Ancestrais sonhadores

O presente de estar vivo

Eu e meu ancestral italiano, Giuseppe, de quem me lembrei ao escrever O mar dos meninos. Ele completou cem anos e morreu alguns dias depois. Era nosso pioneiro no Novo Mundo. Entre suas memórias, mencionava o mecanismo de esteiras que servia a repelir baleias brincalhonas e fatais do vapor que o trouxera. Em noites de lua, guinchos distantes de algum grupo de cetáceos atraíam curiosos ao convés. Os mais imaginativos (emigrantes, não cetáceos) preferiam acreditar em sereias melancólicas. Lembro-me de cada palavra, com seus mesmos olhos de sonho. Nunca saberei o que era ou não verdade. Mas essa é a matéria-prima da ficção, a substância da poesia, o que subverte o histórico, põe em alerta o domínio racional e faz brilhar os cristais sempre vivos da imaginação. Alguns parentes nos contaram que as antigas paróquias da região de Treviso, onde supostamente se guardavam documentos relativos aos nossos antepassados, haviam sido bombardeadas durante a Segunda Guerra. Portanto, para trás no tempo, antes de meu bisavô, nada mais pode ser examinado por mim. Os vestígios dessa genealogia, como os de tantas outras, ficam retidos sob a capa de uma neblina insondável que não vale a pena tentar perscrutar. Não se trata da neblina que passeia pelo norte da Itália. Recuando, para além desse ancestral, nada mais pode ser visto. Trata-se da neblina que encerra para sempre as sombras dos antigos, de todos os membros da grande família humana, cuja ancestralidade perdida, agitando-se entre flores e sangue, nos trouxe, a todos, até aqui.

Até aqui

O presente de estar vivo

Sempre lento e último a perceber as coisas, um dia compreendi que o passado não existe. Isso é tão idiota que deve encobrir alguma verdade, pensei eu, adolescente. Tinha vergonha de contar aos outros minha descoberta: que não existia vida no passado. Não contei a ninguém. Cresci carregando comigo esse meu segredo patético – pelo menos até sair da adolescência e me sentir mais seguro.  Tudo o que vivi e o que tem me acontecido até um minuto atrás já não é. Tenho só este momento. Pessoas e situações que me envolveram, tudo que passou trouxe-me ao presente, ao agora, eu aqui como um tolo, entretido com meu próprio pensamento, que é este. E tudo o que aconteceu a você, desde que trocavam suas fraldas, desde seus primeiros passos, incluindo as chuvas que nutriram a sua infância e a sua memória, acrescentando suas paixões de adolescente, seus sonhos esquecidos, sua vontade de morrer, sua lágrima recuperada, seus projetos conscientes, tudo o que bem ou mal lhe aconteceu viver, tudo trouxe você até o presente. Ate este momento, agora. Lendo isto.

Imagem: curta-metragem Caolha, o tentáculo da vingança, de Ivan Gagliardi. 2010.

Carteirinha escolar

O presente de estar vivo

Emblema do Estado, arco com dizeres da República. Meu nome com erros. Data de nascimento, cidade, sexo. Em preto e branco, o rosto apático de um garoto aos onze anos, olhos miúdos de míope mal disfarçando uma brecha de espanto, como se ainda, e tarde demais, o fato de haver sido lançado ao mundo o assombrasse melancolicamente. Nosso nome é apenas um código, geralmente adaptado à nossa própria língua, em determinado alfabeto, para possibilitar nossa identificação – nossos ancestrais remotos, por exemplo, não tinham nomes, não precisavam deles. Nossas feições nos tornam semelhantes a muitos outros, porque os genes produzem cópias irregulares de si mesmos. Somos todos estruturas repetidas, multiplicadas com variações, atravessando um tempo absurdo, que resiste a qualquer tentativa de retê-lo. Agora mesmo está nascendo alguém que se apaixonará no futuro. Alguém que pensará nas mesmas coisas outra vez. Alguém que, em algum momento, compreenderá que é um representante desse grupo de complexas personalidades. Essas estruturas que se repetem.

Nada disso

O presente de estar vivo

Não, eu não era arrogante. Um pouco vaidoso, mas não ainda – fiquei vaidoso depois, aos 15 anos. Também não era humilde, não sabia ser isso, ninguém me obrigava. Eu não era um aluno exemplar, nem um completo desinteressado. O que importava, nesse momento da pose, era estar bem, mostrar-me bem, porque alguém veria isso, e eu teria que me explicar se, por acaso, não fosse um como os outros. Meus avós eram vivos, moravam conosco. A casa era pequena, a única possível. Fiz essa pose sem pensar em mim mesmo, se é que isso não pareça absurdo. Eu não sabia que meus avós morreriam tão próximos a essa minha pose tranquila, de sorriso leve. Que eu perderia meu companheiro de caminhadas mágicas pelo bosque. E a mulher que preparava doces de chocolate especialmente para me fazer feliz. Eu não era arrogante. Nem era humilde. Eu apenas não sabia.

 

Fingindo como adulto

O presente de estar vivo

Não estou escrevendo, estou desenhando. Não sabia escrever ainda. Apenas imitava os adultos, fingindo. O bastante para me orgulhar da foto, mostrada por meu pai dias depois, quando a trouxe do laboratório de revelação. Lembro-me (como é possível me lembrar disso?) que sorri ao vê-la. Sabia que iriam acreditar que eu estava escrevendo de verdade, tinha certeza de que aquilo convenceria a todos, facilmente. Só mais tarde pude entender melhor o tempo. Entender que ninguém saberá meu nome no futuro, muito menos o que pensei naquele dia. Minha língua se transformará tanto a ponto de tornar-se irreconhecível, e as palavras que escrevo agora serão intrincados sinais misteriosos. Misteriosos como são agora. Como foram sempre, variando na escrita de todos os povos, em todos os tempos. Mas isso veio muito depois. Eu me lembro de ter gostado muito da foto, vendo-a em minhas mãos. Eu me lembro que sorri.

A bicicleta que passou

O presente de estar vivo

Essa casa ainda está lá. Mas um dia será muito velha, e não valerá a pena retê-la entre os dedos. Essa foto também desaparecerá no futuro, por falta de interesse apenas, o que é natural. Um dia, essa rua será outra, talvez mesmo mude de nome. Talvez se torne uma passagem entre uma rodovia expressa e um elevado. Ou desapareça sob a construção de um vasto parque industrial. Talvez seja uma praça. O acesso a um túnel. Um dia, também, ninguém saberá que a minha cidade existiu. Todo o esplendor do meu país será reduzido a ruínas, como aconteceu com todas as civilizações do passado. Mas era o mesmo o esforço de subir essa bicicleta, levando-a pela mão, na rampa íngreme da entrada da escola. Eu não podia parar na metade da rampa, por falta de força, não podia fracassar em público. Mesmo sabendo das ruínas minando todo o prédio, todo o bairro. Essa ridícula fração de tempo – a vida de uma pessoa, os poucos anos de estudo num certo lugar e os poucos segundos que envolviam essa subida diária pela entrada dos fundos – ignorava todo o passado, todo o futuro. Às vezes, envergonhado, eu pedia ajuda a alguém.