Um ano de blog

Este blog está completando um ano. Foi iniciado com a publicação do conto Sete anos em Manhattan e desde então tem me surpreendido pelo crescente número de visitantes. Atualmente conta com mais de 11 mil entradas. Isso não é muito, se comparado a blogs de mais amplo interesse, mas para um espaço que pretende divulgar literatura e algo sobre arte e ciência, me pareceu um resultado inesperado e motivador.

Aos poucos, foram incluídas categorias como História, Ciência, Música e até Sonhos, a mais recente.

Além dos comentários correspondentes aos posts, tenho também recebido e-mails particulares de leitores (na maior parte, jovens) contando que voltaram a tomar gosto pela leitura a partir dos episódios envolvendo Liana e Danilo, por exemplo, com a suspeita permanente que afasta e atrai esses dois personagens.

Alguns dos posts mais visitados até agora.

(clique nas imagens)

A sensibilidade por Yann Tiersen
Disney nos deixou órfãos

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As novas invasões inglesas

Autorretrato 23 (curta-metragem)

O personagem casualmente compreende que sua modelo involuntária é a mesma pessoa a quem algumas inscrições nas pedras litorâneas se referiam, com isso descobrindo seu nome.

Há algum tempo tive a grata satisfação de ver um de meus contos adaptados à tela por Bruno Garavello, que roteirizou e dirigiu o curta-metragem Autorretrato 23. Dias atrás, para minha surpresa, Bruno gentilmente me enviou o vídeo, disponibilizado na rede.

No conto, um jovem desenhista, que costuma jogar xadrez com um amigo mais velho, ouve dele o conselho para que não se envolva com mulheres, que se dedique apenas à consolidação de sua arte, pois com ele o envolvimento amoroso resultou em divórcio e frustrações. Mas, sem que fosse sua intenção, o artista se vê cada vez mais suscetível aos encantos de uma jovem misteriosa, hospedada em sua mesma colônia de férias, a quem pretendia apenas retratar secretamente.

O trecho a seguir revela o momento em que o personagem casualmente compreende que sua modelo involuntária é a mesma pessoa a quem algumas inscrições nas pedras litorâneas se referiam, com isso descobrindo seu nome.

A manhã muito clara dissipou, como a fina lâmina de espuma, o sonho de areia. A claridade intensa facilitava-me definir os traços de meu modelo. Conhecia cada linha e músculo de seu corpo, até seu andar tornava-se, aos poucos, especial para mim. Ágil mas indolente. Fria mas pulsante. Que fazia essa corça junto ao mar? Copiei sua maneira de ajoelhar-se, de inclinar-se na areia. De soltar e prender os cabelos. De observar os próprios pés, os seios e as nádegas, torcendo-se sobre si mesma. Por mais que me esforçasse em transcrever seu rosto, algo o fazia outro no papel, escapava-me. Faltava-lhe o sorriso, como se nunca sorrisse. Os olhos lânguidos mas aguçados traziam outra adolescência e iniciação: seu rosto tornava-se sempre mais meu rosto, e tudo se parecia com ele. Voltei-me surpreso, um impulso, vê-la outra vez, o exato momento (alguém a chamava) em que erguia a cabeça, cabelos num rabo de cavalo, lábios semicerrados como se no instante seguinte fosse responder à voz nem masculina nem feminina que a desejava a distância: “Vem para o barco, Cissa! O barco! Vamos velejar!”

Meu modelo corria para o barco. Minha figura em carne e sol. Minha inspiração rumo ao mar. Vela vermelha perdendo-se dos homens. Meu destino.

A essa altura, o envolvimento desse personagem com a jovem desconhecida já não pode mais ser ignorado.

Cissa não me ataca com o bispo. Emerge do mar. Cabelos mais claros seguindo as linhas do pescoço, perdendo-se nas costas. Retoma a faixa de areia em minha direção. Não sorri. O maiô cor de sangue expõe suas virilhas, a cor do abismo, amplia-lhe as coxas e os flancos em movimento, o andar desafiador ignorando uns restos de onda que ainda lhe alcançam os pés e lhe emprestam sandálias de espuma. Uma brisa sopra a voz de Castro, menos metódica, ainda num misto de citação e neblina: se te deitasses, Stephen, com Cissa sob o mesmo sol, talvez pudesses sentir, por um instante de febre, o que te arrebata e te move ao centro da vida.

Cissa prefere o cavalo. Deixa o banho num vestido leve sob cujo tecido oscilam os seios intocáveis. Cabelos ainda úmidos e não escovados, fios grudando-se na testa e na garganta. Castro na brisa: se brincasses, Stephen, com Cissa nas ondas e te sentasses ao seu lado nas falésias e corresses com ela até onde repousam os barcos, talvez atinasses, num lapso de luz, com o que tanto busca, por toda parte, teu traço.

Cissa não sabe jogar xadrez. Atravessa a porta na penumbra, metade treva, metade lua, aproxima-se. Mais alta em sapatos de noite, vestido negro colado ao corpo, cabelos presos. O que lhe cabe de estrelas divide-se entre o par de olhos e o par de brincos. Se tomasses, Stephen, Cissa pela cintura e a levasses sob a lua dos verões litorâneos, talvez encontrasses, entre um meteoro e um relâmpago, o que ainda obscuramente pressentes por trás de tudo.

Autorretrato 23 é um dos contos de Lisette Maris em seu endereço de inverno.

Clique aqui para acessar o canal de Bruno Garavello no You Tube.

A sensibilidade, por Yann Tiersen

É comum ouvirmos que hoje em dia não há mais compositores como antigamente.
Tiersen, compositor francês tão vivo quanto nós, está entre os raros talentos de nosso tempo.

Beethoven muitas vezes é citado como O gênio da música, como se não houvesse um Schubert ou um J. S. Bach, por exemplo. Penso que temos de nos libertar desses rótulos, pois essas centralizações nos fazem perder a chance de conhecer outros talentos – e são muitos, somente no universo da música erudita.

Refere-se a Beethoven o personagem Coelho, em Os últimos dias de agosto: 

Cena de “Minha amada imortal”, com Gary Oldman

 

“A música parecia esgotada. Bach e Mozart foram deuses. Crianças-prodígios, nasceram gênios. Beethoven foi muito maior. Era um homem. E tornou-se um deus.”

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Exageros à parte (pois esse personagem é mesmo de extremos), ao menos valoriza-se aí o esforço pessoal do criador, do qual muitos se esquecem, pois também classificam tais qualidades usando palavras e expressões como talento inato, gênio e dom. Isso nos faz crer que eles simplesmente nasceram prontos, com ouvidos já programados para a música. É claro que temos diferenças, inclusive genéticas, quando se trata de características pessoais, pois podemos constatar que uns têm mais dificuldade que outros para resolver um problema ou para apreciar um trabalho artístico. Mas atribuir tudo à sorte de se nascer gênio não basta. Se é assim, vamos então deixar de promover os gênios, que eles não precisam de nosso apoio.

É comum ouvirmos que hoje em dia não há mais compositores como antigamente. Ora, claro que não, os tempos mudaram, a sociedade mudou. Se Mozart ou Haydn vivessem hoje, não fariam música nos padrões do Neoclassicismo. E talvez estivessem compondo trilhas para o cinema, por que não? Sem querer comparar um artista a outro, porque isso pode ser apenas perda de tempo, precisamos conhecer melhor também os autores contemporâneos, não menos talentosos e criativos. Um desses representantes da modernidade é o músico Yann Tiersen, cuja obra conheci por meio do cinema.

https://www.youtube.com/watch?v=LO209GwYCr8

Tiersen, compositor francês tão vivo quanto nós, também não é único, mas sem dúvida já se encontra situado entre os músicos contemporâneos mais destacados. Ele estrutura seu trabalho a partir de temas simples, minimalistas e, podem apostar, muito envolventes. É autor da trilha sonora de filmes como O fabuloso destino de Amélie Poulain e Adeus, Lênin! – esse último, aliás, de uma sensibilidade rara, ao tratar de um tema histórico tão amplo como a Queda do Muro de Berlim. Vale a pena conferir a música de Yann Tiersen. E apenas como exercício pessoal, tente não se envolver.

https://www.youtube.com/watch?v=BTLCjq7Zwio&list=PLB2BDA42D6048CDD8

Leia mais sobre música e arte: O coração de Nyman

Gotas, goteiras, chá com bolinhos

Definições possíveis

É muito difícil encontrar uma definição precisa e final para algo tão sutil e subjetivo quanto a arte. Mas estas duas definições particularmente me atraem.

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As obras de arte são uma estrela que antecipa e um canto de alento sobre o caminho que conduz o homem através das trevas.

Ernst Bloch

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A arte não é um espelho que mostra a realidade como ela é. A arte mostra-nos um mundo refletido por uma mente incomum que impõe um estilo no que retrata.

– Walter Kaufmann

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Leia mais sobre o tema: O homem do violão azul

A sensibilidade, por Yann Tiersen