As festas na Maga. Pequenos atrevimentos

Eu sabia que algumas garotas ali não aprovavam a ideia, mas não protestaram.
Afinal era uma festa. Nem sempre fazemos festas. Afinal éramos todos humanos. Afinal a vida exige momentos de descontração e de subversão entre os dias e as noites.

Perto da meia-noite, alguém sugeriu que uma das convidadas mostrasse os seios. Ela estava próxima ao bar, que fica um degrau acima do piso da área externa, como um palco estendido entre dois quiosques, pouco antes da primeira fileira de mesas plásticas ao longo da borda da piscina. A Mig era quem estava eventualmente no centro das atenções. Ela devia ter uns vinte, vinte e um anos, não mais do que isso. Ela é Miguelita Herrera Bim, filha de um proprietário de supermercados de bairro e de uma engenheira química, e eu não me lembro de uma dessas noites na casa da Maga em que ela não estivesse presente. Não mesmo. Desde que comecei a frequentar, com a Marjorie, essas festas combinadas ou improvisadas de sua amiga Maga, sempre vi a Mig entre nós. A Marjorie a tem em boa conta porque ela promete seguir os passos do pai nos negócios, enquanto cursa Administração de Empresas – não sabemos, claro, se ela cumprirá a promessa ou se mudará de ideia. E o pedido seguia valendo. E a Mig ali, hesitante sorridente vaidosa, repetindo nãos enquanto se divertia com o tom de súplica de um rapaz que eu não conhecia, que parecia ter vindo com a Rafaela Brittes e uma de suas primas, não sei, eu não sabia, não tinha certeza. Mostra pra gente, vai, faz esse carinho. A Mig o afastava com um tapinha à toa. Não, Fred, que isso, tá louco? Outros engrossaram o coro e passaram a incentivar a brincadeira. Ao fundo, Lou Bega cantava seu “Mambo n. 5”. A essa hora da noite, soprava um ventinho gostoso e vivo, vindo dos descampados próximos ao condomínio. Vai, mostra rapidinho, vamos ver, que que custa, que que tem de mais? A Mig levou a mão à testa, cobrindo o rosto enquanto sorria. Gente, não. Tô com vergonha. Preciso de mais um drinque. Drinque, no caso, claramente um eufemismo – ela parecia ter tomado umas boas batidas de frutas bem a seu gosto. A Rose Levy deu-lhe um copo alto de vodca gelada, fatia de limão presa à borda. A Mig então tomou meio copo de uma vez, engasgando enquanto ria. Mesmo assim, indecisa teatral maliciosa, ameaçava a todos com a desistência e a frustração. O Gilberto Roma, marido da Verônica Braga, que estava ali, a meio passo de mim, acima do peso, caminhando para a calvície, mãos grossas prontas a aplaudir, convocou-me à ação. Fala alguma coisa, Pepo. Você é bom nisso. Fala. Eu sorri, toquei o braço dele em sinal de que prestasse atenção ao que eu diria em seguida. Vamos lá, Mig. Você sabe que é bonita. E está entre amigos. Isso dá um tom a nossa festa. E muitos pontos pra você. Homens e mulheres riram. Apoiaram arremedaram aplaudiram, sem tirar os olhos de cima dela. A Queen, num vão entre uma e outra pessoa, olhava-me especialmente. Séria ou apenas curiosa, não sei. (Uma observação: a Marje não comentou nada sobre isso, em nenhum momento. Eu nem sabia onde ela estava quando isso aconteceu – isso, eu digo, a minha fala incentivadora. O resto ela viu. Nem uma palavra. Mesmo. Nem na viagem de volta. Nem quando apaguei a última luz, em nosso quarto, ao fim de tudo. Nada.) Como parte de uma esperada encenação, a Mig tornou a cobrir a testa com uma das mãos enquanto com a outra fazia descer delicadamente pelo braço a alça esquerda de sua blusinha cor de vinho. Um murmúrio quase infantil de admiração e felicidade ocupou o espaço ali, partindo de diversos pontos, vozes masculinas e femininas, atravessando-nos a todos com um entusiasmo alternado entre uma ansiosa perspectiva de silêncio e um possível clamor de glória. Eu sabia que algumas garotas ali não aprovavam a ideia, mas não protestaram. Afinal era uma festa. Nem sempre fazemos festas. Afinal éramos todos humanos. Afinal a vida exige momentos de descontração e de subversão entre os dias e as noites. Afinal, não era algo tão absurdo assim. Era só uma brincadeira sensual, um capricho de momento. Afinal… não era nada. A Mig fez um charme de um instante e pôs à mostra um de seus peitinhos, um peitinho de agradável proporção, jovem e pronto, ligeiramente voltado para o lado externo do torso, aréola pequena castanho-clara coroando a forma macia que ela sustentava com a mão colada ao corpo, como apontando seu lindo seio, à prova de críticas, em nossa direção. Lou Bega cantava: … a little bit of Rita is all I need, a little bit of Tina is what I see… Fez um sinal para a Rose, pegou de volta a vodca, girou um dedo no líquido gelado e tocou-se no mamilo, arrepiando-se do próprio susto e provavelmente fazendo-o eriçado instantaneamente, o que eu não podia ver de onde estava. Risos e aplausos esparsos dirigidos à estrela do momento, que parecia nos dominar com seu feitiço enquanto a voz do cantor, sobrepondo-se às nossas, lembrava: you can’t run, you can’t hide, you and me gonna touch the sky. Isso não se estendeu por um minuto inteiro. A Mig subiu a blusa, guardou o seio.

Desde então, a festa parecia outra. Nossa memória dessa noite era outra. Nosso tempo cronológico não podia mais vencer o efeito desse capricho, desse encantamento, dessa magia simples. A Mig nunca mais foi a mesma para nós. Ela nos brindou com a libertação. Como eu previra, isso contou pontos para ela: todos passaram a simpatizar mais com ela, principalmente nós homens, tocados por um inconfessável sentimento de gratidão. Eu via esse gesto de ousadia malícia música e álcool como uma superação das culturas repressivas, um fator de redenção do que jazia estancado em nós mesmos, em nosso invisível ressentimento, uma conquista de todos. A estrela nascida do instante etílico, inspiradora de ansiedade e risos, realizando nossa reintegração à condição legítima de nossos hormônios. O momento de fazermos as pazes com o melhor de nossa natureza. A fêmea representativa, a musa da vez. A renovação dos votos de todos com nosso próprio senso de liberdade, com nossos caprichos sublimados, com nossa permissividade contida, com nossa inocência.

Projeto esvanecendo-se

 – sequência

21. O jardim do hoje – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Fabián Perez. Sabá com copo de vinho tinto

Projeto esvanecendo-se. A primeira tarde de areia e mel

Seu sorriso de covinhas parecia radiante dessa vez.
Foi a primeira imagem que me afetou, o que primeiro me chamou a atenção, de olhos meus diretos em seu rosto.

Fui à casa da Joss Stone. Eu começava a ser feliz. Parecia, sim, que começava a ser feliz, como disse. Era uma expectativa, uma impressão. Não importa. No dilatado instante dessa impressão avulsa, eu me senti verdadeiramente legitimamente naturalmente um homem feliz. Preocupado também. Acho que nunca fui completamente feliz. Não bastassem os problemas que eu fingia não flutuarem por perto, ao meu redor e à minha sombra, talvez crescendo surdamente a cada dia, eu seguia por um caminho que quase colocava placas de alerta sob meu nariz. Não, eu não estava raciocinando muito bem. Isso de concordar comigo mesmo em merecer alguma felicidade não parecia marcar o compasso do que eu estava vivendo desde dois meses antes e só poderia piorar as coisas. Até mesmo piorar as coisas me parecia algo bom e necessário, como se isso fizesse surgir alguma resposta por obrigação, algum recurso inesperado e irrefreável, alguma solução catalisadora, nem de longe prevista até então.

Apertei o botãozinho azul, meio ovalado, do interfone protegido por uma grade frágil e sem pintura, calculada para ser de seu tamanho exato. Eu estava na calçada, nervoso indeciso ansioso, à frente de um portão estreito, esmalte marrom vencido, barras verticais em parte descascadas, mais escuras em certos pontos, onde normalmente nossas mãos alcançam. Meu coração agitava-se como o de alguém que aceita participar de seu primeiro crime. Era a primeira entrada do condomínio. Um clique em seguida, fundo de ruídos rascantes longínquos, quase inaudíveis. Quem é? Oi, sou eu. Ah! Já vou abrir. Fiquei parado, quase envergonhado, mesmo que ninguém soubesse que eu estava li, a não ser três crianças que brincavam atrás de mim, do outro lado da rua, e um casal de idosos passando lentamente pela calçada, sem se incomodar com minha presença quieta. De onde eu estava, sob um telhadinho baixo, uma laje envelhecida que mal poderia proteger alguém de uma chuva fraca, medida para cobrir nada mais que essa entrada, e a estreita moldura de alvenaria que delimitava o portãozinho de grade, não era possível ver nada além de um trecho à frente, dando a uma parede encardida de cor bege, que era a cor da fachada toda. A entrada coberta para o prédio ficava à direita, fora do alcance da visão, e eu entendi que isso era interessante do ponto de vista da segurança. Mas não tinha certeza. Não havia câmeras, pelo que notei. Ninguém podia ver quem estava ali na frente, à espera. Podia ser perigoso do mesmo jeito. Ouvi uns passos, chegando perto, mas não era ela. Uma mulher alta, com um lenço na cabeça, bolsa a tiracolo, saindo. Destravou o portãozinho por dentro, plec!, eu me afastei um pouco, cordial e sem graça, ela passou por mim, trancou-o de novo. Cabeça baixa, olhou-me muito brevemente, sem sorrir. Boa tarde. Boa tarde. Esperei mais um pouco. Ouvi outros passos se aproximando, agora era ela. Oi. Seu sorriso de covinhas parecia radiante dessa vez. Foi a primeira imagem que me afetou, o que primeiro me chamou a atenção, de olhos meus diretos em seu rosto. Oi. Ela separou uma chave, errou, depois acertou enfiá-la em algum ponto que não se via pelo lado de fora. Plec… Plect! E eu entendi que todos tinham de destrancar esse tal portão por dentro, não havia outro tipo de controle que pudesse ser acionado a distância, sem sair dos apartamentos. Alguém tinha mesmo que descer, ir até a entrada, receber o visitante. Um lugar simples. Entra. Passei pelo portão aberto, estendi-lhe a mão direita, ela respondeu quase ao mesmo tempo, dando-me a sua. Tudo bem? Do mesmo jeito que a gerente do banco me cumprimentava. Por iniciativa dela, um costume automático, eu sei, trocamos um beijo rápido no rosto, quase sumido no ar. Entra, vem cá. Dá licença.

Fui andando ao lado dela, um mínimo atrasado, conservando firme minha fingida naturalidade. Ela carregava chaves, uma delas a do portão, sem dúvida, fazendo um fundo sonoro agitado mas singelo, um tilintar constante e quase cadenciado, enquanto entrávamos pelo primeiro corredor coberto, uma espécie de saguão estreito modesto retangular, aberto dos dois lados, iluminado pela oblíqua luz do dia, passando a impressão de que as lâmpadas do teto estivessem queimadas, e também enquanto subíamos, nós dois, os dois andares de escadas.

Aqueles pés, subindo pouco à frente, apoiados em calçados simples, supostamente rústicos, solado, duas tiras trançadas e um enfeite, revelavam-me uma fragilidade sólida, uma espontaneidade determinada, uma rusticidade delicada ou uma delicadeza rústica. No momento em que isso ocorria, enquanto avançávamos nos degraus, enquanto essa visão momentânea e duradoura fascinava e comprometia minha intelectualidade adestrada nas certezas e na busca pelas melhores palavras, eu reconhecia uma confluência de impressões que mais tarde entendi serem parte de tudo que a Josie significava para mim. E isso abalava meu mundo, no qual as coisas eram definidas de certa maneira, melhor dizendo, de maneira certa, sendo ou rústicas ou delicadas. Se o demônio está nos detalhes, isso mais uma vez se confirmava.

… certas memórias avulsas e despretensiosas nunca, nunca me deixaram. E são parte de uma coleção acidental de pequenos cristais que me motivam misteriosamente…

O demônio está nos detalhes. Aula de Semiótica. Eu tinha acabado de mostrar a cena de um filme em que a falsa estrela, caída do céu, se chamava Sirius. Pedia que os alunos associassem essas intromissões vocabulares com o tom da narrativa toda, lembrando que havia outros sinais de que tudo não passava de uma grande farsa. Vocês já ouviram isso de o demônio estar nos detalhes, eu sei. Agora, pensem nisso na prática. O divino também pode estar nos detalhes. Não na grandiloquência dos crepúsculos ou das sinfonias no auge da instrumentação. Não na opulência das grandes catedrais, mas talvez nos degraus em ruínas de uma trilha esquecida no bosque. Pensem nisso. Ruínas, uma trilha esquecida, degraus. O que será que deixamos passar em nossos caminhos de gente, em nossos processos civilizatórios, que pode ter nos afastado de coisas singelas, a que podemos chamar divinas, que pode ter nos afastado da beleza? Demônios, anjos e coisas divinas, isso tudo são elementos significativos, representativos, envolvendo personagens míticos, como um deus e seus antagonistas, e espaços imaginários, como Céu e Inferno, sem contar muitos outros, de outras culturas, diferentes da nossa. São elementos da literatura, da mitologia e, portanto, gerados por necessidades de nosso psiquismo. Nada disso existe fora de nossa imaginação, é claro. Vocês são adultos, sabem disso. Não, nem todos sabiam. A turma dos religiosos foi fazer uma reclamação à coordenadora do curso. Eu havia gerado um problema para ela. Um problema para todos eles. Um conflito filosófico-religioso-teológico-ridículo. Para minha sorte, isso não passou de um incidente sem maior importância. Ser antipatizado por alguns não muda muita coisa. A Maria Cláudia, coordenadora do curso de Arte, apenas me pediu que evitasse tocar nesses assuntos em sala de aula. Estes assuntos: significados e representatividade de elementos literários e mitológicos. Em uma aula de Semiótica.

Ainda lá fora, sob o sol, a Josie apertava os olhos enquanto me olhava de frente e sorria. Eu também fazia isso, embora ela é quem estivesse francamente contra a luz. Observei com gosto, com alguma alegria quase infantil, sua camiseta azul-clara larga solta e sem cintura, manchas intencionais na estampa, disfarçando magnificamente quaisquer relevos, sua bermuda jeans, que não chegava aos joelhos, seus chinelinhos de couro em forma de V, tirinhas trançadas à moda hippie, muito simples e mínimos, com um nozinho despontado em forma de flor no vértice dessas duas tiras, logo acima dos dedos, entre o primeiro e o segundo. Ela seguia ao meu lado nas escadas, mas um pouco a frente, atitude impensada de anfitriã orgulhosa, querendo apresentar o caminho, os lugares novos ao visitante. Faz tempo que você mora aqui? Quase dois anos. Conforme subíamos, deixando que ela mantivesse a vantagem de um ou dois passos sobre mim, eu ia admirando, dissimulado, suas pernas pouco menos que claras, levemente morenas, movimentando-se quase à altura de meu rosto, e seus pezinhos ativos, bem proporcionados. O som de seus chinelinhos na ardósia escura marcava meu arquivo de sensações não planejadas casuais acontecidas, com que minha memória costuma gratificar-se mais tarde. Mais um, já estamos chegando. A cada passo, eu vivia o encantamento do impossível, de uma realidade em andamento que pouco diferia de um sonho nítido, pelo tempo de umas horas de sol, de uma tarde alheia aos ofícios externos, um lapso de tempo em que meu coração se traía, por sorte em silêncio, absolutamente inescrutável, longe do alcance de quem quer que me conhecesse até então. A cada passo, acompanhando as pernas curtas da Josie, eu me orgulhava de minha pequena coragem. A ansiedade e a discrição que eu vinha ensaiando tinham que funcionar em equilíbrio. Talvez nós apenas conversássemos, e quem sabe eu poderia ajudá-la a encontrar algum trabalho. Nada mais. Talvez ela me seduzisse. Talvez ela não estivesse pensando em me seduzir, e apenas lhe seria interessante a amizade com alguém de outro meio, que pudesse lhe prover informações úteis, contatos, oportunidades. Eu, sempre exagerado e excessivo no plano de minhas associações imaginárias e memórias de livros, revia involuntariamente trechos de sagas e narrativas míticas, especialmente aquela em que a jovem conduzia o forasteiro perdido. “É ali o meu castelo. Venha, vou lhe dar abrigo. Está frio, e você pode se perder na floresta.”. O viajante percebe, depois, que a jovem está mudada, ela agora é uma feiticeira. Só que ele não sabe mesmo o caminho de volta. “É ali o meu castelo”, ela repete. “Venha, vou lhe dar abrigo. Veja, a noite caiu. Não há mais luz. E você não tem como voltar. Está frio, e você pode se perder na floresta. Venha. Você não sabe mais como voltar.”

Pobre Josie. Ela jamais passou perto de ser ou parecer uma feiticeira astuta e dissimulada. Aquilo tudo estava em mim. Minha imaginação agitada, meus exageros dramáticos, era tudo por minha conta. As imagens decorriam de eu ser como era, e talvez um dia eu não soubesse mesmo como voltar. Pobre Josie: do ponto de vista intelectual, uma menina inocente. (Que garota abençoada, diria um colega religioso.) Nem fazia ideia do que eu tinha em mente, de como eu ridicularizava a mim mesmo com aquelas encenações abstratas, tendo-a como personagem mítica, em uma espécie de continuidade paralela ao que de fato se realizava. Eu próprio me provocava com certas fantasias. E me encantava com as pernas dela, com o corpo jovem dela, promissor e propenso à unanimidade do gosto masculino. Era isso, em parte. Um pouco e tudo. Havia sim uma sensação nova, de estar sendo recebido acolhido auxiliado. A cada passo, eu subia mais e mais em minha excitação contida. E a cada passo eu assumia, quase conscientemente, os sinais mal definidos de uma anunciada sonora aromática irresistível decadência. Ela escolheu uma chave, destrancou a porta. É aqui. Entra.

Projeto esvanecendo-se

20. Nossa juventude em fatias de espaço-tempo – sequência

18. Dos primeiros dias inúteis – anterior

  Guia de leitura

Imagem: John  Singer Sargent. Escadaria em  Capri (detalhe inferior). 1878.

Projeto esvanecendo-se. Dos primeiros dias inúteis

Não queria ressentimentos.
Não queria ficar assistindo a imagens do passado no cinetoscópio precário da memória.

1-manha-de-neblina-dos-primeiros-dias-inuteis-2016-1

Já em janeiro, mal me adaptando à nova rotina ociosa e fora dos chamados dias úteis, passei a observar com mais apuro o mundo ao redor. O mundo ao redor, nesse caso, eram as ruas próximas de casa. E também as menos próximas. Os limites de nosso bairro, o Parque Industrial, por onde eu caminhava e corria, querendo fazer sair de mim, com a rápida expulsão do ar pela boca e com o suor manchando a velha camiseta cinzenta, as toxinas de meus pensamentos mal formulados. Eu sentia meu corpo como há tempos não o experimentava. A exaustão me devolvia vida. O ar que entrava com força em meus pulmões passava a existir de verdade. De verdade, digo, porque ele está aí o tempo todo, esquecido, esperando ser inspirado por alguém, com a violência que faça dele uma entidade também viva.

Mas meu corpo não tem nenhuma função fora de si mesmo. Ele se energiza, se fortifica, para depois entregar-se, sem defesa, à própria destruição. Não importa seja a pessoa mais privilegiada do mundo ou a mais desafortunada, porque são como eu, também com seus corpos, e por isso, por essa mesma razão que a minha, não têm nenhuma chance de sobrevivência no futuro. Mas eu não queria carregar comigo esses pensamentos tóxicos traiçoeiros semitrágicos, embora simples e verdadeiros. Não queria carregar o que havia acontecido comigo recentemente. Nem o que havia acontecido comigo antigamente. Não queria ressentimentos. Não queria ficar assistindo a imagens do passado no cinetoscópio precário da memória. Queria correr, suar. Dar força a mim mesmo.

… eu existo hoje porque meus ancestrais morreram. A vida se sucede, é herdada, repassada, mas os indivíduos deverão desaparecer. Nascemos para ser órfãos e para deixar órfãos outros como nós, atravessando o tempo. Para Helena Cronin, somos arquivos autênticos dessa ancestralidade; nossos corpos e nossa inteligência, monumentos vivos dos raros sucessos daqueles que bravamente nos antecederam. Somos a prova de que eles conseguiram. Não, mas eu não acho que esteja raciocinando bem…

Nossa casa fica na parte leste do bairro, onde as fábricas não entram. É que essa região foi formada ao acaso, um lote após o outro, delimitada por um córrego quase invisível, não mais que uma valeta seguindo ao longo das ilhas da última avenida. Os prédios comerciais se detêm pouco antes da rodovia que leva ao sul do estado, uma entre as vias que se cruzam nesse ponto. Outra, que nasce de uma bifurcação, leva à região oeste de Minas Gerais. Tudo isso envolvendo um confuso emaranhado de saídas e desvios, acima e abaixo de uns pontilhões e viadutos que custaram caríssimo à prefeitura, ao que disseram. Por muitas e muitas extensas quadras, quase inteiramente desenhadas por muros e cercas, estende-se uma sequência de construções, em maioria baixas: galpões, estacionamentos, pátios antigos e novos, caracterizando a geografia das empresas que por aqui se instalaram desde uns cinquenta anos antes, quando essa parte da cidade nada mais era que a última porção urbanizada antes das várzeas nativas e dos campos cultivados – enfim, o limite da cidade. Quando crianças, vínhamos aqui perto, eu e meus primos, trazidos por meu pai e por um tio, para empinar pipas e observar alevinos agitando-se em alguns pontos junto à margem do riacho de águas claras, meio escondido pelo capim alto, que hoje não existe, por ser subterrâneo, sob placas de concreto. Em outra fase da história particular desse ponto mínimo do planeta, nas proximidades de todas essas fábricas e distribuidoras, os namorados vinham de carro esconder-se dos pais e da sociedade entediante que fingia não saber desses condados obscuros onde se exercia anonimamente a liberdade.

O tempo passou, a cidade cresceu. E esses casais se tornaram seus pais, livres das desconfortáveis condições da clandestinidade. Alguns bairros emendaram-se uns com outros irregularmente, sem planos definidos, e se fundiram se fundaram se moldaram à paisagem própria do lugar, que não é a melhor sugestão que nos pode passar a palavra paisagem.

Projeto esvanecendo-se

19. A primeira tarde de areia e mel – sequência

17. Do que eu era – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Manhã de neblina no Parque Industrial. 2016.

Projeto esvanecendo-se. Do que eu era

De qualquer forma, isso sempre produzia algum efeito.
Eu via pelas expressões dos rostos, aparentemente neutras, mas provendo olhares atentos.

1-aldo-balding-dialogo-silencioso-1Eu me orgulhava de minhas aulas quando conheci a Marjorie. Intuía, sem declarar a ninguém, que cada aluno representava a possibilidade de continuação das ideias contidas em minha mente. Cada um que assimilasse minha influência e compreendesse o que eu tinha a dizer estaria ajudando a mover o mundo a uma nova fase de reajustes e acertos. Uma correia de transmissão que eu acreditava apoiar-se no vigor de minhas convicções e de minhas propostas dialéticas. Podia constatar o efeito de tudo que dizia, tudo que construía no ar. Até mesmo caminhar pela sala de aula enquanto falava, procedimentos simples que despertavam olhares curiosos e giros de cabeça, parecia incomum. Um professor é avaliado a todo momento, meus colegas sabem disso. Enquanto fala, enquanto anda, enquanto respira.

Compreensão de textos. Por que Geppetto, o pai adotivo de Pinóquio, não se anima a sair da barriga da baleia? Quem não quer ser livre? Eu passava por trás da última carteira, seguia devagar de volta à lousa. Será que as circunstâncias de sua vida eram maiores do que ele? A baleia não seria o conjunto de fatores que o desmotivava e o tornava acomodado, apático, sem esperanças? Isso só podia piorar as coisas para o menino, que se esforçava para ser reconhecido pelo pai, buscando ser um menino de verdade. É um momento grave, observe, em que Geppetto parece estar desistindo da vida, portanto desistindo de seu filho também. Para compreender textos, você precisa participar deles. Precisa levar a sério as coisas mais absurdas. Não é mesmo? Alguns se mostravam interessados, outros pareciam abatidos e entediados.

De qualquer forma, isso sempre produzia algum efeito. Eu via pelas expressões dos rostos, aparentemente neutras, mas provendo olhares atentos. Afinal eu os provocava a pensar em algo fora da rotina, até mesmo fora do que esperavam do curso. Momentos digressivos. Que eu considerava úteis. Escutem isto: “Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de sonhos intranquilos, viu que se transformara, durante a noite, numa espécie de inseto monstruoso.”. O que acontece com esse personagem é algo tão absurdo e miraculoso que nós não desejamos nem para… Bem, talvez o desejemos a alguns, não importa. (Esses acréscimos, pretendendo ser bem-humorados, às vezes provocavam reações simpáticas – não de todos, é claro.) O que nos chama a atenção é o fato de essa metamorfose ser relatada sem nenhum espanto, sem nenhuma surpresa. Nenhum ponto de exclamação. Nenhuma palavra em tom de lamento. Nenhum comentário ansioso querendo rasgar a garganta. É como se o autor nos dissesse: “Gregor Samsa despertou, sentou-se na cama e escovou os dentes.”, o que também seria curioso, isso de escovar os dentes sentado na cama, não é mesmo? Mas não, nada se compara a uma transformação desse nível: tornar-se um inseto. Ou qualquer outro animal que seja, vamos admitir, não importa a espécie. E tudo começa pela manhã, à frente de um novo dia, o que torna tudo mais terrível. A expectativa foi invertida, pois temos como noção cultural, provavelmente arquetípica, comparar algo bom à luminosidade, e seu oposto. “Quando Gregor Samsa despertou…” É assim que começa o pior sonho para ele. Eu passava pela última fileira de carteiras, começava a voltar pelo mesmo caminho. A prosa de Kafka tem esse poder de nos direcionar a um absurdo como sendo cotidiano, como se coisas estranhas e impensáveis acontecessem normalmente ao nosso redor, o que, sob certo aspecto, é verdade. Mas nada de casarões escuros e portas que rangem. Não. O terror se manifesta sem suspense. Sem silêncios amedrontadores. Sem sustos. Sem gritos. E seguem-se os desdobramentos desse primeiro evento, sem dúvida impossível de se realizar. Seguem-se sem ênfase, sem notas de perplexidade. O absurdo a nossa volta, a começar por nossa manhã. O pesadelo à luz do dia.

Alguns alunos deixavam claro, com sua impaciência, movimentando-se na carteira, que não viam a hora de isso tudo acabar, de passar por isso tudo que eu mostrava e voltar a uma aula normal, isto é, sem problemas. Sem desvios para seu pragmatismo inercial, que apenas almejava um certificado ao final do curso. O Daniel me interrompeu. Se isso é impossível, o que nós temos com isso? Impossíveis de se realizar, sim, foi o que eu disse, mas só fisicamente. Então que coisa estranha é essa, algum palpite? A Sara, sem ironias. Ele enlouqueceu, professor. Ficou doido. Será mesmo, Sara? O texto não confirma isso. Gregor continua pensando, refletindo, consciente do incômodo que causa à família. Inicialmente, ele é incapaz de sair da cama e enfrentar o dia. Não consegue deixar o quarto, não consegue sair para o trabalho, não consegue explicar a si mesmo a razão de todos esses atos. Isso se chama depressão. O pior é que todos passam a evitar Gregor Samsa, a sentir repulsa por ele, passam a ter nojo dele. Portanto, o que contava mesmo era sua aparência, seu aspecto físico, era isso? O que é ele então?

 … certa vez eu pontuei que Cinderela não era uma história de amor, mas de casamento por interesse. E que a pequena sereia escolheu morrer por não suportar encarar o pai e as irmãs após haver fracassado em seu intento. Coisas assim tanto causavam admiração quanto antipatia, eu sei. Aula após aula, a realidade contada sob disfarces ficcionais ia minando as crenças que ainda sustentavam alguns. Eu não tinha o direito de mexer com suas crenças, foi o que me disseram…

Agora, quando me lembro dessas aulas, imagino um daqueles alunos indignados erguendo um braço e gritando: “Digressão!” E me consolo imaginando uma daquelas alunas bem-educadas, de quem me lembra perfeitamente o rosto bonito, alertando-me em particular: “Professor, tenha cuidado com essas digressões.”.

Eu seguia com minhas aulas, com orgulho de minhas aulas, contava sobre elas à Marjorie em nossos primeiros encontros, na época em que ainda nos encantávamos de verdade um com o outro. Ela parecia admirada, mas logo me direcionava a outras coisas também interessantes, que são aquelas coisas-que-mais-temos quando namoramos, a intimidade, as funções sensoriais, nossos beijos loucos. Nós, homens, nos prendemos muito a isso, mas temos uma percepção de tempo diferente e desencontrada em relação à das mulheres. Queremos tudo de uma só vez. No fundo, não temos planos estendidos, somos imediatistas. Caçadores atávicos. Muito do que fazemos, sob a tirania de nossos hormônios, visa a algo breve e satisfatório. Os hormônios delas atuam em outro sentido: tentam nos desarmar e a nos convencer a ficar por perto.

Como professor, um jovem professor afinal, que isso tudo eu já colocava em prática desde os primeiros meses de trabalho, essas provocações intelectualizadas e contextualizadas, em grande parte certamente consolidadas antes de meus trinta anos, eu pressentia estar dinamizando um processo que só poderia ajudar a melhorar as condições do mundo civilizado, vencendo o tédio e estimulando a curiosidade. Nem pensava nos outros. Só em meu trabalho. Só em minhas técnicas de interpretação, minha didática própria, e na alegria de passá-las adiante. Tudo isso se desfez em meia hora de reunião, com minha assinatura em um papel que não me interessava.

Eu era aquele (adolescente, mais ainda) de quem o mundo dependia para continuar a preservação do pensamento claro, da memória crítica, dos valores da honestidade e da ciência, superando a superstição e o medo. Eu era aquele de quem a humanidade dependia, mesmo que infimamente mesmo que anonimamente mesmo que invisivelmente para mudar a história, para fazer acelerar ou frear o curso perigoso da civilização, que no fundo não passa de uma persistente tentativa de impedir surtos de barbárie e de perversidades enrustidas. Minhas aulas, caracterizadas por questionamentos que eu julgava positivos, difamadas por alguns sem que eu soubesse, criticadas por serem digressivas, eram a minha maior contribuição para despertar os valores da intelectualidade e da sensibilidade. Dependendo do que fosse tratado, envolvendo situações trágicas e inconsoláveis, talvez sugerissem intenções suicidas em indivíduos mais sensíveis. Eu não queria isso, é claro. Mas não podia prever as consequências de tantas ideias mal formadas, depois formadas, depois descartadas, por vezes explosivas, mas sem som. Era um trabalho dentro de outro trabalho, de superfície. Um trabalho sem nome. Que nascia e crescia em mim mesmo. Nem sempre direcionado, admito, e bem pouco pragmático, comparado com o de meus colegas. Mas o fato de eu me orgulhar discretamente de minhas aulas e o entusiasmo que me movia enquanto as administrava eram claramente notados pelos alunos e também por alguns colegas, os menos indiferentes. Eu sentia e sabia fortemente que era um homem bom. Sem complicações quanto a isso. Sem polêmicas conceituais quanto ao que se entenda por ser bom. Eu apenas me sentia assim, pensava assim sobre mim mesmo, com toda certeza. E quanto mais eu lia, e eu lia quase compulsivamente (quase, eu disse), minha consciência de mundo crescia, admitindo-se serem verdadeiras as informações que chegavam até mim, e minha responsabilidade parecia aumentar naturalmente inercialmente proporcionalmente. Também, quanto mais elevadas essas responsabilidades, maiores se mostravam as chances reais de eu sofrer. Eu próprio me atribuía isso tudo, que não queria ser um medíocre atravessando o tempo. E não me importava de sofrer, se fosse o caso. Sim, esta era então uma das coisas-que-eu-mais-tinha: não me importava de sofrer. Meus ancestrais italianos, camponeses pobres, imigrantes famintos, meus parentes mortos, mesmo os mais antigos, ficariam orgulhosos de mim.

Projeto esvanecendo-se

18. Dos primeiros dias inúteis – sequência

16. Liberdade à força – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Aldo Balding. Diálogo silencioso (detalhe central).

Projeto esvanecendo-se. Liberdade à força

Mas não procurei nenhum deles. Não lhes enviei e-mails, não telefonei.
Deixei que dezembro, com seus dias espessos, passasse.

michael-goldberg-abajur-e-vaso-1963-1Minha vida agora era outra. A Marjorie saía para trabalhar. Eu ficava em casa o dia todo. Mesmo quando lecionava, dispunha de algumas manhãs livres. Mas agora tinha de me acostumar com todas as manhãs livres. Todas as tardes. Todas as noites. Não é bom viver assim, tão livre. Não enquanto a Marjorie passa o dia nesse escritório de advocacia onde, por todas as referências, ela personifica uma perfeita competente admirável secretária assistente. Perfeita e preocupada. Proativa, que eu também sei que ela é. Tudo que um líder empreendedor patrão pode desejar. Para um advogado, nem se fale. Além disso, confiável. A toda prova. Eu também me considerava confiável e a toda prova até o dia em que o Valério da Matemática deixou-me a par de todos os boatos excitantes contra mim. Até então, eu era mesmo confiável, que os boatos não eram fatos. Depois, quando me sentia o próprio portador heroico da verdade, o sobrevivente ressentido da resistência moral, prejudicado por gente esperta e aproveitadora, conheci, sob aquele dia de nuvens, a garota triste que seria, em pouco tempo, minha improvável amante. Minha felicidade nervosa e renovada. Minha mentira mais linda.

Eu não sabia ainda o que fazer para voltar à ativa. Tinha perdido minhas conexões, que já eram pouquíssimas. Dificilmente encontraria aulas naquela época do ano, quando já se encontrariam fechados os contratos, organizados os horários e definidos os corpos docentes. Como eu trabalhava nisso há muito tempo, sem interrupção, sem precisar me preocupar em procurar aulas em parte alguma, e como nos últimos anos, para piorar, vinha me dedicando com exclusividade a uma única instituição, eu me via completamente fora de forma quanto à maratona de procurar trabalho. Tinha que procurar frutas escondidas no alto das copas. A árvore toda caiu.

… Jean-Paul Sartre postulava que deveríamos encontrar um sentido para nossas vidas, já que a vida não apresenta sentido algum. Albert Camus defendia que isso era desnecessário: que a vida não tinha sentido mesmo e que simplesmente deveríamos aceitar isso…

Pensei em colegas que poderiam me ajudar com uma vaga de docente em escolas de ensino médio, talvez numa dessas cidades próximas, já que a disputa aqui costuma ser agressiva e medíocre. Mas não procurei nenhum deles. Não lhes enviei e-mails, não telefonei. Deixei que dezembro, com seus dias espessos, passasse. Eu quase adivinhava que esses colegas que me vinham à mente, entre imagens rápidas, nem sabiam do que tinha acontecido comigo. Que eu, um dos professores mais ativos e atarefados da instituição, com uma laboriosa diversidade de matérias, desde a mais comum, Compreensão de textos, aplicada a quase todos os cursos, até a específica Semiótica, com mínima carga horária no curso de Educação artística, estava drasticamente parado. A não ser que fossem próximos de um desses tipos muito bem informados, de preferência maledicentes, não teriam ainda essa notícia, no mínimo curiosa, sobre mim. Imagino que reagiriam com alguma interjeição de surpresa, talvez um palavrão inofensivo, desses que não valem mais nada, mas que nos agrada e alegra pronunciar, bem-humorados e autoconfiantes. Que bosta, não é?

Minha forçada ociosidade fez surgirem hábitos aos quais eu me dedicava enquanto ainda percebia, em silêncio, dissimuladas vibrações de culpa. Caminhar e correr. Mexer no jardim. Internet por mais tempo. Ler mais, o que era só o agravamento de um entranhado hábito em curso – em curso desde que aprendi a decifrar o código absurdo que usamos para registrar e repassar ideias. Convivia em tempo integral com a asseada Coco Chanel, que aliás preferia alienar-se docemente, sabendo-me seguro e próximo, indo se acomodar a algum canto, a deixar-se adormecida boa parte do tempo. Seguro. No aconchego do lar. Na casa que pertence a meu sogro.

Enquanto essas atividades me ocupavam, minhas caminhadas e meus grifos em páginas novas, eu não conseguia evitar uma incômoda impressão de que minhas funções como professor profissional e pessoa não eram e não seriam mais as mesmas. Eu tinha de voltar a trabalhar, fosse como fosse. Com janeiro a meio, o verão entrecortado por tons arroxeados no céu, entre o entardecer e as primeiras estrelas, nas proximidades do bairro industrial, preparei cópias de meu currículo, cuidando de esperanças mais ou menos mortas. Eu olhava esses papéis, um cego de olhos esgazeados. Sem nenhum interesse. Olhava-os, por nada. Há pouco mais de dez anos, com frescas lembranças de minha formatura e de meus colegas de faculdade, eu entregava meu breve histórico profissional em finas pastas de plástico de cores discretas. Esse cuidado ingênuo, quando revisto, inspirava-me uma patética desagradável amargurada pena de mim mesmo.

Projeto esvanecendo-se

17. Do que eu era – sequência

15. Pequena deusa simples – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Michael Goldberg. Abajur e vaso. 1963.

Projeto esvanecendo-se. Pequena deusa simples

Nada era estranho na Grécia Antiga.
Era outro mundo, as coisas eram outras coisas. Eles inventavam um monte de histórias, uma quantidade de deuses e deusas, e ninguém estranhava nada, era tudo lindo e assustador.

asher-brown-durand-estudo-da-natureza-rochas-e-arvores-1856-1Josie, eu confesso que não consigo adestrar minha imaginação adolescente avulsa abundante quando estou assim com você, já disse isso, lembra? Fala, ahn? Fala de novo. Você a minha frente, num lugar longe, longe no tempo, perto de umas rochas e umas árvores tranquilas, você com uma túnica até os joelhos, uns enfeites e sandálias trançadas, uns detalhes nos cabelos, coisinhas delicadas nos cabelos, uma deusa leve, otimista. Você estende a mão, eu também, a gente se toca, feliz. Uma pequena deusa com cara de… pode rir, não me importo, eu adoro imaginar assim mesmo. Não, não tô rindo de você, lindo. Verdade. Só adorei também. Você é meio assim, não é? Com essas coisas. Esse tipo de coisa. Não vejo ninguém me falando essas coisas. Por isso que eu acho meio engraçado. Só isso. Muito gostoso, viu? Que mais? Josie, olha. Chamar uma jovem bonita… Tch, ah! – gesto rápido de não-sou-bonita-não. Me escuta. Chamar uma jovem bonita de deusa é um clichê desgastado, muito sem graça até, e eu não tenho uma imaginação só minha. É sempre a repetição das coisas e coisas que mais ou menos eu sei. Ah, lindo, mas pouco me importa isso, que se dane, não precisa ter nada, que isso, só fica assim comigo, vem cá. Dois, três beijos alegres. E seu nome de deusa é… Deleitônima. Ah, é? Ahah. Como é? Deleitônima. Ela sorri, com suas covinhas, sua boca larga, dilatando as narinas. Palhaço. Que nome estranho. Nada era estranho na Grécia Antiga. Era outro mundo, as coisas eram outras coisas. Eles inventavam um monte de histórias, uma quantidade de deuses e deusas, e ninguém estranhava nada, era tudo lindo e assustador. Pena que apareceu o cristianismo depois. Sei, sei. Beijo entrecortado. Tento evocar a deusa enquanto sou dominado por sua boca. De lei tô ni na ma ma… Ela consegue sorrir enquanto beija, mais ou menos isso. Errou. Errei? De lei tô mi ma ni ma… Ahahahah, mas que bobo. Beijo contínuo agora. Breve, mas forte. Bem pegado. Acabou o beijo. Pequenos sorrisos. Quanta bobagem um homem encantado diz! Chega de brincadeirinhas. Chega de graça e de Grécia. Ela me olha, quieta, mas brilhando de viva, essa deusinha pobre. As covinhas à espreita, ao fim de seu sorriso, quase visíveis, querendo mostrar-se a qualquer momento. Não sei o que vai ser de nós, lindo. Fico pensando nisso. Que droga, viu? Que chato. Acho que eu te amo.

 … os deuses gregos representavam uma sociedade hierarquizada. Tinham competências e poderes bem definidos, cada um com seu limite, e mesmo o mais poderoso, não sendo onisciente nem onipresente, também tinha seus problemas. Nenhum deles era absoluto ou completamente transcendente – ou nada faria sentido…

Eu nunca tinha visto a Joss Stone quase comovida assim. Falou devagar, vi que ela estava meio sensibilizada. Não é bom que ela me ame. Mas é menos pior que seja assim. Que não seja um teatrinho uma trapaça um trote. Eu é que não conseguia corresponder a essa sinceridade dela, pressupondo que aquilo não fosse verdade. Que ela estaria interessada em alguma coisa. Mas não estava, como hoje sei. Não estava, nunca esteve. Então ela me disse, pela primeira vez, como diria ainda outras vezes, bem a sua maneira: “Que chato. Acho que eu te amo.” – e isso sempre me dava medo. A culpa era minha, claro. Não tinha nada que estar ali com ela. Não tinha que ter medo. Ou ficava com ela sem medo ou nada de nada. Porque eu sabia, sempre soube, que tudo tinha um preço. Tudo tem um preço. Imagine-se então essa pequena deusa simples, que não se considera bela, que não vê a si mesma como alguém especial, de uma sinceridade admirável automática ampla e imatura, acostumada a sua própria beleza real, sem alarde, um rostinho comum, que passa despercebido pelas ruas. Um rostinho que eu via de muito perto, muito, muito perto. Absolutamente lindo. Linda por não se importar com isso.

Projeto esvanecendo-se

16. Liberdade à força – sequência

14. Matéria básica e um resto de vinho  – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Asher Brown Durand. Estudo da natureza: rochas e árvores. 1856.