Frutas, cores, pedidos de socorro

Mayday, o pedido de socorro, em inglês, é uma forma corrompida do francês m’aider ou m’aidez, que significa “me ajude”.
Nos tempos do telégrafo, era usado o S.O.S., uma sigla cujas letras em código Morse correspondiam a três pontos, três traços e três pontos.

As cores das frutas e das flores exercem um efeito marcante sobre nossa percepção visual, e esse pode ser o motivo de algumas cores serem denominadas a partir dos nomes de frutas e flores.

Algumas frutas

abacate, do náuatle awakatl, posteriormente através do espanhol. O náuatle (náhuatl, harmoniosa) é uma família linguística uto-asteca, de povos que habitavam o México antes da chegada dos saqueadores espanhóis.

abacaxi, do tupi-guarani i’bá, fruto, ká’ti, recendente, e açaí yasa’i.

abóbora, do latim hispânico apopores.

acerola, do árabe az-zu’rur, através do espanhol acerola.

banana, de origem africana.

caqui, do japonês kaki.

lima (lima[t]) e limão (laymūn) vieram do árabe.

mamão vem do português mesmo, de mama, pela semelhança com um seio.

 

A fruta, a flor e a cor

laranja: como a cor deriva da fruta, o que vale é a origem da fruta, que inicialmente era naranga, do sânscrito, passando pelo persa narrang e chegando até nós através do árabe naranja.

rosa: do latim rosa.

violeta, também do latim: viola + eta, forma diminutiva, talvez pela semelhança das pétalas com esse instrumento em sua forma antiga, particularmente tendo como modelo uma das inúmeras espécies, a Viola odorata, que significa viola cheirosa.

 

Algumas cores

amarelo (baixo-latim hispânico amarellus, diminutivo de amarus, amargo).

azul (árabe-hispânico lazurdii, do persa lazward, e finalmente a forma arcaica azur).

branco, do germânico blank, brilhante, luzidio, referindo-se à lâmina de uma espada ou faca. Daí também deriva a expressão arma branca (adagas, espadas, sabres) diferenciando-se de arma de fogo, aquelas que usam pólvora.
marrom, do francês marron, castanho.
preto, como já visto, tem origem duvidosa. Alguns pesquisadores sugerem que tenha derivado do arcaico despretzo (desprezo), referindo-se à maneira como os antigos europeus tratavam os mouros do norte da África. Mas, enquanto não se apresentam provas, ninguém aposta nada.

Todas do latim

roxo, de russeu, da cor vermelha. No passado, já foi roixo.
verde, de viride, da cor das ervas.
vermelho, de vermiculu, pequeno verme, mas referindo-se à cochonilha, de que se extraía esse pigmento.

 

Outras curiosidades

Átomo significa sem partes. Por extensão, indivisível. (É comum verem-se coleções de livros classificadas em Tomo I, Tomo II, etc.) Demócrito acreditava que, se a matéria pudesse ser dividida infinitamente, todo o universo se diluiria, não podendo nunca constituir-se.

Galáxia significa círculo leitoso. Via Láctea, caminho de leite.

Pakicetus, o fóssil ancestral da baleia, é composto por Paquistão, país onde foi descoberto, e a palavra latina cetus, origem de cetáceo, que significa peixe grande.

Têxtil deriva do latim textile, que por sua vez se refere a textu (texto), significando tecido, trama – por extensão, enredo, alguma coisa tramada, que se articula formando uma unidade revestida de sentido.

 

S. Francisco de Assis se chamava João

Seu nome era Giovanni di Pietro di Bernardone, e Giovanni deriva de Johannes, antiga forma latina que deu origem a Johann, João, Jean, John, Gian… – por isso, o nome da dupla formada pelos músicos Gian e Giovani se traduz como João e João.

Voltando ao assu… Voltando ao santo. Francisco (Francesco, no italiano) foi um apelido dado por seu pai, que o considerava “afrancesado”, talvez em razão do gosto de Giovanni pela literatura de língua francesa ou porque teria voltado de uma viagem à França encantado com os costumes locais.

 

Pedindo socorro

O pedido de socorro, em inglês, nos casos de emergência envolvendo a navegação aérea ou marítima, é mayday, que significa “dia de maio”, certo? Não. É uma forma corrompida do francês m’aider ou m’aidez, que significa “me ajude”. Nos tempos do telégrafo, era usado o S.O.S., uma sigla cujas letras em código Morse correspondiam a três pontos, três traços e três pontos. Além de ser fácil de se memorizar e de se transmitir, era um arranjo muito incomum na língua inglesa o aparecimento dessas três letras nessa sequência, o que, por si só, fazia ver que alguma coisa podia estar errada. Mais tarde, atribuíram significados ao velho S.O.S, como “Save our souls” (salvem nossas almas) ou “Save our seamen” (salvem nossos marinheiros). Essas versões são adaptações posteriores, configurando uma daquelas ciladas etimológicas que não correspondem à verdadeira origem do termo em questão.

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P. S.: Post scritptum (Pós-escrita)

Imagem: Paul Cézanne. Natureza morta com maçãs e peras. 1891.

Fortuna, damas, desastre

Sorte e fortuna têm origem em palavras latinas, associando-se a acontecimentos fortuitos ou sortidos, isto é, ao acaso.
Azar é uma palavra de origem árabe e significa jogo de dados.

Lucas van Leyden. Jogadores de xadrez. 1508Jogos de tabuleiro

Damas, palavra que faz você pensar em mulheres nobres ou figuras do baralho, alguma coisa de europeia ou medieval, deve sua origem ao árabe ax-xitranj, depois tornado attaman – em sua versão final, damas. De certa forma, tem a mesma origem da palavra xadrez, nesse caso uma ideia associada ao número quatro, quadros do tabuleiro, quadriculados.

Xadrez e quatro têm a mesma origem. O nome do jogo, do sânscrito shaturanga, significa quatro membros ou quatro partes: no jogo original, o chaturanga, eram os elefantes, a cavalaria, as carruagens (ou barcos) e a infantaria. O jogo era praticado na Índia do século VI, quando ainda se usavam elefantes como veículos de guerra. Conforme se difundia pela Europa, os elefantes foram substituídos por torres. A palavra passou pela seguinte evolução (respire fundo): chatur anga, chaturanga (sânscrito), schatrayan, schatrayn, shadrayn e shadran ou shatranj (persa), al-xedrech ou as-xatranj, alxedrez (árabe), aljedrez (espanhol) e… xadrez. Ufa! Na China, tornou-se xiangqi (de xiangi, xongi) e no Japão, shogi.

O nome do número 4 (em espanhol, cuatro) vem do latim vulgar quattor, depois quattuor. Bem antes disso, a palavra era kwetwores, a mesma que originou chatur no sânscrito.

Sorte e azar

Sorte e fortuna têm origem em palavras latinas idênticas à sua forma em português (sorte, fortuna) e significam coisas semelhantes, associando-se a acontecimentos fortuitos ou sortidos, ao acaso.

Azar é de origem árabe (az-zahar ou az-zahr), significa jogo de dados (mais precisamente, só o dado) e foi trazida pelos expedicionários das Cruzadas, que aprenderam esse jogo com os orientais.

Sinistro, do latim sinistru, que tem hoje uma conotação negativa, foi cunhada pelos romanos, que perceberam que era geralmente com a mão esquerda que as joias dos transeuntes eram furtadas. (Sinistra é a mão esquerda, em oposição a destra.)

Desastre (desastre) também tem origem latina, mas chegou até nós pelo provençal e significa sem astro, sem estrela, isto é, propenso à má sorte, sem a proteção de uma boa estrela – do ponto de vista metafórico ou supersticioso.

A definição de que palavras desse tipo significassem coisas boas ou não, positivas ou negativas, dependia de cada cultura e de como eram vistas pelas religiões locais.

Leia mais: Sertão, banana, gárgula

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Imagem: Lucas van Leyden. Jogadores de xadrez. 1508

Sertão, banana, gárgula

As gárgulas eram a saída de água das calhas nas construções góticas, que geralmente apresentavam formas grotescas de monstros ou demônios.
Com o latim, nossa língua-mãe, foram formadas
garganta e goela.

Por onde começar? Pelo começo. Etimologia é o estudo das origens das palavras – mas disso nós já sabíamos. A própria palavra etimologia vem do grego étymos, que significa verdadeiro, sugerindo o verdadeiro significado de uma palavra – e todos já percebemos quantas palavras e repetições se seguiram para dizer uma mesma coisa. Paciência. E logos, de onde deriva logia, quer dizer ciência, tratado, estudo – do que também todos nós já sabíamos. Mas sobre algumas delas, das palavras, ainda pouco ou nada sabemos.

Por exemplo, ninguém sabe com certeza de onde vieram bagre, preto, sertão ou tubarão.

Há casos em que conhecemos a palavra de origem, mas não temos certeza de sua proveniência. É o que ocorre com a palavra chapa, derivada de klappa – esta de origem incerta.

Os africanos nos trouxeram (ao serem trazidos à força) acarajé, palavra que provém do ioruba, grupo sudanês da África Ocidental (Sudoeste da Nigéria, Daomé e Togo) e também banana, camundongo, cachaça, fubá, mandinga, tipoia.

São de origem indígena, particularmente do tupi-guarani, língua que enriqueceu o nosso português, arara (a’rara), gambá (gã’bá), jabuti (yabu’ti), jabuticaba (ïapotï’kaba) e tamanduá (tamãdu’á).

Em nossa língua, há cerca de 300 vocábulos de origem africana. Do tupi, registram-se mais de 10 mil.

Surgiram, entre os alemães, blitz (Blitzkrieg), chope (Schoppen) e guerra (do germânico ocidental Werra, que significa discórdia ou luta).

E chegaram, através do francês, acordeão (Akkordium, fr. accordéon) e vermute (Wermut, absinto, fr. vermout ou vermouth).

Dos franceses também herdamos gárgula (gargouille, do antigo gargoule, do radical garg, garganta, acrescentado do francês goule, goela). Tanto quanto em garganta, a origem é onomatopaica, imitando o som produzido ao expectorar ou escarrar. As gárgulas eram a saída de água das calhas nas construções góticas, que geralmente apresentavam formas grotescas de monstros ou demônios. Com o latim, que é nossa língua-mãe, responsável pela maior parte das palavras que constituem a língua portuguesa, foram formadas garganta (possivelmente pela forma gargante, particípio do verbo gargare, do latim vulgar, imitando o ato de produzir ruídos com a garganta), goela (de gulella, diminutivo de gula, garganta ou goela) e gula (de gula, esôfago ou garganta).
Palavras como gargalo, gargalhada e gargarejo são cognatas, isto é, possuem uma mesma origem, um mesmo radical comum. Tudo isso ocorre por meio de processos espontâneos, essa festa sem começo nem fim que são as próprias línguas atravessando o tempo, extinguindo e criando vocábulos. Engolir, é claro, faz parte dessa festa.

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P. S.: Post scritptum (Pós-escrita)

Imagem: George Marples. O corvo de Chartres. 1895.