Através de um espelho

… que acontecem

Usei este diálogo da cena final de um filme de Ingmar Bergman em uma prova de compreensão de textos. Eu usava trechos de canções, trechos de filmes e até frases publicitárias. Claro, isso faz parte da disciplina, ela não se restringe ao texto escrito, embora seja este o objeto da maior parte da atividade didática nesse caso. O filme era Através de um espelho (Såsom i en spegel), e eu queria que eles respondessem a uma pergunta simples sobre a fala do personagem do pai. Mesmo assim, surpreendentemente, alguns se confundiram, e eu revi com muita atenção a questão, confirmando se o que eu havia pedido no enunciado estava claro. Sim, era aquilo mesmo. O que pensei, então, era que o amor nos confunde. As definições e as manifestações do amor nos confundem, tanto nos versos de Camões quanto nas letras de Zeca Baleiro.

“[…] Andando em bravo mar, perdido o lenho. / Amor um mal que mata e não se vê. / Que dias há que na alma me tem posto / Um não sei quê, que nasce não sei onde, / Vem não sei como e dói não sei por quê.”

(Soneto No. 3, 1595)

Eu não sei dizer / O que quer dizer / O que vou dizer / Eu amo você / Mas não sei o que / Isso quer dizer. […] Mas se eu digo: ‘Venha’ / Você traz a lenha / Pro meu fogo acender.”

(Lenha, 2005)

Os artistas se declaram confusos quando querem falar em amor. Os sentimentos desafiam as definições, e ainda bem. Mesmo Shakespeare nos aconselhava: “Speak low, if you speak love.

Voltando. No final do filme de Bergman, após a internação de Karin, mentalmente perturbada, o irmão, Minus, espera do pai algo que lhe dê alguma motivação para viver, já que nenhum deles compartilha crenças religiosas.

 

Pai: Mas precisa ouvir com atenção.Through a glass darkly

Minus: Eu preciso ouvir.

Pai: Só posso dar a você uma ideia de minha própria esperança. É saber que o amor existe de verdade no mundo humano.

Minus: Um tipo especial de amor, suponho.

Pai: Todos os tipos. O maior e o menor, o mais absurdo e o mais sublime. Todo tipo de amor.

 .

Imagem: Campanha promocional de lançamento do filme nos Estados Unidos, 1961.

Mais do que acontece: O fim dos fins

O fim dos fins

… que acontecem

Sobre o propósito de tudo que existe, Dostoiévski escreveu que o fim de todos os fins seria não fazer absolutamente nada. Se não me engano, isso está em Memórias do subsolo, visto como o primeiro texto existencialista da literatura – embora eu considere o poeta persa Omar Khayyam um existencialista quase declarado, em sua obra de mil anos antes. Mas o caso é outro. É que isso de o estágio final de tudo que se possa imaginar acabar sendo não fazer (confortavelmente) nada de nada foi o que me ocorreu enquanto um aluno do Audiovisual, caminhando ao meu lado por um dos movimentados corredores da faculdade, conversava comigo.

“Tô indo pra cantina”, ele disse. “Você vai por aqui?”

“Vou. Vamos.”

“Fico pensando nuns caras que nem você, que não acreditam em nada…”, ele começou.

“Ahn… Sei. E daí?”

“Fico pensando… Não acreditar em nada, sabe…”

“Ahn… Sei. Não é bem isso, mas… e daí?”

“Sei lá… Fico pensando… Qual seria o sentido da vida?”

Não. Fala sério. Outra vez? Será que isso só acontece comigo?

“Nããooo…”, brinquei, como se fosse um ator medíocre diante de uma tragédia.

Cobri o rosto com uma das mãos (estava segurando o material com a outra, senão usaria as duas, com toda ênfase), movi a cabeça para cima e para baixo, então pus a mão em seu ombro e falei, nesse clima de bom humor que ele já conhecia das aulas:

“Cara, não me pergunte isso de novo. Não, não me pergunte o sentido da vida nunca mais, não é possível. Parece que está escrito na minha testa que eu é que tenho que saber uma coisa dessas. Olha, sério, mesmo quando eu acreditava em “tudo”, também não fazia a menor, mas a menor ideia de qual era o sentido da vida. Até hoje, que eu saiba, ninguém chegou perto de uma única pista sobre isso. Entendeu? Nenhum filósofo, cientista, artista, santo, bandido… No fim de tudo, de tudo mesmo, no fim de todos os fins, ninguém vai fazer absolutamente nada. A longo prazo, longo, longuíssimo prazo, não vai existir nada pra fazer. Nem vai ter alguém pra fazer qualquer coisa. Não há objetivo nenhum em coisa nenhuma que você acreditar ou deixar de acreditar. E do jeito que eu sou tapado pra isso, acho que vou ser a última pessoa do mundo a saber, se um dia todo mundo ficar sabendo. Nunca ninguém encontrou um sinal, mas um sinal que seja, de uma resposta dessas. Entendeu? Mas tem uns caras lá na Índia que devem saber, que eu já vi na TV. Só que eles não contam pra ninguém, esse é o problema.”

“É?”

“É. Esse é o problema. Eles ficam sentados o dia inteiro, pensando. Pensando não, refletindo. Refletindo não, meditando. Enfim, fazendo alguma coisa que dá pra saber o sentido da vida. Então… Entendeu? Olha, é sério. Pra mim, pra mim aqui, seu professor de Adaptações Literárias, que sai de casa à noite pra trabalhar e ganha por aula, que mora longe das florestas da Índia e das montanhas do Nepal, não pergunte isso nunca mais. Certo?”

“Certo”, disse ele meio sorrindo, mas não muito convencido de que eu não atinava com o sentido da vida. Quase perguntou de novo.

“Tá indo pra cantina?”, eu o abracei pelo ombro. “Vamos lá então. Vamos comer uma barrinha de cereal, tomar um suco de máquina e ver umas meninas.”

Mais do que acontece: Como você pode pensar isso? Credo!

Como você pode pensar isso? Credo!

… que acontecem

O tempo não deixa sobreviventes. Simples, não é? Claro que é. Mas por pensamentos simples assim é que já me disseram: “Como você pode pensar isso? Credo!” Como? Como eu posso pensar nisso? Ora, não sei. Será porque… porque… é isso que acontece o tempo todo? Não tem problema, estou acostumado. O próximo passo é ficarem me olhando como se eu fosse o responsável por esse fenômeno de rotina, como se eu tivesse descoberto a América, e ninguém soubesse de uma coisa tão óbvia. Puxei em minha memória (e achei o texto) que Galileu Galilei, em carta a uma nobre sueca que lhe oferecera asilo político, já que, na Itália, a Igreja iria condená-lo à morte, escreveu: “[…] como Sua Alteza bem sabe […] descobri nos céus muitas coisas.” Prossegue informando que tais descobertas e suas consequências incitaram contra ele professores eclesiásticos, que o acusaram de heresia “como se eu tivesse colocado essas coisas no céu com minhas próprias mãos.” É uma sensação parecida. Como se você é que estivesse fazendo a coisa toda. E não é, o que é desnecessário dizer – mas fica aí, dito, para evitar incompreensões maiores. Se você diz a alguém que a vida não é feita para durar, que não haverá sobreviventes da fuzilaria do tempo, que a composição que somos hoje irá desaparecer para sempre, o seu semelhante, que vive nas mesmas condições que você (talvez por isso mesmo), manifesta algum ar de repulsa, como se você é que estivesse fazendo passar o tempo e estivesse eliminando todos. Ou desejando que seja assim. Ou (absurdamente) determinando que seja assim. Eu tinha lido isto no Jostein Gaarder: que somos como um jogo de lego, sendo os átomos e moléculas as pecinhas que nos compõem. Elas se unem por certo tempo (minha vida) e um dia se desunem (minha morte). Não sei por que isso acontece, não faço ideia – por que ficam unidos por certo tempo, depois tornam a se desgarrar uns dos outros. E é claro que não posso alimentar qualquer pretensão de evitar a dissolução dessas pecinhas que me formam. Elas já são feitas para isso, para um dia se dissociarem, “desmontando” tudo o que sou. Isso está no livro dele, nem era uma ideia minha – embora, sendo sincero, gostaria que fosse. Pois quando contei isso a alguém, esse primeiro alguém (constituído do mesmo “lego” que eu) ficou em silêncio, um silêncio quase hostil, olhando-me de frente, talvez pensando, talvez me odiando. É assim. Quase não se pode dizer nada sem ofender os deuses, diria Goethe. A fuzilaria do tempo é a pior. Como se eu é que estivesse matando todos, por exemplo. E enquanto uma ou outra pessoa antipatiza comigo, o tempo vai cuidando de tudo, sem deixar sobreviventes. Não, não. Não seja injusto, meu semelhante. De jeito nenhum sou eu o responsável por esse massacre sem fim. Não me acuse de ter colocado essas coisas no céu – ou melhor, na Terra – com minhas próprias mãos.

Mais do que acontece: Não era intenção, juro

Não era intenção, juro

… que acontecem

Sinceramente, não me lembra o motivo da pressa, isso foi há alguns anos: um aluno e duas alunas, nós quatro caminhando juntos, entre outros estudantes que se deslocavam pelos mesmos corredores, uns que deixávamos para trás, outros ainda que cruzavam conosco, em sentido contrário – estes, bem poucos, que era o fim das aulas da manhã, o fluxo quase inteiramente apontando para as saídas. Inverno, uma manhã sem sol, um daqueles dias especialmente frios, e nos trechos abertos da faculdade dava para ver nosso hálito se condensando no ar. Seguíamos mais ou menos com a mesma pressa, melhor dizendo, num certo ritmo, por isso íamos tagarelando sem que nenhum de nós perdesse a conversa, eles ao meu lado ou ligeiramente atrás, dependendo da desordem com que avançávamos, conforme superados acessos de um ou dois degraus, pequenos espaços em L, esquinas de corredores, toda escola é assim, com alguma simetria própria a nos conduzir ou a nos confundir. Glauco, sorrindo: “Aquilo que você falou sobre o casamento… Você acha mesmo?” “Não fui eu. Isso é do Woody Allen. Uma ironia, claro, mas sempre tem uma verdade nisso, você sabe.” Mariana: “Ah, profe, me desanima desse jeito. Eu ainda penso em casar, sabia?” “Ei, eu não disse que você não deve se casar, quem disse isso?”, eu ri. Mariana era a única que levava os cadernos e uma pasta escura protegendo o peito, talvez fosse mais friorenta. Jéssica: “Essas coisas que você fala…” “Que eu falo? Mas todo mundo sabe disso. E eu falo português, não polonês. Vocês entenderam muito bem o que eu falei, tenho certeza, foi ou não foi?” Com isso, todos se divertiam enquanto chegávamos às escadas, próximas à saída, descendo à rua. “Essa instituição (o casamento) não existia na Antiguidade, não como a conhecemos hoje.” Minha maleta à mão esquerda, a outra mão livre, provendo todos os gestos no ar, como bom italiano que sou. “Os casamentos das elites, das famílias reais, aristocráticas, eram todos por conveniência, muitas dessas pessoas tinham amantes oficiais, concubinas, etc. Os pobres se viravam como podiam, ninguém queria saber se um casal era casado ou não, se um homem vivia com mais de uma mulher ou vice-versa. Com a Igreja, isso se tornou obrigatório, de uma certa maneira, um casal-padrão, uma família-padrão, como era melhor para os dominadores, claro, para manter as comunidades sob seu controle, porque… Gente, não é difícil entender isso, não é? Falei em polonês?” “Não”, riu Jéssica, fora de meu campo de visão. Não era intenção falar nisso, o assunto saiu por acaso, a partir da análise de um trecho do clássico O cortiço, usado nessa aula recente. “E aquilo do dia dos namorados?”, Glauco ainda curioso. “Aquilo mesmo. No Brasil, foi inventado por um cara de São Paulo, um publicitário. Vai lá saber, vocês não têm internet? Em que mundo vocês vivem?” Glauco, talvez irônico, mas ainda feliz com a conversa: “Eu sei que você não viu isso na internet.” “Observe que ele escolheu o mês de junho porque fica entre o dia das mães e o dia dos pais, descontando as férias escolares, quando caem as vendas no comércio, uma baixa nos lucros, em geral. Sacou?” “E tem a ver com o dia do santo casamenteiro…” “Tem. Isso mesmo. Tudo muito bem planejado.” Voltei-me por um instante para as meninas. “Sacou, Jéssica? Ouviu essa? Falei polonês agora?” “Não”, ela rindo e soltando pela boca sua fumacinha branca. Chegamos à rua afinal, espaço aberto. Um vento frio daqueles. Mariana, um pouco atrás de mim: “Mesmo assim… Eu ainda penso em casar.” Solto os braços, solto o ar, minha fumacinha branca agora. Eu falo polonês mesmo.

Mais do que acontece: Depois de toda glória, é preciso voltar

Depois de toda glória, é preciso voltar

… que acontecem

Meu primeiro prêmio literário. 21 anos. (Não é essa foto aí, não.) Uma lembrançazinha que… Pensando bem, nada mais do que isso, quando muito. Mexendo em meus livros (meus mesmo, com textos meus) reencontrei o modesto Dez contos sobre o trabalho, livro fininho, com apenas dez contos, como, a partir do título, bem se conclui. Meu conto tratava de um velho relojoeiro, porque geralmente os jovens escrevem sobre velhos. Minha primeira historinha publicada em livro, minha primeira pequena glória, porque depois houve outras glórias, todas igualmente pequenas, entenda-se. Viajei a São Paulo, fui direto ao evento, errei o ônibus urbano, cheguei atrasado, suado, despenteado e, para completar, clássico dos clichês, usando minha velha jaqueta surrada, porque estava frio. Eu pensava muito bem antes de viajar. Venho de uma família pobre, e viajar, comprar passagens, para nós sempre significou gastar dinheiro. E não havia prêmio em dinheiro, só a publicação na coletânea. Escrever uma carta, pensei, muito mais em conta, agradecendo, pedindo o livro pelo correio. Mas um colega entusiasmado, o único que estava gostando dessa história toda, disse que eu deveria ir, porque deveria ir, porque deveria ir. Esses meus conterrâneos… Falando nisso, na volta, depois da coisa toda, por sorte ou por azar, encontrei na rodoviária um conhecido de minha cidade, que me contou, muito sorridente, uma porção de coisas inúteis e, em troca, não ouvia nada do que eu lhe dizia sobre meu sucesso literário, meu conto publicado em livro e coisa e tal. Lógico. Enfim, de volta à noite em questão. Local do evento, lançamento do livro. Dois homens, à porta, perguntaram se eu tinha o convite. Eu não tinha o convite. “Não? Qual é o autor que o senhor conhece?” (Ele me chamou de senhor mesmo, porque esses tipos não têm noção de idade, chamam um bobalhão de 21 anos de senhor como se eu fosse o cara que merecesse todo respeito do mundo ou fosse mesmo tão bobalhão que não pudesse perceber a diferença no tratamento formal que davam a qualquer um.) “Eu sou o autor”, falei, com um arrepio de vergonha. Eles se entreolharam. Pediram meu nome. Um deles pediu licença, entrou, voltou pouco depois, com um sorrisinho desenhado a lápis, me levou para dentro. Havia uma plaquinha com meu nome sobre uma mesa. Havia também essa mesa, claro. A única desocupada em um semicírculo, armado assim no salão. Todos os autores estavam lá, se deliciando com vinho, salgadinhos e outras porcariazinhas, como se a literatura tivesse como meta o aplauso e o jantar comemorativo. Eu era o mais jovem ali, os outros mais jovens eram mais velhos, e o mais velho dos velhos tinha mais de 60, um escritor baiano de bigode branco que parecia meio cansado de tudo. (Dava medo pensar assim, vendo esse senhor, que depois de escrever tanto…) Fiquei lá, na minha mesa, sozinho, quieto, esperando passar o tempo, enquanto a tal festa de lançamento corria ao redor. Todos ali estavam cercados por familiares, amigos e outros interesseiros. Peguei o livro, fiquei folheando a brochurinha básica, até mais estreita do que certas edições de HQ, e vi meu nominho completo sob o título do último conto. Por fim, as biografias dos colegas escribas: todos com respeitável currículo, ao menos alguma atividade promissora, em andamento, entre jornalistas e tradutores e funcionários públicos. Mas o meu, de quatro linhas (três e meia para ser exato), atestava: “O autor de Relógios escreve há pouco mais de um ano.” (Mentira, eu escrevia desde os 12.) “Agora pretendo me aperfeiçoar e encarar meu trabalho de uma maneira técnica e profissional”, foi a coisa chata que eu mais ou menos falei, e eles publicaram assim, nas notas das últimas páginas. Então, uma luz muito forte quase me cegou: era o equipamento da TV Cultura. À minha frente sentou-se uma repórter muito simpática, com a tarefa de me entrevistar. Não estavam entrevistando todos, seria muito chato, só um ou outro, mas me procuraram, segundo eles, só porque eu era o mais jovem. (Que pena. Uma oportunidade dessas, nunca mais. No ano seguinte, fiz 22 anos.) A bela (eu disse simpática?) repórter perguntou o que eu gostava de ler e por que gostava de escrever – com palavras bem melhores do que essas, entenda-se. À primeira pergunta, sempre foi fácil responder. A resposta da segunda, não sei até hoje. E como não podia faltar uma gafe para celebrar minha noite de glória, eu disse a ela que lia os contos de Drummond. Claro que Drummond escreveu contos, eu tinha mesmo lido o tal Contos de aprendiz, livro no qual se insere aquela história sensível sobre a velha doida, mas claro, também, que Drummond não era um contista de referência, tanto que ele próprio, sabiamente, intitulara o volume sem poupar a palavra aprendiz. O caso é que a repórter, uma garota de uns 30, muito charmosa e com aquele olhar que nos atravessa, ela mesma parecia não saber disso, e sorriu: “Drummond?” – como se eu nunca houvesse lido um conto na vida e estivesse inventando qualquer coisa ali. (Depois percebi que quando me perguntavam esse tipo de coisa e eu dizia a verdade, que havia lido Faulkner, Tchekhov, Cortázar e outros desses monstros, os entrevistadores me interrompiam com alguma má vontade, como se dissessem, com um gesto no ar: “Não, não, esses não.” Na verdade, o que eles diziam era: “Mas… dos brasileiros…”, qual deles eu teria lido.) Então, vá lá, não foi das piores gafes da minha vergonhosa coleção. Para ser sincero, eu não tirava os olhos do rosto da tal repórter, do decote dela, enfim, sim, eu me apaixonei na hora, como um aluno se apaixona pela professora recém-formada. Na imaginação de um escritor, pouco tempo depois eu estaria com essa mulher magnética num hotel perdido na metrópole, me deliciando com essa paixão imprevista, vinho e pedaços de poemas ilustrando a orgia perfeita. Como depois de toda glória precisamos voltar, pouco tempo depois eu estava era no ônibus de viagem, na estrada escura, aquele conterrâneo roncando ao meu lado.

Mais do que acontece: O fim dos livros

 

O fim dos livros

… que acontecem

Duelo de gigantes: de um lado, Philip Roth dizendo que o livro vai acabar; do outro, Paul Auster dizendo que o livro não vai acabar. Os especialistas falam em convergência, isto é, o livro à moda antiga convivendo com os e-readers. Enfim, não sou eu quem vai profetizar nada, e pouco me importa que parem de publicar livros desde que eu possa continuar com os meus, longe daquela polícia sinistra de Ray Bradbury, queimando-os aos 451 graus Fahrenheit. O mais comum na Era Contemporânea é errar nas previsões. Adivinhar o quê? Se não acertamos futurinhos tão próximos, com elementos bastante possíveis… – como o fenômeno Facebook, que tem menos de 10 anos e passou despercebido até sua recente e súbita dominação global. É por isso que não aposto nada nessas tendências, palpites para daqui a algumas décadas, por exemplo. (Meus colegas do Marketing é que são os mais indicados para se curvarem sobre a bola de cristal.) Mas entendo, por lógica, que se houver, mesmo como minoria, amantes dos livros, as leis de mercado, dentro de seu normal, irão propiciar a continuidade de sua produção. Se não, não. E o mundo continua muito bem, com isso ou sem isso, assim como vivemos muito bem sem rolos de pergaminhos, papiros e palimpsestos. Meu amigo Fernando, que aliás é da área da Economia, não da Literatura, e por isso mesmo tem mais mérito como leitor e entusiasta desse vício, me ensinou que não devemos ser escravos dos livros, eles é que devem ser nossos escravos. Ele costuma riscar páginas para marcar trechos, deixar os livros abertos, virados para baixo, no quarto-escritório onde lê, deitado no chão de carpete duro, junto a suas amigas almofadas, sem se importar se com isso vai forçar-lhes a lombada, a cola ou a costura, enfim, sem se importar com esses objetos que de alguma forma amamos. Na verdade, eu e o Fernando temos algo mais em comum, porque não damos a mínima para os currículos dos autores, como é típico de nossos respeitáveis conterrâneos – se o fulano ou a beltrana publicaram tantos e tantos livros, se ganharam tais e tais prêmios, nada disso tem valor para nós. O motivo é muito simples: quando se pega a ler uma dessas brochuras, caímos num tédio quase orgânico, melhor dizendo, os livros desse pessoal são uma chatice. O que importa, para nós, é o resultado. E se você parou na pagina 5, não é porque seja um mau leitor, mas é porque esses livros não são interessantes mesmo, como se poderia esperar de autores desinteressantes. A carreira e o currículo desses escribas em questão, alguns até consagrados entre nós, não podem nos salvar do tédio. (Geralmente, eles se queixam de que os jovens não gostam de ler.) Então, quer saber? Para o bem da literatura, pelo amor ao prazer da leitura, o melhor mesmo é atirar o livro a um canto, o oposto do que faríamos com os inspiradores textos de Roth ou de Auster. O que me faz lembrar do que Paul disse numa entrevista a respeito de Philip, o rabugento que preconiza o fim dos livros: que o livro não vai acabar nada, e que nós vamos querer continuar lendo todos os romances que o Philip escrever. Isso aí, Paul. Eu também quero.

Mais do que acontece: Mas ela ainda é uma menina