Lançamento: A seta de Verena (2a. edição)

A Seta de Verena

O romance está sendo relançado, com nova diagramação, após a boa acolhida da primeira etapa dessa aventura editorial. Além da satisfação em ver a continuidade desse livro junto ao público, fica também a constatação de que uma boa história sempre envolve o leitor nesse outro mundo, que é o nosso, conduzido pelas surpresas da ficção literária.

Você pode adquirir pelo próprio site, o frete é gratuito.

Este livro surgiu no início do fim. Era a última década do século 20. O fantasma do esgotamento de algumas formas literárias, em um mundo cada vez mais encantado pela narrativa cinematográfica, como também por outras mídias, visuais e sonoras, rondava não os mercados livreiros, mas a própria capacidade da literatura em se regenerar. Depois da declaração de Beckett de que,em meio a um século de tanto dinamismo, só o tédio poderia nos impressionar; depois que Borges passou pelo tempo mantendo sua firme decisão de não escrever romances; e depois que John Barth, ao publicar “A literatura da exaustão”, sugeriu o crepúsculo desse gênero como o conhecíamos, lidar com Verena só parecia fazer sentido se tudo em torno dela se enredasse no universo multidimensional e algo traiçoeiro da metalinguagem.

Aliás, o caso não era apenas a percepção do esgotamento de um gênero. O anúncio de Barth insinuava algo mais grave e inquietante: o esgotamento de toda a literatura. Por isso, o sonho de enfrentar Verena e o desafio que ela representava haviam se tornado compulsivos, inevitáveis. A linguagem teria alcançado seu limite? Os formatos continuariam seguindo seu curso como meras estruturas que se repetem? Os sentimentos que moveram os poetas de outros tempos se perderiam, classificados como doenças da juventude? Alguém escreveria ainda um último clássico, pronto para ser esquecido?

De qualquer forma, é difícil dizer que as setas arremessadas por Verena tenham sido perfeitamente compreendidas. Porque havia algo fascinante vibrando com discrição e estranhamento em cada parte do mundo, entre as vidas desperdiçadas e as gerações perdidas. Um impulso secreto e irresistível, que empurrava a última década ao primeiro dos ciclos futuros, entre o que se rompe e o que se preserva, com seus autores carregados de fantasmas.

 

Você pode ler também on-line:

A seta de Verena – Guia de Leitura

Nada dos bolinhos mágicos

A chuva fina e constante acalmava-me, como se me afagassem a mente seus ruídos ancestrais e repetidos ao infinito.
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John Collier. A ninfa da água. 1923.1Despertei à chegada de Mônica, a cópia da chave que eu lhe dera girando ruidosamente na fechadura, a porta rangendo ao abrir-se. Sentei-me na cama, ainda enrolado no cobertor.

“Como vai meu poeta?”

“Não fale assim. Me respeite.”

A chuva fina e constante acalmava-me, como se me afagassem a mente seus ruídos ancestrais e repetidos ao infinito, melhor dizendo, ao nosso infinito. Minha nuca estava dolorida desde a noite anterior. Tinha batido com a cabeça no encosto da cama, ao deitar-me.

“Seu despertador vai enferrujar por falta de uso.”

Tossi um pouco.

“E você vai acabar vesga com esse cabelo.”

Mônica deixou a bolsa na cadeira, abriu a mochila térmica sobre a escrivaninha. Não percebeu uma traça graúda que passeava na parede.

“Trouxe chá, biscoitos. Torradinhas. E outro vidro do seu remédio.”

Arg!

“Está melhor hoje?”

“Não sei… Não sei. Falou com o Raposo?”

“Falei”, ela respondeu, preparando-se para a próxima frase. Mas disse, de qualquer maneira: “Vai devolver tudo. Disse que não tem condições de arriscar nada em seu projeto.”

“Eu esperava… Esperava que não, claro. O que mais ele disse?”

“Foi sarcástico e ambíguo: que você conseguiu escrever um romance sobre nada.”

“Chamou aquilo de romance? Esses editores…”

“Não. Uma maldita colagem. Uma maratona sem propósito.” Estendeu-me uma xícara de chá. “Uma proeza: mais de cem páginas sobre coisa nenhuma. Aliás, ele foi muito educado comigo.”

“Sei… É, eu sei. Eu tinha que tentar.”

Apertei a testa entre os dedos e fiquei de olhos fechados enquanto sorvia o café. Tinha a impressão de estar retornando de uma guerra. Um estranho cansaço punha-me à frente dos olhos formas geométricas irregulares e rapidamente mutáveis, de cores intensas mas também fugazes. Eu podia apostar que ninguém experimentava visões assim desde que David Brewster inventara o calidoscópio. Mas não disse nada a Mônica, ela que nunca escondeu seu desagrado ante minha exagerada mania de citações. Ela nem ligava para calidoscópios.

“Ele disse que você faz isso porque não tem mais o que dizer e quer aproveitar os textos fracassados que não consegue terminar.”

“Não é verdade. Juro que não é.”

“Também acusa você de ser um mentiroso crônico. Torceu o nariz ao citar os trechos em que você promete contar algo mais à frente, se não se esquecer, e acaba por não fazê-lo nunca: ‘Isso é fraude!’. Já pensou?”

“Imagine. Um editor!”

“Tem mais. O relatório do conselho editorial alega, entre outras acusações, que o velho vendedor de livros não tem nenhuma relação com o resto da trama. Afinal, quem é aquele homem?”

“Que trama? Eu o inventei.”

“Inventou?”

“Inventei isso tudo, é claro. Me ponha mais um chá, anda. E chega disso.”

Ela ergueu as duas mãos abertas à altura do pescoço, como se rendendo a um assalto, soltando-as em seguida.

“Tudo bem. Chega então.”

Mônica tirou o blusão pela cabeça, demorando-se só um pouco a desvencilhar-se de uma dobra que o retinha sob o queixo, pouco o bastante para que eu pudesse admirar sua cintura e seus seios sob a malha preta, enquanto ela mantinha os braços erguidos e cruzados por sobre a testa, o gesto tornando-lhe o corpo mais esguio por um instante, com isso lembrando-me uma de nossas brincadeiras.

“E Verena? Ela se parece comigo?”

“Talvez. Um pouco, sim.”

Em minha imaginação, Mônica só não se vestira ainda com uma kazabaika de veludo vermelho, pois nunca me atraí muito, além de uma natural curiosidade, por relações dessas.

“O acampamento… É aquele onde nós nos conhecemos?”

“Mônica, isso não é importante”, sorvi outro gole do café e suspirei. “Mas já que tocou no assunto… Sabe que você, ultimamente, vem se tornando cada vez mais parecida com a Sylvia Plath?”

“Lá vem você de novo. Quem é essa agora?”

“Eu não queria admitir, mas você se parece muito com ela. Será por isso que… que…?”

“O quê? Que você o quê?”, disse ela quase num sorriso. “Será que não está na hora de fechar o livro?”

Aceitei a metáfora. Mas agora que eu a observava como nunca antes, achava que teria merecido a descrição física de Sylvia Plath, que fora ela o tempo todo sob minha caligrafia. O chá forte, de aroma envolvente, a temperatura ideal, adequada ao momento, como a tornar mais saborosa a companhia de Mônica, fazia que eu me sentisse quase curado. Pobre Mônica, eu tenho feito dela uma espécie de secretária e amante avulsa, uma figura de segundo plano, coadjuvante de um heroizinho literário egoísta, quando na verdade tanto lhe devo. E penso ainda que toda a literatura agourenta de certos clássicos não vale um seu longo e devotado beijo. O perfil de minha namorada, essa garota contra a vidraça, também contra a chuva, a mesma chuva que hoje altera os tons de sua pele sob os reflexos de um estranho mundo lá fora, menos talvez que o estranho mundo aqui dentro, onde ela é também uma personagem, mais uma vez inspira-me de sua parte alguma audácia contida ou mesmo o inverso do que se possa descrever, quem sabe, alguma serenidade em alerta. Voltou o rosto em minha direção.

“Decidiu afinal?”

Mordi um biscoito. Era só um biscoito. Nada tinha daqueles bolinhos mágicos que uma vez corromperam Marcel Proust. Voltei-me ao chá e sorvi o último, delicioso gole. Há três meses estou enfiado neste quarto. É preciso sair.

“Passo amanhã na editora. Traduzir textos alheios é melhor do que voltar a ser escravo. E isso pode durar muito tempo ainda. O que acha?”

Mônica afastou-se da janela e da chuva, dissolvendo a silhueta que me fascinava, tornando-se outra vez uma mulher de verdade, diante de meu rosto e de meus olhos.

“Passou aquela vontade de me dar um beijo?”

Outra vez o cheiro e o gosto de sua agradável proximidade, ela que não era, que nunca fora outra, nem Sylvia nem Verena.

“Em nenhum momento.”

82. Sob a mira da arqueira real – anterior

Aqui termina o romance A seta de Verena.

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Essa história começa aqui: 1. Guardo-o como quero

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49. A primeira história mágica interrompida

Imagem: John Collier. A ninfa da água (detalhe). 1923.

Sob a mira da arqueira real

A neblina glacial e a fumaça escura de chamas invisíveis misturavam-se no espaço.
Então, no meio de tudo…
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Otto Lingner. Ninfa da água. 1856Ainda nos degraus da escada, podia ouvir os poderosos acordes da Grande Missa em dó menor, que alguém teria enfiado no aparelho. O casal de crentes! Só me faltava essa. Eles estavam sentados em minha cama, rodeados de gatos, mas não pude dar-lhes atenção. Qui tollis peccata mundi, uma tempestade! Era a música (ao quadrado? ao cubo?) elevada a uma estranha e estonteante potência. E por isso não havia gatos na escada: estavam distribuídos por todos os cantos de meu quarto. Corri à escrivaninha, atirei meus papéis para o lado, deixei uma carta frenética a meu amigo Glauco Pinheiro de Pádua, fazendo-o ver que o funcionalismo público e a engenharia, além de estarem à altura real de suas capacidades, eram também carreiras muito bonitas, por fim implorando-lhe que renunciasse à poesia. Quando pensei que tudo estivesse em vias de se encerrar, surgiu à porta a figura insuportável do senhor Arsênio Siqueira, o maquiavélico representante da Editora Circular. Ele se sentou na cadeira e suspirou de felicidade. Agora, parecia mais velho, mais próximo da morte. Lembrei-me de Glauco Pinheiro outra vez, vi centenas de poetas sendo aniquilados por uma equação de Einstein ou por uma interpretação de Jung. Vi os que sonhavam ser heróis acadêmicos, por não terem sido amados o bastante na infância, ou por mulheres, e os que efetivamente acabaram se tornando heróis acadêmicos, vi seus restos irrecuperáveis entre as páginas de muitos volumes. Vi as rugas dos que passavam ao lado de cachimbos, escrevendo o que também passasse. Vi Orwell e Huxley, julguei que os ouvisse: “Somos profetas pelo avesso. Escrevemos para que nada disso aconteça.” Senti que tudo girava e me oprimia, enquanto eles repetiam as mesmas frases, tão logo acabavam de pronunciá-las: “Somos profetas pelo avesso…” Um raio gelado descia por minha nuca e por minha espinha dorsal: eu perdia todas as forças. Pensei que fosse desmaiar ou cair. A neblina glacial e a fumaça escura de chamas invisíveis misturavam-se no espaço. Então, no meio de tudo, acima de tudo, um rosto conhecido emergiu das intrincadas propriedades do caos, que parecia inesgotável. Antes alegre e contagiante, assumia agora feições serenas e profundamente contidas, à volta de uns olhos agudos e intensos, lábios cerrados como lâminas. O rosto afastou-se, o corpo ergueu-se por inteiro, tomando lugar entre tudo o que se desenvolvia absurdamente ao redor. Verena, uma espécie de arqueira mitológica, seminua mas esboçada em peças curtas de linho, couro e cordas, colete, saia e sandálias, bracelete revestindo-lhe quase todo o antebraço, cingida por tiras, correias e alças que a faziam mais rija em seu porte, passou a disparar setas que assobiavam no espaço, ao fio de sua linha exata, e batiam secas contra o que não mais me cabia. Um vento de procela devassava-lhe a poderosa cabeleira ao longo da face imperturbável, a boca rígida, o olhar ferino. Ela parecia mover-se lentamente sobre si mesma, tudo isso entre labaredas frias e finas nuvens fugazes que a circundavam, o que parecia acentuar a lentidão de seu giro, porém sem alterar o ritmo da poderosa música que agora ressoava ao fundo daquela epifania profana, cúmplice de um vasto momento de destruição. E assim vi caírem os templos, esfacelarem-se os ídolos. Por um momento acreditei ter visto o escritório, zumbis meio putrefatos circulando por toda parte, com papéis à mão. Vi apodrecer o último deus que havia, missais infestados de traças, naves devastadas, bibliotecas em chamas, vi morrerem imortais e nascer o impossível, entre ruínas de toda sorte. Acompanhei cada seta devastadora, uma a uma, até que faiscasse a última delas, esta que me era destinada, contra a última porta. Aguardei enquanto a magnífica arqueira a retesava em seu arco. Uma voz feminina e segura: “Nada há que seja sagrado. Mas tudo cabe em seu tempo.” Para minha surpresa, ela afrouxou a corda. Baixou a mira. Tornou a seta ao estojo. O vento cessou, e ela se manteve imóvel por certo tempo. Olhou-me de frente, com o poder de sua calma. Por fim nos fixamos plenamente. Por fim me sinto pronto a compreendê-la sem reservas, assim merecendo o que restasse, e talvez fosse muito, de minha vida após a vasta confluência de todos os conflitos. Sim, Verena. Sim, querida. Compreendo seu olhar, compreendo tudo. Ainda quero viver.

83. Nada dos bolinhos mágicos – sequência

81. Depressa, o senhor não vê que eu estou fugindo? – anterior

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Imagem: Otto Lingner. Ninfa da água. 1856.

Depressa, o senhor não vê que eu estou fugindo?

Que ao menos me sirva de lição. Minha única ficha, único tempo, minha única vida.
Não posso parar agora.
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Paul Klee. Cidade dos sonhos. 1921Tudo começou pela manhã, quando um dos pensionistas gritou-me lá de baixo:

“Cartão!”

Era uma carta. Desci para pegá-la, voltei ao quarto. Rasguei o envelope, e meus olhos tremeram ao decodificar num relance as primeiras frases. Era tudo que eu mais temia. A partir disso, meu tempo tornava-se escasso, precioso. Corri à porta, ao topo da escada: o jornal do senhor Lineu Domingos não está mais lá. O desgraçado já deve ter acordado. Não tem o que fazer e acorda cedo. Quem entende os aposentados? Um gato, que também não tinha o que fazer, fitava-me com grande indiferença. Voltei ao meu quarto, andei ao redor, em círculos, tocava e remexia objetos como se pudesse comunicar-lhes parte de minha ansiedade, meus nervos subitamente à flor da pele. A única chance que eu tinha era rebater a fatídica mensagem por meio de meu próprio esforço em consolidar incessantes tentativas de interpretá-la. Sentei-me à escrivaninha, o papel em branco, mas quando senti que irrompiam as primeiras erupções de minha obstinada verve, fui ceifado pelos borrões angustiantes e sucessivos que cuspiu a pena ordinária, zombando de meu desespero. Não encontrei outra. Parei à janela, com a mão no queixo. Então, saí correndo. Voei pelas escadas, por cima dos gatos, pela porta da frente, e acabei na portaria do edifício mais próximo, onde um velho escravo ouvia rádio com espantosa tranquilidade. Implorei que me emprestasse uma caneta, mas ele disse com voz sonolenta que não tinha nenhuma por perto, naturalmente tomando-me por algum maluco ocasional.

“Escute”, disse eu, tremendo. “O senhor me faça o favor de emprestar uma caneta, porque eu…”

“Eu estou mais pra lá do que pra cá”, respondeu ele, que também devia ser maluco. Foi o que respondeu.

“Mas o senhor deve ter aí uma caneta! Deve ter!”

“Eu estou mais pra lá do que pra cá”, ele repetiu. “Que adianta ter uma caneta?”

“Depressa, o senhor não vê que eu estou fugindo? Estou fugindo, certo, sem dúvida. O senhor nem queira saber. Eu…”

Fugi, voltei para casa. Peguei os papéis assim mesmo, juntei todas as páginas de que dispunha. O próximo passo, o próximo salto, a próxima disparada seria rumo à editora, para esclarecer tudo. Os pensionistas que por acaso circulavam pela sala estranharam minhas aparições e passagens alucinadas para cima e para baixo. Numa dessas desenfreadas correrias, topei de cara com o senhor Lineu Domingos, de maneira que não pude deixar de abraçá-lo de certa forma, desastradamente. Os papéis que eu trazia amarrotaram-se em meu peito, escapando pelas laterais, e ele apanhou um deles como por instinto ou susto, aquele que praticamente voejou à altura de seus olhos, tomou-o para si e leu.

Senhor Lineu Domingos?… Fica furioso? O que é isso? Que negócio é esse?!”

“Nada, senhor… Domingos. É outra coisa. Não é o senhor.”

Mas ele tomou-me outro papel das mãos, pegou a ler com os dentes cerrados.

Pele de peru Cabeça de ovo Jornal do senhor Domingos Fica furioso…”

“Não é o senhor, seu Domingos. O senhor está enganado.”

Fui agarrado pelos colarinhos, ele me sacudia com força, os papéis caíam por todos os lados.

“Palhaço! Viado! Ninguém presta aqui dentro!”

“Isto se chama recriação, seu Domingos. Recriação. O senhor tem que acreditar em mim.”

“Recriação!”, ele urrou. “Aonde é que você vai com isso, cretino?”

Livrei-me dele com um empurrão, juntei como pude os papéis e disparei a correr.

“Até mais ver, seu Domingos.”

Deixei-o ali, furioso. Corri ao orelhão mais próximo, liguei para Mônica.

“Não sei mais o que fazer.”

“Por que você não viaja?”, disse ela. Levei um susto. Ela nunca me havia dito isso.

“Não tenho para onde ir.”

“Não há para onde ir.”

“Eu sei. Mas tenho que continuar. Preciso… Alô!”

A ligação caiu, era minha única ficha. Que ao menos me sirva de lição. Minha única ficha, único tempo, minha única vida. Não posso parar agora. A banca de jornais. De revistas. De jornais.

“O senhor me venda, por favor, o jornal de amanhã. Tenho pressa. Vamos, vamos, me dê o jornal de amanhã!”

“O jornal de amanhã”, disse o vendedor como se lhe perguntassem coisas assim todos os dias, “só vai estar aqui amanhã.”

“Ah, o senhor não sabe nada sobre amanhã”, eu já resmungando em voz baixa, abatido e pondo-me novamente a caminho. Claro que eu estava lúcido. Claro que estava são. Só o que eu queria era o jornal do dia seguinte.

Na lateral do orelhão, um adesivo, colado ali por algum vândalo, avisava: Ele morreu por ti. Ele está vivo. Ele voltará. Fiquei mais deprimido. Recordei meu passado de escravidão e outros resquícios. Mas não estava calmo. Saí correndo pelas ruas, carregando o que eu havia escrito nem sabia para quem, para onde. Meu desespero, minha fuga, minha necessidade de salvar-me indicavam que a vida e a inteligência e a consciência pretendiam firmar-se sobre a Terra, independente do que eu pensasse, deixasse de pensar. Eu amassava as páginas avulsas contra o peito com a sensação angustiante de não haver escrito nada de novo, nada que satisfizesse a mim mesmo, talvez quase nada, talvez nada. Não, a morte não está vencida. Ainda me falta morrer.

Após diversas e frustradas correrias, voltei à pensão. Os outros estavam na sala, dopados pela TV, e estranharam que eu voltasse, assim como estranharam que eu tivesse saído. Todos queriam saber por que eu nunca me despedia com um até-logo, um tudo-de-bom, um fique-com-deus, como todo mundo. Sei que não passo de um medíocre jogador de xadrez. Mas eles não vivem sem televisão.

82. Sob a mira da arqueira real – sequência

80. A tentação de fraudar a própria história – anterior

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Imagem: Paul Klee. Cidade dos sonhos (detalhe superior). 1921.

A tentação de fraudar a própria história

Publicaram uma foto sua, cabeça ligeiramente torcida, fundo de estantes, em que se realçava, antes de tudo, a altivez afetada dos que se sonham gênios ou gigantes, e no fundo não passam de alongadas sombras de anões.
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Artemisia Gentileschi. Judith e sua criada com a cabeça de Holofernes.A notícia da morte de Glauco Pinheiro de Pádua apanhou-me de surpresa e pôs-me estarrecido. Julguei que ele próprio tivesse ido ao jornal para retificar o mal-entendido, mas contou-me por telefone que aquilo era apenas um truque para chamar a atenção do meio literário, principalmente dos editores, que investem com mais facilidade nos autores defuntos. Publicaram uma foto sua, cabeça ligeiramente torcida, fundo de estantes, em que se realçava, antes de tudo, a altivez afetada dos que se sonham gênios ou gigantes, e no fundo não passam de alongadas sombras de anões. Sobre essa deliberada mixórdia, Glauco Pinheiro escreveu-me uma carta redundante e tão extensa que parecia não ter fim.

Não posso negar que esse lance ridículo de publicidade mentirosa chegou a passear em meus miolos. Arcádio Raposo reuniria minha obra? Editaria meu romance inacabado? Meu último recurso para persuadi-lo havia sido a criação de um anti-herói urbano, um cidadão malogrado e solitário, incapaz de evitar encrencas de toda sorte. Mas o que não entra na cabeça de meu editor é que os leitores se identificam com o fracasso mais do que com a felicidade. Todos são assim. Até os vitoriosos. O fato é que quanto mais me aperfeiçoo, mais me rejeitam. Daí a tentação de fraudar a própria história: mortos, as pessoas passam a considerar-nos com gravidade, deitam outros olhos sobre todas as vezes em que fomos humanos. E assim como tenho acesso à biografia de outros através da arte, é possível que se debrucem sobre minha vida insípida por culpa de minha obra. Tomara que eu possa enganá-los. Mas… para quê?

Tudo isso já se confunde com minha ficção, de tal forma que não se saberá mais até onde desfolho a verdade, até onde afio as lâminas de minha invencionice. Já é hora de desembaraçar-me deste compêndio de logros, esta enciclopédia de rascunhos, esta antologia de fragmentos nada antológicos. (*)

Busco incessantemente vias alternativas para dizer o que tenho a dizer, enquanto ainda acredito que tenha algo a dizer. Apesar de tudo, hoje é maior o silêncio em mim. O silêncio, o que mais se parece com a verdade. Hoje, não procuro ser agradável, simpático ou amigo de todo mundo. Hoje me importo com o que ninguém se importa. E sou o que ninguém quer ser.

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(*) O articulista que generosamente julgou A conspiração dos felizes talvez atribuísse a A seta de Verena, antes a seus Cadernos, as qualidades de uma fonte para novos esboços, um compêndio não de logros mas de… sementes.

81. Depressa, o senhor não vê que eu estou fugindo? – sequência

79. Propenso a fragmentar-se – anterior

Guia de leitura | Sobre o livro

Imagem: Artemisia Gentileschi. Judith e sua criada com a cabeça de Holofernes. 1625.

Propenso a fragmentar-se

Até hoje a literatura é uma maneira de desenvolver essa minha mesma miopia.
Mas não sou um obcecado. Todas as artes me atraem, especialmente a música. Elevei ao máximo o volume do aparelho para ouvir a “Grande Missa em dó menor”, de Mozart, não para fugir à realidade, mas para experimentar o caos.
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Juan Gris. Violino e copo (detalhe). 1915.Toda espera tem um fim, portanto

Toda espera é uma espera, pois termina

Toda espera termina, portanto não é sequer uma espera

Toda espera

Não é de admirar que tudo que eu escreva esteja a um passo de desintegrar-se, volatilizar-se no vazio, contrariando sua própria pretensão de firmar-se como literatura. Não me suponho um autor apocalíptico. O desgaste, a saturação, o tédio, as roupas apertadas são o que me movem, não a falta de caminhos. Talvez no fundo eu acredite em alguma coisa. Nada é impossível.

Um suplemento literário atesta que o livro de Cassiano C. Castilho acaba de entrar para a lista dos mais vendidos. Como pode ser? Normalmente um autor se destaca pela atraente trama que é capaz de criar ou pela estilística específica que faça dele a expressão de um pensamento singular, original ou, no mínimo, agradável. A trama, cuja sinopse passo a ler em seguida, é o que de mais simplório e redundante me parece possível produzir. Portanto, fica claro que a surpreendente posição de seu romance na lista de sucessos não se deve à inteligência do enredo. Agora, quanto à linguagem, que já tive a oportunidade de conhecer por meio de outros textos seus, seria impossível. Bem, que lhe sirva a classificação entre os muito vendidos, seja qual for, afinal quem entende os leitores?

Adolescente, tive de trocar muitas vezes as lentes dos óculos por causa de minha miopia progressiva. O médico aconselhou-me a evitar o excesso de leitura e a escrever menos, ainda assim sob luz adequada e intensa. Meu pai dera-me de presente a luminária que ainda conservo, e esse foi o único conselho que segui: o de escrever sob uma luz intensa.

Até hoje a literatura é uma maneira de desenvolver essa minha mesma miopia. Mas não sou um obcecado. Todas as artes me atraem, especialmente a música. Elevei ao máximo o volume do aparelho para ouvir a Grande Missa em dó menor, de Mozart, não para fugir à realidade, mas para experimentar o caos. Em meio ao Qui tollis peccata mundi, um arrepio. Uma batida. Eu a conheço. É Glauco Pinheiro. Não, é o velho Siqueira. Da última vez que esteve aqui, a porta estava aberta. À sua chegada, ao levantar-me da cama, caí – e isso o fez sorrir maliciosamente. É terrível. Só uma vez consegui escapar pelos fundos, depois de vê-lo subindo a rua. Também já tentei agir assim com Mônica, sem sucesso. Não é o velho Siqueira, é Glauco Pinheiro. Não sei, não tenho certeza, pode ser o velho mesmo. Não: são os dois juntos. É isso! Sei que são os dois. Os dois!

Glauco Pinheiro.

“Não consigo me livrar de vocês”, brinquei.

“Vocês quem?”

“Aliás, é preciso ter muito dinheiro para igualar a façanha de Salinger e Pynchon.”

“Qual?”

“Não ser encontrado no século vinte.”

Ele não me deu a mínima atenção. Tinha vindo convidar-me para o lançamento de um livro de poesia cuja autora era psicóloga, pedagoga, socióloga… “Deus a preserve”, eu disse. Aceitei imediatamente, para evitar discussões. Na noite do lançamento, ele não haveria de me encontrar nem que virasse a cidade do avesso. Pois eu não havia jurado jamais perder uma noite sequer com o que não acreditasse?

No que acredito?

Antigamente, quando acreditava que éramos diferentes dos outros animais, brincava de imaginar a alma de cada pessoa por trás de seus olhos. Hoje sei que não há motivo para que este ou aquele seja eterno, pois somos dispensáveis até mesmo neste mundo, que dirá no âmbito do universo. Que Deus não existe, todos sabem. O problema é deixar de acreditar. Quem dera fôssemos como os pássaros, que não têm senhor. Olhai os lírios do campo. Eles não vivem sem Deus?

Até hoje uns pensionistas avaliam-me com grande curiosidade, eu sei. Não compreendem que se possa pensar livremente e, assim mesmo, viver. Querem saber por que não tenho fé, uma vez que Deus inegavelmente existe. Querem saber por que não arranjo um emprego, por que não me animo a me casar, por que não dou atenção às celebridades, por que não vibro com os gols da rodada, por que não vejo TV com os outros e por que não corto o cabelo como todo mundo.

“Não quero dar palpite, mas…”

“Não que eu ache errado, mas…”

Todos gostam de dar conselhos/palpites, não sem antes preconizar que detestam dar conselhos/palpites. Mas ninguém gosta de:

– ser chamado burguês;

– idem, puritano/moralista;

– idem, conservador (e afins).

Pois todos gostam de:

– parecer liberais;

– dizer que em sua família e em sua casa são todos meio malucos;

– dizer isso de si mesmos;

– fingir-se humildes;

– dizer que vivem duros;

– dizer que sua profissão é ingrata e incompreendida;

– parecer muito ocupados.

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Só o senhor Lineu Domingos não ouvi ainda dizer que vive muito ocupado, mas isso seria demais.

Eu andava outra vez com aquela sensação de que algo muito importante estava prestes a acontecer em minha vida. Lembro-me de haver sentido o mesmo quando conheci Verena no acampamento, mais tarde quando me dei conta de que ela iria me deixar. Saí às ruas como se a procurasse e acabei embriagado no interior de um conjunto de lojas, errando pelo labirinto de vitrines espelhadas até cair no repuxo ornamental que demarcava a encruzilhada das galerias. Eu já estava em crise quando perdi o equilíbrio e me esparramei na água rasa. O segurança tirou-me de lá, estirou-me no chão liso de ladrilhos, e tudo o que eu via era um círculo de curiosos encarando-me como em um nebuloso pesadelo. O mais próximo perguntou-me se eu podia ouvi-lo, se estava bem.

“Eu odeio a humanidade!”, foi o que eu disse.

Pensei ter visto, mas talvez fosse parte do delírio, que uma mulher com a cara infeliz dos cristãos estendia sobre mim um pequeno crucifixo. Isso trouxe minha mãe e me fez mais irascível. Também pareceu-me ouvir de um deles que um animal arruaceiro como eu não estava preparado para conviver com a civilização.

“Eu odeio a civilização!”, esperneei. “Vão todos à puta que os pariu!”

No entanto, sonhava escrever para atiçar-lhes a imaginação, as mentes adormecidas ou equivocadas, sonhava salvar-nos a todos. Mas quem entende os escritores?

Quem entende os acadêmicos? E os obstinados como eu? E os perfeccionistas como meu amigo Glauco Pinheiro de Pádua? E os leitores de Américo Cabral? E os canastrões como Cassiano C. Castilho? Foi muito mais fácil decifrar as ligações químicas usando a física quântica.

80. A tentação de fraudar a própria história – sequência

78. Por favor, esqueça essa bobagem – anterior

Guia de leitura | Sobre o livro

Imagem: Juan Gris. Violino e copo (detalhe). 1915.