Mirna e a viking de tranças

A jovem viking participava de uma ilustração apenas. Sua história não continuava.
Seu drama era vivido ali, entre duas páginas abertas.

A minha amiga Ana Carolina

De bruços na cama, eu acompanhava os esforços de Mirna das Selvas em suas aventuras solitárias, atento às expressões de seu rosto, tantas vezes ligado por uma trilha de pequenos globos brancos a um balão-nuvem no qual se organizavam espaços e curiosos sinais. Olhos cintilantes perdidos no horizonte das grandes clareiras. Brincos, braceletes de couro. Armas rudimentares. Cabelos negros, longos e revoltos. Agachando-se por alguma estranha pegada. Eu lia em seu rosto suas decisões. E seus silêncios. Ao contrário dos heróis que abatiam feras nos quadrinhos, Mirna fora ferida por um leão, e só pudera salvar-se graças a uma árvore adequada à sua agilidade mas imprópria aos felinos de grande porte. A fera rasgara-lhe as peças de roupa, que eram uma blusa sem mangas, fechada entre os seios por cordões, e uma saia curta de bainha desfiada, com isso tornando-a seminua. Isso aguçou minha atenção, subitamente desviada da aventura que seguia. Uma das alças desfizera-se, caindo pelo braço arranhado até o cotovelo e ampliando a linha que lhe abria parte de um seio a meus olhos mudos. Mirna sofria a fome e o cansaço. Mais embaraçava-se em arbustos ou resvalava entre rochedos, mais se destroçavam suas roupas de tecido rústico, mais sangravam seus ombros e seus pés, mais eu a admirava – e me surpreendia feliz. Verificava as expressões de dor em seus olhos. Também de medo e derrota, apesar de sua obstinação.

A jovem viking participava de uma ilustração apenas. Sua história não continuava. Seu drama era vivido ali, entre duas páginas abertas. Sobre as águas do majestoso fiorde, a barcaça funerária ardia em cores intensas. Outras pessoas enlutadas assistiam solenemente ao rito. Só a loira de tranças, num vestido negro que lhe revelava a forma dos seios e a sugestão das nádegas, soluçava de joelhos, amparada por um arranjo de rochas que a fazia curvar-se de lado e ocultar o rosto entre os braços. Vê-la chorando despertava-me uma impressão não de volúpia, mas de amor. Sabia que ela precisava de mim. Quase podia tocar-lhe o ombro, beijar-lhe a fronte. Achava extraordinário que uma escandinava de tranças também chorasse, como as de seu povo choravam seus mortos, um morto. Ao fundo, o incêndio sobre as águas, um espetáculo de labaredas que era a própria metáfora de suas emoções sobre lágrimas, como consumindo na mesma proporção seu pequeno coração sem consolo. Eu a observava detidamente. Como podia uma jovem tão atraente chorar daquela maneira? Lamentaria a perda? O inevitável? Seu próprio pranto reprimido durante anos, entre longos invernos? O texto sob a ilustração talvez esclarecesse tudo. Mas harmonizava-se com os gravetos e com as estranhas ramagens que se desgarravam da floresta, a mata escura onde também se fragmentavam os caracteres a um menino que ainda não os pode decifrar.

Os ferimentos e as expressões de dor que atravessavam o belo rosto de Mirna das Selvas, tanto quanto as lágrimas que punham de joelhos a jovem nórdica, causavam-me lentas ereções. Os livros deram-me conhecer, desconsiderando-se experiências com que me defrontava antes que a vida as trouxesse, minhas primeiras sensações conscientes entre impressões de beleza física e intensa atração por semelhantes de outro sexo. Deram-me primeiro a piedade e o sadismo, o desejo de possuir e consolar, o leão que a uma feria, o morto que à outra fazia sofrer, assim as relações de brutalidade e delicadeza com que num homem a prepotência e o amor se confundem. Abriram-me a seminudez de Mirna e o luto da loira escandinava, as primeiras mulheres que amei.

Lisette Maris em seu endereço de inverno

6. Relâmpagos – próximo

4. Última chance com incêndios – anterior

Guia de leitura

Leia mais contos com mulheres: Sua canção de enganar

Ilustração de Frank Frazetta. Savage Pellucidar. 1962.

O misterioso Paul Celan

A obra de Paul Celan não foi encerrada pela mão de uma sombra.
Sua poesia nos conta que sempre é tempo de interpretá-la.
Rio Sena, paris
Rio Sena, Paris

Num dia de abril de 1970, um homem de 50 anos suicidou-se atirando-se ao rio Sena, em Paris. O mundo perdia então um dos maiores poetas de expressão alemã do pós-guerra (leia-se Segunda Guerra Mundial, que as guerras não acabaram ainda).

Romeno de nascimento, Paul Antschel, na versão germânica, ou Ancel (cuja inversão de sílabas usou para definir seu pseudônimo), sobreviveu ao Holocausto. Mas nos campos de extermínio nazistas perdeu todos os outros a quem amava. Essa desgraça, como naturalmente se pode deduzir, marcou para sempre sua vida e sua obra.

Paul criava neologismos, o que sempre dificulta um pouco as traduções. Focos de luz solar ou sol em pedaços são, para ele, fiapossóis (fadensonne) entre as cuidadosas traduções de Flávio R. Köthe.

Fiapossóis
Sobre o grisnegro ermo
Um pinho –
alto pensamento
agarra o tomluz: ainda
há canções a cantar além dos
homens.

Talvez pela sonoridade e estética que disponibiliza aos que escrevem, além de rica em possibilidades, a língua alemã foi escolhida por autores significativos de diversas nacionalidades para a realização de suas obras. Isso não era incomum. Até nosso Guimarães Rosa apresenta influências dos encantos dessa língua, provavelmente fortalecidas durante o período em que morou em Hamburgo. Escritores hoje clássicos, como o tcheco Franz Kafka, criador do inquietante (e sensível, poucos se lembram disso) A metamorfose, ou o búlgaro Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura, optaram pelo alemão como forma de expressão de sua literatura. Na verdade, a mãe de Paul Celan era uma admiradora e leitora assídua de autores alemães e insistiu para que fosse essa a língua de sua família romena quando ele ainda era um menino.

Paul não trabalha com imagens explícitas, mas com sugestões que abrem opções interpretativas. Isso confere a seus versos uma parcela de enigma que não se transpõe. Também a sensação, à primeira vista, de que não estamos lendo exatamente o que estamos lendo.

Em vão desenhas corações na janela:
o conde do silêncio
conclama os soldados no pátio do castelo.

Será que os mais sensíveis conseguiriam evitar as guerras? Será que é isso mesmo que o poeta nos sugere? Será que é essa a única interpretação possível? Certamente não. Deve haver outras dentro de cada leitor, aguardando decifrações:

Abraçados à janela, as pessoas nos olham da rua:
É tempo de saberem!
É tempo de a pedra querer florescer,
tempo de o coração pulsar pelo que se agita.
É tempo de o tempo ser.

Com a mesma estratégia da repetição, Paul consegue efeitos surpreendentes em suas imagens – por vezes de tirar o sono aos leitores mais atentos, como neste trecho.

Sombria noite.
Sombria noite com prata de sino e oliveiras.
Sombria noite com a pedra que trouxeste.
Sombria noite com a pedra.

Ou neste, do mesmo poema.

Urna de barro.
Urna de barro que a mão de um oleiro concresceu.
Urna de barro que a mão de uma sombra encerrou para sempre.
Urna de barro com o selo da sombra.

Paul nunca viveu na Alemanha. Mas para completar a dimensão trágica que delineou sua vida, entre as pedras que o destino lhe trouxera, escreveu primorosamente na língua daqueles que um dia assassinaram seus pais. A obra de Paul Celan não foi encerrada pela mão de uma sombra. Sua poesia nos conta que sempre é tempo de interpretá-la. Que o tempo não passou como pensávamos. Que os horrores não devem ser esquecidos. Que nosso coração não deve fugir. Que sempre é tempo. Que ainda é tempo.

Nota: somente os dois primeiros fragmentos citados foram extraídos da obra traduzida de Köthe.

Leia mais sobre poesia e outras artes: Käthe Kollwitz

De olhos claros e escuros

A sensibilidade, por Yann Tiersen

É comum ouvirmos que hoje em dia não há mais compositores como antigamente.
Tiersen, compositor francês tão vivo quanto nós, está entre os raros talentos de nosso tempo.

Beethoven muitas vezes é citado como O gênio da música, como se não houvesse um Schubert ou um J. S. Bach, por exemplo. Penso que temos de nos libertar desses rótulos, pois essas centralizações nos fazem perder a chance de conhecer outros talentos – e são muitos, somente no universo da música erudita.

Refere-se a Beethoven o personagem Coelho, em Os últimos dias de agosto: 

Cena de “Minha amada imortal”, com Gary Oldman

 

“A música parecia esgotada. Bach e Mozart foram deuses. Crianças-prodígios, nasceram gênios. Beethoven foi muito maior. Era um homem. E tornou-se um deus.”

.

 

Exageros à parte (pois esse personagem é mesmo de extremos), ao menos valoriza-se aí o esforço pessoal do criador, do qual muitos se esquecem, pois também classificam tais qualidades usando palavras e expressões como talento inato, gênio e dom. Isso nos faz crer que eles simplesmente nasceram prontos, com ouvidos já programados para a música. É claro que temos diferenças, inclusive genéticas, quando se trata de características pessoais, pois podemos constatar que uns têm mais dificuldade que outros para resolver um problema ou para apreciar um trabalho artístico. Mas atribuir tudo à sorte de se nascer gênio não basta. Se é assim, vamos então deixar de promover os gênios, que eles não precisam de nosso apoio.

É comum ouvirmos que hoje em dia não há mais compositores como antigamente. Ora, claro que não, os tempos mudaram, a sociedade mudou. Se Mozart ou Haydn vivessem hoje, não fariam música nos padrões do Neoclassicismo. E talvez estivessem compondo trilhas para o cinema, por que não? Sem querer comparar um artista a outro, porque isso pode ser apenas perda de tempo, precisamos conhecer melhor também os autores contemporâneos, não menos talentosos e criativos. Um desses representantes da modernidade é o músico Yann Tiersen, cuja obra conheci por meio do cinema.

https://www.youtube.com/watch?v=LO209GwYCr8

Tiersen, compositor francês tão vivo quanto nós, também não é único, mas sem dúvida já se encontra situado entre os músicos contemporâneos mais destacados. Ele estrutura seu trabalho a partir de temas simples, minimalistas e, podem apostar, muito envolventes. É autor da trilha sonora de filmes como O fabuloso destino de Amélie Poulain e Adeus, Lênin! – esse último, aliás, de uma sensibilidade rara, ao tratar de um tema histórico tão amplo como a Queda do Muro de Berlim. Vale a pena conferir a música de Yann Tiersen. E apenas como exercício pessoal, tente não se envolver.

https://www.youtube.com/watch?v=BTLCjq7Zwio&list=PLB2BDA42D6048CDD8

Leia mais sobre música e arte: O coração de Nyman

Gotas, goteiras, chá com bolinhos

Eu morri pela beleza – a arte de Emily Dickinson

Entre suas pérolas (ou pétalas de flor, como talvez preferisse, que ela nada tinha a ver com o mar), encontrei este texto a um tempo sombrio e carinhoso.

A poeta por volta de 1846
A poeta por volta de 1846

Emily Dickinson, poeta norte-americana do século 19, hoje muito conhecida e celebrada, conseguiu publicar apenas dez poemas em vida. Mesmo assim, sob pseudônimo, anonimamente. Viveu em uma pequena cidade do interior e nas raras vezes em que saiu de lá foi por razões de saúde. Higginson, um crítico literário da época, não gostou do que leu e a desaconselhou a publicar seus versos. Assim, praticamente toda a sua obra é póstuma – que pena, Mr. Higginson.

Sim, a arte de Emily, a arte dos inéditos. Há outros casos curiosos de autores que não conseguiram publicar seus textos em vida. Talvez o mais conhecido para nós, de língua portuguesa, seja o poeta Fernando Pessoa, que publicou seu poema Mensagem por ter sido classificado em um concurso literário – ele ficou em segundo lugar, perdendo para Vasco Reis. Conhece?

Perto disso, estão aqueles livros que tiveram o mínimo de repercussão quando publicados e, mais tarde, tornaram-se alvo de contínuas reedições, sob a chancela de inúmeras editoras. Isso aconteceu com o nosso Augusto dos Anjos e seu único volume de poemas, chamado Eu. Ele pagou de seu próprio bolso, aos 28 anos, essa realização modesta e imperceptível, quase invisível, numa época em que os meios de divulgação eram tão precários ou, no mínimo, custavam bem mais caro do que aqueles que nos são franqueados hoje. Augusto dos Anjos morreu aos 30 anos e não pôde presenciar seu reconhecimento como autor, que se deu ao longo de todo o século 20. Hoje ele é citado e repetidamente elogiado por sua singularidade e por sua ousadia. Mas as coisas não foram bem assim para ele nos anos seguintes à publicação de seus versos: quando apresentados ao ilustre poeta Olavo Bilac, este declarou, após ouvir de seu interlocutor que o jovem já havia falecido: “Era esse o poeta? Ah!, então, fez bem em morrer. Não se perdeu grande coisa.” Que pena, Sr. Bilac. Mesmo com sua visão limitada da poesia, não pôde impedir que a obra dele se encontrasse, um dia, ao lado da sua nas mesmas estantes das livrarias.

Se há algum lado bom nisso, talvez seja que os inéditos não tiveram de se render ao gosto do público ou à demanda do mercado livreiro, e puderam construir sua obra de acordo com sua tendência pessoal. Emily Dickinson, Fernando Pessoa e Augusto dos Anjos têm em comum a inovação, o rompimento com formas estéticas características de seu tempo, embora nem sempre seja esse o motivo do ineditismo.

Casa de Emily Dickinson em Amherst

Que pena, Mr. Higginson. Mas o tempo passou. E sua jovem interiorana rejeitada, essa tal Emily, chegou até nós. Entre suas pérolas (ou pétalas de flor, como talvez preferisse, que ela nada tinha a ver com o mar), encontrei este texto a um tempo sombrio e carinhoso – de qualquer forma sempre belo, como é típico dessa artista que pensava, vivia e projetava poesia entre as sombras de suas solidões, de seu anonimato.

Eu morri pela beleza…

Eu morri pela beleza,
e mal havia sido sepultada,
alguém que morrera pela verdade
era deixado no jazigo ao meu lado.

Perguntou-me com carinho por que eu havia fracassado.
“Pela beleza”, respondi.
“E eu, pela verdade, o que é a mesma coisa;
somos como irmãos”, ele disse.

E assim, como parentes que uma noite se encontram,
ficamos conversando entre os jazigos
até que o musgo alcançou os nossos lábios
e cobriu os nossos nomes.

I died for beauty… Tradução do autor.

Leia mais sobre o tema: O recurso da relva

Rapsódia em cinza

Carpe diem

Cena do filme Sociedade dos Poetas Mortos , de Peter Weir.

É fácil falar aos amigos: aproveite o dia, não desperdice seu tempo, pense um pouco mais em você – conselhos que rotineiramente repassamos via internet, imaginando salvar o dia alheio, mas que nós mesmos não conseguimos vivenciar a contento, exceto por uns poucos momentos de lucidez ou… sorte. É difícil não acreditar no futuro. Por isso lutamos para projetar o que sonhamos ser o melhor para alguém que nem conhecemos ainda, que ainda não nasceu. A expressão carpe diem, extraída do último verso de um antigo poema de Horácio (“Carpe diem, quam minimum credula póstero.”), aparentemente vem sendo revisitada há séculos, tentando nos lembrar, ao menos, de que o tempo não fará contas do que deixarmos de viver. Apresentei este poema, entre outros, em uma palestra intitulada Amostras de solidão para ler em voz alta. Estes versos cabem em seu próximo minuto. Aproveite cada segundo. Leia sem pressa.

Não pergunte, Leuconoe – é errado querer saber –
que fim os deuses reservam para mim ou para você.
Também não se apegue aos exatos cálculos babilônios.
É melhor sofrer o que quer que seja
do que saber se Júpiter determinou ou não invernos futuros
ou se faz deste o nosso último, este que impõe a força

do mar Tirrênio contra as rochas.
Seja sábio, prove o vinho, e corte suas longas expectativas
para adequar-se a pequenos limites.
Enquanto conversamos, o tempo já terá voado.
Aproveite o dia, creia o menos possível no futuro.
.

– Ode n. 11, Primeiro livro das odes, publicado em 23 a.C. Tradução do autor.

Leia mais sobre poesia: O misterioso Paul Celan

Eu morri pela beleza – a arte de Emily Dickinson

O homem do violão azul

Este fragmento de poema aparentemente inofensivo de Wallace Stevens dá o que pensar sobre as escolhas dos artistas e as condições da arte. O músico Tom Zé encantou-se ao conhecê-lo. Outros poemas desse norte-americano costumam ser algo enigmáticos, estranhos aos nossos olhos viciados em praticidade e treinados a assimilar conceitos transmitidos pelo ambiente acadêmico. Mas observem: o dia é verde. O violão é azul. E as pessoas….

Homem curvado sobre violão,
como se fosse foice. Dia verde.
Disseram:  “É azul teu violão,
não tocas as coisas tais como são.”.
E o homem disse: “As coisas tais como são
se modificam sobre o violão.”.
E eles disseram: “Toca uma canção
que esteja além de nós, mas que também seja nós.
 
No violão azul, toca a canção

das coisas justamente como são.”.  

The man with the blue guitar, 1937. Tradução de Paulo Henriques Britto.

 Leia mais poemas e sobre poesia: Eu morri pela beleza – a arte de Emily Dickinson

Rapsódia em cinza