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DE FALSAS PRINCESAS
Ao vê-la, pelo que sentiu como um breve instante, estendendo-se para o alto, apoiando um pé sobre a cama para alcançar o cabide vertical (ela era baixa, mas não muito), as pernas tão bonitas bem ao lado do rosto dele, a tensão de uns músculos suaves logo acima do tornozelo, as coxas praticamente uniformes em sua consistência, sentiu algo poderoso, diferente do que apenas vinha sentindo há tempos, quando se forçava até o fim num ato de masturbação (porque, afinal, o havia começado) ou quando apenas percebia o contato físico de outro corpo, o que desperta mesmo ereções, de alguma maneira animal, involuntária e mecânica. Mas ali, era diferente. Visíveis, num conjunto próximo, a cintura e o que subia a partir dela: a lateral exata de seu torso, quase de costas – por isso os seios, logo acima, são contornos fora de seu campo de visão. Mas, ainda durante esse mesmo breve gesto de um só movimento, de um melhor ângulo e à altura de seus olhos agradecidos, dispunha-se, em deliciosa diagonal, a saliência quase nua dos quadris e a bunda bem revestida pela discreta calcinha branca.
Ele leva a mão à parte de trás de sua coxa, como se a apoiasse, firme. Mas não era isso, ela não precisava de apoio, ele é que precisava tocá-la. Ela desce ao chão, alguma oscilação nos cabelos. Tudo isso aconteceu em pouco mais de um segundo, um tique-taque suave, de um relógio especial que já ia parando, desativando o tempo para eles.
“Chega por hoje”, ela respira fundo e sorri, referindo-se ao dia de trabalho. Respira fundo, simpática. Dócil. Cansada.
Ali, era diferente. Aquilo era diferente para ele. Estava surpreso consigo mesmo, era isso. Estranhava-se, subitamente. Sua salivação intensa, quase afogando-lhe a garganta, fora claramente afetada por aquela impressão de distraída beleza, por aquele êxtase crescente e imprevisto, que fizera despertar, num instante, algo como deparar-se com uma novidade conhecida. Seus olhos se paralisaram, depois se moveram, rápidos, ele tentava identificar de uma só vez, num só golpe de intuição, o que lhe causara algo tão intenso e tão bom. Mas era impossível. Não estava raciocinando. Estava vivendo.
“Você é linda”, disse, também dócil.
Sabe que ela não é linda. Mas acontecera-lhe, nesse minuto atrás, um prazer associando tudo o que mais amara na vida, o encantamento por inúmeras coisas, a ciência tornando alcançáveis os enigmas, a arte refazendo imagens a cada geração, o reconhecimento, enfim, do belo abstrato tornado real. O mito e sua escultura. Uma flor, uma pedra. Quase a união mágica de tantos fatores dispersos, entre o instinto e a razão. Quase música.
Na mesma sequência, tendo os pés de volta ao chão, agora dobra um joelho sobre a cama, depois outro – ela é discreta e silenciosa. Prossegue no mesmo movimento, aproxima o rosto, sem beijos, toca sua face com o queixo, a orelha, passando parte dos cabelos por sua boca, avança até que os pescoços se toquem, cabeças apoiando-se em ombros. Parecem ter pressa de esconder o rosto um do outro, evitando assim alguma troca de olhares desnecessária. Ela se solta num suspiro aparentemente de cansaço, não de alívio, porque ainda se disfarçam, tensos. Abraçados: como é possível que tenham chegado até ali?
“Isso, me abraça assim primeiro. São seus olhos...”, ela diz.
Porque, dias atrás, ela mesma se perguntara em voz alta, depois de um beijo lento, mas firme, e ainda afagando os cabelos desse homem também discreto, o que tinha visto nele, afinal. E também respondendo a si mesma, sorriso muito tranquilo, escolhendo as possibilidades: “Seu rosto, talvez. Seu jeito de falar comigo... (Toca a boca dele com as costas da mão.) Talvez não. Não. São seus olhos.”
Passa uns dedos delicados no contorno dos olhos dele, como redesenhando-os para si mesma.
“Meus olhos?”, ele ri. E pisca, com cócegas. “Você sabe que sou míope. Além disso...”
Não, mas esse é o mesmo erro dela, de nunca se gostar. Aceite um elogio, enfim. Se é o que ela vê, isso basta. Por que sempre argumentar? Seus cabelos ficaram lindos, mas não como eu queria, esse vestido em você, mas é muito velho e ultrapassado, foi o que encontrei no armário, gostei muito dos seus sapatos, imagine, não uso há muito tempo, saíram de moda. É uma vida toda por merecer. São momentos e prazeres que precisamos nos dar, que a vida nos deve durante tanto tempo, que devemos aceitar, que devemos merecer.
“O olhar, o jeito de olhar, isso que eu digo, sabe, seus olhos.”
A penumbra planejada e agradável do quarto de motel sempre os tornava mais belos, é um truque, claro. Mas funciona. Sabemos que é assim, mas aceitamos os sortilégios, como se não os conhecêssemos. O ilusionista, mais uma vez, nos convence. E mais uma vez ele a tem tão nitidamente, agora vê melhor sua pele, o brilho mínimo de uns brincos, seu rosto muito próximo, desaparecendo num beijo.
A imagem da garota da loja de fotos que ele, adolescente, amou. Uma noite lembrou de tudo isso, ela lhe voltava como num cromo plastificado, em cores, em meio à sua loja de vidro. Primeiro, ele a vira de longe, por acaso, passava por ali, perto da vitrine, ela atendia alguém, seus cabelos agitavam-se facilmente, conforme movia a cabeça. Isso, do movimento dos cabelos, era o bastante para fazê-lo parar, paralisar-se, rever sua vida, que frágil a juventude. (E isso também explicava a quantidade de comerciais envolvendo cabelos. E movimento de cabelos. E a divulgação rotineira de tantos modelos de beleza e ideias preconceituosas.) Na segunda vez, dia seguinte, observou-a melhor e sofreu pelos olhos dela. Claro que a bela não percebia que era observada, ainda que desprotegida por transparências, num ambiente tão iluminado – ela não o via vendo-a. Fotografando-a mentalmente a cada gesto, esse rapazinho discreto, bem intencionado, apaixonado. Coragem, só uma semana depois: entrou na loja, disfarçadamente, tocando, um por um, porta-retratos de gatinhos e noivas, fingindo entender alguma coisa daquela arte, porque demorava-se analisando etiquetas de algumas máquinas fotográficas expostas. Ela o atendeu, claro, ele estava ali, no balcão à sua frente, tão disfarçado que era pateticamente óbvio. Informa-se (como planejara por muitos dias) sobre uma idiotice qualquer, quanto fica revelar 12 fotos, e 24, e 36? E agora que via essa moça de perto, impressionava-se com a pele marcada de espinhas, quase todas esbranquiçadas (por isso não eram vistas à distância) e ressecadas, provavelmente por alguma pomada antiacne. Ela tinha uns olhos lindos, um sorriso estreito e agradável. Mas nada a sustentava mais. A pele era o bastante para desmotivá-lo. Era incapaz de pensar que aquilo podia ser apenas uma fase e que aquela jovem poderia ostentar uma pele diferente em alguns anos, não, nem pensar, tanta mulher no mundo... Aos 15 anos, isso representava uma grande frustração, própria a tirar o sono. Criticava, com habitual e tolo sarcasmo, suas colegas sonhadoras, que idealizavam seus príncipes (por isso, ele concluía, defensivo, elas não se interessavam por ele, que era um homem real, na escola), mas não admitia que também fotografava e desenhava delicadas princesas por onde ia. Não percebia a si mesmo. Não lhe ocorria que aquela loja de fotos, que aquele estabelecimento comercial, à margem do centro, quase suburbano, com hora para abrir e fechar, com seus tantos balcões e armários transparentes, suas vitrines superpostas, retinha entre reflexos sua princesa de vidro, funcionando também, à parte dos dias, como um reluzente palácio de cristal. (Mas, claro, não se esquecendo de visualizar os cuidadosos rituais de aplicação diária daquela pomada antiacne.)
Tão próxima. A pele em detalhes. É bom, por si só, estarem tão próximos. É bom tê-la tão próxima. “Como é bom ter você tão...”, quase disse. Evitou dizer. Soava muito íntimo, estranhamente, como se estivesse se entregando de uma só vez. Que medo era esse, se não era mais um adolescente? De revelar-se? Pode ser. De entregar o jogo, sem restrições. Mas não precisava mais de princesas de vidro. Hoje essa mulher o conquista, o atrai, e isso lhe basta. Mas pare aí, diga a verdade, não seja injusto: não só ela lhe basta como acaba de tirar-lhe o fôlego. Nessa noite, ele não pensa que pode haver algo melhor – como pensava todo o tempo quando adolescente. E ela, dividindo o que pode haver de melhor entre uma mulher e um homem, não se parece nada com uma princesa dos desenhos. Por isso, talvez, seja uma princesa de verdade.
Essa mulher madura, de feições definidas, essa boca de lábio superior pouco mais avançado que o inferior, que lhe parece mais bela quando mais próxima, toma sua atenção e seu interesse por completo.
“Você consegue parar de me beijar?”, ela ri. E brinca, beijando-o repetidas vezes, beijos rápidos entre sorrisos e falas.
Gostaria de ter estado tão próximo (apenas isso, tão próximo) de todas as mulheres, meninas, jovens, adultas, que de alguma forma o encantaram no passado, ao longo da vida. Mas uma pretensão dessas nem mesmo num sonho se satisfaz: contraria o ciclo natural da vida, acaba perdendo a razão de ser. Nossos desejos aparentemente inocentes são exagerados. Apontam para alguma obsessão, alguma espécie de poder. Imagine, rever todas, possuir todas. São desejos infantis, são sintomas estranhos, ingênuos. Perigosos.
Novo movimento, ela se esquiva, conduz os braços dele, se deixa abraçar por trás. Ajoelhados na cama, ele não sabe ainda o que fazer, só aceita reter o tempo, por enquanto – esse abraço forte e carinhoso se demora. Ele quase diz algo, mas não.
“Fala...”, ela oferece.
“Não, nada. Pensei que você fosse dizer alguma coisa.”
“Não...”, sorrindo muito pouco, sem abrandar o constrangimento mútuo. “Não quero dizer muita coisa agora, fica assim comigo. Assim. Me aperta. Fica assim.”
Por que voltava pela mesma rua no décimo dia, na segunda semana? O que o movia a essa atitude clandestina e persistente? Já não a conhecera, já não a havia descartado de sua vida futura por causa da pomada antiacne? Eram outras coisas, claro, ele se explicava. Agradava-lhe pensar que todos na rua passavam por ele, esbarravam nele, e nem de longe podiam desconfiar do que pretendia. Seria o amor? Fácil demais: joga-se uma pedrinha dessas num lago de águas incautas e perdoam-se as próprias estranhices, os próprios gestos mal justificados, resta agora apreciar os círculos na água lamacenta, belos e ampliando sempre mais seu alcance, à vista de todos. Os poetas fazem disso livros inteiros, com longos poemas divididos em partes e dedicatórias rimadas, tão reveladoras de seus sentimentos gentis, suas obsessões, que lindos. Imagine, ficar passando assim pela vitrine para vê-la de novo, como se a possuísse à sua maneira, como se a bela lhe devesse algo. Imagine: rever todas, tocá-las, beijá-las todas. São sinais de idealizações desorientadas, de qualquer doença sutil. Que podem originar uma série de versos enfadonhos ou alguma decisão hostil, com a arma devidamente carregada.
“Assim. Me aperta. Fica assim...”
Seus rostos estão unidos lateralmente, mas ele tem a impressão de poder vê-la de perfil, como num sonho sem as três dimensões distintas. Ela não: olhos fechados, vive alguma outra impressão.
“O que você quer?”, ele arrisca em voz baixa, carinhoso, mas quase com medo.
Ela não se move ao responder-lhe num sussurro, como se houvesse mais alguém perto deles e precisasse baixar a voz, ainda discreta, mas intranquila, pausada:
“Judia de mim.”
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