto, olhando-me em seguida – era uma jovem surpreendentemente linda, de um rosto como eu nunca vira antes, destacando-se cheio de vida entre a touca que lhe prendia os cabelos e a gola estilizada que lhe fechava o pescoço. Fiquei, por um momento, paralisado. Não conseguia fechar a boca, alguma palavra suspensa, com o choque dessa imagem tão fascinante e intensa. A jovem levantou-se com alguma agilidade, manuseando um pano de limpeza, como se nele também limpasse as próprias mãos, passando-o de uma para outra com um gesto característico.

“Isso o quê?”, perguntei por fim. Teria derramado algo no carpete? Por que aquilo sugeria sangue? Eu não me lembrava de nada. Teriam sido os fósforos? O fato de eu ter profanado a caixa verde com o baralho erótico? Se fosse aquela uma caixa de Pandora, deveria haver (mas não havia) ao menos um lacre ou algum aviso que me proibisse perscrutá-la. Não, não parecia ser nada daquilo, e é comum que os hóspedes, uma vez instalados em seus apartamentos, procurem imediatamente a caixa de sugestões.

“Isso o quê? Ter feito o quê?”

“Não poderia… Não deveria… E, de qualquer forma, lembre-se: você está em outro lugar.”

A empregada saiu pela porta da frente, levando o pano entre as mãos. Eu a segui, mas logo à porta deparei com o gerente do hotel, que viera ver-me – um homem simpático, semicalvo, bigode grisalho, sorriso discreto e olhos atentos, num terno muito bem passado, como se ele o houvesse acabado de vestir.

“O senhor pode me informar o que…”

“Você não deveria ter feito isso”, disse ele polidamente, sem nenhum tom de repreensão.

“Se o senhor está se referindo aos fósforos, eu posso…”

“Não há mais como compensar o erro”, explicou movendo levemente a cabeça, um gesto educado mas com algo de conclusivo. “Agora é esperar o tempo passar. E isso acontece o tempo todo.”

“Claro que sim”, disse eu um pouco mais irritado que antes, compactuando com o óbvio. “Mas, no momento, o que estou vivendo é o que importa. Há um jogo de cartas obsceno, um livro encadernado em couro, uma criada assustadoramente bela e fósforos por toda parte. Sei que há algo a ser feito. E há algo que eu não deveria ter feito. Há algo que devo fazer ainda. Também há algo que não farei nunca. Mas não posso ter certeza, não posso afirmar com total convicção que não o farei, se é que o senhor me entende.”

“É sempre assim”, ele concordou. “Principalmente agora, que você está em outro lugar. Lembre-se, portanto: você está em outro lugar. Há algo que você não fará nunca, apesar de não ter certeza, de não poder afirmar com total convicção que não o fará.”

“Mas foi o que eu disse!”, e por pouco não gritando grosseiramente. “Enfim, seja como for, diga-me: o que devo fazer para mudar tudo?”

“Agora”, ele concluiu com a mesma formalidade, “você terá de descer pelas escadas.”

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Imagem: Clyfford Still. Sem título. 1954.

Sonho 3378. Objetos quase vivos

Todos esses objetos, funcionais ou apenas decorativos, integram a coleção dispersa da casa de nossa mãe, onde vivemos fases importantes de nossas vidas, na maior parte tristes.
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Uma estante estreita, na prática uma só prateleira emoldurada por duas tábuas menores e uma superior, serve de guarda a uns objetos muito familiares. Eu os reconheço imediatamente, que foram parte de nossas infâncias, de nossas vidas. Meu irmão e minha irmã estão comigo, um de cada lado, só um pouco atrás de mim. Os objetos na estante se deslocam ligeiramente, como se tivessem vida própria, esbarrando-se uns nos outros, sem motivo algum.

“Isso é impossível!”, digo surpreso. “Eles parecem vivos. Parecem ter vontade própria. Não pode ser.”

Meus irmãos não se mostram incomodados. Quando me volto à estante, depois de constatar a incompreensível calma que eles sustentam, vejo que os objetos se substituíram, não são os mesmos. Uns permanecem. Outros desaparecem e então retornam à prateleira, a cada vez que tento fixar minha visão nesse estranho e tão conhecido móvel. Todos esses objetos, funcionais ou apenas decorativos, integram a coleção dispersa da casa de nossa mãe, onde vivemos fases importantes de nossas vidas, na maior parte tristes.

A estantezinha vibra, se agita, como se um surdo terremoto a sacudisse, somente a ela, sem afetar mais nada ao redor, desafiando todas as leis naturais, o que me causa uma visível perplexidade, um profundo mal-estar, a mim que nunca acreditei em nada fora do alcance da razão.

“Não é possível”, digo aos meus irmãos, e giro minha cabeça para cada lado, em busca de seus olhos, de uma palavra, uma reação. “Isso não pode estar acontecendo. Vocês não percebem? Deve ter um rato aí dentro.”

Minha irmã diz que não há rato nenhum. Que não há nada ali. São apenas quatro tábuas estreitas, uma estante aberta, uma prateleira com pequenas molduras, não há onde um rato se esconder de nossa vista. E ela está certa.

A própria estante se transforma, deixando de ser um retângulo, assumindo formas curvas, depois voltando ao que era, sem nenhum critério, nenhum padrão nesses processos de despropositada metamorfose. Quando me distraio e torno a firmar os olhos no que tenho à minha frente, vejo que há um mapa rodoviário sob três dos objetos, uma página arrancada a um guia de viagens talvez, servindo de chão para eles, e tenho a impressão absurda (maravilhosamente absurda) de que esses tais objetos se curvam para examinar o mapa, para conferir as estradas que se apresentam ali, tão claramente, sinuosas, em traços azuis e vermelhos, como veias e artérias expostas sobre a terra.

“Quem trouxe essa mapa?”, pergunto, irritado, aos meus irmãos. “Qual de vocês trouxe esse mapa?”

Eles se declaram inocentes, em silêncio e entre gestos leves de cabeça, algo interrogativos também, sem nenhuma necessidade de se explicarem, o que faz ver que são de fato inocentes.

“Então… O que esse mapa está fazendo aí?”

“Você não entende”, diz minha irmã com um toque de impaciência. “Eles estão planejando fugir.”

 

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Imagem: Pablo Picasso. Aficionado (detalhe). 1912.