O anjo de ficar

Mas isso da primeira vez que estive ali.
Depois, era como se as paredes se deslocassem naturalmente ao meu redor, meus passos não pensavam mais, o espaço andava por mim.
 

Primeira vez na Josie. A Joss Stone de meu agourento ano novo. Nos primeiros dias de 2005, ainda em janeiro, essa trilha de pólvora serpenteando até a rua onde ela mora. Retângulos calculadamente agrupados. Bairros quarteirões condomínios. A pequena sala-cubo-entrada podia ser vencida com três ou quatro passos tranquilos – retângulos, três e quatro fizeram-me pensar tolamente em uma foto 3 x 4, comparada a uma imagem de maior tamanho, um imóvel mais amplo. A cozinha, quatro passos curiosos. E a entrada do quarto de dormir-pensar-sonhar, tão próxima tão sugestiva tão inspiradora, antecipava-me não sei quantos passos ansiosos. Mas isso da primeira vez que estive ali. Depois, era como se as paredes se deslocassem naturalmente ao meu redor, meus passos não pensavam mais, o espaço andava por mim. Não era muito diferente nas outras divisões desse seu modesto apartamento alugado, e eu nunca pensei, sinceramente, que uma pessoa precisasse de mais do que isso para viver. Somente o dormitório fazia um retângulo-quase-quadrado algo mais espaçoso, significando uma cama de casal (por que ela tem uma cama de casal?) encostada a duas paredes, fechando o vértice desse recorte como os tantos recortes se fecham em infinitas plantas de infindáveis imóveis empilhados estendidos construídos diariamente em nossa cidade, estruturas pelas quais meu amigo Nilson del Lama era em parte responsável e culpado. Por causa da posição da cama, sobravam ali dois espaços-corredores estreitos, limitados a uma parede com um espelho e a um armário de roupas embutido. A janela ao lado da cama (porque era a cama, é claro, que estava ao lado da janela) remetia a umas ilustrações de casas europeias em que as janelas partem de um pequeno balcão onde se pode sentar e observar o ambiente externo, mas isso, isso que ninguém perceberia fora de mim, porque os arquivos de imagens sépia e bico de pena eram todos meus, foi só uma faísca pueril de memória, pois não havia balcão nenhum ali, como se imagina, e essa janela, como as outras, seguia rente à parede, molduras finas de alumínio, exata e cirúrgica, sem relevos ou desvios. De qualquer forma, essa janela permitindo que, sentados na cama, assistíssemos invisíveis ao mundo lá fora já parecia algo muito atraente e especial para mim. Tudo nesse apartamento discreto, nesse cantinho pequeno e limpo, era aconchegante e sedutor. O caso era que eu me apropriava mentalmente do lugar. Isso, como disse antes, logo na segunda vez, a partir da segunda vez que o penetrei. Com a insensatez de um namorado potencial. A familiaridade rapidamente instalada. Uma parte da cama. Do colchão, dos lençóis. O espaço feminino acolhedor de seus colhões, a um homem imprudente e frágil, covardemente impetuoso, a caminho de ser o que só ele sabia possível a partir de si mesmo: um amante perigoso e egoísta. E esse autorreconhecimento oculto silencioso intransferível refazia suas forças. O que pode haver de mais poderoso que um segredo?

Ela parece à vontade até o momento de entrar no quarto. Agora quase gagueja, cor de rosa nas maçãs do rosto. Aqui é… o meu cantinho, a minha… cama e… Não sabe o que fazer com os braços. Mais um instante e começará a tremer. Antes que isso aconteça, o personagem eu, atuando enquanto o recordo em mim, vai até ela protetor carinhoso decidido, ganha um abraço morno e firme de quem se entrega para não cair – ou encerra essa breve encenação conseguindo o conforto esperado. Foi a primeira vez que se abraçaram, a primeira vez que se fizeram permissivos, a primeira vez de todas as outras primeiras vezes. Não, não era uma encenação. Ele tinha toda certeza disso. Não era mesmo. Seu corpinho suado a denunciava. Se esse homem com mais de trinta afogava-se em ansiedade como um adolescente nesse abraço carregado de hormônios, imagine-se ela, mais jovem e mais próxima dessa fase perdida.

Fica mais. Só mais um pouquinho. Preciso de você, não tá vendo? E você não tem que ir agora, não é? Carinhos horizontais. Mão em meu rosto, beijo em meu pescoço. Eu sei, linda, mas eu… eu preciso mesmo ir. Eu me sentia bem ali, é verdade que sim. Mas no fundo tentava aproveitar um momento meu desprovido de forças físicas para me obrigar a voltar para casa, pensando num jeito rápido de me despedir e encerrar tudo no minuto seguinte. Até mesmo de sair de lá correndo. A preocupação com o risco que eu me impunha, que eu me impunha tanto a preocupação quanto o risco, se é que não ficou claro, subia e descia, como num gráfico de oscilações, desaparecia por um tempo, voltava como o toque de um sino num campanário distante, com um anjo consciente aconselhando-me a voltar enquanto outro anjo (a Josie), este verdadeiro, com cheiro de pele, cabelos de areia, presença aromática morna insinuante, convidava-me a ficar.

Projeto esvanecendo-se

 – sequência

24. Quando nós ainda… – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Edgar Degas. Mulher com uma toalha. 1898.

Projeto esvanecendo-se. Quando nós ainda…

O que de fato contava era que ela acreditava em mim.
Considerava meu potencial de entrelinhas meu bom humor involuntário minhas ironias benignas.
 

Eu e a Marjorie fomos felizes por um tempo, um bom tempo, claro que sim, eu me lembro. Unidos próximos cúmplices, compartilhando especificidades e caprichos entre aquelas coisas que-só-nós-mais-tínhamos, como certas canções tristes, de querer morrer, e momentos cinematográficos de arrepiar a nuca e estrangular o esôfago, de tão sensíveis e impactantes. Eu engasgava com a saliva. Nossa, que foda essa cena, hein? Ela, em parte sensível, em parte gratificada com sua própria atuação dramática. Ai, olha, vou chorar de novo com essa cena, olha….

Nos primeiros meses nesta nossa casa aqui, cedida por meu sogro de alto escalão a sua filha merecedora e responsável, nossos dias de folga eram mais leves, nossas noites mais intensas. Nada de incomum nesse casal jovem, em meio a tantos outros sortudos mundo afora – eu com vinte e cinco, ela vinte e sete anos. Não era difícil entender e explicar a mim mesmo o tesão que eu sentia pela Marjorie. Mas não ficavam claros os motivos do tesão dela por mim. Não podia ser algo apenas físico, era o que eu concluía. Algo envolvendo o que eu era, talvez, com as coisas que-eu-mais-tinha. Ela dizia brincando, no fundo em tom sério e assertivo, que eu seria ainda o autor de qualquer coisa importante, mas nem eu nem ela adivinhávamos do quê, embora ela insinuasse a perspectiva de algum trabalho acadêmico ou algo como uma teoria científica ou filosófica ou, enfim, nem sei mais, mas como isso não passava de uma ilusão mal agendada, pouco me importava que porcaria de grande trabalho autoral seria esse. O que de fato contava era que ela acreditava em mim. Considerava meu potencial de entrelinhas meu bom humor involuntário minhas ironias benignas. E tentava erguer-me pontualmente de meu comodismo e de uma conveniente congênita modéstia, tentando ativar meu ego preguiçoso como se me cutucasse com um tição. Tinha esperanças, digamos, intelectuais em mim. Talvez uma aposta em algumas daquelas coisas que-eu-mais-tinha, como disse, por conta de minhas paixões como leitor ou como apreciador de música e de pintura, pois eu não fingia, vivia apaixonado e encantado pela arte pelo texto pelo fogo libertador e opressivo das ideias.

Numa dessas noites, em meio ao estágio entorpecente alienante de nosso sono profundo e interrompendo a viagem da lua, um estrondo deflagrou um clima inesperado de terror. Despertamos ansiosos e sussurrantes, temendo que alguém houvesse invadido a casa. Ficamos sob a influência de um silêncio suspeito após o ruído forte e repentino de algo sendo destruído no andar de baixo. Desci para ver. Era o relógio de parede, da cozinha, em queda livre e autônoma – um desses relógios Herweg, que prometem durar toda uma vida, mas, no caso, por falta de habilidade minha em fixá-lo a contento, finou-se jovem e desastrosamente, espatifando-se com um som cristalino e apavorante, e o vidro que antes protegia o mostrador claro limpo conciso craquespalhava-se no piso da cozinha, como se ali houvessem chovido grãos lascas e miçangas transparentes.

Comprei outro relógio na Avenida da Saudade, numa loja de quinquilharias para o lar. Quadrado, cantos arredondados, mostrador branco, no centro o desenho estilizado de uma galinha em alto contraste, pezinhos em movimento, simpática altiva e sempre em frente, como se cacarejasse keep walking enquanto o ponteiro-agulha vermelho dos segundos avançava sem dó. Quis surpreender a Marjorie, achei que ela adoraria, que ela quedaria encantada com aquela galinha positiva determinada autoconfiante e me brindaria com um belo beijo. Que isso, Pepo! Que coisa brega, meu Deus! Onde você achou isso? Vamos pôr isso na parede? Eu estava feliz assim mesmo, e ria. Marje, olha só essa galinha, não é demais? A Marjorie parecia bem-humorada também, e suas imprecações simulavam as de uma comediante consciente. Ah, não, você está de brincadeira comigo! Está ou não está? Mas por que não, Marje? Você sempre gostou de galinhas. Você tinha até um pijama de galinhas, lembra? Você às vezes parecia uma galinha. (O pijama dela era amarelo-claro estampado com inúmeras minúsculas galinhas, umas azulzinhas outras pretinhas outras branquinhas…) O quê? Eu parecia uma galinha? É, quando sua franja se arrepiava de manhã, quando acordava com os cabelos desfiados apontando pra cima. Palhaço! Me solta! Vem cá, minha cocó linda… Corria atrás dela. Para com isso, me larga, tenho mais o que fazer! Ela torcia o corpo entre os móveis, agitando os braços, brincando de se livrar de mim. Eu não vou pôr isso aí na parede, já falei! Ai, me solta! A Marjorie é forte, e eu tenho que ser firme quando quero prendê-la. Depois percebo que ela não faz tanta força assim, está se divertindo também. O relógio nos serviu por um bom tempo. Eu e a Marjorie fomos felizes por um bom tempo. Nossa juventude, transuberando de erotismo, sempre nos garantia um bom tempo, mesmo sob os ventos eventuais de alguma situação nublada. Aliás, já ia me esquecendo de dizer que, depois daquele susto pavoroso com o relógio espatifado, voltei para a cama, e nós nos pegamos com toda força gosto e vontade, em meio à mesma viagem da lua. Nosso casamento aconteceu no auge do verão e reuniu apenas parentes próximos e uns raros amigos íntimos. Eu tinha vinte e cinco anos, caso não tenha contado ainda. Ela, vinte e sete. Isso foi em janeiro.

Projeto esvanecendo-se

25. O anjo de ficar – sequência

23. As festas na Maga. Pequenos atrevimentos – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Chelsea James. Cômoda branca. 2009.

Projeto esvanecendo-se. Os rapazes, os homens, a guerra

Um mundo de mapas e guerras sempre foi traçado pela impetuosidade masculina, comunicação rudimentar, walk talk entre trincheiras, interconexão global, adivinhando objetivos semelhantes, voltando em busca de mais uísque, compartilhando sua reciprocidade evidente e seu corporativismo velado.
E é assim, em grupos, que os homens planejam seus atos aniquiladores.

2001, uma terça-feira. No ar do planeta, no ar nas TVs, a conturbada fumaça negra do evento catalisador. Na sexta-feira, na área externa da Maga, a festa seguia como antes, como sempre, avançando na noite clara. Alguns comentavam a notícia mais surpreendente de nossas vidas, considerando-se nossa idade média e o fato de todos ali serem nascidos muito depois dos ataques atômicos a Hiroshima e Nagasaki. Vocês viram? O que foi aquilo, hein? Os homens mais próximos, scotch à mão, um deles como se marcasse o tempo com seu cigarro que subia e descia da altura do queixo à altura do peito, sabiam tudo de guerra. Não vai alterar nada pra nós. Como você sabe? Não vai, porque eles não precisam de nossa ajuda, não precisam de nós, o nosso país nunca se envolve diretamente numa coisa dessas. Não sei não, sempre tem como envolver mais gente nisso.

…a especulação e a expectativa quanto à resposta dos americanos agitava a ansiedade geral, e todos tinham uma opinião muito certa sobre aquela confusão toda – foi assim que conheci o Alex, o Victor e o Guilherme…

Você é o marido da Marjorie, não é isso? O Victor acrescenta a seu charme um estilo francamente interiorano. É isso. E você, da Amanda? Isso aí, e já vi que ela sumiu de vista. O Alex é o mais bem-humorado, também o mais sensato. Prazer, o meu fardo é a Daniela, aquela de saia prateada ali, está vendo? Os outros dois puxaram a reação que eu, simpaticamente, imitei. Ahahah… Apertei a mão do Guilherme. Nem me fale, estou separado há um ano e meio, nem me fale naquela vaca, velho, agora ela quer tudo que eu tenho. Seus olhinhos atentos oscilantes rápidos não se demoram em fixar qualquer coisa, e ele parece conhecer uma técnica de nunca sorrir, de não dilatar os lábios para além de um traço de sarcasmo silencioso. A céu aberto, ao sul da piscina, perto das grandes plantas que escureciam os muros altos da residência admirável da Maga, que, mesmo incrustada em um condomínio bem vigiado, assemelhava-se a uma fortaleza, nós nos afastávamos por uns minutos da agitação intermitente, música vozes risos ruídos, que ocupava toda a enorme sala a varanda o tablado e a área gramada entre os quiosques. Que nada: o presidente vai a público, lamenta as vítimas, aí vem a nota oficial de pêsames, ele fala que nosso país está do lado deles, e toda aquela lengalenga de sempre. Guilherme Luís Romano. Grande coisa, só faltava dizer que está contra. É o óbvio, o de sempre, ele não tem saída. Victor Osório Campos. E vão pedir o quê? Ajuda das Forças Armadas? Dinheiro? Nossa participação é sempre mínima, quando não é totalmente nenhuma. Guilherme, sua voz outra vez. E agora, o que vocês acham que eles vão fazer? Qual vai ser a reação deles, no que vocês apostam? Alexandre Macedo. A reação? Sei lá, velho, nós não sabemos ainda, mas pode ter certeza que vai ser devastadora. O Guilherme era o único que fumava. Vão envolver o mundo inteiro nisso, pode apostar. Não vão não. É tudo consequência de políticas deles, nós não temos nada a ver com isso. Mas que santa ingenuidade, velho. Não importa que seja por causa das políticas deles, eles querem, e podem, envolver todo mundo nisso assim mesmo. Chegou correndo e rindo uma garota morena, cabelos compridos, bem maquiada, camiseta larga branca de mangas curtas e nó lateral, calça amarela justa, tênis azuis, esbarrando em nós, dando voltas por trás de um e de outro, brincando de estar fugindo de um sujeito magro de cabelos lisos, espinhas nas bochechas, passando por um adolescente tardio, se é que não fosse mesmo um adolescente agora. Socorro, ele quer me sequestrar! Aaaai… Escondeu-se atrás de mim, segurando-me os quadris, depois atrás do Guilherme, quase lhe tirando o equilíbrio, o que piorou o mau humor habitual dele, e disparou a correr como viera, pela lateral leste da piscina, seguida de perto pelo magrelo risonho que supostamente prestava-se a capturá-la viva. O Guilherme afastou o cigarro da boca. Quem é essa palhaça? O Alex a observou pelas costas enquanto ela se distanciava. Veio com o Márcio Belques, eu acho. Idiota, criançona… Essa gente não está nem aí pra porra nenhuma. Verdade, a maioria é assim. E enquanto isso a geopolítica mundial entra em outro parafuso, outro cenário de colapso anunciado. Não exagere, velho, a gente não sabe, vamos esperar pra ver no que vai dar. Quem sabe isso tudo não coloque o mundo em ordem outra vez, no seu norte. Não, mas não é questão de estar em ordem ou não estar em ordem, não é isso. Não estava em ordem até terça-feira passada? Essa conversa nossa é meio inútil, por falta de informações, entendem? Mas como inútil? É assim que se formam opiniões, que se acompanha a história… E achavam que o fim da Guerra Fria tinha resolvido tudo, que loucura. Quer saber? Eu tenho saudades da Guerra Fria – pelo pouco que eu sei dela. Bobagem, velho. A Guerra Fria transformou o mundo numa grande armadilha, coisas de traição e delação, espionagem, execuções. Agora a bronca é com o Oriente Médio, com os muçulmanos. Vamos pegar outro uisquinho lá dentro? Vamos. O Alex, quase se justificando, rodou o resto do gelo no copo, voltou-se também, a passos lentos. Mas não é que eu não queira curtir a festa, é que esse assunto realmente me interessa. Claro, me interessa também. Vamos lá então, pegar mais. O Afeganistão é só o começo, vocês vão ver. O Iraque já está na mira deles. O Guilherme, um pouco mais baixo que nós, expressão facial permanente de quem está pronto a ironizar algo, quase uma careta pré-instalada, boca só o bastante aberta para mostrar parte dos incisivos superiores, como um roedor que fareja, sugerindo desconfiança e astúcia. Eles que arrebentem o Iraque, que se foda o Iraque! Eu e os outros não o acompanhávamos nesses repentes exagerados e maldosos. O Alex fez um gesto com o braço que segurava o copo. Sua torcida não adianta nada, velho. Vocês vão ver, é só uma questão de tempo. Eles já queriam invadir o Iraque no tempo do Clinton, para desviar a atenção do escândalo sexual, lembra? Lembro. Tinha aquele pessoal carregando placas nos protestos: “Não matem os iraquianos por causa de Monica!”. É, eu lembro. A essa altura, enquanto a gente conversa, o Wolfowitz já deve ter tirado os mapas da gaveta. Só levar pra mesa do Bush. E o tal terrorista, deve estar fazendo seu caminho de rato pelos fins de mundo do Afeganistão. Não vão pegar nunca. Como é o nome dele mesmo? Olha a Maga, está vindo pra cá. Vamos voltar, nossas mulheres estão perdidas por aí. Ei, Maga, linda noite, hein? E você está linda, viu? Ah, esses quatro aí, andam fugindo da festa, estou de olho em vocês. Não seja injusta, nós vamos lá dentro pegar mais bebida, só isso. O Victor a conduziu pelo ombro, afetuoso, percorríamos a lateral oeste da piscina. Eu quero um single malt agora, você tem lá, na sua cristaleira? A Maga rendia-se facilmente às brincadeiras e ao sotaque forte do Victor, caipirão gentil. Nós sempre apoiávamos secretamente qualquer homem que conseguisse manipular uma mulher. Um single malt, caubói? Sério? Amenidades e o atávico entendimento entre os homens, caçadores grupais, sintonizados em frequências de mesma amplitude, um mundo de mapas e guerras sempre foi traçado pela impetuosidade masculina, comunicação rudimentar, walk talk entre trincheiras, interconexão global, adivinhando objetivos semelhantes, voltando em busca de mais uísque, compartilhando sua reciprocidade evidente e seu corporativismo velado. E é assim, em grupos, que os homens planejam seus atos aniquiladores. Esse encontro foi há alguns anos, na área externa da Maga, se é que já não disse isso. Em setembro.

Projeto esvanecendo-se

16. Pequena deusa simples – sequência

14. Matéria básica e um resto de vinho – anterior

 Guia de leitura

Imagem: Jackson Pollock. Número 27. 1950.

Projeto esvanecendo-se. As festas na Maga. Pequenos atrevimentos

Eu sabia que algumas garotas ali não aprovavam a ideia, mas não protestaram.
Afinal era uma festa. Nem sempre fazemos festas. Afinal éramos todos humanos. Afinal a vida exige momentos de descontração e de subversão entre os dias e as noites.

Perto da meia-noite, alguém sugeriu que uma das convidadas mostrasse os seios. Ela estava próxima ao bar, que fica um degrau acima do piso da área externa, como um palco estendido entre dois quiosques, pouco antes da primeira fileira de mesas plásticas ao longo da borda da piscina. A Mig era quem estava eventualmente no centro das atenções. Ela devia ter uns vinte, vinte e um anos, não mais do que isso. Ela é Miguelita Herrera Bim, filha de um proprietário de supermercados de bairro e de uma engenheira química, e eu não me lembro de uma dessas noites na casa da Maga em que ela não estivesse presente. Não mesmo. Desde que comecei a frequentar, com a Marjorie, essas festas combinadas ou improvisadas de sua amiga Maga, sempre vi a Mig entre nós. A Marjorie a tem em boa conta porque ela promete seguir os passos do pai nos negócios, enquanto cursa Administração de Empresas – não sabemos, claro, se ela cumprirá a promessa ou se mudará de ideia. E o pedido seguia valendo. E a Mig ali, hesitante sorridente vaidosa, repetindo nãos enquanto se divertia com o tom de súplica de um rapaz que eu não conhecia, que parecia ter vindo com a Rafaela Brittes e uma de suas primas, não sei, eu não sabia, não tinha certeza. Mostra pra gente, vai, faz esse carinho. A Mig o afastava com um tapinha à toa. Não, Fred, que isso, tá louco? Outros engrossaram o coro e passaram a incentivar a brincadeira. Ao fundo, Lou Bega cantava seu “Mambo n. 5”. A essa hora da noite, soprava um ventinho gostoso e vivo, vindo dos descampados próximos ao condomínio. Vai, mostra rapidinho, vamos ver, que que custa, que que tem de mais? A Mig levou a mão à testa, cobrindo o rosto enquanto sorria. Gente, não. Tô com vergonha. Preciso de mais um drinque. Drinque, no caso, claramente um eufemismo – ela parecia ter tomado umas boas batidas de frutas bem a seu gosto. A Rose Levy deu-lhe um copo alto de vodca gelada, fatia de limão presa à borda. A Mig então tomou meio copo de uma vez, engasgando enquanto ria. Mesmo assim, indecisa teatral maliciosa, ameaçava a todos com a desistência e a frustração. O Gilberto Roma, marido da Verônica Braga, que estava ali, a meio passo de mim, acima do peso, caminhando para a calvície, mãos grossas prontas a aplaudir, convocou-me à ação. Fala alguma coisa, Pepo. Você é bom nisso. Fala. Eu sorri, toquei o braço dele em sinal de que prestasse atenção ao que eu diria em seguida. Vamos lá, Mig. Você sabe que é bonita. E está entre amigos. Isso dá um tom a nossa festa. E muitos pontos pra você. Homens e mulheres riram. Apoiaram arremedaram aplaudiram, sem tirar os olhos de cima dela. A Queen, num vão entre uma e outra pessoa, olhava-me especialmente. Séria ou apenas curiosa, não sei. (Uma observação: a Marje não comentou nada sobre isso, em nenhum momento. Eu nem sabia onde ela estava quando isso aconteceu – isso, eu digo, a minha fala incentivadora. O resto ela viu. Nem uma palavra. Mesmo. Nem na viagem de volta. Nem quando apaguei a última luz, em nosso quarto, ao fim de tudo. Nada.) Como parte de uma esperada encenação, a Mig tornou a cobrir a testa com uma das mãos enquanto com a outra fazia descer delicadamente pelo braço a alça esquerda de sua blusinha cor de vinho. Um murmúrio quase infantil de admiração e felicidade ocupou o espaço ali, partindo de diversos pontos, vozes masculinas e femininas, atravessando-nos a todos com um entusiasmo alternado entre uma ansiosa perspectiva de silêncio e um possível clamor de glória. Eu sabia que algumas garotas ali não aprovavam a ideia, mas não protestaram. Afinal era uma festa. Nem sempre fazemos festas. Afinal éramos todos humanos. Afinal a vida exige momentos de descontração e de subversão entre os dias e as noites. Afinal, não era algo tão absurdo assim. Era só uma brincadeira sensual, um capricho de momento. Afinal… não era nada. A Mig fez um charme de um instante e pôs à mostra um de seus peitinhos, um peitinho de agradável proporção, jovem e pronto, ligeiramente voltado para o lado externo do torso, aréola pequena castanho-clara coroando a forma macia que ela sustentava com a mão colada ao corpo, como apontando seu lindo seio, à prova de críticas, em nossa direção. Lou Bega cantava: … a little bit of Rita is all I need, a little bit of Tina is what I see… Fez um sinal para a Rose, pegou de volta a vodca, girou um dedo no líquido gelado e tocou-se no mamilo, arrepiando-se do próprio susto e provavelmente fazendo-o eriçado instantaneamente, o que eu não podia ver de onde estava. Risos e aplausos esparsos dirigidos à estrela do momento, que parecia nos dominar com seu feitiço enquanto a voz do cantor, sobrepondo-se às nossas, lembrava: you can’t run, you can’t hide, you and me gonna touch the sky. Isso não se estendeu por um minuto inteiro. A Mig subiu a blusa, guardou o seio.

Desde então, a festa parecia outra. Nossa memória dessa noite era outra. Nosso tempo cronológico não podia mais vencer o efeito desse capricho, desse encantamento, dessa magia simples. A Mig nunca mais foi a mesma para nós. Ela nos brindou com a libertação. Como eu previra, isso contou pontos para ela: todos passaram a simpatizar mais com ela, principalmente nós homens, tocados por um inconfessável sentimento de gratidão. Eu via esse gesto de ousadia malícia música e álcool como uma superação das culturas repressivas, um fator de redenção do que jazia estancado em nós mesmos, em nosso invisível ressentimento, uma conquista de todos. A estrela nascida do instante etílico, inspiradora de ansiedade e risos, realizando nossa reintegração à condição legítima de nossos hormônios. O momento de fazermos as pazes com o melhor de nossa natureza. A fêmea representativa, a musa da vez. A renovação dos votos de todos com nosso próprio senso de liberdade, com nossos caprichos sublimados, com nossa permissividade contida, com nossa inocência.

Projeto esvanecendo-se

 24. Quando nós ainda… – sequência

22. O jardim do hoje – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Fabián Perez. Sabá com copo de vinho tinto

Projeto esvanecendo-se. A primeira tarde de areia e mel

Seu sorriso de covinhas parecia radiante dessa vez.
Foi a primeira imagem que me afetou, o que primeiro me chamou a atenção, de olhos meus diretos em seu rosto.

Fui à casa da Joss Stone. Eu começava a ser feliz. Parecia, sim, que começava a ser feliz, como disse. Era uma expectativa, uma impressão. Não importa. No dilatado instante dessa impressão avulsa, eu me senti verdadeiramente legitimamente naturalmente um homem feliz. Preocupado também. Acho que nunca fui completamente feliz. Não bastassem os problemas que eu fingia não flutuarem por perto, ao meu redor e à minha sombra, talvez crescendo surdamente a cada dia, eu seguia por um caminho que quase colocava placas de alerta sob meu nariz. Não, eu não estava raciocinando muito bem. Isso de concordar comigo mesmo em merecer alguma felicidade não parecia marcar o compasso do que eu estava vivendo desde dois meses antes e só poderia piorar as coisas. Até mesmo piorar as coisas me parecia algo bom e necessário, como se isso fizesse surgir alguma resposta por obrigação, algum recurso inesperado e irrefreável, alguma solução catalisadora, nem de longe prevista até então.

Apertei o botãozinho azul, meio ovalado, do interfone protegido por uma grade frágil e sem pintura, calculada para ser de seu tamanho exato. Eu estava na calçada, nervoso indeciso ansioso, à frente de um portão estreito, esmalte marrom vencido, barras verticais em parte descascadas, mais escuras em certos pontos, onde normalmente nossas mãos alcançam. Meu coração agitava-se como o de alguém que aceita participar de seu primeiro crime. Era a primeira entrada do condomínio. Um clique em seguida, fundo de ruídos rascantes longínquos, quase inaudíveis. Quem é? Oi, sou eu. Ah! Já vou abrir. Fiquei parado, quase envergonhado, mesmo que ninguém soubesse que eu estava li, a não ser três crianças que brincavam atrás de mim, do outro lado da rua, e um casal de idosos passando lentamente pela calçada, sem se incomodar com minha presença quieta. De onde eu estava, sob um telhadinho baixo, uma laje envelhecida que mal poderia proteger alguém de uma chuva fraca, medida para cobrir nada mais que essa entrada, e a estreita moldura de alvenaria que delimitava o portãozinho de grade, não era possível ver nada além de um trecho à frente, dando a uma parede encardida de cor bege, que era a cor da fachada toda. A entrada coberta para o prédio ficava à direita, fora do alcance da visão, e eu entendi que isso era interessante do ponto de vista da segurança. Mas não tinha certeza. Não havia câmeras, pelo que notei. Ninguém podia ver quem estava ali na frente, à espera. Podia ser perigoso do mesmo jeito. Ouvi uns passos, chegando perto, mas não era ela. Uma mulher alta, com um lenço na cabeça, bolsa a tiracolo, saindo. Destravou o portãozinho por dentro, plec!, eu me afastei um pouco, cordial e sem graça, ela passou por mim, trancou-o de novo. Cabeça baixa, olhou-me muito brevemente, sem sorrir. Boa tarde. Boa tarde. Esperei mais um pouco. Ouvi outros passos se aproximando, agora era ela. Oi. Seu sorriso de covinhas parecia radiante dessa vez. Foi a primeira imagem que me afetou, o que primeiro me chamou a atenção, de olhos meus diretos em seu rosto. Oi. Ela separou uma chave, errou, depois acertou enfiá-la em algum ponto que não se via pelo lado de fora. Plec… Plect! E eu entendi que todos tinham de destrancar esse tal portão por dentro, não havia outro tipo de controle que pudesse ser acionado a distância, sem sair dos apartamentos. Alguém tinha mesmo que descer, ir até a entrada, receber o visitante. Um lugar simples. Entra. Passei pelo portão aberto, estendi-lhe a mão direita, ela respondeu quase ao mesmo tempo, dando-me a sua. Tudo bem? Do mesmo jeito que a gerente do banco me cumprimentava. Por iniciativa dela, um costume automático, eu sei, trocamos um beijo rápido no rosto, quase sumido no ar. Entra, vem cá. Dá licença.

Fui andando ao lado dela, um mínimo atrasado, conservando firme minha fingida naturalidade. Ela carregava chaves, uma delas a do portão, sem dúvida, fazendo um fundo sonoro agitado mas singelo, um tilintar constante e quase cadenciado, enquanto entrávamos pelo primeiro corredor coberto, uma espécie de saguão estreito modesto retangular, aberto dos dois lados, iluminado pela oblíqua luz do dia, passando a impressão de que as lâmpadas do teto estivessem queimadas, e também enquanto subíamos, nós dois, os dois andares de escadas.

Aqueles pés, subindo pouco à frente, apoiados em calçados simples, supostamente rústicos, solado, duas tiras trançadas e um enfeite, revelavam-me uma fragilidade sólida, uma espontaneidade determinada, uma rusticidade delicada ou uma delicadeza rústica. No momento em que isso ocorria, enquanto avançávamos nos degraus, enquanto essa visão momentânea e duradoura fascinava e comprometia minha intelectualidade adestrada nas certezas e na busca pelas melhores palavras, eu reconhecia uma confluência de impressões que mais tarde entendi serem parte de tudo que a Josie significava para mim. E isso abalava meu mundo, no qual as coisas eram definidas de certa maneira, melhor dizendo, de maneira certa, sendo ou rústicas ou delicadas. Se o demônio está emboscado nos detalhes, isso mais uma vez se confirmava.

… certas memórias avulsas e despretensiosas nunca, nunca me deixaram. E são parte de uma coleção acidental de pequenos cristais que me motivam misteriosamente…

O demônio adormecido nos detalhes. Aula de Semiótica. Eu tinha acabado de mostrar a cena de um filme em que a falsa estrela, caída do céu, se chamava Sirius. Pedia que os alunos associassem essas intromissões vocabulares com o tom da narrativa toda, lembrando que havia outros sinais de que tudo não passava de uma grande farsa. Vocês já ouviram isso de o demônio estar oculto nos detalhes, eu sei. Agora, tragam isso à prática. O divino também pode estar nos detalhes. Não na grandiloquência dos crepúsculos ou das sinfonias no auge da instrumentação. Não na opulência das grandes catedrais, mas talvez nos degraus em ruínas de uma trilha esquecida no bosque verde-escuro. Pensem nisso. Ruínas, uma trilha esquecida, degraus. O que será que deixamos passar em nossos caminhos de gente, em nossos processos civilizatórios, que pode ter nos afastado de coisas singelas, a que podemos chamar divinas, que pode ter nos afastado da beleza? Demônios, anjos e coisas divinas, isso tudo são elementos significativos, representativos, envolvendo personagens míticos, como um deus e seus antagonistas, e espaços imaginários, como o Céu e o Inferno, sem contar tantos e tantos outros, de outras culturas, diferentes da nossa. São elementos da literatura, da mitologia e, portanto, gerados por necessidades de nosso psiquismo, e até mesmo de nossas vísceras, de nossas forças vitais. Nada disso existe fora de nossa imaginação, é claro. Vocês são adultos, sabem disso. Não, nem todos sabiam. A turma dos religiosos foi fazer uma reclamação à coordenadora do curso. Eu havia gerado um problema para ela. Um problema para todos eles. Um conflito filosófico-religioso-teológico-ridículo. Para minha sorte, isso não passou de um incidente sem maior importância. Ser antipatizado por alguns não muda muita coisa. A Maria Cláudia, coordenadora do curso de Arte, apenas me pediu que evitasse tocar nesses assuntos em sala de aula. Estes assuntos: significados e representatividade de elementos literários e mitológicos. Em uma aula de Semiótica.

Ainda lá fora, sob o sol, a Josie apertava os olhos enquanto me olhava de frente e sorria. Eu também fazia isso, embora ela é quem estivesse francamente contra a luz. Observei com gosto, com alguma alegria quase infantil, sua camiseta azul-clara larga solta e sem cintura, manchas intencionais na estampa, disfarçando magnificamente quaisquer relevos, sua bermuda jeans, que não chegava aos joelhos, seus chinelinhos de couro em forma de V, tirinhas trançadas à moda hippie, muito simples e mínimos, com um nozinho despontado em forma de flor no vértice dessas duas tiras, logo acima dos dedos, entre o primeiro e o segundo. Ela seguia ao meu lado nas escadas, mas um pouco a frente, atitude impensada de anfitriã orgulhosa, querendo apresentar o caminho, os lugares novos ao visitante. Faz tempo que você mora aqui? Quase dois anos. Conforme subíamos, deixando que ela mantivesse a vantagem de um ou dois passos sobre mim, eu ia admirando, dissimulado, suas pernas pouco menos que claras, levemente morenas, movimentando-se quase à altura de meu rosto, e seus pezinhos ativos, bem proporcionados. O som de seus chinelinhos na ardósia escura marcava meu arquivo de sensações não planejadas casuais acontecidas, com que minha memória costuma gratificar-se mais tarde. Mais um, já estamos chegando. A cada passo, eu vivia o encantamento do impossível, de uma realidade em andamento que pouco diferia de um sonho nítido, pelo tempo de umas horas de sol, de uma tarde alheia aos ofícios externos, um lapso de tempo em que meu coração se traía, por sorte em silêncio, absolutamente inescrutável, longe do alcance de quem quer que me conhecesse até então. A cada passo, acompanhando as pernas curtas da Josie, eu me orgulhava de minha pequena coragem. A ansiedade e a discrição que eu vinha ensaiando tinham que funcionar em equilíbrio. Talvez nós apenas conversássemos, e quem sabe eu poderia ajudá-la a encontrar algum trabalho. Nada mais. Talvez ela me seduzisse. Talvez ela não estivesse pensando em me seduzir, e apenas lhe seria interessante a amizade com alguém de outro meio, que pudesse lhe prover informações úteis, contatos, oportunidades. Eu, sempre exagerado e excessivo no plano de minhas associações imaginárias e memórias de livros, revia involuntariamente trechos de sagas e narrativas míticas, especialmente aquela em que a jovem conduzia o forasteiro perdido. “É ali o meu castelo. Venha, vou lhe dar abrigo. Está frio, e você pode se perder na floresta.”. O viajante percebe, depois, que a jovem está mudada, ela agora é uma feiticeira. Só que ele não sabe mesmo o caminho de volta. “É ali o meu castelo”, ela repete. “Venha, vou lhe dar abrigo. Veja, a noite caiu. Não há mais luz. E você não tem como voltar. Está frio, e você pode se perder na floresta. Venha. Você não sabe mais como voltar.”

Pobre Josie. Ela jamais passou perto de ser ou parecer uma feiticeira astuta e dissimulada. Aquilo tudo estava em mim. Minha imaginação agitada, meus exageros dramáticos, era tudo por minha conta. As imagens decorriam de eu ser como era, e talvez um dia eu não soubesse mesmo como voltar. Pobre Josie: do ponto de vista intelectual, uma menina inocente. (Que garota abençoada, diria um colega religioso.) Nem fazia ideia do que eu tinha em mente, de como eu ridicularizava a mim mesmo com aquelas encenações abstratas, tendo-a como personagem mítica, em uma espécie de continuidade paralela ao que de fato se realizava. Eu próprio me provocava com certas fantasias. E me encantava com as pernas dela, com o corpo jovem dela, promissor e propenso à unanimidade do gosto masculino. Era isso, em parte. Um pouco e tudo. Havia sim uma sensação nova, de estar sendo recebido acolhido auxiliado. A cada passo, eu subia mais e mais em minha excitação contida. E a cada passo eu assumia, quase conscientemente, os sinais mal definidos de uma anunciada sonora aromática irresistível decadência. Ela escolheu uma chave, destrancou a porta. É aqui. Entra.

Projeto esvanecendo-se

22. O jardim do hoje – sequência

20. Dos primeiros dias inúteis – anterior

  Guia de leitura

Imagem: John  Singer Sargent. Escadaria em  Capri (detalhe inferior). 1878.

Projeto esvanecendo-se. Dos primeiros dias inúteis

Não queria ressentimentos.
Não queria ficar assistindo a imagens do passado no cinetoscópio precário da memória.

1-manha-de-neblina-dos-primeiros-dias-inuteis-2016-1

Já em janeiro, mal me adaptando à nova rotina ociosa e fora dos chamados dias úteis, passei a observar com mais apuro o mundo ao redor. O mundo ao redor, nesse caso, eram as ruas próximas de casa. E também as menos próximas. Os limites de nosso bairro, o Parque Industrial, por onde eu caminhava e corria, querendo fazer sair de mim, com a rápida expulsão do ar pela boca e com o suor manchando a velha camiseta cinzenta, as toxinas de meus pensamentos mal formulados. Eu sentia meu corpo como há tempos não o experimentava. A exaustão me devolvia vida. O ar que entrava com força em meus pulmões passava a existir de verdade. De verdade, digo, porque ele está aí o tempo todo, esquecido, esperando ser inspirado por alguém, com a violência que faça dele uma entidade também viva.

Mas meu corpo não tem nenhuma função fora de si mesmo. Ele se energiza, se fortifica, para depois entregar-se, sem defesa, à própria destruição. Não importa seja a pessoa mais privilegiada do mundo ou a mais desafortunada, porque são como eu, também com seus corpos, e por isso, por essa mesma razão que a minha, não têm nenhuma chance de sobrevivência no futuro. Mas eu não queria carregar comigo esses pensamentos tóxicos traiçoeiros semitrágicos, embora simples e verdadeiros. Não queria carregar o que havia acontecido comigo recentemente. Nem o que havia acontecido comigo antigamente. Não queria ressentimentos. Não queria ficar assistindo a imagens do passado no cinetoscópio precário da memória. Queria correr, suar. Dar força a mim mesmo.

… eu existo hoje porque meus ancestrais morreram. A vida se sucede, é herdada, repassada, mas os indivíduos deverão desaparecer. Nascemos para ser órfãos e para deixar órfãos outros como nós, atravessando o tempo. Para Helena Cronin, somos arquivos autênticos dessa ancestralidade; nossos corpos e nossa inteligência, monumentos vivos dos raros sucessos daqueles que bravamente nos antecederam. Somos a prova de que eles conseguiram. Não, mas eu não acho que esteja raciocinando bem…

Nossa casa fica na parte leste do bairro, onde as fábricas não entram. É que essa região foi formada ao acaso, um lote após o outro, delimitada por um córrego quase invisível, não mais que uma valeta seguindo ao longo das ilhas da última avenida. Os prédios comerciais se detêm pouco antes da rodovia que leva ao sul do estado, uma entre as vias que se cruzam nesse ponto. Outra, que nasce de uma bifurcação, leva à região oeste de Minas Gerais. Tudo isso envolvendo um confuso emaranhado de saídas e desvios, acima e abaixo de uns pontilhões e viadutos que custaram caríssimo à prefeitura, ao que disseram. Por muitas e muitas extensas quadras, quase inteiramente desenhadas por muros e cercas, estende-se uma sequência de construções, em maioria baixas: galpões, estacionamentos, pátios antigos e novos, caracterizando a geografia das empresas que por aqui se instalaram desde uns cinquenta anos antes, quando essa parte da cidade nada mais era que a última porção urbanizada antes das várzeas nativas e dos campos cultivados – enfim, o limite da cidade. Quando crianças, vínhamos aqui perto, eu e meus primos, trazidos por meu pai e por um tio, para empinar pipas e observar alevinos agitando-se em alguns pontos junto à margem do riacho de águas claras, meio escondido pelo capim alto, que hoje não existe, por ser subterrâneo, sob placas de concreto. Em outra fase da história particular desse ponto mínimo do planeta, nas proximidades de todas essas fábricas e distribuidoras, os namorados vinham de carro esconder-se dos pais e da sociedade entediante que fingia não saber desses condados obscuros onde se exercia anonimamente a liberdade.

O tempo passou, a cidade cresceu. E esses casais se tornaram seus pais, livres das desconfortáveis condições da clandestinidade. Alguns bairros emendaram-se uns com outros irregularmente, sem planos definidos, e se fundiram se fundaram se moldaram à paisagem própria do lugar, que não é a melhor sugestão que nos pode passar a palavra paisagem.

Projeto esvanecendo-se

21. A primeira tarde de areia e mel – sequência

19. Do que eu era – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Manhã de neblina no Parque Industrial. 2016.