Um amigo, um favor

Danilo o olha com um silêncio emocionado.
Já ia lhe dizer que amar é só uma das bobagens em que a classe média acredita.
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Paul Klee. Teatro mágico. 1918Verne se levanta, apanha o casaco. Começa a vesti-lo.

“É isso então, meu velho. A gente se vê. Vamos marcar outro desses.”

“Vamos sim. Você me faz esse favor então?”, Danilo enquanto se levanta também.

“Pode ter certeza, claro.”

Perto deles, a mesa com os rapazes falastrões. Em outra, um casal jovem, discreto. Um homem sozinho observando tudo ao redor. Duas mulheres que poderiam atraí-los. Uma família ocupando três mesas. Quatro amigos (uma garota entre eles) menos ruidosos, mas sorridentes.

“Diz pra ela que eu inventei tudo. Ela não acredita mais em mim, não acredita muito, quero dizer. Explica que eu fui inventando isso tudo conforme conversava com ela, que isso ia me despertando ideias e… que ela me inspirava e… Enfim, você sabe. É isso.”

Verne olha para ele, pensando no que dizer.

“É isso então?”

“É. Por enquanto é isso. Depois, em casa, ouvindo meu Shostakovich, eu escrevia.”

“O quê?”

“Nada.”

Verne outra vez olhando para ele, pensando no que dizer. Danilo lhe dissera um dia que poderia repetir tudo quantas vezes quisesse. Verne acena com a cabeça, significando: “Você não tem jeito mesmo…”

“Você inventou isso aqui, eu sei”, ele diz, compreensivo. “Mas… a Ana Lúcia morreu mesmo, não é? É aquela que morreu, não é?”

“É, é. Você sabe disso. Não importa. Olha, não importa. Eu só não queria que a Liana pensasse nada errado de mim.”

“Mas Danilo… Olha, pensa comigo. É difícil mesmo acreditar em tudo. Você faz de uma coisa assim, que já passou, uma outra coisa enorme, certo? Vai esticando, complicando… Depois tenta remendar tudo. Conta uma porção de coisas pra ela, mas não conta direito nada do que aconteceu de verdade, então… Ora, então é uma mentira atrás da outra, e mais outra. Chega um ponto, você não consegue mais sustentar isso tudo e tem que continuar mentindo e… Desse jeito, ela tem que ficar desconfiada mesmo. Como não?”

“Eu sei, eu sei. Mas é que eu me divirto um pouco fazendo esse tipo de coisa. Eu não resisto, fazer o quê?”, Danilo baixa a cabeça como pedindo desculpas por alguma coisa. “A realidade é muito pobre. A vida é idiota. O mundo é mesquinho. E eu gosto de inventar, ficar pensando como seria se… Olha, enfim, você vai me ajudar, não vai?”

“Claro, já disse que sim. Vou mostrar tudo isso aqui pra ela. Vou conversar com ela, ela vai ver que eu existo, que eu sou seu amigo. Ela vai gostar mais ainda de você, você vai ver. Ela vai… amar você.”

Danilo o olha com um silêncio emocionado. Já ia lhe dizer que amar é só uma das bobagens em que a classe média acredita. Mas isso se dilui à frente do amigo. Verne, velhão, não me faça chorar. E diz, sorrindo: “Não sei não.”

Verne, um anjo na Terra. Um anjo como os anjos que não existem.

“Vou falar com ela, você vai ver. Pode deixar comigo”, passa as páginas todas num gesto rápido, por nada, sorrindo – blurrrp! –, então deixando de sorrir, quase como se acabasse de ter uma revelação.

Depois de um abraço forte, esmagando os casacos, depois de se tocarem os ombros com um pequeno soco, sinal próprio dos machos distraídos, depois de avançar dois ou três passos rumo à saída, Verne ainda se volta, sorrindo como se só agora a tal revelação surtisse efeito.

“Você inventa, não é?”, Verne com um movimento afirmativo de cabeça, confirmando sua própria insinuação retórica.

Danilo move a cabeça também, sensibilizado por vê-lo partir, carregando seus papéis com especial cuidado, em seu ritmo e em seu tempo.

“Você inventa, não é? Você mente.”

52. O endereço real – anterior

 Aqui termina o romance Marcas de gentis predadores.

Guia de leitura

Essa história começa aqui:  1. Marcas de gentis predadores. Abertura

Os posts mais visitados foram:  17. O segredo das conchas

43. Um estreito, fino rastro de sangue

Imagem: Paul Klee. Teatro mágico (detalhe inferior). 1918.

O endereço real

Ouve o destravar da fechadura, o velho mecanismo de abrir e fechar que todos nós usamos todos os dias.
Que usamos sempre para nós mesmos, de se abrir e depois se fechar.
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 Claude Rogers. Escadaria em espiral.Liana espera à frente da porta, bolsa e pasta com papéis ocupando suas duas mãos. Um olhar sem vontade a qualquer coisa ao redor – a cor do piso, o ângulo da escadaria. Pernas juntas, ensaia uma posição mais vertical, mais digna, como a de um bravo soldado. É o segundo andar de um prédio baixo, sem elevador. Ela espera ser atendida após ter tocado uma única vez a campainha. O corredor não é muito claro. Mas não é escuro. Talvez um pouco, para quem vem da rua. Mas está bem melhor, pode ver tudo agora. Confirma o número na porta só por não ter o que fazer. Claro que o endereço é este. Já verificou tudo, passo a passo. Uns passos que quase não aparecem muito, a não ser quando muito próximos da porta, por causa de suas sapatilhas baixas, discretas. Ouve o destravar da fechadura, o velho mecanismo de abrir e fechar que todos nós usamos todos os dias, que usamos sempre para nós mesmos, de se abrir e depois se fechar. Engole uma porção de saliva, ainda uma vez. A porta se abre. Uma mulher de sua mesma idade, com mais de sessenta anos. Ela sabe disso porque já se falaram antes, por telefone. E Liana agora vem saber dela algo que ainda não sabe sobre as cópias que, há pouco mais de duas semanas, enviara a essa mulher pelo correio. Mas agora é diferente. Agora estão se vendo, de verdade. As duas sorriem, quase tristemente. Tristemente, enfim. Sorriem, de alguma forma.

“Você é a…”

Um delicado abraço, apenas à altura dos ombros, beijos trocados no rosto. Liana talvez não precisasse daquela dignidade vertical que tentava inventar um momento antes, agora entende. A porta se abre tranquila. A luz é melhor.

“Vamos entrar. Entre.”

Pode ver melhor agora, com a luz de dentro.

“Obrigada.”

Senta-se num sofá. A anfitriã já havia preparado a mesa de centro.

“Fiquei contente de você ter vindo”, disse.

Ana Lúcia é uma mulher bonita, agora com o queixo mal delineado e rugas benignas, que parecem estar nos lugares certos, próprias de sua idade, a mesma idade de Liana provavelmente, ou algo muito perto disso.

“Li tudo que você me mandou. Li mais de uma vez, acredite.”

“Acredito. Eu faria o mesmo. São coisas muito… intensas.”

“Eu nunca pensei que ele fosse fazer isso tudo”, sorri. “Tome, aceite um café.”

Ana Lúcia a serve. Fala um português claro, num ritmo agradável.

“Lamento o que aconteceu, Liana. Fiquei triste mesmo. Quero que saiba que eu compartilho, sinceramente, a sua dor.”

“Obrigada mesmo. Obrigada, de coração.”

“Sei que não é a mesma coisa, mas… Eu o conheci e… Nós significamos alguma coisa um para o outro. Pelo menos por um tempo. Por pouco tempo.”

“Claro. Eu sei que sim.”

“Vocês foram casados?”

“Sim. Por dezoito anos.”

“Puxa… Fico contente que vocês… É muito tempo para um casal hoje em dia, não é?”, sorri.

“Me pareceu pouco”, Liana sorrindo também.

“E, olhe, acredite, eu não podia imaginar que ele fantasiasse tanto sobre mim. Eu não sabia mesmo.”

“Sei, eu entendo. Sem problemas.”

“Bom, e… Como foi?”

“Como… foi? Você diz…”

“Como ele se foi?”

Liana sorve o café. Ah, isso. Poderia mesmo contar do que foram, ela e Danilo, intimamente. De fato, tem até vontade de contar. Por estranho que a ela mesma ainda se mostre tal impressão, confia nessa mulher à sua frente como se a presença dela lhe despertasse um desejo de contar tudo. Será que era esse o desejo que ele sentia, de contar tudo? De qualquer maneira, há algo de cumplicidade nesse encontro, uma prazerosa cumplicidade entre duas estranhas não tão estranhas.

“Um dia ele se levantou, tomou o café meio às pressas. Aliás, como ele sempre fazia. Mas então começou a falar uma mesma frase duas vezes. Depois, a terceira vez. Disse: ‘Não vou pela Francisco Junqueira hoje, por causa daquele trânsito empesteado lá, é melhor eu…’ E ficou parado. Disse tudo outra vez, como se não tivesse dito nada ainda. Não vou pela Francisco Junqueira por causa do trânsito empesteado, acho melhor eu… Então ele caiu, perdeu a consciência. Era um AVC.”

“Puxa…”

“Depois de internado, recuperado, o médico (a cardiologista) explicou a situação e exigiu que ele mudasse drasticamente os hábitos de vida. Aquilo tudo de sempre, além da medicação. Ele não se esforçou nada. Só resmungava, dizendo que esses exageros todos eram parte da máfia da medicina, que queria todas as pessoas sob seu controle, que o lobby dos grandes laboratórios, e coisa e tal, e outras coisas desse tipo. Ele tinha começado a escrever um romance, e quando ele ficava assim, cheio de ideias, esquecia de tudo em volta. Principalmente de remédios e conselhos. Esquecia dele mesmo.”

“É. Eu lembro.”

“Mesmo assim, ele tinha consciência dos riscos que estava correndo, e nisso começou a mudar. Mas eram outras coisas. Me mostrou essa pasta com esses papéis e disse que, se acontecesse alguma coisa, eu lesse com muita atenção e procurasse uma pessoa no endereço que estava aí dentro. Essa pessoa era você, claro. Eu falei pra ele: ‘Danilo, mas o que é isso aí? Por que não me mostrou isso antes, o que tem aí? Por que não me mostra isso agora? O que tem aí de tão importante?’ Mas ele falou: ‘Não tão importante. Nada é importante. Mas pode ser, para essa pessoa. Como foi um dia para mim.’ ‘Por que não me mostra agora? O que quer que eu faça?’, eu falava. ‘Porque não é importante, já disse. Já disse também que entregue essa parte, que eu já separei, para a pessoa descrita aqui dentro. É isso que eu quero que você faça, é só isso que eu quero que você faça por mim, pode ser?’”

“É assim mesmo que ele fala. É exatamente ele”, comenta Ana Lúcia com o sinal mínimo de um sorriso, mas parecendo um pouco triste agora, talvez docemente invejosa em saber dessa longa convivência que a outra lhe revela, que ela própria não teve com nenhum outro homem. “Vocês se amaram, não foi?”

“Ele me mostrou a pasta, mas levou de volta ao escritório, onde a guardava. Às vezes ele não me dava tempo de pensar, de sentir. Imaginei uma porção de coisas, uma porção de coisas mesmo. Mas confiava nele. Sempre confiei. Não tentei pegar a pasta, deixei correr…”

“Vocês se amaram, não é mesmo?”

“Ele tentou diminuir o trabalho, e nós começamos a caminhar juntos nos finais de semana. Mas, com o passar do tempo, ele ia arranjando desculpas e evitava as atividades físicas, coisa que ele sempre detestou. Voltava para a leitura, para os contos que escrevia, voltava para os textos, para os livros. Se aquilo fosse um veneno, ele tomaria do mesmo jeito.”

“Era o que ele sempre fazia. Eu lembro. Era anormal a paixão dele por livros.”

“Atividade física, nem pensar. Um dia, porque tinha acordado muito tarde, o sol quente. Outro dia, porque podia chover… A pressão continuava alta, os medicamentos pareciam não surtir mais efeito. O coração estava fraco. Mesmo assim, ele se recusava a voltar ao médico, à médica, temendo que ela o obrigasse a mudar tudo na sua rotina de novo. Dizia que se tivesse que ficar obedecendo àquilo tudo, sua vida acabaria ridícula, sem graça e cheia de obrigações, como a de um velho marechal aposentado – palavras dele. Sempre palavras dele. Mas no trabalho ele se realizava, não o sentia como obrigação, claro. Só que, como você imagina, o corpo não sabe disso. Quatro meses depois, em meio ao mesmo ritmo de vida de antes, que o tinha levado àquele acidente, ele sofreu um enfarte. Logo ao amanhecer. E morreu no final da tarde.”

“Puxa… Que pena. Que teimoso. Quando foi isso?”

“Ano passado. Eu guardei a pasta comigo, como você vê. Li página por página, aos poucos. Pensei em nem procurar ninguém, deixar tudo isso num canto, fazer outras coisas. Mas depois achei que não fazia sentido não realizar uma das últimas vontades dele – porque ele tinha outras. E também porque fiquei muito curiosa. Na verdade, foi mais por isso. Fiquei muito curiosa mesmo. E vim até aqui.”

Ana Lúcia baixa os olhos. Conserva o silêncio. Pensa em Danilo e sente uma sorrateira, quase imperceptível, inveja de Liana, a mulher que conseguira conquistá-lo afinal. Ana Lúcia não o amava, nunca o amou. Mas, em sua imaginação momentânea, gostaria de ter vivido essa teimosia toda dele, esses últimos dias com ele, gostaria de tê-lo visto em outra idade, gostaria de ter experimentado essa cumplicidade, esse companheirismo que, no fundo, nunca experimentou com ninguém.

“Danilo…”, ela suspira. E só na maneira como pronuncia esse nome aparece algo como: “Mas que teimoso…”. Ou: “Eu gostava tanto de você…”. Ou: “Que pena, meu amor…” No mínimo. Tudo isso emergindo de uma só palavra, embaçando o ar da pequena sala, embaçando sua própria segurança ao evocar esse nome, um nome, uma memória impregnando tudo o que a envolve nesse breve instante.

“Ele trabalhava muito”, Liana tentando voltar à normalidade. “Não tinha noção do seu corpo, da sua saúde, achava tudo isso uma bobagem. Só se motivava com os seus resultados, quer dizer, com o resultado dos seus textos, de suas invenções literárias, sentia-se bem-sucedido com isso. E era, de certa maneira. Os textos eram muito bons, sabe? Surpreendentes.”

“Sim, ele era ingênuo, indeciso. Ansioso. Mas tinha algo intenso dentro dele. Tinha algo… intenso.”

Ana Lúcia sente que está prestes a mentir. Quase distorcendo o pouco tempo que dividiu com ele, quase exagerando e inventando outras intimidades, diálogos não acontecidos, situações não vividas, tendo como centro ela própria, sendo desejada por ele, só para contrapor alguma coisa ao relato natural dessa outra mulher, Liana, destituída de intencionalidade quanto a isso. Percebe a tempo. Não é mais uma mocinha, não precisa disso. Não vai cair em ciladas assim.

Liana espera que ela continue. Morde mais um biscoito, conforta-se com esse prazer simples.

“Ele não tinha noção do efeito que causava nas pessoas. Foi por isso que eu me senti atraída, entende? Não era para agradá-lo, não era por piedade, como ele parece descrever aqui”, gesto enfatizando os papéis. “Eu via nele alguém especial. Não era o homem da minha vida, é lógico”, sorri a contragosto. “Mas eu queria, sim, conhecê-lo de qualquer jeito. Queria saber mais dele, saber como ele era em segredo, fora da escola, longe dos outros. Mas ele não era alguém que eu queria ter por muito tempo comigo. Ele me cansava com elogios, declarações, sonhos de futuro… Ih, eu não tinha nada a ver com aquilo. A gente estava em mundos diferentes, fora de sintonia. Eu nem sabia o que eu queria, saí com muitos caras na época. Eu queria conhecer os homens mesmo, não queria ficar com um. Sabia que um dia poderia acabar sozinha ou que poderia encontrar alguém, mas não era nada com ele, não era ele, nada naquele ano, nada naquela fase.”

“E você… encontrou alguém?”

“Encontrei. Mas, depois de alguns anos, foi ele quem encontrou outro alguém”, tenta sorrir. “Já faz tempo.”

“Ah, que chato…”

“Foi melhor assim. Mais um? Ótimo. Dá aqui sua xícara. Mas olha, fiquei muito curiosa e impressionada com o que o Danilo diz aqui. Ele realmente distorcia a realidade, criava coisas. Era o jeito de ele brincar de ser escritor, coisa que ele sempre gostou. Esse escritório, as finanças, essa matemática toda na cabeça dele talvez fosse a sua âncora, a sua segurança, quem sabe, a contrapartida pra não sair delirando de vez, com o que ele mesmo inventava.”

“Pode ser. Mas vocês dois… Vocês namoraram, não é?”, Liana cuidadosa com as palavras. “Isso não foi uma invenção. Não é?”

“Não, não foi. E nós não namoramos, não propriamente, não fomos namorados, nisso ele foi verdadeiro. Tivemos um caso, é assim que dizem. Mas quando fiquei com ele, fiquei só com ele. Nós fomos três vezes a um motel. Motéis diferentes, digo. A gente se encontrava na escola e ia, escondido. Na terceira vez, eu tive tontura, passei mal e desmaiei. Ele me levou dali pra casa, mas antes ficou um tempo comigo, rodando pela cidade, sem saber se me levava a um hospital ou à minha casa de uma vez. Ele era assim, não conseguia decidir. Disse, depois, que nem sabia onde ficava alguma emergência ali perto. E ficou rodando, rodando…”

“Levou você pra casa?”

“Levou. Antes mesmo de chegar, eu já estava me recuperando. Estava fria, fraca. Nada de mais, só um desmaio, um mal-estar. Até hoje, não sei o que foi. Talvez alguma baixa de pressão. Coisa à toa, acontece.”

“E aquela arma…”

“Não, nada disso. Ele nunca teve arma nenhuma”, um gesto no ar, outro sorriso. “Aí começa a aventura de adolescente dele, aí começam as mentiras cinematográficas dele.”

“Você se parece um pouco com o que ele conta. Na verdade… Você se parece muito com o que ele conta. Mas também não é a mesma, acho. Ele distorceu de novo.”

“Eu era mais ou menos daquele jeito mesmo. Era jovem afinal. Depois fiz terapia, outras coisas rolaram, a vida passou. Desisti daquele curso, comecei outro. Passei a estudar sempre mais, decidida a dar a mim mesma e à minha mãe o que nos tinha faltado por tanto tempo: uma condição um pouco mais digna e mais tranquila.”

“E você estudou…”

“Eu me tornei tradutora-intérprete. Um dia surgiu uma oportunidade de dar aulas particulares numa multinacional. Nesse período, decidiram me contratar. Mas isso, inicialmente, não estava nos planos deles. Nem nos meus. É que a empresa cresceu e um dos diretores achou que eu tinha o perfil para preencher uma das vagas na administração. Com o tempo, fui promovida a outra função e me identifiquei com tudo ali. Três anos depois, aconteceu o pior. E o homem em quem eu confiei desde o começo, que afinal me usou e depois tanto me enganou… Bom, mas isso não vem ao caso. Vou ficar aqui falando da minha vida…”

“Não, não. Fique à vontade, continue.”

“Não, isso não vem ao caso agora. Pega mais um.”

“Pode deixar. Uma delícia. Me diga. E os recortes? E os jornais sobre a sua morte, as notícias?”

“Recortes? Notícias da minha morte? Não existe nada disso. Ele disse isso?”

“Disse. Várias vezes. Muitas vezes.”

“E você viu esses recortes?”

“Não.”

“Com certeza não existem. Outra fantasia dele.”

“É, sei”, sorri Liana um pouco triste por ter acreditado em tudo aquilo um dia. “Eu compreendo. Mas ele me ofereceu, sabe, se eu quisesse ver esses tais recortes. Ele me ofereceu várias vezes isso. Eu é que não quis. Fico pensando… E se eu quisesse?”

“Ah”, faz Ana Lúcia com um gesto no ar. “Ele inventaria outra coisa, fácil. Ih, isso não era problema. Problema nenhum pra ele. Ele daria um jeito, como sempre. Esses jornais não existem. Nem podem existir”, agora com uma breve risada. “Você está me vendo aqui, confia em mim, não é?”

Liana, rindo um pouco também: “Claro. Você está bem viva. Não pode haver notícias da sua morte.”

“Bem viva. Um pouco cansada, eu sei. Engordei um pouco, você está me vendo hoje. Mas não estou ainda de se jogar fora, não é mesmo?”

“Não, de jeito nenhum. Você está linda. Você está muito bem mesmo, menina, você é linda. Claro, esses jornais… Sim, a não ser que…”

“Acha que o Danilo gostaria de me ver assim, hoje?”

“A não ser que…”

“Que…”

“Que você não seja… você mesma.”

“Como?”

“A não ser que você não seja você mesma. Que seja outra pessoa. Que haja algum erro nos nomes. Nas identidades.”

Ana Lucia espera, em silêncio. Olhos abertos, parece paralisar.

“Não, não se preocupe, Ana. Não tenho vocação pra agente secreta, nada disso. Mas se houvesse alguém com o seu mesmo nome… Afinal, não é um nome tão raro assim.”

“Não, não é. Meu sobrenome também é muito comum. Mas fui eu a Ana Lúcia que beijou ele no carro, não outra. Pode ter certeza disso”, enfatiza, com alguma provocação, quase batendo no peito, patriótica. “Também fui eu essa que… Ah, não importa. Você sabe. Não importa. Não precisamos disso tudo.”

Liana retoma a xícara, sorve outro gole.

“Ainda fico pensando: se eu insistisse em ver os recortes…”

“Se insistisse? Bom… Ele poderia dizer, por exemplo, que não estavam com ele no momento. Que estavam com a irmã dele, em Amparo.”

Liana interrompe o gesto, para de beber. Vai descendo a xícara no ar.

“O quê?”

“É só um exemplo, uma opção. Ele poderia dizer que estavam com a irmã dele.”

“Ele… tinha uma irmã?”

“Tinha, claro. Não sabia?”

“Não. Ele nunca me falou. Como é possível? Uma irmã, você disse? Tem certeza?”

“Claro que sim. Pelo que sei…”

“Olha, incrível! Nós ficamos juntos por tanto tempo e… Nunca – nunca! – ele me falou.”

“Não é uma coisa boa de se falar. Ela se matou ainda jovem, sabe? Se matou em Amparo.”

Liana respira pela boca. Não fecha a boca. Olha Ana Lúcia como em transe.

“Em Amparo, é? Com… um tiro no peito?”

Ana Lúcia encara Liana de frente por um momento, como se adivinhasse algo.

“Não, querida. Nada disso. Uma overdose. Esqueça essas fantasias que você leu. Ela não deixou bilhetes nem nada. Mas sem dúvida foi intencional. Dois frascos inteiros.”

“Incrível…”

“Ela estava vivendo uma situação horrível, na verdade. Mesmo, eu me lembro. Além de ter sido sempre muito complicada. Sim, ela era mesmo muito complicada. Tch… Tadinha.”

“Incrível…”, Liana repete, no mesmo tom.

“Eu dizia para ele que eles pareciam namorados, ele e a irmã. Ele tinha muitos ciúmes dela. Eles moraram juntos durante parte do curso.”

“Nunca, ele nunca me disse. Eu nunca soube de nada disso.”

“Pelo jeito, ele conseguia mesmo guardar um segredo quando queria.”

“É que…”, Liana ainda assimilando a surpresa. “A maneira como ele contava parecia real. Mesmo com dúvidas, acabei acreditando em tudo. Cheguei a ficar com medo.”

“Era próprio dele. Testar as pessoas. Testar sua própria capacidade de convencer, de fazer parecer real uma história qualquer, toda inventada. E, não sei como, ele conseguia. Ele me contava sobre uns amigos, sobre umas outras namoradas e essa coisa toda. Eu nunca conheci nenhum deles, nenhuma delas.”

“Será que ele inventou isso também?”

“Não sei. Pode ser coincidência. Eu só não conheci essas pessoas, só isso.”

“Mas agora, lembrando de certas coisas, vejo que não podia ser mesmo: aquilo de sair do hotel com o corpo dela… Com o seu corpo, aliás”, rindo um pouco.

“Você conheceu algum desses amigos dele?”

“Não. Quando eu o conheci, eles não se viam mais, há tempos. Numa das vezes em que ele passou mal, quer dizer, quando ele começava a falar coisas meio repetidas e como se estivesse em transe, disse que precisava conversar com o Valdinei, aquele amigo que morreu na queda de um avião. Que precisava falar com ele. Que talvez o irmão do Valdinei, que tinha ficado em sua cidade, tivesse o telefone dele. Depois, perguntava do Verne. ‘Onde você marcou o telefone do Verne?’, ele perguntava sem ouvir a resposta.”

“Devia estar misturando tudo. Ou esses caras existiram mesmo e… Tadinho.”

“Com ele, nunca se podia ter certeza de coisas assim. Não se podia pensar: ou tudo existiu ou nada existiu. Porque algumas coisas eram reais, outras não. Só ele podia saber. E agora dava a impressão de que nem mesmo ele podia saber.”

“É. Que coisa… Não sei se todos os escritores são assim, não é? Alguns, você vendo entrevistas, parecem bem racionais.”

“É. Mas não sei até que ponto ele era um escritor de verdade. De qualquer forma, no fim, tudo isso se transforma em livros. Em fantasia. Em literatura.”

Café. Amenidades. Hora de partir. Despedem-se à porta, da mesma maneira como se cumprimentaram há uma hora e pouco.

“Obrigada por tudo.”

“Foi bom conhecer você. Vamos nos ver mais vezes.”

“Claro. Podemos nos ver mais vezes.”

Sim. Bem mais claro agora. Liana desce as escadas, tão solitárias quanto antes. Mas pode ver melhor, com a luz de dentro. Volta-se para cima ao dobrar o primeiro lanço, suspeitando que Ana Lúcia assiste a cada um de seus passos, algo escurecida contra a claridade da sala, acompanhando sua descida silenciosa. Talvez esteja sutilmente enciumada ainda. Receia olhar de volta e encontrar um rosto diferente do que conheceu há pouco, talvez transfigurado por algum motivo, algum motivo íntimo, obscuro, secreto. Talvez guarde imagens criadas durante a conversa, quem sabe? Mas, se é isso, ela não o aparenta. Não se vê em seu rosto nenhum sinal de ressentimento ou frustração. Porque pode ser que no rosto de uma pessoa não se veja mesmo nenhum sinal de nada. Da porta meio aberta, verte a pouca luz que clareia os degraus.

“Podemos… ser amigas”, diz Liana torcendo o corpo, olhando-a de volta finalmente. Quase uma pergunta. Desce um degrau sem perceber, questionando-se em seguida e em silêncio se valerá a pena vê-la mais vezes. Se poderá confiar nela.

“Por que não?”, Ana Lúcia na penumbra, abrindo seu sorriso encantador. Definitivamente encantador.

 Marcas de gentis predadores

53. Um amigo, um favor – sequência

51. Arranjo para impedir Ana Lúcia – anterior

Guia de leitura

Imagem: Claude Rogers. Escadaria em espiral.

Papéis para Verne

A vida é uma linha reta, sem volta. E a literatura é a única coisa que pode tornar tudo sinuoso. Disforme. Interessante. Mesmo que se confunda com a mentira.
Na literatura, a mentira se chama ficção, você sabe.
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Richard Estes. Café express. 1975Val. Pensei que pudesse salvá-lo também, por meio da palavra, até mesmo por meio destas palavras horríveis: despedaçados, destroços… Lembro de uma última vez em que você, Val, esteve com a gente, nos velhos mesmos botecos, e a gente falava dessa vez sobre mudanças, que as coisas mudam, e de outras obviedades que nós, disfarçadamente, tentávamos sempre evitar. Alguém contava que outro alguém tinha morrido, um acidente ou uma doença, como aquele velho professor de alguns de nós… Você tinha um jeito racional de lidar com isso, poderia ser o exemplo para todos nós, os mais ou menos sentimentais e medrosos. O Verne parecia sempre ser o mais indignado, sempre um ar de surpresa e ligeira incompreensão. “Como assim, morreu?” O Verne não queria que ninguém morresse. E como foi com os nossos Beatles e com os cavaleiros da távola redonda, um dia teríamos mesmo que nos separar, cada um em seu caminho próprio. Imagino o Morghini dizendo: “Beatles? Mas que merda! Vocês ainda falam nisso?” Com aquele seu mau humor que nos fazia falta. E o Souto responderia, em defesa dos menestréis sagrados: “Olha lá como fala! Escovou os dentes pra falar os nomes deles?” E foi mais ou menos isso mesmo o que aconteceu daquela vez, quando o Morghini perdeu a paciência e parecia estar anunciando, involuntariamente, a separação: “Vocês ainda se orientam por isso? Não saem dessas merdas de músicas, criticam tudo e continuam uns babacas adolescentes, ninguém pode falar de um ídolo idiota que… Ah, quer saber? Fodam-se.” Pedimos que ele voltasse, dizendo que era ele quem estava bancando o crianção, mas afinal não era. Era o ponto de saturação. E ficaram em minha memória as palavras dele quando virou as costas e saiu do bar: “Fodam-se. Façam o que bem entenderem. Vocês me fazem sofrer.”

Verne baixa o papel na mesa.

“Era isso que queria me mostrar?”

Danilo silencia, pensa em não dizer nada antes de articular claramente o que pretende dizer de fato.

“Não… Não. Mas também era isso.”

Verne olha mais uma vez o papel, quase à toa, só porque iria mesmo olhar mais uma vez o papel, quase à toa.

“É a sua cara, Dan. É a nossa cara. Gostei muito. Sempre gostei muito do que você escreve. Escrevia. Você sabe.”

“É um texto bem simples. Não é nada. Mesmo, mesmo. Mas queria que você visse também outras coisas.”

Verne tinha deixado o casaco na cadeira, atrás de si. O frio é intenso lá fora. Ele havia chegado como de costume, os passos mansos, sem pressa. Tocou o ombro de Danilo, vindo de trás, querendo surpreendê-lo, mas sempre à sua maneira. Sempre sem querer assustar ninguém.

“Ahá! Tomando uma sem mim!”

“Verne, seu…”, Danilo se levanta. Agora que se reencontraram uma vez, podem se reencontrar sempre. Sim: um puta abraço, os dois.

“Agora vamos nos encontrar sempre, certo?”

“Certo, agora sim. Já devíamos ter feito isso, Danilo, e os outros também. Vamos ficando acomodados com os velhos amigos, não é? Mas no século 21 podemos encontrar todo mundo.”

“Senta aí, meu querido. Oi! Amigo! Mais um aqui, por favor. E então, rapaz? Já viemos aqui uma vez, lembra?”

“Claro. Pensa que estou ficando gagá que nem você?”, senta-se em frente a Danilo, depois de ajustar o pesado casaco no encosto dessa cadeira em que se sentará em seguida. Tinham ouvido no rádio do carro que aquele vinha sendo, até então, o dia mais gelado do ano. Aliás, o mais gelado, especialmente, em muitos anos.

“E esse puta frio, hein, velho?”, esfregando as mãos.

“Pois é. Parece que agora é pra valer.”

“É, já estamos na estação. Vamos ver quanto tempo vai durar. Nessa cidade isso é imprevisível.”

“É, vamos ver. Só sei que começou faz uma semana, mais ou menos.”

“Como você sabe que o inverno começou faz uma semana?”

“Foi a ultima vez que eu vi a Liana usando sandálias.”

Verne ri, surpreso.

“Ahahah… Está apaixonado mesmo. Que bobo. Ahahah…”

As voltas que este mundo dá, não diziam os antigos? Incrível constatar que, a esta altura da vida, é o Verne quem ri da suposta ingenuidade dele, é o Verne quem lhe diz isso, quem o chama de bobo. Danilo fica feliz em vê-lo rindo assim. Ele perdeu um pouco dos cabelos, a barba loira disfarça algum tom grisalho que os seus quarenta vão pintando aos poucos. Mas ainda é um homem com cara de jovem. Quando se fala no Barba Negra ou no Barba Azul, nesses trastes todos, percebemos que só os vilões serão lembrados, não o Verne com sua barba clara e com sua alma pura. Danilo sente-se na obrigação de resgatá-lo também, como a todos, uma tarefa inútil, derivada de carências pessoais. Ninguém tem obrigação de nada. Mas ele está ainda um restinho emocionado com o que vem pensando e recordando, tendo como fundo o ruído vocálico dos rapazes na mesa ao lado, pouco antes de o Verne chegar. Agora ele considera Verne com natural alegria, olha-o de frente, os dois com o chope à mão, uma sincera alegria em compartilhar a presença dele – e a alegria dele. Isso é amor de verdade. Gostar de alguém porque esse alguém é esse alguém. Os dois. Irmãos, com toda sinceridade.

“Verne, olha. Eu trouxe uma coisa, uma coisa aqui…”, desdobra um papel. Entrega-lhe o papel. Fica olhando o papel nas mãos do amigo. “Queria que você visse.”

Verne pega o papel. O papel, repetidamente. Danilo não se importa de olhar o papel nas mãos dele o tempo todo. Repetidamente.

Val. Pensei que pudesse salvá-lo também, por meio da palavra, até mesmo por meio destas palavras horríveis…

Agora, observar a cara dele depois de ter lido aquilo, vamos ver.

“Era isso que queria me mostrar?”

Danilo silencia, pensa em não dizer nada antes de articular claramente o que pretende dizer de fato.

“Não… Não. Mas também era isso.”

Isso já aconteceu. Havia mais uma coisa.

“E também isso, olha.”

Fiquei atento quando Ana Lúcia me disse: “Sabe, eu me sentia solitária. Eu sempre fui sensível. Meio romântica. Pra você ver, eu conheci um cara nessa festa, um cara bonitinho, alto, robusto. Nós transamos por umas horas, parecia que eu tinha passado quase a noite inteira com ele. Mas no dia seguinte acordei meio deprimida. Ele ficava sem assunto, intimidado. Despediu de mim com um beijo no rosto.”

Verne veste a cadeira com o casaco de cor creme que o vinha protegendo do frio impiedoso lá fora. Senta-se em frente ao amigo, que chama o garçom pedindo mais um chope. Oi! Amigo! Mais um aqui…

“E esse puta frio, hein, velho?”, esfregando as mãos.

“Pois é. Parece que agora é pra valer.”

O primeiro motivo de conversa. Mas Danilo trouxe algo, porque Danilo sempre trazia algo, ainda que não trouxesse nada em seus bolsos. Anseia por mostrar ao amigo, seu único amigo, pelo que se lembra, uns papéis secretos que traz desta vez.

“Olha, eu queria que você desse uma olhada nisso. Isso aqui…”

Verne toma o papel e ri.

“Lá vem o filósofo. O filósofo na hora errada. Acabou de pedir um chope e já vem trazendo coisas… O filósofo das horas erradas.”

As voltas que o mundo dá, era o que diziam os antigos. Incrível constatar que, a esta altura da vida, é o Verne quem o ironiza, com sua simpatia à prova de qualquer suspeita. Impossível se incomodar com qualquer brincadeira que ele faça, sempre pontuada pela simplicidade, pela ternura, pela indisfarçável e natural ingenuidade que o mantém impregnado por completo.

Val. Pensei que pudesse salvá-lo também…

Verne termina de ler, mas não tira os olhos do papel.

“Era isso que queria me mostrar?”

Danilo silencia, pensa em não dizer nada antes de articular claramente o que pretende dizer de fato.

“Mais ou menos. Na verdade, eu queria te contar de umas outras coisas. Coisas antigas e novas, que têm me estrangulado um pouco, que têm me entristecido um pouco. Na memória e também agora, nesses dias, nesse inverno e…”

“Mmmm! Delícia esse chopinho. Não tem inverno que mude isso, hein? Mas fala. O que foi?”

“Estou escrevendo uns textos assim. Sobre nós, sobre nossos amigos. Sobre mim, sobre algumas coisas que eu vivi já faz tempo. E que me incomodam até hoje.”

“Até hoje?”, Verne sorri. “Mas… É sério? Pensou numa terapia, alguma coisa assim? Pode ser bom.”

“Não deveria ser sério. Mas parece que é. Não é genérico, é um ponto específico, sabe? Uma só dessas coisas é que me perturba até hoje. Uma só. Me deixa inquieto, me deixa…”

“Puxa, mas agora que você encontrou uma menina legal, que você está assim… apaixonado, não é? Ahahah…”

“É… É. Mas é por isso mesmo. Uma coisa está relacionada com a outra, entende? É por isso mesmo.”

“Tudo bem, então. Estou ouvindo.”

“Não, mas eu não quero contar assim. Queria te trazer uns escritos desse tipo, queria te mostrar umas ideias, aos poucos, sabe? Coisas que você vai reconhecer, lembrar, tenho certeza.”

“Ah, que bom alguém ainda se lembrar de nós, digo, de nós lá, naquele tempo. É isso que você está fazendo, velho, escrevendo a nossa história?”

“Não. É. Mais ou menos. Mas é. Mais ou menos isso. É sim, de certa forma. De uma forma que não é só contar. Escrevendo, a gente pode subverter o tempo, a gente pode inverter a ordem das coisas. A gente pode até alterar o passado.”

“É, eu lembro de você dizer essas coisas. Que a vida era uma linha reta, sem volta. E que a literatura era a única coisa que podia… que podia…”

“… tornar tudo sinuoso. Disforme. Interessante. Mesmo que se confunda com a mentira. Na literatura, a mentira se chama ficção, você sabe. Não posso negar que acho isso tudo muito lindo. Isso me encanta demais. Não sei como só eu posso gostar disso. Mas não importa. Com a escrita, posso fazer você chegar aqui muitas vezes, posso fazer você colocar seu casaco aí nessa cadeira muitas vezes, falar do frio de muitas maneiras, ler esse papel que eu trouxe e depois não ter lido, pegar de novo esse mesmo papel, que agora é outro, pela primeira vez. Mas na vida aqui fora, tudo segue em linha reta, é claro. O que aconteceu, está acontecido. E é isso que… É justamente isso que…”

“Você quer me contar alguma coisa, Danilo. Vamos lá, homem, medo do quê? Agora fiquei curioso.”

“Então, olha… Não é medo. Eu queria que você, antes de tudo, lesse isso aqui…”, tira do bolso um papel, entrega a Verne, que o desdobra facilmente.

Não existe a sabedoria. Nenhuma sabedoria. O que existe é a nossa natureza. Alguém que pensa ter encontrado a sabedoria apenas conseguiu algo que o adequasse à sua natureza ou que o ajudasse a reprimi-la de modo conveniente. Mas minha natureza tenta-me a dizer. Força-me a dizer. Realiza-se, quando diz. Portanto: viver minha natureza. Algo me diz que devo viver minha natureza. A minha natureza me diz isso.

“Era isso que queria me mostrar? E o que era sobre nós?”

“Ah, sim. Nada é mais antigo. As notícias se espalham. Hoje, principalmente. Em nosso tempo, nosso famoso século, nossos anos oitenta, não é? Dizemos nosso, nosso, nosso, como se tudo fosse nosso, como se o tempo fosse nosso…”

Você diz isso.”

“Em pouco tempo, mais uns anos talvez, o mundo todo vai estar ligado de uma maneira muito pior, pode apostar. Vai ser muito pior mesmo, muito mais do que hoje. As pessoas vão poder se ver e se falar o tempo todo.”

“Ridículo. Isso nunca vai acontecer. Seria horrível. Ninguém vai querer isso.”

Valdinei maquinava algo para comentar a previsão, a absurda tendência, enfim, o caso todo. Verne não se importava muito com as teorias do Souto, parecia distraído. Morghini resmungou um puta-que-o-pariu ao jeito dele, que, dependendo do caso, podia significar: “Parem com essa besteirada inútil!” ou “Puxa, vocês conseguem mesmo estragar a noite.”

Ainda entre os lençóis, Liana criticava a necessidade de muitas pessoas levarem a sério coisas como signos, horóscopos, mapas astrais, num tempo em que tudo isso praticamente havia caído por terra para sempre. Danilo se sentia feliz porque ela era inteligente e lúcida. Então, ela falou algo sobre “as fatias do tempo” e que quando Einstein…

Einstein?! Opa, agora era preciso ficar atento. Tudo o que envolve a palavra Einstein merece cuidado em dobro que é para a gente não cair em ciladas, para não cometer gafes, para não passar vergonha, para não iniciar discussões sem fim sobre universo, tempo, espaço, matéria, inexistência de deuses e despropósito cósmico.

Depois de ter-lhe contado sobre como deixara o corpo de Ana Lúcia nos arredores da faculdade, Liana disparou:

“Mas… Mas as coisas não estão… Não estão… se casando, se encaixando. Como vou dizer… ?”

“O que não está se encaixando? Como assim? O que você não está entendendo?”

“Você prestou depoimento no dia seguinte. Como eles sabiam? Ninguém sabia de nada até aí. Quando o corpo foi encontrado? Como eles sabiam?”

“Quer mesmo ouvir? Você quer mesmo que eu comece tudo de novo?”

“Não seja tonto. Claro que não. Outra coisa, que me chamou a atenção: quando você fala nas suas… namoradinhas. Eu entendo que você já tinha muita vivência quando saiu com a Ana Lúcia, e você era muito novo. Então, alguma coisa está errada aí, nessa cronologia toda.”

“Cronologia? Olha que palavra você está usando pra falar da minha vida…”

“Não quero ouvir essas piadinhas agora.”

“Pode ser que eu tenha contado fora de sequência, e daí? Você não entendeu direito… O que foi? Liana, o que foi?”

“Você mentiu. Você está mentindo pra mim”, vestindo a blusa aos poucos, descendo-a pelo corpo, contorcendo os ombros e os braços. “Você mentiu. Não é? E agora?”

“Mas… Mas… Por que menti? Como sabe se eu menti? Eu lhe disse que tenho os recortes guardados comigo, não disse?”

“Não faz diferença isso dos recortes, não quero mais saber disso. Não sei mais. Você disse que tinha lido no jornal. Mas estava com ela”, subindo a saia, que ajustou facilmente. “Disse que a arma era dela. E a arma era sua. Será que ela fez mesmo tudo sozinha?”

“Há!”, ele indignado. “Não. Não. Eu não estou ouvindo isso.”

“Não quer ouvir. É diferente. Ela se matou com um tiro na boca. E também com um tiro no peito. O que aconteceu? Os jornais distorceram tudo?”

“Não, eu não acredito que você…”

“Por que não devo me sentir insegura? Me diga. Por que eu devo acreditar?”, ela agora parece tremer um pouco. Senta-se na cama, estica um braço e alcança o par de sandálias, umas sandálias negras, poucas tiras finas. Calça as duas quase ao mesmo tempo, então começa a ajustar uma fivelinha mínima na lateral de uma delas.

Verne baixa os papéis sobre a mesa.

“Era isso que queria me mostrar?”

Danilo silencia, pensa em não dizer nada antes de articular claramente o que pretende dizer de fato.

“Por enquanto, sim. E então? Fala alguma coisa, velho. Qualquer coisa.”

“Você escreve muito sobre ela.”

Ah, essa não. Eu mereço. Outro golpe da inocência, outro gole de chope. Vamos lá, Verne, me ajude.

“Sobre ela quem? Sobre a Ana Lúcia?”

“Não. Sobre a Liana, claro. E acho que ela não vai gostar de ver isso, vai? Ela sabe?”

“Não”, diz Danilo num susto, emitindo o monossílabo quase imediatamente após a fala de Verne, quase latindo. “Não. Não, ela não sabe. Não sei se ela deve saber. Posso mudar o nome dela, é fácil. Posso fazer dela outra pessoa, com alguma característica inventada, que não seja própria dela, tanto faz. Mas ela não sabe.”

“Ah, mas não dá pra disfarçar tanto, será?”

“Não sei”, pegando de volta os papéis. “Dá sim. Eu invento o que eu quiser. Mas, me fala aí. E você, como vão as coisas? O trabalho, as paqueras…?”

“Ahahah… Te conto uma que você vai gostar, olha só… Mmmm! Mas esse chope está tudo de bom mesmo, velho. Vamos mais dois?”

Marcas de gentis predadores

 51. Arranjo para impedir Ana Lúcia – sequência

49. Trogloditas bem-falantes – anterior

Guia de leitura

Imagem: Richard Estes. Café expresso. 1975.

Os anjos da lei

O vulto não se move. Não dá para ver bem o rosto, muito menos os olhos.
A chuva fala por todos.
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Buffie Johnson. A ponte. 1952Ainda abraçado a Liana, Danilo vê que é uma viatura da polícia. As lanternas intermitentes ferem com dificuldade o ar nublado pela chuva em curso. Parece-lhe inquietante o silêncio em torno de sua chegada: ela apenas estacionou atrás de seu carro, parando devagar, passando aquela impressão quase infantil de que o próprio veículo fosse algum ser vivente, alguma coisa com vontade própria. Mas permanece inerte. Ninguém sai de dentro dele. Nenhum outro sinal por enquanto – a não ser essas luzes piscando com violência, muito rápidas entre uns flashes incômodos, alternando-se como se emitissem uma mensagem em código. Como se quisessem conversar.

“A polícia”, ele diz sem alarde. E fica em dúvida sobre a realidade de sua própria voz, se teria acabado de murmurar isso mesmo ou se apenas o teria pensado, falando dentro de si, porque ele sempre entendeu que só conseguia pensar com palavras, além de dotar as palavras de algum pensamento, daí porque às vezes se confunde. “A polícia”, pensa.

Liana, abrindo os olhos, cabeça ainda apoiada em seu peito, diz:

“Eles chegaram.”

Chegaram? Como assim? Eles quem?

“Vieram buscar você de mim.”

O veículo está ali, quieto, à margem da rodovia, lanternas na mesma frequência de flashes alternados, mas agora, conforme a impressão exagerada de Danilo, com algo de ligeiramente mais ameaçador, ligeiramente mais impaciente, enquanto a chuva castiga a nave invasora como faz com tudo nessa hora.

“O quê? Buscar? Como assim? O que você…?”, ele agora fala de fato, sem dúvida. Pode ouvir perfeitamente a si mesmo, reconhecendo essa ênfase incerta, em meio aos ventos imprevistos da situação.

“Vieram buscar você…”, ela suspira, enfraquecida, num resto de choro.

Ele se percebe em estado de paralisia, e seu cérebro realiza inúmeras operações, durante mínimas partes de um segundo, imaginando que Liana houvesse telefonado a alguma emergência enquanto ele estava no banheiro ou enquanto ela mesma ia ao banheiro, sem que ele o notasse, ou, enfim… Prepara-se fria e firmemente para reagir com tudo o que consegue reunir de sua inteligência útil e de sua lucidez prática, a começar por não perder a naturalidade, não demonstrar nenhum sinal de hesitação, de insegurança ou medo. Mas polícia sempre dá medo.

Danilo sente o corpo de Liana bem abraçado ao seu, como há vários minutos se faz entregue, buscando, ironicamente, alguma proteção. Enquanto isso, também de maneira paradoxal, fortalecido por essa mulher quase agonizante, ele começa a maquinar em alta velocidade as possíveis frases iniciais de um encontro iminente e inevitável com o inquisidor, sem deixar de tentar compreender, em meio a uma tempestade de ativas faíscas neuronais, o que estaria de fato acontecendo e como teriam as coisas todas convergido a esse momento ridículo, mas não desprezível. Agora, são suas as lanternas invisíveis que se agitam e giram em alta frequência, enviando alertas desde os primeiros arrepios de ansiedade.

Por fim uma porta se abre. Um vulto robusto desdobra-se de dentro da nave alienígena. Sai caminhando rápido e curvado, quase correndo, na direção deles.

“Ei!”

Danilo arrepia-se. Como? Como chegaram até aqui?

O policial rodoviário, numa capa escura e impermeável, mal se fazendo distinguir seu rosto entre as sombras e todas as obstruções da cor cinza sob o capuz, aproxima-se como um alien determinado e, a alguns passos deles, ergue a mão direita à altura do ombro como anunciando: “Vim em paz.”

“Precisam de ajuda?”, ele quase grita, por causa do ruído rascante e pesado da chuva.

“Não, muito obrigado”, Danilo também, quase gritando, mas entendendo que sorri. “Estamos bem. Estamos indo embora agora.”

O encapuzado ergue um braço, apontando os ferimentos de Liana – por sorte, a chuva limpava logo todo o sangue.

“O que aconteceu com ela? Você está bem, moça?”

Liana não responde. Parece drogada.

“Foi só um escorregão”, Danilo estreitando os olhos contra o vento molhado. “Fomos andar aqui por perto e… e a chuva pegou a gente no caminho. Não foi nada.”

Fomos andar aqui por perto e… e a chuva pegou a gente no caminho. Não foi nada.”

O policial se cala, incomodando Danilo com a impressão de que sua historinha não se mostrou convincente – e de que ele não está aceitando bem a versão singela da mentira que esse homem encharcado, abraçado a essa mulher esquisita e toda arranhada, acabou de contar. O rosto do agente continua pouco visível sob o capuz. Seu silêncio é horrível.

“Fomos andar até aquela colina ali, pra conhecer o lugar”, Danilo move o braço na direção do campo. Não há nenhuma colina ali. Não há nenhuma colina à vista. A chuva tinha feito descer pelo ar um manto de invisibilidade sobre a paisagem possível. Não há colina alguma. E mesmo que houvesse, a mentira é a mesma.

O vulto não se move. Não dá para ver bem o rosto, muito menos os olhos, não dá para saber para onde ele está olhando. A chuva fala por todos. Uma inércia cautelosa, talvez. Uma estratégia clássica, mas funcional. De qualquer forma, com algum efeito intimidador. Enfim, que mostre logo qualquer sinal do que por acaso estará pensando, ou do que veio fazer aqui, ou fosse logo se foder em algum outro lugar, porque Danilo agora não está mais para…

“Não é prudente estacionar nessas condições sem pelo menos acionar o pisca-alerta”, explica o homem obscuro mais esclarecido do mundo. “Vocês podem sofrer uma colisão traseira. Pode ser perigoso. Pode ser até fatal.”

“Ah, sim. Tem toda razão. Obrigado, muito obrigado por ter vindo. Vamos, meu bem. Vamos voltar pro carro.”

“Eu não quero que eles levem você de mim”, diz ela baixinho e desastrosamente, num vestígio de soluço cansado.

“O quê?”, pergunta o alien.

“Não, não é nada. Eles não vão levar ninguém não. O pior que pode acontecer é guincharem o meu carro”, brinca. “Não é mesmo, capitão?”

“Tenente Marcos. Acho melhor vocês irem com a gente até o posto policial mais próximo pra cuidar dessas roupas molhadas.”

“Ah, não precisa não, agradeço muito, muito mesmo. Nada que um bom banho quente não resolva. Vamos, meu bem. Vamos andando, vem.”

Caminham, os três, de volta aos seus veículos, de volta à margem da rodovia, de volta ao que ainda são as suas vidas. Quem visse aquele casal exausto e aquele homem encapuzado, pingando água pelas laterais da cabeça, não poderia afirmar com certeza em que país acontece essa chuva e essa tarde extinta, nem dizer do que trata isso tudo. Talvez não saiba ao certo o que pensar, apenas por lhe faltarem outros conhecimentos, apenas por não saber de tudo. Porque ninguém sabe de tudo. Nunca ninguém sabe de tudo. Nunca alguém alcança decifrar todos os sinais ou enxergar além de um limite sob a chuva densa que sempre volta, enfraquecendo a memória das coisas, por vezes brindando os erros mais sinistros com um manto de completa invisibilidade.

Marcas de gentis predadores

 49. Trogloditas bem-falantes – sequência

47. Dois personagens sob a chuva – anterior

Guia de leitura

Imagem: Buffie Johnson. A ponte. 1952.

A cor intensa que nasce e morre com os humanos

A era geológica presente terá mais um nome no futuro. Todos os crimes irão prescrever.
O tempo esmagará os discos rígidos. Não haverá nada escrito nas nuvens.
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Todd Krasovetz. Fogos na Califórnia.Dorme. Tenta dormir, por enquanto. Acompanhado, como sempre, como se dá com todos, de imagens e sons outra vez imaginados, a conhecida miscelânea que se vai confundindo nas fronteiras conscientes até que o tempo certo o vença e ponha tudo a perder, como com o tempo todo acaba sendo, que também como sempre, como se dá com todos, o tempo certamente vencerá.

Imagens que marcam, sem dúvida. Ana Lúcia morta, jamais poderá esquecer. Esquecer, de certa forma, sim. Continuar vivendo, claro. Mas se alguém lhe chamasse à roda com uma imagem do passado, era essa a que ele cantaria em primeiro lugar, que dentro dela, dentro dela, mora um anjo, que roubou, que manchou seu coração. Reencontra, quase perfeitamente, a penumbra suave, as variações de sombra em todo o quarto, um quarto muito simples, inadequado ao que merecia ter sido sua primeira e única noite com ela. Mais inadequado ainda para sustentar a tragédia irrompendo do nada. O instante surpreendente, estilhaçando o espaço, fracionando os segundos, ecoando medonho entre os minutos até então esquecidos, tendo ao fundo o relógio invisível da noite, que, apesar de anunciar as horas, lembrando a todos que o planeta gira, também sabe silenciar frente aos grandes ruídos. A nudez mortal da ninfa sobre a cama. O lençol bege ou creme ou palha (ele nunca fez muita distinção desses tons), sangue – de um vermelho sempre especial, que só pode ser essa cor bonita e tão familiar, essa cor que escorre por todos os mapas da história, a cor intensa que nasce e morre com os humanos. Naqueles minutos todos que dividiu com ela, naquela hora e pouco em que esteve com ela, acostumou-se a vê-la nua, acostumou-se à nudez dessa garota até então impossível, sim, acostumou-se muito facilmente à nudez dessa garota impossível. Mas não ao sangue que a suja, que mancha seu corpo agora. Agora? Não, não. Em um passado extinto, como em todos os passados extintos. Até hoje, Danilo se recusa a acreditar que o passado vive. Porque é dia outra vez, porque o planeta roda sozinho, sem nosso consentimento. Porque é noite outra vez. Porque não podemos evitar isso, os dias e as noites, porque é entre um e outro que tudo acontece, os amores e os crimes.

Danilo lia. Artigo sobre o Brasil colonial. Que belo texto, hein? Ele se interessa por tudo, como é que pode? O que acha disso? Você se julga meio velho aos quarenta, não é? E ele tinha vinte e cinco anos em 1680. Que coisa estranha ver datas assim. Todas as juventudes desaparecem no passado. Sim, mas é óbvio. Agindo sempre (ou apenas pensando) como se só você não soubesse disso ainda. Sim, muitas vezes, para ele, pensamentos conhecidos por todos pareciam dar-se pela primeira vez no mundo. (Estava lendo sobre Zumbi dos Palmares, isso de ter vinte e cinco anos.) Lembra de um presidente americano ter dito que os livros eram importantes para você saber que os seus pensamentos, aparentemente novos e originais, já foram pensados por outros. Mas é lendo que ele se distrai um pouco, e se encontra um pouco, e se direciona um pouco, e aprende um pouco, e… – quantos pretextos precisa inventar para si mesmo, só porque tem consciência de uma obsessão.

Mas agora a leitura não o distrai como antes. Liana é que o distrai como nunca. Ele procura nela uma pequena cicatriz, uma pequena tatuagem. Fez isso em todos os encontros, sem que ela percebesse. A tatuagem, nem tanto. Mas por que gostaria de ver nela uma cicatriz? Porque trazia uma história? Porque contava uma dor? Porque ela lhe pareceria mais humana, menos intacta? Menos estudiosa, mais travessa? Menos doutora, mais menina? Danilo pensa agora que alguns de seus relacionamentos anteriores, especialmente o de maior duração, haviam começado como um conto de fadas e se tornado, em pouco tempo, como gostava de dizer nas rodas de amigos, um conto de fodas. Ao conhecer Liana, voltou a recordar coisas de sombra, coisas de árvores escuras e beijos com coisas de solidão… – sem entender muito bem por que ela desperta nele essas tantas coisas, antes mesmo que começasse a perguntar sobre Ana Lúcia, pois foi justamente por isso, por essas tantas coisas, que Liana, sem saber, desperta nele, é que havia começado a contar da antiga Ana, da antiga ninfa, da antiga morta. E então, a partir de então, e então foi que… Foi então que passou a procurar em Liana, em toda a extensão nova de seu corpo, alguma pequena coisa que o encantasse, algum discreto sinal, alguma consoladora cicatriz.

Liana funciona hoje como um marco, um ponto demarcatório, forçando-o a uma revisão de sua vida, sem que tenha procurado por isso. Ao conhecer Liana, portanto… E tudo por tão pouco. E não era nada, inicialmente. E tudo tão rápido. O primeiro abraço com o pretexto mais tolo do mundo, é o seu aniversário? Ah, eu não sabia, parabéns então, brigada, muita saúde, felicidades, brigada mesmo, o corpo rígido dela, os seios pequenos, os seios ainda firmes dela – diferentes dos que ele tanto conhecia, os de Daniela, a duradoura –, de uma consistência que, por si só, teria feito disparar seu coração, como de fato aconteceu, aqui nada metaforicamente. Sente, como há muito tempo não se lembra, a força dessa atração física, a velha e boa atração física, a mais pura de todas as sensações humanas, antes que nós próprios comecemos a pintá-la de tédio. Parecia que, pela primeira vez, abraçava uma mulher. Tomara que ela não tenha percebido isso. Se percebeu, não me disse nada até hoje – que eu a apertei tão intensamente, tão gostosamente, como se quisesse desdobrar aqueles dois segundos e meio (que eu não cronometrei, é claro, mas que consigo calcular hoje, tique e taque e tique… ) em um tempo sem fim, após um sequestro digno dos deuses mais excitados, que do alto de sua montanha sagrada desciam para raptar as jovens que, só por serem como eram, os faziam incontroláveis.

Mas por que fazer de tão pouco algo tão grande? Como isso tanto lhe falta? Por que isso tanto lhe falta? Por que sentir um corpo e uns seios, imaginando possuir essa mulher como um deus inflamado, é tão importante a ponto de alterar o rumo de sua vida? Ele admite, secreta e honestamente: Liana sem atrativos não lhe interessaria. Liana, de aparência desagradável e corpo flácido, não lhe interessaria. Liana, morta, não lhe interessaria. A mulher faz o homem distrair-se da guerra, e isso é tão antigo quanto a primeira guerra do mundo. Por isso os cavaleiros todos, e os marinheiros, enfim, todos os heróis da ficção e da realidade são praticamente proibidos de se envolver com mulheres até que termine sua missão, sua tarefa, ou seja lá a porcaria que for. Depois, vem a recompensa: uma mulher. Até Vasco da Gama ganhou uma ilha cheia de ninfas. Não há disfarces. Os autores se esmeram em deixar isto claro: que a recompensa do guerreiro é sempre uma mulher. Por bem ou por mal. Seja a princesa prometida em núpcias, seja a vítima da cidade sitiada, assediada à força. Que tempos, não?

E Danilo, a um tempo grato, a um tempo preocupado, já se distrai há mais de um mês com sua nova namorada. Ele não quer saber por que isso é assim, mas desconfia. Quando nos apaixonamos, as coisas não encontram explicações razoáveis. Tem vontade de parar de trabalhar. Isso mesmo, largar tudo. Ficar com ela naquele chalé da praia distante, sim, a fantasia de sempre, foda-se essa trabalheira toda, quero ficar com ela noite e dia, tais imagens voltam naturalmente e se desdobram em diálogos e cenas possíveis quando alguém nos atrai com convicção. Isso é desviar-se da guerra. E é bom. Na sexta, no sábado – fora isso, fica difícil sair, não é mesmo? Celular, conexões virtuais, mas isso só atende a carências menores, sinais de que estão vivos e pensando um no outro, atenciosos um com o outro, preocupados um com o outro, preocupados. (Ela, mais do que ele?)

Primeira vez no motel: nada como sermos adultos, sem muitas complicações com essas primeiras investidas. As complicações continuam em outra frequência de onda, em outra faixa invisível que não depende nada do lugar escolhido. Ao fim do segundo encontro íntimo, nesse recinto quase à prova de som, pouco antes de irem embora, enquanto Liana se vestia, enquanto ela se curvava e se esticava para alcançar uma última peça de roupa, dobrando-se, por acaso, bem à frente dele, Danilo deu-lhe um tapa na bunda, uma palmada de mão aberta, firme mas não muito forte, quase carinhosa, ele diria, que ela fingiu não perceber. Sentiu-se bem com esse improviso inocente, um menino feliz. Mas de onde vinha esse tapa? Até isso era motivo de tentar compreender as coisas, ele que não parava de pensar. Quis repetir o tapa, mas o momento havia passado. Ela se deslocava pela suíte, procurando os brincos ou qualquer outro acessório sobre a bancada de alvenaria. Certo, ele não repetiu o tapa, não nessa noite, mas repetiu a pergunta a si mesmo mais tarde. De onde vinha esse tapa? Tão instintivo, tão espontâneo, tão automático que parecia ter se repetido por milhões de anos, que parecia estar vivo em suas instruções genéticas, e não podia ser diferente: ele tinha, de alguma maneira, que lhe dar aquele tapa, daquela maneira, naquele momento, com a mão daquele jeito, como se marcasse Liana, sua posse, apesar de isso soar, aos vigilantes da virtude e à polícia do bem, como uma grande heresia ou uma grande bobagem. Não, não, mas que machismo horrível. Danilo, você nem parece ser o cara evoluído que alguns dizem que é. Evoluído, é? Mas também não se trata disso. Não, não se trata disso. Mas, sim, talvez evoluído o bastante para considerar a si mesmo com certa coragem. O fato é que seus instintos existem e se manifestam naturalmente. O fato é que ele deseja compreendê-los. O fato é que ele se reconhece um homem questionador e atento a tudo que possa trair sua racionalidade, mesmo um mínimo gesto rápido, um gesto que trai sua intenção neutra de nem mesmo pretender realizá-lo, o gesto que o trai e o revela, atento ao animalzinho gentil que lhe passa à frente das coisas práticas, à frente dos objetivos conscientes, essa garota curvada à sua frente, à frente de sua razão, ele quase a responsabiliza, quase culpa Liana por isso. O fato é que ele é ainda um homem das cavernas. E saliva de vontades.

No encontro seguinte, Liana sorriu ao levar o tapa, cada vez mais forte em seu traseiro, divertida e assustada. “Au!” Brincou de dar o troco, mão retesada no ar. No fundo, ele esperava mesmo que ela sorrisse. Era só uma brincadeira. Com o tempo, já não dependia do momento em que ela se curvasse ou se distraísse: quando entendia oportuno, sendo a posição do corpo favorável e o humor dentro da frequência ondulatória da normalidade, aplicava-lhe uma ou outra palmada na bundinha, como em uma menina travessa. “Bobo, sai com essa mão, não te dei essa liberdade…” Não? Por que aceita isso? Sabe que é uma brincadeira, claro. Mas, mesmo assim… Bem, não podia dissociar um do outro, o homem da mulher, o macho da fêmea: se o instinto existe em um, deve ter sua contrapartida no outro. Se eu gosto de sentá-la ao colo, sobre minhas pernas, é porque ela também deve gostar de se sentar ao colo, sobre minhas pernas. Ou nada disso daria certo. Afinal, esses tantos milhões de anos foram atravessados por machos e fêmeas se aceitando, se rejeitando, por vezes se destruindo, mas de alguma forma forçando ao equilíbrio. Para ele, era um momento excitante, misteriosamente excitante, a ponto de não se importar muito com a consequência, com a reação dela, se houvesse, mas não havia, a não ser como cúmplice disfarçada da brincadeira inusitada. Porque, na prática, era só uma brincadeira, nada mais. “Vem cá, vem.” “Ai, me larga”, ela sorria. “Da outra vez doeu…” Uma brincadeira emergindo das instruções genéticas, incubada durante milênios. Uma brincadeira que teria começado muito tempo antes do nascimento de cada um deles, vinda de longe. Das profundezas do Plistoceno.

Liana se mostra cada vez mais… magnética – eis a palavra, retirada dos meios científicos, que ocorre a Dom Danilo, esse trovador fora de época, esse artista da palavra, esse diletante em tudo. Ele não só a deseja num crescendo (também se atrai por música, nem diga) como faz planos mentais de ficar com ela, morar com ela, com receio e vergonha de ser descoberto por isso. Com vergonha de suas vergonhas. É tão fácil escondê-las, basta não falar nelas. Quando se conhece uma pessoa nova, ela não sabe nada de nosso passado. E você está novo também, passado a limpo de todas as suas vergonhas até então. Olhe as pessoas se deslocando pelas ruas: quantas vergonhas em cada passado, em cada historinha de vida, pequenas e grandes, quantas vergonhas não acabaram de acontecer ainda, ou aconteceram há alguns minutos, há algumas horas, sob um desses rostos silenciosos e civilizados, quantas ainda irão acontecer no minuto seguinte, quando um desses cidadãos entrar em um escritório ou em uma clínica, ou encontrar, na mesma calçada, a pessoa que deveria ser a última das últimas a lhe aparecer nesse dia, alguém que parece ter vindo ao mundo só para lhe causar mais constrangimentos e piorar as vergonhas que, por si sós, já o assombram. Mundo pequeno, não? Não. Nunca o bastante.

De qualquer forma, Danilo brinca de simular outras cenas possíveis, das quais Liana pode participar também. Claro que ele pode imaginar facilmente os momentos da cerimônia que mais lhe interessam: “Você, José Danilo Mentoni Scribelli, aceita como sua legítima esposa Eliana Ap. Palma da Costa?” (Ana Lúcia ficaria linda ali, com aquele sorriso espetacular que era o dela, imagine só, de noiva, enfeites nos cabelos presos, sapatos brancos…) “Para com essa bobagem, você sabe que eu não gosto de igrejas”, ela ri. “E meu nome não é Eliana.”

Liana não é linda como Ana Lúcia. Mas, pensando bem, é melhor não jogar fora nenhum vestígio de inteligência. Enquanto ele se distrai outra vez, e enquanto não percebe que se distrai, continua marcando livros com orelhas de capa e réguas de cartão, marcando papéis com a caneta, marcando Liana com palmadas. Nem sempre corre ao computador. Tem um tempo próprio de convivência com os papéis, uma necessidade. Mas claro que essa porcaria eletrônica serve muito bem a suas necessidades, serve muito bem mesmo. Telinha, digitação, ideias e infantilidades. Serve muito bem à maior parte de tudo o que rabisca ali, ao lixo limpo que nasce de sua mente e desaparece na escuridão asséptica dos circuitos invisíveis. E esse aparelho todo é menos impressionante quando movido a eletricidade, menos denso que os papéis, é um pouco vivo e vulnerável, consome energia, arquivo Word, to work, aardvark, back to work…. “É por isso que escrevo”, o romântico digita, na sequência. Certo, agora delete logo essa asneira. Imagine se é por isso! Claro que não. E claro que não tem esperanças de compreender essa coisa toda, que sempre exige palavras melhores do que expressões como “essa coisa toda”. É por isso que escrevo… Que cronista idiota e inútil. Relê, revisa. Saiu escravo na tela. É por isso que escravo… Que sinistro associar isso de escrever à condição de escravo. O corretor automático do Word não diferencia uma coisa da outra, não sabe o que Danilo pensa, não sabe o que ninguém pensa, não sabe se ele é escravo ou não, e nunca vai saber. Também não sabe para que serve ele próprio, pois se os seus usuários também não sabem para que servem… Em frente. Registrar tudo em arquivos. Para quem, para quê? Pinturas nas cavernas, agora com precisão matemática. Cro-Magnon digital. O Plistoceno em nós. A necessidade do registro, os tapas marcando a fêmea. Gravar no disco rígido, disponibilizar em nuvem. A Terra gira, e um dia nem mesmo se chamará Terra, pois serão outras línguas, outras palavras. A era geológica presente terá mais um nome no futuro. Todos os crimes irão prescrever. O tempo esmagará os discos rígidos. Não haverá nada escrito nas nuvens.

 Marcas de gentis predadores

 46. Deixando a fortaleza – sequência

44. Qualquer coisa triste é triste o bastante – anterior

Guia de leitura

Imagem: Todd Krasovetz. Fogos na Califórnia.

Qualquer coisa triste é triste o bastante

O mundo também vai sumir. Com todas as palavras. De todas as línguas.
Agora é noite, porque o planeta fez outro giro sobre si mesmo.
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Balcomb Greene. Gertrude III. 1958.Danilo escrevia. Uma atração muito forte pela palavra. Por signos linguísticos. Um fascínio por esses sinais carregando ideias, insinuações e até mesmo carregando o que não conseguem nunca significar. Isso se acumula nos livros, e eles se tornam uma segunda paixão, derivada dessa primeira. A dança das palavras. Maca (do taino hamaca). Tainos, indígenas das Antilhas, hoje extintos, sua língua deu origem ao crioulo haitiano. Muito bem. Maca. Cama. Quando a maca entra pela outra porta, ela se torna cama?

Ele não conta a ninguém que percorre, com uma alegria infantil e inútil, os dicionários. Não conta para não pensarem que enlouqueceu. Não conta porque tem vergonha de ser diferente da turma, porque desde pequenos temos que fazer parte da turma, e não é agora que ele irá decepcionar a todos, não é mesmo? E se pensarem que sou algum tipo de louco, podem pensar outras coisas bem piores sobre mim, sei muito bem disso. Mas seria preciso encontrar no budismo aquela força que o livrasse das provocações do Senhor dos Deveres Sociais, libertando-o da submissão ao julgamento alheio. Enquanto isso não acontece (Danilo não conhece ninguém, pessoalmente, absolutamente ninguém que tenha alcançado essa felicidade, a de libertar-se da opinião dos outros), ele se entrega secretamente a seus prazeres mundanos: textos, palavras, livros… Adora livros velhos.

Certa vez escreveu isto, tendo uma namoradinha como personagem, coitada: Cheguei mesmo a impedir que ela se apoderasse de uns exemplares meio carcomidos, que poderiam destroçar-se de vez – porque eu guardava umas edições muito velhas, de um papel que teria sido branco noutro século, tão antigas que, ao lerem-se alguns de seus escritos em voz alta e com sincera boa vontade, seriam capazes de despertar uma múmia em outra parte do mundo. Ele nunca deixava que elas soubessem disso, claro.

Ãatá, mas vejam só que espetáculo! Danilo sorri como se houvesse encontrado um diamante numa estradinha de sombras que atravessa o bosque.

ÃATÁ, s.f. Piroga indígena do Amazonas; canoa.

Nunca antes contou tantas vogais (por sinal, a mesma vogal) num vocábulo tão pequeno, puxa, tão pequeno. Essa palavra consta de um velho dicionário dos anos 1960, o Dicionário Escolar do Professor, prefaciado por Darcy Ribeiro, com “vozes” dos animais nas últimas páginas, que aparentemente só Danilo ainda tem em casa. (É claro que não, mas pensar assim o torna mais precioso – o dicionário, não ele, esse leitor-escritor, bem entendido). O Aurélio não a registra. O Houaiss também não. Nem sombra da canoa. A palavra sumiu. Essas canoas devem ter sumido também. Os índios vão sumindo. O tempo passa. O mundo também vai sumir. Com todas as palavras. De todas as línguas. Agora é noite, porque o planeta fez outro giro sobre si mesmo.

Não importa. Vamos em frente. À frente de ãatá, aardvark… Já inventaram todas as palavras, quem foi que disse essa bobagem? Eu tenho as minhas. Algumas. Não muitas. Alanzoar pede uma explanação mais precisa. Baderna foi uma bailarina, quem diria! Dançarina, melhor. Mesmo assim, como alguém poderia adivinhar que seu nome de guerra entraria para os léxicos do futuro, compostos por homens sérios e estudiosos? Bambu e banana, de origens incertas, dormem na mesma página. Bífalo, pensando no búfalo, mas já antecipando o bife. Delenda Carthago, teima até hoje Catão, o Antigo. Paderisco ou sindunian, pronuncia-se desprezando as regras da própria língua e sem saber, deliciosamente, em que sílaba, se na última ou na penúltima, se deposita a necessária tonicidade. Deleitônima, nessa sim, eu sei muito bem onde recai a tonicidade. Plam! – deve-se usar para quando se entregam flores, alegremente. Não é bem uma onomatopeia, entenda-se. Ela apenas lembra plantas. E a surpresa de trazer o buquê, até então escondido às costas, para o sorriso de olhos abertos da amada.

Essas expressões como: “Neguim vem e faz tal coisa…” talvez não sejam racistas. Desconfia, por sua própria conta, que esse neguim (que se confunde com neguinho) pode ser uma corruptela de alguém, ninguém – significando que alguém qualquer, um ninguém, que eu não vi, que eu não sei quem é, fez tal coisa. Muito bom, rapaz. Pode até ser. (Em outra parte da cidade, Liana também fala sozinha, vamos lá, esses humanos merecem toda a nossa consideração.)

Um hobby que beira a obstinação, o universo das palavras, das línguas, da estética que há em toda escrita, das esmeraldas e ervas que encontra nesse meio, desde o cheiro do papel dos livros, velhos e novos, até a essência da poesia, mas o que é a essência da poesia? – é assim que vai se instalando nele, amiga e bem-vinda, a fascinante semente da loucura.

Por aí se percebe que isso tudo está nas primeiras páginas dos dicionários, não de todos, e não: não podemos acreditar que ele irá se atrever a tal empresa, calçar as botas de sete léguas da melhor das intenções para percorrer as estradas-páginas desses léxicos contidos em sua própria invencibilidade, condenados por seu próprio volume a esmagar página sobre página, e que parecem pronunciar um eterno om em seus silêncios impenetráveis, em seu pesadelo de estantes, não, não queremos crer que, há alguns anos já, esse homem que não é nada, nem escritor nem financista, nem mesmo um amante admirável, quer pelo ponto de vista das gentilezas, quer pelo ponto de vista das selvagerias, tenha dado início a essa aventura ridícula, quixotesca ou einsteiniana, essa expedição delirante de um homem só.

Seus colegas não são assim – ora, ninguém é assim. Eles não o compreendem, apenas aceitam, e daí? Danilo não faz mal a ninguém mesmo… Seus amigos também não são assim, é claro – imagine se mais gente fosse assim, que seria deste mundo? Mas alguma coisa confessa a eles, não tudo. Conta casos pitorescos e lindas histórias. Eles se interessam por seus textos. Leem seus textos. E neles não encontram essas lindas histórias. Chegam a insinuar que não parece se tratar da mesma pessoa: onde estavam as lindas histórias que ele só contava no boteco? Mas são momentos diferentes, que não se cruzam, não se tocam. A literatura é feita por ideias mais incomuns, muitas vezes menos compreensíveis, porque ela procura caminhos para as perguntas e procura perguntas para os caminhos. Isso não são as coisas boas da vida e não são as mensagens de bem viver. Não são os cartões de aniversário, nem os discursos de formatura, nem a pena precária dos magos da autoajuda… Um arrepio. Que horror. Claro que não.

E claro também que não está mais nas varandas do dicionário. Já pulou a janela e tropeçou, lá nos fundos da cerca viva, no absurdo jardim da Alice. É sempre assim, a lógica não dura muito. Mistura-se ao delírio sóbrio de quem pensa que pensa – e não aguenta por muito tempo tal condição repetitiva. Por isso seus estudos foram tão precários, tão diferente do que lhe conta Liana, essa ótima aluna desde sempre, essa lúcida capacidade cognitiva, perceptiva, passeando pela vida em forma de mulher. Mas Danilo não a vê assim. Porque só soube disso depois de conhecê-la. É, deve ser isso. Depois daquele primeiro abraço, de peitinhos firmes. Na verdade, ela é de uma feminilidade visível, sem reservas, que se manifesta continuamente durante todo o processo, na intimidade desses encontros deles, sem um momento que não seja de entrega e de cumplicidade, orientada por uma confiança nele, adquirida em tão pouco tempo, o que parece fazer parte da percepção exata dela, de logo ter encontrado em Danilo um homem em quem pudesse confiar por inteiro, o que faz essa barreira, a da hesitação, cair como uma velha ponte de pedra.

Não me importo com isso, não a invejo. Ela deve acreditar que eu não a invejo. Eu não queria ser o melhor aluno, o melhor carneiro, o conhecedor das regras, das leis, de tudo isso que ela conhece tão bem e que a torna confiante por isso mesmo, por conhecer todas essas normas, leis e lições, um círculo vicioso que no fundo, apesar da aprovação respeitosa de todos, talvez só sirva mesmo a alimentar a vaidade. Essas leis e lições, Danilo não se interessa em conhecê-las, nem mesmo para transgredi-las – ou transgredir Liana, confundindo sua inteligência com as narrativas em espiral, enganando-a sem que ela o perceba logo de cara, conduzindo-a por esses seus jardins de Alice, bem disfarçados entre arbustos e arranjos, como se tentasse libertá-la desse tudo-certinho, das exegeses de fonte segura, dos conceitos à luz da teoria de consenso, das citações bibliográficas sem um mísero erro de pontuação, mas que tédio isso tudo. E, mesmo assim, ela não era metódica o bastante. Dividia com ele as ousadias todas. Uma maneira de compensar, talvez. Que importa? Os dois se divertem.

Por aí se percebe também a facilidade de digressão desse pretenso escritor de ficções perdidas, coisas do dia, cristais à noite. Mas ele não precisa de muitos escritores. Muita gente escreve muita coisa. Não vivemos para isso tudo. Precisamos de poucos escritores. Só alguns, e chega. Desde que nos inspirem. Desde que nos tragam inspiração. Não é a mesma coisa? Voltar, cortar a frase anterior.

Danilo é muito influenciável. Fica manso, discreto e belo como Scott Fitzgerald. Depois, impetuoso e imprevisível, para não desonrar Dostoiévski. Vai acabar como Bukowski e Henry Miller, eles nunca se esgotam, ao que parece. Mas se esgotam para ele, nada se sustenta afinal. Para iludir minha desgraça estudo. Intimamente sei que não me iludo. Vamos, vamos, não é nenhuma desgraça viver assim – mas os versos do paraibano são ótimos, admita.

Sabe que nunca será um escritor. Não um de verdade. Quando descobriu isso, quando percebeu isso, quando entendeu isso claramente, sentiu aquela pressão no esôfago, aquele afogamento na traqueia, aquele peso por trás dos olhos, isso é a antiga vontade de chorar, ou é alguma outra coisa, mas por que não chorar? Por que não chorou? Porque não é o bastante, ele se diz. Um guerreiro, afinal, é o que sou, entre coleções de trechos preferidos – He’s rolling, he’s a rolling stone… Mas é sim, era o bastante sim. Para chorar. Era o bastante e sobrava. Era triste. Não o bastante, ele teima. Qualquer coisa triste é o bastante. Qualquer coisa triste é triste o bastante. Não adianta teimar. Não adianta. Não, não adianta.

A memória de quando seus pais haviam acabado de se mudar para o novo bairro. Ele tinha nove anos, enfrentava o que lhe parecia ser um enorme transtorno, uma nova classe do primário, entre colegas que o estranhavam nos primeiros dias, isso no decorrer de um mês qualquer, em meio ao curso em andamento. Mas não, não era nada. Tudo passou. O tempo sempre nos desperta, mesmo do que uma vez pareceu ser um incômodo pesadelo. Ainda nos primeiros dias, uns meninos do quarteirão o convidaram para a festa junina no terreno baldio, bem na esquina de sua nova casa. Claro, a que horas? A mãe preparou-lhe um prato de doces cortados em pedaços, comprados na padaria, cobriu tudo com um pano de margens bordadas, adequado a esse propósito. O vento frio o obrigava a fechar ainda mais o casaco, usando uma das mãos, equilibrando o pratinho na outra. O lugar estava escuro, silencioso. Era preciso esperar. Faltavam, afinal, uns cinco minutos, chegara cedo demais. Voltou para casa quase uma hora depois. Por que sempre raciocinava com tanta esperança? Com isso, só se atrasava. “Ninguém foi, mãe. Só eu.” Deixou o prato na cozinha, sobre a mesa, foi para o quarto, agindo com grande naturalidade. Todo o empenho em arranjar o pratinho de doces, a expectativa anterior a tudo isso, que havia começado no meio da tarde e se estendido à quase inteira hora de espera em frente ao terreno escuro, não, ainda não era de se lamentar. Mas a sua crença na festa falsa deve ter sido o que lhe causara então aquela pressão no esôfago, aquele afogamento na traqueia, aquele peso por trás dos olhos, a conhecida e antiga vontade de chorar.

Casa dos pais. Essa casa, um dia. De onde saiu uma vez, na noite de vento, protegendo o pratinho de doces para ninguém. Um dia nada disso é mais seu. As coisas não são suas, são projeções de outra genética, outros desejos e confusões, outras ansiedades e calmas geradas por influência externa, num tempo que você não viu.

Nunca será um escritor. E escreve isso, aí está, outro registro, outro exercício de hipocrisia. Outra metalinguagem cheirando a pólvora, outra maquinação de tragédias pessoais e ruínas secretas. Meus cadernos de caligrafia de menino não faziam supor que eu um dia viria a escrever coisas tão tristes. Quando o menino ensaiava em detalhes cada voluta e arabesco que cifravam o código que lhe servia ao pensamento, esperava um futuro proveitoso, no domínio de todos os códigos, porque alguém que conta, alguém que conta a história que conta, conta com o poder de um código. Um escritor se faz com seu código, sua sina e seu segredo. Um escritor se faz com cada palavra. Com o risco invisível da loucura. Com todos os perigos.

Ele escreve isso. E dorme feliz.

Marcas de gentis predadores

 45. A cor intensa que nasce e morre com os humanos – sequência

43. Um estreito, fino rastro de sangue – anterior

Guia de leitura

Imagem: Balcomb Greene. Gertrude III. 1958.