Marcas de gentis predadores. Adicional

O fato de Danilo reencontrar Verne, no final da narrativa, e não outros de seus antigos amigos, este que era visto como o mais ingênuo da turma, é significativo porque suaviza uma falsa situação de tormento. O caso Ana Lúcia deixa de ser o pesadelo que aparentava ser. Tudo se dilui […].

 

Os últimos dias de agosto. Adicional

Em Os últimos dias de agosto, há uma particularidade com relação à divisão interna, uma demarcação intencionalmente irônica e bem-humorada. O romance é dividido em duas partes. A primeira se chama “Os últimos dias de agosto”, e, na edição da All Print, de 2008, vai da página 9 até a 304. A segunda parte, chamada “Setembro”, vai da página 309 até a 311, na prática perfazendo duas páginas e meia de texto. Um desenho de três xícaras fumegando abre essa segunda e última parte.

Notas de uma crise pessoal – esse seria, inicialmente, um subtítulo.

Um sincero sentimento de gratidão pelo músico que me levou , ao caixa do banco onde eu trabalhava, em São Paulo, alguns dados sobre Albinoni. Ele era cliente do banco, eu lhe contei que escrevia e que queria algo mais sobre o músico barroco, que eu mencionava em um trecho de “Os últimos dia de agosto”, àquela altura em fase final, após oito anos de elaboração.

Quando Júlio relembra algumas mulheres de sua adolescência e juventude, menciona Ana, Dulce, Treze e Cátia… – essa ordem sugere uma sequência numérica.

 

Projeto esvanecendo-se. Adicional.

O ensaísta francês Joseph Joubert entendia que, para escrever bem, era preciso conciliar alguma facilidade natural com uma dificuldade adquirida. Isso se mostra rotineiramente no processo de criação literária. Alguns trechos partem de uma espontaneidade descritiva para depois encontrarem sua forma final, mais elaborada, e aqui se observam os sinais de dificuldade adquirida: voltar ao tom de espontaneidade inicial após todo o processo de elaboração. Fazer parecer que se acabou de vivenciar e contar algo, de um momento para outro, quando tal não aconteceu. Nesse caso, escolhi o recurso da imitação da sonoridade, frases curtas pontuando períodos mais longos e as falas das personagens soltas no texto, entre uma pequena descrição-narração e outra.

Ela separou uma chave, errou, depois acertou enfiá-la em algum ponto que não se via pelo lado de fora. PlecPlect! E eu entendi que todos tinham de destrancar esse tal portão por dentro, não havia outro tipo de controle que pudesse ser acionado a distância, sem sair dos apartamentos. Alguém tinha mesmo que descer, ir até a entrada, receber o visitante. Um lugar simples. Entra. Passei pelo portão aberto, estendi-lhe a mão direita, ela respondeu quase ao mesmo tempo, dando-me a sua. Tudo bem? Do mesmo jeito que a gerente do banco me cumprimentava.

A primeira tarde de areia e mel

Algum coloquialismo deve permanecer. Omissão de verbos, ausência de pontuação separando adjetivos em sequência por ser desnecessária para o entendimento do texto. Muita elaboração pode tornar a percepção das imagens artificial.

Era isso, em parte. Um pouco e tudo. Havia sim uma sensação nova, de estar sendo recebido acolhido auxiliado. A cada passo, eu subia mais e mais em minha excitação contida. E a cada passo eu assumia, quase conscientemente, os sinais mal definidos de uma anunciada sonora aromática irresistível decadência. Ela escolheu uma chave, destrancou a porta. É aqui. Entra.

A primeira tarde de areia e mel

Alguns trechos alternam o foco da terceira pessoa para a primeira (ou da primeira para a terceira), porque, ao acionar a memória, o narrador se observa como um personagem, alguém externo, que se mostra a sua frente como se fosse outra pessoa; e muito perto disso, no momento em que se sente intimamente envolvido nessa evocação, torna a assumir a narrativa como ele mesmo.

Sem forças, realizado e pleno, outra vez sob a meia-luz artificial, aproxima-se dela na banheira larga, miniatura de piscina cavada em alvenaria, um degrau acima do piso. Ela sorri tranquila, imersa junto a um dos vértices, só o rosto à tona, água morna em movimento. Retorno-lhe o sorriso, minha gratidão não tem preço.

Dias antes, dias depois

 

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Project fading away. Overture

Fritz Bultman. New York (detalhe inferior) Post. 1939

On the last day of 2004 I was faking hopes and a schedule of motivations that no longer existed in me. I had lost all my classes and I had no professional perspective, nothing in view for the next year. Marjorie’s brother bought fireworks. He and the rest of the family were all very excited because, after all, they were continually prospering, which for them always meant making money and having more and better … – no matter what, as expected. And it looked like, according to the natural order of things, they would continue to prosper in the coming year. Even my father-in-law, who does absolutely nothing, had bought a new car.

But other forces were at stake. Something neither of them noticed, and it was clear to me that they couldn’t notice it. By the time I was thirty-five, and what was affecting me with a considerable level of concern wasn’t exactly being out of work for a period of time, but it was my secret answers. They were kind of intensifying. That was the point. And my intuitive perception of the current situation, forging reactions that I didn’t seem to recognize as mine, which I kept in silence, which I protected in the shadow, which I hid between my teeth, but which I understtood strong enough not to remain ignored, was now the focus of my active attention. All completely invisible to them. No interesting at all. A collapse without a voice. A fall in slow motion, almost an orange alert. Tiny suspended signs – which only lit lamps inside myself.

Until such a short time ago, my dynamism my energy my dedication to the classes and to everything envolved in this fertile universe of shared ideas was as natural as if I couldn’t be different from that. But now I was. Until when, I didn’t know. For any length of time, something impossible to guess. Almost a decade ago, I was recovering from dangerous questions that were self-diluted and almost declined to the innocuous condition of playful ghosts when I met Marjorie and began to live with her. With her and with her practicality her proactivity her certainty of getting what she wanted – as if the essential issues that moved my restless thought didn’t have the slightest, yes, the slightest importance. And she wanted me.

 

 

Project fading away

Picture: Fritz Bultman. New York Post. 1939.

Projeto esvanecendo-se. O que ela faz durante o dia?

Nossa civilização não está pronta para isso.
E minha ociosidade não pode converter-se em frivolidade, algo assim sem rumo, não pode declinar à rendição.

O que ela faz durante o dia? Não pode ser que fique à toa na maior parte do tempo e em sua restrita dimensão de espaço, esperando que eu me prontifique a vê-la. Não existem dessas graças assim disponíveis, à mão de um oportunista hesitante que nem mesmo a sustenta. Não na vida real. Eu não me perguntava isso antes, porque não tinha nada a ver com a sua vida. Mas agora tenho. Então, o que ela faz durante o dia? Versão Josie: currículos em consultórios médicos dentários clínicas e similares, quer ser mais ou menos o que era antes, atendente secretária assistente meio telefonista meio sorrisos de covinhas, a sorte daqueles que a encontram e se alegram com seu rostinho de frente. Sabe atender sabe agradar sabe cobrar, débito ou crédito, via do cliente, agenda com fitinha azul, como não? Não. Não pode ser só isso. Entregar currículos? O dia todo? Todos os dias? Essa menina tem um currículo? Certificado do ensino médio, talvez. Ou nem tanto, será que ela terminou o curso? Mas pode ser que sim, já que ela pensa em fazer faculdade, é estranho… – lembrar de perguntar-lhe isso.

Por causa da solidão e da privacidade, será que ela anda nua pela casa? Ou seminua, que seja. Que diferença isso faz, se não estou lá para ver? Não importa. A curiosidade nos levou às estrelas. E minha curiosidade particular, com variações de voyeur adolescente, é apenas uma amostra sem futuro de tantas conquistas maravilhosas. A Josie seminua, melhor que nua. Fascínio de preliminares. Melhor que nua, sim, é o que sinto, o que penso. Vestida a cada novo encontro, quando me espera. Uma conquista maravilhosa. Acidental. Aconteceu de ser. Ela não fazia parte das metas. Não faz ainda hoje. E isso me encanta e gratifica justamente. O acidente o acaso a oportunidade me atraem. A intromissão na ordem esperada das coisas. Enquanto eu, o velho bom menino, aceito e obedeço, contido e conduzido pelo conjunto de decisões alheias, desde a voz mais próxima até as emanações quase abstratas de poderes inacessíveis, eu quase sucumbindo a um conformismo absoluto, acontece algo que desorienta os organizadores do mundo, que os surpreende, e, guardado em segredo, continuará desorientando ainda suas linhas traçadas nas tábuas nos códices nas pedras, desrespeitando suas projeções desafiando sua supervisão ameaçando sua ilusão episcopal de controle – sem que eles saibam! Que são as ações motivadas por fortelatentes sinais de vitalidade. Alheias às agendas. Golpeando seus projetos de construção social com a natureza provisória das situações improváveis que ocorrem entre os dias devidamente numerados, como os bemóis e os sustenidos cravam-se entre as teclas brancas e sua sequência lógica. Em minha imaginação de hormônios inquietos, auxiliares de minha desonra, a Josie passeia despretensiosa pela casa. Passa de uma divisão a outra, distraída. Em minhas noites brancas ela se move naturalmente à luz do dia em seu alvéolo, simples e silenciosa, com sua calcinha preta.

A Josie deve se sentir sozinha. Por muito tempo do dia. É assim quando estamos fora de alguma coisa do mundo. E… que mais? Ontem eu fui com a Quiel no centro. Ver umas coisas com ela, bater perna, comprar. Ver lojas, na Barão. Umas roupas. Coisas de maquiagem, de mulher. Só isso? Mas não todos os dias, suponho, e o dinheiro dela não vai durar sempre. Você quer ir comigo, lindo, vamos um dia lá no centro, nós dois, vamos, passear um pouco? Ah, eu ia amar você comigo, vendo lojas… Sim, eu sei que é espontâneo da parte dela, sei sim, pelo jeito falar, esse improviso, a entonação de voz, é algo de agora, não planejado, num instante ela me viu ao seu lado, centro da cidade, vagando ante as vitrines de umas ruas de vidro. Comprar-lhe um presente talvez. Comprar-lhe coisas, de vez em quando, pense nisso. Não. Não. Definitivamente não. Diga isso a ela, educadamente. Diga que não será seu companheiro de passeios de mulher. Mas calma, tenha paciência. Ela está sendo espontânea, só isso, não merece respostas bruscas. Imagine-se a cena, eu e a Josie, juntos por aí. Mãos dadas, quem sabe. Braços dados, à moda antiga. Não posso (versão real: não quero), de jeito nenhum. Não podemos. Nossa civilização não está pronta para isso. E minha ociosidade não pode converter-se em frivolidade, algo assim sem rumo, não pode declinar à rendição. Ainda estou inteiro, com tudo que fortemente penso.

Projeto esvanecendo-se

– sequência

27. Sonho com Josie na galeria – anterior

Guia de leitura

Imagem: Pintura de Scott Harding.

Projeto esvanecendo-se. Maga

Os boatos sobre um possível amante da Maga eram, no meu modo de ver, parte da necessidade da maioria das pessoas por não admitirem que alguém ficasse sozinho por muito tempo.

A Maga era Magali Lyngstad da Silveira. Descendente de família nórdica por parte de mãe, herdara dela uns olhos cinzentos, por vezes azuis esmaecidos esgazeados, outras vezes variando a imitar levemente algum lilás difuso, fazendo-se, como resultado da luz incidente, dois círculos vivos de ametista – olhos de uma bruxa enrustida. Mas não, ela não era nada disso, é claro. Nem gostava desses misticismos avulsos. Não se importava nada com superstições e pseudomistérios, pelo que ouvíamos dela. No que eu acredito? Sei lá. Não dava a mínima, e ria. Corpulenta robusta consistente. Também um pouco acima do peso, como dizem – por minha conta, sempre achei algo tola essa expressão, acima do peso: acima de que peso? Seja como for, ela estava acima do peso, sempre. Mas pouco, entenda-se, pouco porque era principalmente robusta, como disse. Sim, e bem-proporcionada sólida roliça, por inteiro, das mãos até os pés, desafiando os simplistas que a definiam de maneira eufemística ou equivocada como gordinha. A Maga não era gorda, de maneira alguma. Eventualmente, como todos nós, claro que podia estar, em uma fase ou outra, acima do peso – de novo essa expressão patética, agora já foi, deixe estar.

A impressão que a Maga me passava, eu dizia, estava longe de se preocupar com uma coisa dessas. Sua feminilidade me parecia intensa. Ela realmente me atraía, assim como era – e justamente por ser assim, como era. Para mim, uma mulher forte. Em todos os sentidos. Pele clara que se podia adivinhar sardenta na adolescência. E o formato das pálpebras escandinavas que se estreitavam nas laterais superiores, algo oblíquas, como se apenas uma parte das órbitas pudesse ser inteiramente visível, parecia emprestar-lhe uns olhos austeros enigmáticos traiçoeiros, que ao mesmo tempo eram os primeiros sinais de vida quando se mostravam entre sorrisos de dentes pequenos e sutilmente amarelados. Uma mulher bonita, sem dúvida. Havia também algo curioso: o conjunto de seus olhos e sobrancelhas fazia parecer que estivesse sempre zangada – tais eram as impressões de quem a encontrasse pela primeira vez, de quem a conhecesse apenas fisicamente, antes de trocar uma palavra com ela. E quem visse sua foto em um documento, rosto sério ou neutro, não poderia desenvolver delinear desenhar para si mesmo a mulher fascinante magnética rara que ela era. Sua boca, de sorriso fácil (mas que também se desfazia logo) reorganizava e equilibrava essas impressões equivocadas, porque, mesmo sem sorrir, sua boca, eu dizia, parecia disposta a florescer, aguardando um instante, apenas, para dilatar-se. O câncer que a Maga escondeu de todos e que abreviava progressivamente seu tempo de humana atingiu como uma descarga de alta voltagem a rotina acostumada, de tensão mais ou menos prevista, que compartilhávamos cegamente os vivos. Porque ninguém sabia. Porque ninguém esperava. Um período mais longo sem sinal das festas, um hiato estendido entre nossos encontros noturnos, e alguns de nós comentando que ela não estava bem, ouvi dizer que ela não está bem, parece que ela está com algum problema de saúde, não sei, alguém conseguiu falar com ela? Sua morte teve o impacto do fim de uma era para a Marjorie e para algumas outras suas amigas tempos de escola, que ainda se reencontravam entre si e com a Maga nesses eventos avulsos, essas festas sem nome em sua grande casa aberta. O fim de uma era, de certa forma, para todos nós.

Quando a gente chegava a uma dessas festas que ela aprontava em noites de sexta ou de sábado, nosso carro ficava a pouco mais de um quarteirão de seu endereço, numa das ruas estreitas e bem cuidadas do condomínio, e conforme eu e a Marjorie nos aproximávamos daquele jardim de verdes anoitecidos e daquela fachada bonita entre arbustos de espécies diferentes, na clara penumbra preservada por lampiões ornamentais, cada um deles um olho sonolento sustentado por uma haste de ferro  escura, a primeira imagem que nos cativava a atenção enquanto caminhávamos em direção à conhecida casa da Maga, era a grande janela da sala da frente, que se erguia a apenas meio metro do gramado e se estendia quase até a saliência da primeira laje, como uma grande tela envidraçada mostrando silhuetas e contornos contra a luminosidade âmbar por trás das cortinas bege translúcidas. As formas movimentavam-se sobrepunham-se curvavam-se e eventualmente riam. Para mim, isso era encantador. Para a Marjorie… Para a Marjorie também era, sim, também era, porque ela via essas coisas como representações de grande estilo, enquanto eu sorria quieto como diante de um antigo projetor de imagens ou de um teatrinho de sombras para crianças.

A Maga tinha a idade da Marjorie. Colegas-amigas de escola. Separada do segundo marido há quase cinco anos, estava sozinha agora. Trinta e sete anos e contando dois divórcios. Mas não aparentava nenhuma mudança por isso. Parecia tão feliz e tão fútil como antes, sendo solteira ou casada ou divorciada. Os boatos sobre um possível amante partiam, a meu ver, da necessidade da maioria das pessoas por não admitirem que alguém ficasse sozinho por muito tempo. Alguns rumores fortes, recorrentes. Pequenos episódios dados como certos, outros esvanecendo-se naturalmente, de tão forçados. E muitas entre as pessoas que conhecíamos perguntavam-se quem seria ele, por que não aparecia por lá, por que ela não o apresentava a todos nós, e assim em diante, aqui e ali, uma ciranda irresistível, mas inofensiva, de perguntas-fofocas. Ninguém sabia nada.

A Maga gostava de mim. Especialmente. Ah, eu quero você pra mim. A Marjorie se aproximava, duas taças de vinho branco. A Maga enlaçando meu braço. Marje, eu quero seu marido pra mim, vou roubar ele pra mim. Abraçada, cabeça deitada em meu ombro. A Marjorie entregando-me uma das taças clarinhas, vinho gelado. Não senhora, esse gato já tem dona. Sim, a Magali Lyngstad da Silveira gostava de mim. Na verdade, ela me admirava. Em parte porque eu era um estranho: filho de uma classe trabalhadora, não de uma classe empreendedora. E pelo fato de eu ter partido de um meio simplório, gente pobre e honesta, de não ter me tornado rico e mesmo assim ter alcançado alguma cultura, além de um forte interesse por intelectualidade arte beleza e outras coisas inúteis, com exceção da ciência. Sob o ponto de vista das relações sociais, isso não valia muito. Mas eu entendia que ela me posicionava em um degrau mais alto que aos demais, agora sob o ponto de vista da sensibilidade e da percepção. A Maga compreendia, pelo que eu também compreendia, que foi isso que atraiu a Marjorie, como se lhe faltasse esse fator de verdadeiro gosto pelo conhecimento para que o casal idealizado por ela se mostrasse completo. Nem ela, a Marjorie, competiria comigo nesse campo, nem eu competiria com ela na busca do que se convencionou ser o sucesso. A Maga, sim, era inteligente perceptiva observadora. Eu também entendia que sua futilidade e seu comodismo eram resultado de sua inteligência, de sua clara visão de mundo, o entendimento de quem não via por que cultivar algo muito além do cotidiano, que já lhe bastava de maneira tranquila. Eu brincava quando nos encontrávamos. E a senhora, dona Magali, cada dia mais linda. Ah, mas eu preciso de mais amigos como você. Marje, ele é lindo, viu? A Marjorie sorria de boca fechada, lábios dilatados na horizontal. A Maga me beijava o rosto, expansiva e feliz. Tinha um sorriso firme consistente sem hesitações e sem automatismos, embora simulasse um ar ranzinza quando não estava sorrindo: as sobrancelhas juntavam-se apontando para baixo, logo acima do nariz, uma rapinante delicada.

A Maga já havia morado no exterior. Estudara francês, arranhava alemão. Um irmão no Rio. Perdera a mãe muito cedo, uma artista amadora, autora de aquarelas que eram vistas no maior shopping center da cidade, em armações de vidro, que cortara os pulsos quando soube que o marido, filho de fazendeiros, bem-sucedido empresário dos agronegócios, tinha outra família. Não lhe era estranho que ele, como tantos outros endinheirados, mantivesse alguma agenda incluindo acompanhantes e meninas de programa, mesmo porque, quando se realizavam certos eventos e feiras anuais em nossa cidade, todos sabiam dos ônibus e vans que chegavam com prostitutas de toda a região. Mas a descoberta de uma segunda família mostrara-se devastadora, e ela escolhera desistir. E eu ficava pensando, sobre essas tais histórias das quais as pessoas envolvidas preferem afastar-se, em como após tantos cuidados com a vida, tantos esforços pela prosperidade ou mesmo pela manutenção de um status quo adquirido da família de origem, em como tudo isso se desfaz por um momento de emoção sem controle, talvez mesmo incluindo-se a razão a atitude a ideia de matar-se, tudo isso mal refletido em uma simples lâmina brilhando sangue.

Ela nunca me dissera com palavras, mas eu pressentia que a Maga dedicava, entre suas receitas íntimas, algum carinho especial por mim, como se compreendesse valorizasse admirasse a seu modo esta espécie de sobrevivente, o menino sem recursos, estudante a duras penas a duros pelos e a duras contenções de hormônios, ele, sua irmã adotada e seu irmão mais novo alegres divertidos fazendo palhaçadas quando a família recebia embrulhos de roupas usadas fornecidas pela parenta-amiga generosa que não precisava mais delas, brincando de vesti-las umas sobre as outras até não suportarem mais o calor e o peso de alguns trajes adultos que lhes caíam até os joelhos ou até os pés, e ele relutava com tais memórias, tentando dissociá-las dos valores conotativos que lhes foram ensinados mais tarde, não querendo suportar esse peso e esse calor que sufocavam sua dignidade hoje, como outras lembranças que soavam em parte humilhantes e que poderiam fazê-lo cair de joelhos diante da condição tranquila dos mais abastecidos ou mesmo cair de joelhos, curvado dentro de si mesmo, envergonhado só por recordá-los, e algumas imagens mescladas de ternura seguiam de mãos dadas com o avô pela Francisco Junqueira em busca de botinas Tyresoles, solados reforçados com borracha de pneumáticos, e não que ele e o avô precisassem delas para alguma atividade específica, era só porque duravam mais do que os sapatos comuns, um ano inteiro de escola, no bairro distante de ruas de terra, percorrido com o mesmo par de botinas que não se dariam por vencidas ao final do ano nem ao final do ano seguinte, não, nada disso, que duravam toda uma fase da vida, uma coleção de invernos, um ciclo de novidades misteriosas e de choros sentidos, e o adolescente já se dava conta disso, há algum tempo essa consciência de circunstâncias o atormenta e o desafia, esse garoto pálido quieto frágil que só aos treze anos viu o pai comprar o primeiro carro, um Volkswagen azul-claro usado e já muito velho mesmo à época, esse mesmo pai desorientado, que um dia silenciaria para sempre entre dívidas incontroláveis, sempre lembrando que havia situações bem piores do que a nossa em todo o mundo, era bom que não nos esquecêssemos disso, tudo soando uma filosofia consoladora, quantas desgraças se repetem sobre a Terra, e nós agora temos um carro. Sim, senhor. Eu compreendo. Eu sei. Mas antes de cair aos pés dos mais sortudos ou dobrar-me dentro de mim mesmo, esse menino-adolescente-homem-eu escolhera seguir com sua força invisível, sem ressentimentos sem autopiedade sem anjos da guarda, eu agora sem trabalho, driblando um terapeuta experiente com as ruínas de meus sonhos e envolvido com uma jovem vulnerável e carente, simples e sensualmente ativa, entendia-me, à parte de todos os conceitos alheios, o cara mais forte e privilegiado do mundo. E sabia, sem que ela me dissesse, que a Maga gostava de mim apenas por eu ser como era. E que isso não teria mudado até o dia de sua morte, entre a surpresa geral que ela causara com seu silêncio e entre os rumores repetitivos sobre seu namorado secreto.

Projeto esvanecendo-se

14. Casinha de gengibre e os ventos seguintes – sequência

12. Cintilações que não podem ser – anterior

Guia de leitura

Imagem: Paul Cézanne. Jas de Bouffan, a piscina. 1876.