O homem do violão azul

Este fragmento de poema aparentemente inofensivo de Wallace Stevens dá o que pensar sobre as escolhas dos artistas e as condições da arte. O músico Tom Zé encantou-se ao conhecê-lo. Outros poemas desse norte-americano costumam ser algo enigmáticos, estranhos aos nossos olhos viciados em praticidade e treinados a assimilar conceitos transmitidos pelo ambiente acadêmico. Mas observem: o dia é verde. O violão é azul. E as pessoas….

Homem curvado sobre violão,
como se fosse foice. Dia verde.
Disseram:  “É azul teu violão,
não tocas as coisas tais como são.”.
E o homem disse: “As coisas tais como são
se modificam sobre o violão.”.
E eles disseram: “Toca uma canção
que esteja além de nós, mas que também seja nós.
 
No violão azul, toca a canção

das coisas justamente como são.”.  

The man with the blue guitar, 1937. Tradução de Paulo Henriques Britto.

 Leia mais poemas e sobre poesia: Eu morri pela beleza – a arte de Emily Dickinson

Rapsódia em cinza

P.S.: Post scriptum (Pós-Escrita)

No século 21 a.C. as terras dos sumérios foram invadidas pelos elamitas, o que causou o declínio dos primeiros. E o que temos com isso? É que os sumérios foram os inventores da escrita, e você não estaria lendo isto agora, no século 21 d.C., sem esse primeiro grande passo. As tábuas com os sinais chamados cuneiformes, os primeiros rudimentos da escrita, datam de cerca de 6000 anos atrás e marcam o fim do Neolítico. Chamamos tudo, até aí, de Pré-História. Mas, a rigor, já acontecia a História. O que faltava eram os registros escritos. Por isso penso às vezes que esse período deveria ser chamado Pré-Escrita e não Pré-História.

Carl Sagan, em sua obra magistral, que inclui diversos livros esclarecedores sobre o mundo em que vivemos, escreveu em um de seus trabalhos mais conhecidos, Cosmos: “Por meio dos livros, ouvimos a voz de outra pessoa, talvez de uma época e de um lugar distante, talvez morta há milhares de anos, que fala, clara e silenciosamente, dentro de nossa cabeça, direto para nós. A escrita é talvez a maior das invenções humanas.”

Para Borges, “a literatura não é outra coisa que um sonho dirigido. Cada linguagem é uma tradição, cada palavra um símbolo compartilhado.” E Osman Lins, a respeito de uma linguagem específica, nos brinda com este belo texto, inserido em uma de suas mais brilhantes narrativas, “Um ponto no círculo”: “Numerosos insetos, aves, peixes e quadrúpedes, há cinco mil anos, povoavam o Nilo e suas margens. A escrita que os recolheu e os transmudou, prendendo-os em exigentes limites, tão contrários a sua índole mutável, não pretendia que voassem, ou nadassem, ou cantassem, ou dessem flores na pedra e nos papiros. Apenas, despojando-os do que era necessário, reduziu-os a luminosas sínteses. Este era o seu objetivo. Se conheciam, os egípcios, o júbilo de escrever, é que haviam encontrado – raro evento – o equilíbrio entre a vida e o rigor, entre a desordem e a geometria.”

Daí que todos os que escrevem vivem a experiência de contar suas histórias de alguma forma, entre os prazeres dos achados semânticos ou a agonia dos impasses, um silêncio suspenso pela palavra que misteriosamente os abandonou. Isso deve estar acontecendo desde os escribas das argilas sumérias até hoje, diante de milhões de teclados, no mundo inteiro.

Não me lembro da motivação que tive para escrever (talhar no papel) este conto que segue, mas lembro-me de alguma forte necessidade de registro, que é o próprio tema do texto e o procedimento de contá-lo. Que é também o que nos une, a todos os escribas do mundo.

* * *

Braile contra a luz

Os professores repreendiam-me, estranhavam que tanto eu pressionasse o lápis sobre o papel. Mais tarde, a caneta. Nunca soube escrever de outra maneira, e não me desenvolvi. O adolescente não podia evitar que os tipos datilografados perfurassem o papel – e os acentos, aspas, vírgulas e interrogações remetiam ao braile, não sem alguma alusão oportuna, minhas dúvidas e escuridão. Não me ocorre, mesmo hoje, a razão pela qual necessito firmar minha escrita, meu código de forças, minha ativa mão, meus dínamos em meio a um mundo insólito e perpassado pela indiferença, por mais que eu avance ferindo os papéis. O texto é meu objeto, meu homem de argila. E nenhum papel foi jamais suficiente para mim.

O registro, resto de uma verdade que me atraísse, não era senão a sobra, a perda. No último degrau do pátio, caderno sobre os joelhos, sozinho ante o muro em cuja base os brotos de hera buscam firmar-se, o menino intui que as palavras se transformam, que se modificam conforme os olhos de quem as considera, que não podem ser transcritas. Que viajam. E se deslocam entre os dias e os gestos, e se dissolvem para germinar, desaparecem como os antigos idiomas e os povos reciclados pela terra. Não existe o ponto, nós o inventamos. Para que a frase se detenha. E o texto não se confunda com o universo ou com a sombra.

“Bom dia. Tão cedo no portão de casa?”

“Bom dia. Que dia é hoje?”

“Quarta-feira.”

“E como se chama esta manhã?”

A empregada ria de minhas perguntas, chamava-me bichinho complicado. Eu lhe perguntava o nome das coisas, ela aceitava a brincadeira. Bolsa, vestido. Dentes? Sorriso, que significa ao mesmo tempo dentes, lábios e manhã. A moça subia os degraus do alpendre, deixava meu campo de visão, levando com ela seu próprio nome, seus sonhos e os nomes de seus sonhos.

Quando eu despertava, pensava em meu nome como reafirmando que ainda era o mesmo após uma noite inteira de sono. Admirava-me que as palavras estivessem presas às coisas e não caíssem como o ramo seco de uma árvore ou a casca de um ferimento em vias de cicatrização. Que um vento forte não as embaralhasse e essa árvore não passasse a se chamar poste ou cavalo. Um cão, menino. Uma casa, ratoeira. Um homem, pedra. Queria saber mais da porta de madeira cujas formas pareciam observar-me: que nome teriam cada uma daquelas nódoas, as estrias e os anéis concêntricos? Por pouco suspeitava que, se descobrisse a palavra-chave, desvendaria o segredo da seiva ressecada em rugas, de sua gravidade e austeridade, do passado que não me revelavam as grandes árvores e a memória velada das florestas. Eu não tinha esse poder. Mas silenciava diante das portas, para alcançar ler o que cada uma trazia em seu próprio idioma, sua versão de fóssil.

De pé, junto ao último degrau. O muro coberto pela hera é o mesmo muro? O que são as palavras? O nome dos mortos continua nas trevas? Eu, que há tanto me alimentava de perguntas e palavras, desejava saber agora onde estaria o texto final, o relevo em pedra, a inscrição no milenar sepulcro que resumisse magicamente o que sempre eu buscara em vão, como quando acreditava poder encontrar-me com Deus e desvendar seu verdadeiro nome, a palavra que infinitamente lhe coubesse. Mas as palavras, como Deus, só existem em nossa imaginação, nossa invenção, nosso abismo. E meu homem de argila arrasta-se ainda na penumbra, na obscuridade, nos papéis insuficientes.

Caderno sobre os joelhos, caneta acrescentando relevos ao papel ordinário. Sinal do intervalo. E os olhos, involuntariamente, dão com os brotos de hera por realizar-se, antes que o menino se levante e se misture à correria das crianças rumo às salas de aula, onde os professores certamente haverão de estranhar que assim ele pressione a caneta sobre sua única chance.

Lisette Maris em seu endereço de nverno

16. O telefone pela manhã – próximo

14. Hoje, acabaram-se as xícaras – anterior

Guia de leitura

Leia mais sobre o tema: Não me venham falar da lua

O recurso da relva

Preço justo

O que mais me admira no espetáculo do mundo, demarcado por longos estios e chuvas devastadoras, é esse inconcebível potencial de fugacidade e aniquilação, um sol escuro, nem benigno nem maligno, que a um tempo extingue e renova tudo o que existe, preservando a vida à custa de exterminar justamente os que vivem, com isso propondo que tudo continue – sob o preço de que nada permaneça.

A conspiração dos felizes

Leia mais dessa história: Meu colega triste

Chegadas partidas

Imagem: Tom Thomson. Céu ao entardecer. 1915.

O perigo de uma única história

O nome é estranho para nós: Chimamanda Adichie. Somos brasileiros, falamos português, nossa cultura vem dos navegadores europeus e da hegemonia dos anglo-saxões, por isso preferimos o rei Artur ao Aladim, por isso somos cristãos e não muçulmanos. Isso é parte do tema abordado por essa escritora nigeriana – a monocultura, o fato de não conhecermos o bastante sobre outras culturas, com isso pactuando com nossa própria ideologia, quase sempre ignorando outros e diferentes pontos de vista. É sempre um prazer ouvir uma pessoa lúcida, inteligente e amável como Chimamanda Adichie, vale a pena conferir.

(Clique em View Subtitles para assistir legendado.)

Leia mais sobre o tema: Você, que não queria ler isto

Não me venham falar da lua

Definições possíveis

É muito difícil encontrar uma definição precisa e final para algo tão sutil e subjetivo quanto a arte. Mas estas duas definições particularmente me atraem.

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As obras de arte são uma estrela que antecipa e um canto de alento sobre o caminho que conduz o homem através das trevas.

Ernst Bloch

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A arte não é um espelho que mostra a realidade como ela é. A arte mostra-nos um mundo refletido por uma mente incomum que impõe um estilo no que retrata.

– Walter Kaufmann

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Leia mais sobre o tema: O homem do violão azul

A sensibilidade, por Yann Tiersen

Sete anos em Manhattan

Por vezes não sabemos por que fazemos algo.
Mas um dia alguém descobre por nós.

Conto premiado na antologia Livre Escrita, da Editora All Print, São Paulo.

O prêmio foi entregue em São Paulo, no dia 29.05.2010, no Centro Cultural Antônio Adolpho, Jardim da Saúde.

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Raísa, a criada, anunciou um visitante que pretendia ver-me, sem que eu houvesse sido previamente comunicado. Pedi que o fizesse entrar. Vi, pelos grandes vidros da sala superior, um homem de andar tranquilo, talvez de minha mesma idade, aparentemente cortês, vista a maneira como movia a cabeça e por alguns outros gestos e meneios de agradecimento à criada que o vinha conduzindo jardim acima.

Quando nos vimos de frente, fui tomado por uma alegria muito singular, associada à emoção da surpresa, logo que o reconheci.

“Ei! Como é possível? Como me encontrou?”

Um abraço nos uniu fortemente, longamente.

“O mundo hoje não tem mais segredos”, ele disse.

Encontrava-se ali, em minha casa moderna e espaçosa, esse velho e querido amigo, Robinson, desaparecido há tempos, desaparecidos nós dois, um para o outro, enquanto o tempo se deslocava entre chegadas, partidas e naufrágios.

“Robinson, mal acredito que o estou vendo hoje! Isso merece uma comemoração.”

Ele descartou, com um gesto, qualquer ideia semelhante. Não queria fazer alarde de sua vinda – e não parecia tão feliz quanto eu. Mostrava-se silencioso, poucas palavras, de uma calma doentia, o que não fazia crer, ainda assim, que estivesse se escondendo ou fugindo de alguma coisa.

“Só vim até aqui. Só isso. Afinal, fomos amigos por algum tempo.”

“Claro, mas é um prazer. Você foi meu melhor amigo”, lembrei. “Fomos irmãos.”

“Por algum tempo. Eu nem estava na cidade quando você se casou pela primeira vez, lembra?”

“Ora, não tem importância, eu compreendo. Antes de tudo isso, éramos jovens, solteiros, não tínhamos muito dinheiro naquela época, lembra?”, pontuei bem-humorado, com a sensação de poder dividir com ele nossos possíveis sucessos posteriores. “Mesmo assim, nós nos divertíamos muito. Está lembrado?”

“Sim, muito”, ele repetiu pensativo, enquanto olhava a sala ao redor. “Sim, nós éramos jovens. Sim, tínhamos amigos…”

“Mas, claro, isso é natural. Os nossos amigos também se dispersaram. Enfim, você se casou?”

“Se me casei? Não importa. Não importa mais.”

Num instante tive pena dele: do tom melancólico que assumiu ao referir-se a esse domínio mágico e duramente real, de fronteiras traçadas por nós mesmos, ao casamento, a uma parceria, o que poderia ter sido pretexto de alguma felicidade ou mesmo de motivação, ainda que não se houvesse estendido por muito tempo. Não há muito que fazer quanto a isso. Mesmo o acaso de termos nos conhecido, Robinson e eu, porque as vidas são casuais, mesmo interiormente, e não há quem não tenha vivido, de alguma maneira, situações de crise, sentimentos enigmáticos e desvios indesejáveis. Por vezes não sabemos por que fazemos algo. Mas um dia alguém descobre por nós. E quantos, como eu, não teriam buscado respostas para a vida? – o que afinal significa buscar respostas para si mesmos. Tenho a sorte de reter muitas lembranças, o que tanto me serviu quanto me prejudicou. Ansiava por dividi-las com ele.

“Você foi bem sucedido. Veja só esta casa. É linda.”

“Eu trabalhei muito, Robinson. Precisamos trabalhar muito para construir a nós mesmos. Nossa casa. Nossa pessoa.”

“Também trabalhei muito”, disse Robinson observando cada objeto ao redor. “Estudei em boa faculdade, você sabe. Fiz carreira em três grandes empresas. Vivi sete anos em Manhattan. Mas acho que só não soube construir minha casa. Eu digo, minha vida.”

“Sete anos em Manhattan? Deve ter sido uma experiência magnífica”, falei entusiasmado, tentando arrancar-lhe um sorriso.

Eu estava lá quando tudo aconteceu”, declarou abatido.

“Sim, mas… Falo de você. De sua carreira, de suas conquistas. E então, por que voltou? Como foi isso de trabalhar em outro país?”

“Também trabalhei muito”, repetiu como se não me ouvisse. “Mas não soube…”

Raísa surgiu com uma bandeja, chá e biscoitos. Ora, eu nem havia perguntado a ele se gostaria de uma bebida ou algo assim. Ele agradeceu, não queria nada. Estranhamente, queria conhecer o resto da casa. Parecia lançar olhares para além dos dois corredores de acesso à sala maior, além de um jardim de inverno que anuncia uma curva em direção a outros aposentos.

“Claro, venha sim, vamos por aqui.”

Minha casa era ampla quando devia ser. Justa, quando devia ser. Estreita e aconchegante quando devia ser. Eu havia construído todas as variantes, todos os ambientes, para todos os momentos. Eu havia construído tudo.

“Veja só esta casa…”, Robinson sempre em voz baixa, admirando tudo.

Deteve-se à porta de um dos quartos de hóspedes, que permanecia assim, arrumado há dias, sem ter sido usado por alguém. Passou calmamente pela porta. Sentou-se na cama. Deitou-se sem dizer nada, cobriu-se.

“Robinson, será que você… Você gostaria de descansar um pouco?”, perguntei sentindo-me tolo, apenas confirmando seu desejo mais evidente. Ele se mostrava cansado, anêmico, sem energias – daí, talvez, por que falasse pouco. Pareceu-me ter adormecido quase imediatamente.

Raísa, um pouco atrás de mim, tendo acompanhado tudo, passou-me à frente, aproximando-se da cama, dirigiu-se a ele: “Se o senhor quiser, posso fechar as cortinas e ligar o…”

Ela não só interrompeu-se como já vinha diminuindo seu volume de voz. Observou nosso inesperado hóspede. Pôs a mão em sua testa. Inclinou-se, chegando bem perto do rosto dele o seu rosto.

“Ele não vive mais”, disse ela num tom neutro que me incomodou.

“O quê? Como é possível?”, exclamei, apressando-me a tocar a testa de meu amigo, o pescoço, os pulsos. Robinson estava frio. De fato, não respirava.

“Robinson”, chamei desconsolado, como se o desaprovasse.

Raísa olhou-me de frente: “O senhor não percebe? Ele veio até aqui só para isso. Veio só para morrer em sua casa. Ele não vai acordar mais.”

Considerei sua vida que eu não conhecia. Suas conquistas, sua carreira, o pouco que ele havia mencionado. Como podia alguém acabar triste após tudo aquilo? Como podia qualquer coisa tê-lo vencido? Afinal, sete anos em Manhattan…

Inconsistência dos retratos

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Pai a casa torna

Imagem: Mounira Stott. Nevoeiro em Manhattan. 2004.