Horácio

A eternidade presente

George Gardner Symons. Rochas e mar.

Horácio

(Venúsia, 65 a.C. – Roma, 8 a.C.)

Quintus Horatius Flaccus, considerado o primeiro literato profissional da Roma antiga, participou da conspiração que culminou com o assassinato de Júlio Cesar e chegou a comandar uma legião de soldados que lhe foi designada por Bruto. Filho de um escravo liberto que prosperou trabalhando como tesoureiro de leilões, Horácio pôde, a despeito de sua origem simples, beneficiar-se de uma boa formação acadêmica, que iniciou em Roma e completou em Atenas. Parte de seus poemas revela influência da filosofia de Epicuro e trata da brevidade da vida e da questão de se aproveitar o tempo, ideias recuperadas na poesia do Arcadismo, muitos séculos depois. Anistiado posteriormente, trabalhou em Roma como escrivão, atividade que mais o aproximou da filosofia e das letras. Seu amigo Virgílio, o célebre poeta autor da Eneida, apresentou-o a Caio Mecenas, que era então ministro e homem de confiança do imperador Augusto. Com essa amizade, Horácio passou a frequentar os salões da aristocracia romana, ficou conhecido por seus versos e recebeu apoio financeiro para dedicar-se inteiramente a sua arte. Um de seus poemas mais conhecidos, a “Ode n. 11”, aconselha a aproveitar o tempo presente e a descrer do futuro (“Carpe diem, quam minimum credula póstero.”), tornando-se, para muitos, uma espécie de filosofia de vida.

Caio Mecenas, cujo nome passou a significar patrocinador das artes, foi um dos mais importantes estadistas romanos. Destinava parte da fortuna de sua família ao incentivo da literatura entre os círculos intelectuais do império, que vivia seu auge.

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Expresso

Jennifer Young. Campos da Toscana.
Como os trens e os ônibus: as casas, os quartos,
o leito primeiro – desde então
toda parte, todo leito onde sonhamos –
compõem um espesso comboio de paredes
de trajetória (não vertical, que se supõe o tempo)
horizontal como qualquer viagem.
Embarque, desembarque:
tudo se resume na estação que é.
Os caminhos me pertencem por direito,
direito de homem,
que outros passaram, não me viram.
 
Eu passei e vi a todos.

*  *  *

Correm as crianças rindo, acenando aos que partem.
Todo comboio é menos uma máquina,
mais uma memória.

*  *  *

Segue tua travessia como todo expresso
ao destino do que não te cabe conter.
Que viagem esta, de partida inconcebível?
Que viagem esta, pela qual se deslocam todos os comboios
– no deserto, nas planícies e entre as colinas,
no último pátio do vilarejo e em teu sono?
E te ergues, não se detém o expresso em que hoje estás.
E te deitas, por toda parte segue o expresso sem ti.

*  *  *

Cruza os dias como a nuvem, sua sombra.
Parte do absurdo e se desloca.
Perpassa a montanha, sua vertigem.
Propõe-se a eternidade e se questiona:
pois não vence a distância e a nega?

*  *  *

Os montes de feno sob o sol
mais os camponeses que os criam.
Se partes à procura, encontras por fim o teu dia.
Se ficas sem partidas, vem o teu dia e te encontra.
E te recolhe como o feno
após o dia medido de sol.

*  *  *

Em meio às laranjas
acena a jovem camponesa,
sorri.
Bela de formas robustas,
inspira o ato voluptuoso,
irrefreável:
o ataque masculino,
o assalto – o estupro.
Acena (sem saber) a camponesa ao que a deseja.
Sorri.
Em meio às laranjas.

*  *  *

Terras alheias por onde se estende a distância, a distância
sépia das memórias, perdida
entre cartas de ornato obsoleto,
cártulas com espaço à caligrafia chanceleresca.
Hoje reconquistadas enquanto as atravessas,
por um momento te pertencem como o dia.
Pois a distância não gera o esquecimento?
Pois não se abre o tempo
como se desdobra um mapa sobre as sombras?
Hoje as reconquista o rei abstrato e efêmero que te acreditas sendo
ao longo das terras
– alheias não como o expresso de teu reino agora.
 Expresso preso ao dia.
Terras ao tempo.

*  *  *

Árvores esparsas
– e te perdes no bosque.
Nítido o dia
– e te serve a neblina.
Nenhuma fresta entre os sepulcros
– e adivinhas ali o abismo.

*  *  *

Como os trens e os ônibus,
esta, a viagem.
Para, olha, escuta: é um louco que grita.
Sua voz escura como um calafrio noturno
atravessa todas as portas de pedra.
 
Mas não te alcança.
 
 

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Rapsódia em cinza

Imagem: Jennifer Young. Campos da Toscana.

Alexandre atacado por um vírus

Giorgio de Chirico. O enigma de um dia (2). 1914.Desejos não nossos – e pareciam ser.
E querem que sejam.
E nos ensinam que sim
– afinal, é nosso herói que entra em luta.
 
E quantas vezes o planeta gira
antes que a espada caia
outra vez sem vida?
 
Então – entre manhãs e tardes,
a noite qualquer – a correia se rompe,
o cristal se parte,
a febre vence.
 
Uma mulher assiste a tudo – e entra em luto.
 
O tempo também gira, com as terras todas.
A febre persiste.
Os homens morrem mais cedo porque não sabem chorar.
 
 

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O recurso da relva

Imagem: Giorgio de Chirico. O enigma de um dia (2). 1914.

Em nome de tudo

Vincent van Gogh. Camponês queimando sementes. 1883

No princípio era o verbo – era nada.
Era nada: outras eras
desfizeram mais dessas doces mentiras.
 
Eu sei, você sabe: palavras
sempre serviram a nos enganar
– claro, em nome de tudo.
 
Que lindos são nossos livros.
Que lindos, nossos ideais.
 
Quem adivinha as lacunas mata a charada em nome de tudo.
Em nome do rei. Em nome da lei.
E vamos brincar de forca.
 
Eric, Iara, Cândido, Marta. Pedro e Paulo, João e Maria…
Que nomes nos damos!
Que palavras nos condenam? Por que nos danamos?
Quanto dura seu nome? – por que duraria?
Colônia de corpúsculos, microscópicos cósmicos micróbios
renomeando-se ininterruptamente,
assustadoramente,
reconhecendo-se entre a centelha viva e a vertigem.
Ou entre um galope e um golpe.
O ótimo agouro e o óbito.
Um espelho, uma esperança: e um espectro.
Um canto, um cânone, um credo. Uma queda.
Quanto dura seu nome? – e quando ele some?
 
Vocábulo, signo, termo… – que nos importa, afinal?
Por que mais palavras aprisionando as palavras?
 
Uma vez foram grunhidos, alguém se lembra? – e se moldaram.
Podemos pensar sem elas? Quem disse?
Palimpsestos as guardam, que a voz não chega
– ora, porque morremos.
Quem?
Só você não sabia?
Morremos cada um sua centelha, seu espectro, sua queda.
Era uma vez uma era.
E que voz linda eu tinha!
 
Temos nomes para as coisas todas.
É?
E como se chama esta manhã, no claro de meu dia?
E aquela noite neutra, quando meu dia inteiro se for?
Traga-me o nome dessa insuficiência entre os abismos
– e serei seu súdito, seu servo por um sonho.
 
Se não, desista de me enganar: jamais
me renderei às suas tolas verdades
de ricas aparências
e fartas de espinhos.
 
(Não me esqueço, não me esqueço nunca do grito daquela criança perdida:
seu clamor por socorro era uma palavra apenas.
Mas não devo dizê-la, é por demais chocante.
Você poderia perder-se ou destruir-se com ela.
E era – juro! – só uma palavra.)
 
Grandes palavras nos fazem infelizes.
Mas soam solenes.
Que lindos são nossos votos:
juras pelo amor e pela pátria, pela nossa espécie, pelo futuro.
Em nome de tudo, enfim.
Por nós mesmos, enfim, que somos superiores.
Somos superiores, que lindos são nossos discursos.
E nos matam.
 
Quem quiser, que acredite e continue.
Siga o sagrado. Cometa outro crime.
 
Palavra de honra – em nome de tudo.
Palavra de fé – ante o combate.
Palavra de Deus? – não, já lhe disse:
não tente me enganar de novo.
Você sabe, eu sei: toda palavra é nossa.
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O recurso da relva

 Imagem: Vincent van Gogh. Camponês queimando sementes. 1883.

O tempo limpará tuas mãos

O tempo limpará tuas mãos de teres arranhado
o rosto nas trevas – e antes que apodreçam.
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Liu Maoshan. Paisagem 7.O tempo limpará tuas mãos

de tudo que se tem armazenado em sua emulsão de cinzas.
O tempo limpará tuas mãos de teres arranhado
o rosto nas trevas – e antes que apodreçam.
 
Adeus, pássaro negro e agourento.
Não devo agradecer o mar escuro que deixaste.
Quero desejar que apenas não me voltes.
 
O tempo limpará tuas mãos, o tempo
as limpará de ti – sem o caldo viscoso e a sopa no pântano
do que uma vez nutriu tua infância de névoa,
o tempo – e antes que a chuva
desça a umedecer os mortos – limpará tuas mãos.
 
O tempo limpará tuas mãos ante o dia que seja,
o dia outro, o dia mesmo – que é ele o senhor de teu sendo.
 
O tempo limpará tuas mãos – antes que apodreçam.
E nada poderá detê-lo.
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O recurso da relva

Imagem: Liu Mao Shan. Paisagem 7.