Carpe diem

Cena do filme Sociedade dos Poetas Mortos , de Peter Weir.

É fácil falar aos amigos: aproveite o dia, não desperdice seu tempo, pense um pouco mais em você – conselhos que rotineiramente repassamos via internet, imaginando salvar o dia alheio, mas que nós mesmos não conseguimos vivenciar a contento, exceto por uns poucos momentos de lucidez ou… sorte. É difícil não acreditar no futuro. Por isso lutamos para projetar o que sonhamos ser o melhor para alguém que nem conhecemos ainda, que ainda não nasceu. A expressão carpe diem, extraída do último verso de um antigo poema de Horácio (“Carpe diem, quam minimum credula póstero.”), aparentemente vem sendo revisitada há séculos, tentando nos lembrar, ao menos, de que o tempo não fará contas do que deixarmos de viver. Apresentei este poema, entre outros, em uma palestra intitulada Amostras de solidão para ler em voz alta. Estes versos cabem em seu próximo minuto. Aproveite cada segundo. Leia sem pressa.

Não pergunte, Leuconoe – é errado querer saber –
que fim os deuses reservam para mim ou para você.
Também não se apegue aos exatos cálculos babilônios.
É melhor sofrer o que quer que seja
do que saber se Júpiter determinou ou não invernos futuros
ou se faz deste o nosso último, este que impõe a força

do mar Tirrênio contra as rochas.
Seja sábio, prove o vinho, e corte suas longas expectativas
para adequar-se a pequenos limites.
Enquanto conversamos, o tempo já terá voado.
Aproveite o dia, creia o menos possível no futuro.
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– Ode n. 11, Primeiro livro das odes, publicado em 23 a.C. Tradução do autor.

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Eu morri pela beleza – a arte de Emily Dickinson

O homem do violão azul

Este fragmento de poema aparentemente inofensivo de Wallace Stevens dá o que pensar sobre as escolhas dos artistas e as condições da arte. O músico Tom Zé encantou-se ao conhecê-lo. Outros poemas desse norte-americano costumam ser algo enigmáticos, estranhos aos nossos olhos viciados em praticidade e treinados a assimilar conceitos transmitidos pelo ambiente acadêmico. Mas observem: o dia é verde. O violão é azul. E as pessoas….

Homem curvado sobre violão,
como se fosse foice. Dia verde.
Disseram:  “É azul teu violão,
não tocas as coisas tais como são.”.
E o homem disse: “As coisas tais como são
se modificam sobre o violão.”.
E eles disseram: “Toca uma canção
que esteja além de nós, mas que também seja nós.
 
No violão azul, toca a canção

das coisas justamente como são.”.  

The man with the blue guitar, 1937. Tradução de Paulo Henriques Britto.

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Rapsódia em cinza

P.S.: Post scriptum (Pós-Escrita)

No século 21 a.C. as terras dos sumérios foram invadidas pelos elamitas, o que causou o declínio dos primeiros. E o que temos com isso? É que os sumérios foram os inventores da escrita, e você não estaria lendo isto agora, no século 21 d.C., sem esse primeiro grande passo. As tábuas com os sinais chamados cuneiformes, os primeiros rudimentos da escrita, datam de cerca de 6000 anos atrás e marcam o fim do Neolítico. Chamamos tudo, até aí, de Pré-História. Mas, a rigor, já acontecia a História. O que faltava eram os registros escritos. Por isso penso às vezes que esse período deveria ser chamado Pré-Escrita e não Pré-História.

Carl Sagan, em sua obra magistral, que inclui diversos livros esclarecedores sobre o mundo em que vivemos, escreveu em um de seus trabalhos mais conhecidos, Cosmos: “Por meio dos livros, ouvimos a voz de outra pessoa, talvez de uma época e de um lugar distante, talvez morta há milhares de anos, que fala, clara e silenciosamente, dentro de nossa cabeça, direto para nós. A escrita é talvez a maior das invenções humanas.”

Para Borges, “a literatura não é outra coisa que um sonho dirigido. Cada linguagem é uma tradição, cada palavra um símbolo compartilhado.” E Osman Lins, a respeito de uma linguagem específica, nos brinda com este belo texto, inserido em uma de suas mais brilhantes narrativas, “Um ponto no círculo”: “Numerosos insetos, aves, peixes e quadrúpedes, há cinco mil anos, povoavam o Nilo e suas margens. A escrita que os recolheu e os transmudou, prendendo-os em exigentes limites, tão contrários a sua índole mutável, não pretendia que voassem, ou nadassem, ou cantassem, ou dessem flores na pedra e nos papiros. Apenas, despojando-os do que era necessário, reduziu-os a luminosas sínteses. Este era o seu objetivo. Se conheciam, os egípcios, o júbilo de escrever, é que haviam encontrado – raro evento – o equilíbrio entre a vida e o rigor, entre a desordem e a geometria.”

Daí que todos os que escrevem vivem a experiência de contar suas histórias de alguma forma, entre os prazeres dos achados semânticos ou a agonia dos impasses, um silêncio suspenso pela palavra que misteriosamente os abandonou. Isso deve estar acontecendo desde os escribas das argilas sumérias até hoje, diante de milhões de teclados, no mundo inteiro.

Não me lembro da motivação que tive para escrever (talhar no papel) este conto que segue, mas lembro-me de alguma forte necessidade de registro, que é o próprio tema do texto e o procedimento de contá-lo. Que é também o que nos une, a todos os escribas do mundo.

* * *

Braile contra a luz

Os professores repreendiam-me, estranhavam que tanto eu pressionasse o lápis sobre o papel. Mais tarde, a caneta. Nunca soube escrever de outra maneira, e não me desenvolvi. O adolescente não podia evitar que os tipos datilografados perfurassem o papel – e os acentos, aspas, vírgulas e interrogações remetiam ao braile, não sem alguma alusão oportuna, minhas dúvidas e escuridão. Não me ocorre, mesmo hoje, a razão pela qual necessito firmar minha escrita, meu código de forças, minha ativa mão, meus dínamos em meio a um mundo insólito e perpassado pela indiferença, por mais que eu avance ferindo os papéis. O texto é meu objeto, meu homem de argila. E nenhum papel foi jamais suficiente para mim.

O registro, resto de uma verdade que me atraísse, não era senão a sobra, a perda. No último degrau do pátio, caderno sobre os joelhos, sozinho ante o muro em cuja base os brotos de hera buscam firmar-se, o menino intui que as palavras se transformam, que se modificam conforme os olhos de quem as considera, que não podem ser transcritas. Que viajam. E se deslocam entre os dias e os gestos, e se dissolvem para germinar, desaparecem como os antigos idiomas e os povos reciclados pela terra. Não existe o ponto, nós o inventamos. Para que a frase se detenha. E o texto não se confunda com o universo ou com a sombra.

“Bom dia. Tão cedo no portão de casa?”

“Bom dia. Que dia é hoje?”

“Quarta-feira.”

“E como se chama esta manhã?”

A empregada ria de minhas perguntas, chamava-me bichinho complicado. Eu lhe perguntava o nome das coisas, ela aceitava a brincadeira. Bolsa, vestido. Dentes? Sorriso, que significa ao mesmo tempo dentes, lábios e manhã. A moça subia os degraus do alpendre, deixava meu campo de visão, levando com ela seu próprio nome, seus sonhos e os nomes de seus sonhos.

Quando eu despertava, pensava em meu nome como reafirmando que ainda era o mesmo após uma noite inteira de sono. Admirava-me que as palavras estivessem presas às coisas e não caíssem como o ramo seco de uma árvore ou a casca de um ferimento em vias de cicatrização. Que um vento forte não as embaralhasse e essa árvore não passasse a se chamar poste ou cavalo. Um cão, menino. Uma casa, ratoeira. Um homem, pedra. Queria saber mais da porta de madeira cujas formas pareciam observar-me: que nome teriam cada uma daquelas nódoas, as estrias e os anéis concêntricos? Por pouco suspeitava que, se descobrisse a palavra-chave, desvendaria o segredo da seiva ressecada em rugas, de sua gravidade e austeridade, do passado que não me revelavam as grandes árvores e a memória velada das florestas. Eu não tinha esse poder. Mas silenciava diante das portas, para alcançar ler o que cada uma trazia em seu próprio idioma, sua versão de fóssil.

De pé, junto ao último degrau. O muro coberto pela hera é o mesmo muro? O que são as palavras? O nome dos mortos continua nas trevas? Eu, que há tanto me alimentava de perguntas e palavras, desejava saber agora onde estaria o texto final, o relevo em pedra, a inscrição no milenar sepulcro que resumisse magicamente o que sempre eu buscara em vão, como quando acreditava poder encontrar-me com Deus e desvendar seu verdadeiro nome, a palavra que infinitamente lhe coubesse. Mas as palavras, como Deus, só existem em nossa imaginação, nossa invenção, nosso abismo. E meu homem de argila arrasta-se ainda na penumbra, na obscuridade, nos papéis insuficientes.

Caderno sobre os joelhos, caneta acrescentando relevos ao papel ordinário. Sinal do intervalo. E os olhos, involuntariamente, dão com os brotos de hera por realizar-se, antes que o menino se levante e se misture à correria das crianças rumo às salas de aula, onde os professores certamente haverão de estranhar que assim ele pressione a caneta sobre sua única chance.

Lisette Maris em seu endereço de nverno

16. O telefone pela manhã – próximo

14. Hoje, acabaram-se as xícaras – anterior

Guia de leitura

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O recurso da relva

Preço justo

O que mais me admira no espetáculo do mundo, demarcado por longos estios e chuvas devastadoras, é esse inconcebível potencial de fugacidade e aniquilação, um sol escuro, nem benigno nem maligno, que a um tempo extingue e renova tudo o que existe, preservando a vida à custa de exterminar justamente os que vivem, com isso propondo que tudo continue – sob o preço de que nada permaneça.

A conspiração dos felizes

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Chegadas partidas

Imagem: Tom Thomson. Céu ao entardecer. 1915.

O perigo de uma única história

O nome é estranho para nós: Chimamanda Adichie. Somos brasileiros, falamos português, nossa cultura vem dos navegadores europeus e da hegemonia dos anglo-saxões, por isso preferimos o rei Artur ao Aladim, por isso somos cristãos e não muçulmanos. Isso é parte do tema abordado por essa escritora nigeriana – a monocultura, o fato de não conhecermos o bastante sobre outras culturas, com isso pactuando com nossa própria ideologia, quase sempre ignorando outros e diferentes pontos de vista. É sempre um prazer ouvir uma pessoa lúcida, inteligente e amável como Chimamanda Adichie, vale a pena conferir.

(Clique em View Subtitles para assistir legendado.)

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Não me venham falar da lua

Definições possíveis

É muito difícil encontrar uma definição precisa e final para algo tão sutil e subjetivo quanto a arte. Mas estas duas definições particularmente me atraem.

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As obras de arte são uma estrela que antecipa e um canto de alento sobre o caminho que conduz o homem através das trevas.

Ernst Bloch

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A arte não é um espelho que mostra a realidade como ela é. A arte mostra-nos um mundo refletido por uma mente incomum que impõe um estilo no que retrata.

– Walter Kaufmann

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A sensibilidade, por Yann Tiersen