Caminhavam mais lentamente…

Logo pela manhã, a visão de um belo corpo feminino.
E os trens funcionando perfeitamente bem.

Frederick Usher de Voll. Praça Madison.Caminhavam mais lentamente, mãos nos bolsos, cada um, a seu modo, lutando contra a pressa e o hábito, uma resistência consciente e difícil.

“De onde vem sua coragem? Você já pensou nisso?”

“Não preciso de muita coragem”, Estela com estranha naturalidade.

“Coragem não para os grandes obstáculos ou eventuais tragédias”, Júlio estreitando os olhos contra o vento. “Coragem para atravessar um dia qualquer, sabe, sem chuva nem contratempos.”

“Estou ouvindo. Continua.”

“Mesmo com dinheiro a receber. Nenhum problema de saúde. Logo pela manhã, a visão de um belo corpo feminino. E os trens funcionando perfeitamente bem.

“É só alguma depressão. Mas não precisa se impressionar muito. Qualquer terapeuta recém-formado pode resolver isso.”

“Depressão, saturação, não sei bem. Aos poucos, perdi o gosto por coisas que antes me atraíam, mas acho que isso era necessário, necessário que acontecesse, digo. Quando vejo numa livraria as edições nas vitrines, nas estantes de parede e nas giratórias, penso: haverá algo que não tenha ainda sido dito?

“Quem sabe? Por que me diz isso?”

“Sinto o mesmo com relação aos cartazes de cinema, os discos…”

“É estranho que você procure sempre o que não quer encontrar. Será que o que você procura existe?”

“Se o que eu procuro existe? Pensando assim… Não sei se o que eu procuro existe. Mas minha procura existe. Também não sei se saber disso ajuda. Parece confuso?”

“Não muito. Que estranho… Você será tão estranho como parece?”

“Acho todos estranhos.”

“Sei. Mas isso não passa de um critério seu, não é? Você pode ver como quiser. Estranhos ou não, todos nós temos riquezas interiores, potenciais e… Não acha?”

Júlio concordou, por comodidade. Apalpou os cigarros no bolso.

“Às vezes me preocupa”, ele como se olhasse muito à frente, “que sinais assim, de exaustão e desinteresse, ocorram com tanta frequência ainda na minha idade. Mas só às vezes. Digo, só às vezes me preocupa.”

“Que idade?”

“Vinte e cinco, quase. Não sei se isso conta. Há pessoas que não se entediam nunca, o que é um grande mistério pra mim.

“Você parou de estudar?”

“E não vou voltar, garanto. Você, ainda estuda?”

“Não, mas penso em voltar. Mesmo na minha idade. Acho que isso não conta. Estou bem perto dos trinta, sabia?”

“Sério? Pensei que estivesse mais perto dos vinte.”

“Você sempre se engana.”

.

Trecho do romance Os últimos dias de agosto, quando os personagens Júlio e Estela, entre seus primeiros encontros, começam a se conhecer, ao seguirem juntos para o trabalho. Estela é uma personagem da manhã, em contraposição à personagem Vanda, que é noturna.

4. Quita, a estrela distorcida. Bruno, mal resgatado – sequência

2. Páginas claras, penumbra – anterior

Guia de leitura

Imagem: Frederick Usher de Voll. Praça Madison.

As novas invasões inglesas

Os brasileiros não entendem que Shakespeare seja um herói nacional, pois ele não praticava nenhum esporte.
Nem que as irmãs Brontë tenham tido tanto destaque ao longo dos tempos, afinal não eram tão lindas, além de não se deixarem fotografar sorrindo.

Agora a história é outra. Foi-se o tempo em que a armada britânica ameaçava Nova York com seus canhões de primeira linha. A série literária protagonizada pelo aprendiz de feiticeiro Harry Potter encanta crianças, adolescentes, jovens e até adultos pela ilha afora. Os elementos são sempre os mesmos, resmungam os literatos. Claro, como em toda obra de ficção. Como em tudo, aliás. O que conta é a maneira de compor. A maneira de contar. Enfeitiçar os leitores depende de talento. Muitos se acreditam senhores de tal dom. Poucos o exercem de fato.

Não é coincidência que os britânicos disponham de uma capacidade singular para manipular fantasias. Seu próprio ambiente, a natureza da ilha, que parece desafiá-los entre perigos e belezas, também inspira o desconhecido, o obscuro, aquilo que não se pode ver claramente. Começa em meio ao fog londrino – que no passado incomodou os romanos –, estende-se pelas charnecas, paira sobre os lagos gelados da Escócia, provocando a dúvida, o medo, enfim, a imaginação.

E dessas brumas emergem Avalon, as Terras Médias de Tolkien, o obsessivo senhor dos anéis, mitologias recicladas, temas para a obra da cantora Enya, refilmagens da busca do Graal e de todo o ciclo arturiano, entre elas a primorosa animação dos anos 1960, aqui traduzida como A espada era a lei, agora sim assinada pelos americanos, que já haviam filmado, uma década antes, o polêmico Peter Pan, de James Barrie. Com isso, a América continua sendo invadida pelos britânicos, que ainda hoje são os únicos capazes de tal proeza.

Barrie era escocês, mas as influências são as mesmas. Faz diferença saber que seu irmão mais velho morreu aos 12 anos e que seus pais, não recuperados do trauma, passaram a tratá-lo, a James, como fosse ele o irmão falecido. O que os pobres pais, inconformados, sem saber deflagraram no jovem James Mathew foram os esboços de sua peça mais conhecida, pois a imagem do irmão adolescente acabou fixada para sempre como aquele menino que nunca envelhece.

Uma vez foram osma vez foram os Beatles e os Rolling Stones: pânico na indústria fonográfica, investimentos em novas bandas formadas às pressas, imprensa tendenciosa, até mesmo fraudes como os Monkees. Nada adiantou. Os americanos não conseguem mais combatê-los, e unem-se a eles. Distribuidoras como a Warner, entre as líderes das mídias de entretenimento, rendem-se às sempre renováveis aventuras dos mais modernos, o agente James Bond, os detetives de Agatha Christie ou Sherlock Holmes. Mesmo conhecidos super-heróis americanos dos quadrinhos, como Super-Homem e Batman, não seriam produtos indiretos da ficção científica, como a de H. G. Wells, ou das novelas detetivescas de Arthur Conan Doyle? Quem viu Minority report, de Spielberg, deve ter notado que os videntes (time pre-cogs) se chamavam Arthur, Agatha e Dash (Dashiell Hammet – este, americano), referência aos famosos novelistas policiais, pois as marcas que deixaram na literatura inglesa, como a neblina dos ancoradouros do norte, não se dissipam tão facilmente.

Peter Hunt, especialista em literatura juvenil, não vê nenhuma superioridade no talento dos escritores britânicos, apenas considera que a Grã-Bretanha detém uma maior tradição de publicação de livros do que a maioria dos outros países e que o conceito de infância como condição diferenciada – portanto requerendo uma literatura diferenciada – desenvolveu-se na ilha mais cedo que no resto da Europa. A ninfeta Alice que o diga, em seu jardim vitoriano.

Os brasileiros não entendem que Shakespeare seja um herói nacional, pois ele não praticava nenhum esporte. Nem que as irmãs Brontë tenham tido tanto destaque ao longo dos tempos, afinal não eram tão lindas, além de não se deixarem fotografar sorrindo. Nossa cultura tem uma distância de estrelas de um povo assim, nem é preciso que se diga. Por isso nossos heróis passam, se dissipam, porque é assim mesmo que deve ser. O que é mágico ou inspira a magia é que move as gerações ao encantamento, ao fascínio, ao encontro do conhecimento e consequentemente de sua identidade. E não é apenas por isso que os britânicos são a prova histórica de que um povo faz um país: é porque, enquanto nos rendemos à televisão, eles têm mais garra, escrevem e leem. E não desistem nunca.

Leia mais sobre o tema: Viajando com Peter Pan

Disney nos deixou órfãos

Velhas novidades

Todos nós nascemos para o que não sabemos.
E vivemos pelo que acreditamos. Não é assim que dizem? Afinal, a vida é feita de música e guerra.

De toda parte os caminhos pareciam convergir para conduzi-lo ao que fosse seu centro secreto, o que seria inverter as coisas: seu centro é que buscava realizar-se e se utilizava do que mais lhe acorresse ao redor. Como dizer algo assim a seu amigo Bruno, para quem todos os bares eram apenas território de caça? Fala-se em pré-história, evolução, instinto. Anunciam antropoides com dois e três milhões de anos, entre ramos ancestrais ainda mais antigos. Calcula-se a idade de certos fósseis entre duzentos e duzentos e trinta milhões de anos, com isso fornecendo uma margem de acerto e erro de trinta milhões de anos! Ora, talvez nenhum homem seja capaz de visualizar, abstrair, imaginar de fato o que seja sequer um milhão de anos. Nem um milhão de quilômetros. Nem de cidades. Nem de mulheres. Estamos aqui, agora. Tudo outra vez. Tudo apenas começando. Fósseis do futuro, se algo restar.

Mas levanta-se especialmente aquela jovem, essa fêmea, esta mulher, em meio ao real e ao imaginário, ao espaço delimitado por tudo que configurasse o bar e aos domínios nebulosos por onde se desenvolvessem todas as imagens possíveis. Ela não sorri. E seu olhar parece triste. Mas nada disso importa aos homens que a observam, nada disso diminui seu valor de mercado e seu potencial erótico. Trajes que lhe permitem exibir as pernas, as costas e os braços. E que mais lhe revelam, por supostamente pretenderem esconder, os seios, a cintura e as nádegas. Que trazem, ao fim do conjunto, seu rosto entre cabelos discretos e mínimos adornos tanto quanto conduzem a seus pés redesenhados por calçados tão justos – umas sapatilhas prata – que parecem ter assimilado a sequência de seus movimentos.

“Rapaz!”, Bruno estreitando os olhos como se lhe fustigasse um relâmpago. “De onde saiu isso?”

Isso. Ela. Os muitos olhos masculinos perseguem seus passos por onde vá. Ali está ela, especialmente. Essa que poderia ser outra qualquer, cujo corpo serve de motivo a comentários obscenos e secretas fantasias. Nascida de outra como ela, está viva e respira, mas que novidade, e envelhece sem perceber. Mas, caso seus pais não se houvessem encontrado: existiria? Seria outra pessoa? Ela mesma, de pais diferentes? Outro absurdo, já que se chegou até aqui: talvez um homem?

“Uma noite com ela”, Bruno ainda, “Júlio velho, não há mais nada nesta vida que… que…”

Mal podia continuar. Não sabia terminar o que havia começado. Que valesse a pena, provavelmente.

“Rapaz, quem inventou o salto alto…”, Bruno, mais uma vez, pensando em algo para completar a ideia. Saiu isto: “… está no Céu, sentado à direita de Deus.”

“Ela não está usando salto. Você está bêbado, velho.”

“Foda-se!”, sorriu Bruno, sinceramente feliz.

Júlio, que compartilhava o mesmo gosto por calçados femininos, lembrando que nem sempre pareciam confortáveis para elas: “No céu dos homens, você quer dizer.”

“Seu problema, Júlio velho…”, Bruno desiludido com o efeito que causavam suas blasfêmias improvisadas, “Seu problema, velho, é ficar pensando em tudo, sabe? Pensar desse jeito ou daquele e… Ficar pensando em tudo…”

“Filosofar.”

“Isso.”

Bruno silenciava por um instante, passava a emitir agressivas inalações pela boca toda vez que detectava alguma nova mulher, enquanto, entre um gole e outro, continuava desmontando o saleiro de plástico, quebrando palitinhos sistematicamente e descascando com a unha os rótulos das garrafas.

Por pouco alguém nasce homem ou mulher. Depois, cegamente, passa a vida toda de uma forma ou de outra, em busca de seu oposto, não, oposto nunca foi uma boa palavra. O mundo é povoado por uma infinidade de pessoas que se julgam únicas. E não importa quem. Uma vez nascido, pensará um dia que sim, teria mesmo de ter nascido, sem pensar que poderia ser talvez seu irmão mais velho ou sua irmã mais nova ou, o que também é provável, irmão nenhum. Isso porque todo ser pensante pode dizer: “Eu”. Se fosse outro, veria o mundo por outro ângulo, praticamente o mesmo, e tornaria a dizer: “Eu”.

Júlio imaginava, quase sem querer, encontrar-se de frente àquela mulher encantadora que já desaparecia no caminho tortuoso rumo aos sanitários. Os cabelos dela eram tão castanhos, de tons claros lembrando ferrugem, e seu olhar tão vago, que as folhas das árvores cairiam ao redor, por onde ela passasse, pensando que já teria chegado o outono. Tolamente, como sempre tolos são os resultados de suas cenas inventadas, imaginou que ela se chamasse Ana Paula, por isso lhe perguntava: “Todos a chamam Paula, não é?” “Sim”, ela sorriria discreta e um pouco triste. “Eu a chamarei Ana.” Decididamente. Certo, dava-se esse direito. Era ele quem a construía com seus próprios recursos, não como aqueles que a pretendiam devorar como meros fertilizadores, ansiosos carnívoros no cio. Mas o resto não era diferente: queria devorá-la também, apenas com outros temperos. Apenas com algo mais de herbívoro, já que também se reconhecia um carnívoro como todos. E o desejo de fazer multiplicar seus genes era o mesmo dos que pretendiam multiplicar suas ideias, suas filosofias, suas religiões, dos que queriam converter a todos, garantindo a permanência de uma doutrina, de uma lei, assim como se criam cães e gatos, dando-lhes nomes ou apelidos humanos, substituindo sua descendência ou acrescentando-os a ela, como fazem os que multiplicam objetos industrializados, seus livros e suas palestras.

Sob a magia, as graças e a proteção do deus Álcool, sentia-me um pouco mais abstrato, depois que ela passara de volta pelo mesmo caminho. “Ana, me diga: onde você estava esse tempo todo?” “Andando pela Terra”, essa jovem com um sorriso triste, “mas sem sair do lugar.” Claro, assim como todos nós: sem sair do lugar. Sem sair da Terra. “Sabe, Ana… Eu não estou bem. Por isso estou me confessando. Neste momento, sinto que estou sendo guiado pelo que há de maior em nós. Não importa o nome que se dê a isso, não importa. Só tenho certeza de que não é Deus. No mais, não sei. Todos nós nascemos para o que não sabemos. E vivemos pelo que acreditamos. Não é assim que dizem? Afinal, a vida é feita de música e guerra. E… o que mais? O que eu dizia mesmo? Ajude-me, Ana. Eu não estou bem. Minha vida está passando. Estou fazendo isso por você. Não? Tem razão. Faço tudo por mim. É hora de desistir, tranquilamente. Outros poderão ir além daqui. Não eu.”

Júlio nunca se esquecia de seu próprio aspecto animal, primitivo, instintivo, rastejante, nunca o negava. Porém considerava, e não para consolar-se, que quando se sentia excitado ou mesmo quando se masturbava, a associação de diversos elementos era o que fazia convergir àquele êxtase, contando o que chamavam beleza, sensualidade, detalhes de vestuário, lembrança de aromas, diálogos imaginados e até a entonação da voz, o que atestava a participação de inúmeros fatores sutis, complexos, quase poéticos, nesse caso tornando todo erotismo visível próximo ao invisível – o que pouco tinha de rastejante.

Um homem grisalho, na mesa vizinha, acabava de dizer a alguém que as mulheres não queriam apenas o seu corpo, queriam também a sua alma.

Outra noite se diluía entre seus sentidos, minados pelas muitas doses. Mãos firmes ao redor do copo, certifica-se da realidade. Coração impulsionando-lhe o sangue. Até quando? Os dias existem. Minha vida está passando. O que realmente me parece fantástico…

Diante do espelho, novamente os sanitários, sentiu que as imagens giravam, num golpe de insensatez e desequilíbrio, desintegradas por uma vertigem de que mal se recordaria no dia seguinte, e, por mais esta vez, o mundo acabou para ele.

Os últimos dias de agosto

37. Por quem o luto imprevisto? – sequência

35. Homens (não tão) fortes à procura – anterior

Guia de leitura


O coração de Nyman

Vamos lá, meus amigos acadêmicos, pesquisadores e outros bípedes pensantes: nosso coração pede prazer em primeiro lugar.

Outro minimalista que nos atrai pela aparente simplicidade de sua obra é o britânico Michael Nyman. Como lembrado anteriormente, os grandes compositores da era sem rádio talvez estivessem hoje envolvidos com atividades ligadas à grande mídia. Afinal, que artista não gostaria de ter sua obra, se não reconhecida, ao menos conhecida?

Imagine se Wagner não faria trilhas sonoras magníficas para o cinema. Tente ouvir o piano de Schubert entre os momentos mais significativos de um filme sensível ou sua orquestração densa como fundo de uma narrativa trágica. Ou trechos de Brahms em épicos como O senhor dos anéis...

Stanley Kubrick usou The funeral of Queen Mary, de Purcell, adaptado, em seu clássico Laranja mecânica, e Milos Forman, o próprio Mozart como autor da trilha sonora de seu instigante Amadeus.

Bem, fica por conta de cada um associar, imaginar ou recusar essas minhas propostas de visualização entusiasmadas.

Escolhi como ilustração (sim, vamos assumir a sinestesia, por que não? – imagem, música, texto, tudo pode nos inspirar) o conhecido tema do filme O piano, da sensível Jane Campion, roteirista e diretora: “The heart asks for pleasure first.

Vamos lá, meus amigos acadêmicos, pesquisadores e outros bípedes pensantes: nosso coração pede prazer em primeiro lugar.

Leia mais sobre o tema: A sensibilidade, por Yann Tiersen

Definições possíveis

Disney nos deixou órfãos

Nós, adolescentes, em algum momento, nos damos conta de que estamos perdidos na floresta.
E preferimos assim.

cinerella

Nas longínquas terras da Califórnia, enquanto as equipes de um estúdio mágico trabalhavam em um ousado projeto que viria a se chamar Fantasia, o bem-sucedido visionário Walter Elias, após muito insistir, conseguira convencer sua mãe a conhecer seu estúdio, com a intenção de mostrar-lhe, em sessão particular, o Branca de Neve. Os pais desse artista-empresário, que viria a ser chamado O mago da tela, não conheciam seus filmes e pareciam não se importar muito com a carreira do filho, que havia saído de casa, ainda adolescente, para se perder na floresta das novas oportunidades. Auxiliado por seu irmão mais velho, Roy, que se tornaria seu braço direito no estúdio, a necessária cabeça pensante voltada para o mundo perigoso das finanças, esse jovem aspirante a desenhista e a diretor de cinema foi agraciado pela boa estrela da sorte, que acabou coroando seu esforço incansável na busca pela perfeição e pelas inovações técnicas: até hoje, Walter Elias Disney é uma lenda do cinema.

Flora, sua mãe, nunca tinha entrado em um cinema. Filha do mundo sem encantamentos do interior dos Estados Unidos, ela não conseguia ver um longa-metragem inteiro, por isso Walter exibiu Steamboat Willie, primeiro curta-metragem sonoro do estúdio, que havia projetado e popularizado o simpático ratinho Mickey. Ao ver o filme, do qual Walter se orgulhava com razão, ao contrário de toda a dinâmica da sucessão de imagens, a mãe não pareceu muito animada. O astro do estúdio, que protagonizaria em seguida um dos episódios mais marcantes de Fantasia, “O aprendiz de feiticeiro”, era ninguém menos que Mickey Mouse – criado, a pedido de Walter, pelo animador Ub Iwerks, seu amigo, depois seu rival, depois seu amigo de novo. O camundongo mais famoso das telas tornara-se um alter ego de Walter, além de seu personagem favorito e mais rentável. “O aprendiz de feiticeiro” tinha como fundo musical o belíssimo poema sinfônico de Paul Dukas, o que não impedia que Mickey dissesse alguma coisa de vez em quando.1 Walter perguntou à mãe o que ela havia achado, afinal. “Não está tão mau”, ela teria respondido. “Mas seria melhor mudar a voz desse ratinho. A voz dele é horrível e parece a de uma menininha!” – ela não sabia que o próprio Walter era o entusiasmado dublador de Mickey.

Esse homem de quase 40 anos entristeceu-se de maneira anormal. Ficou abatido. Deprimiu-se. Passou uns dias dormindo no estúdio, sem querer falar com ninguém. Flora morreu nesse mesmo ano. Walter mandou cortar as falas de seu personagem principal. O filme foi lançado com essa versão. Mickey estava mudo.

Quem nos conta esse episódio é o biógrafo Marc Eliot no seu Walt Disney, o príncipe sombrio de Hollywood. Príncipe de Hollywood: seja como for, que bela expressão! Mas esse fim de mundo próximo a Los Angeles nada tinha de um reino encantado. E foi outro mestre da sobrevivência, Charles Chaplin, quem aconselhara o jovem produtor: “Aqui, em Hollywood, todos querem tomar tudo de todos.” Apesar de toda a dura experiência de vida nesse ambiente selvagem, entre fracassos arrasadores e espasmos de sucesso, eis que a crítica à voz de seu simpático ratinho, proferida por uma senhora interiorana, quase aniquila a autoconfiança desse poderoso empresário.

Walter nunca tivera um bom relacionamento com os pais, marcado pela ausência de afeto e por outros desinteresses e distâncias. Isso se refletiu claramente em sua obra, tendo influenciado na escolha de Mary Poppins, dos originais da australiana Pamela Travers, como adaptação cinematográfica do que seria seu canto do cisne, uma história em que ele se reconheceu na figura do menino, Michael. Na primeira filha, Jane, viu a representação de seu querido irmão Roy. O pai austero, na figura do banqueiro, de óbvio nome Mr. Banks, e a mãe submissa, pouco interessada nos anseios e na vida real dos filhos, eram, claro, seus pais.

Disney nos legou inúmeros órfãos: Branca de Neve é criada por uma rainha invejosa. Dumbo é filho de mãe solteira. Pinóquio tem um pai, mas não tem mãe. (No conto de Carlo Collodi, era Mestre Cereja o criador de Pinóquio. Antes de atirá-lo ao lixo, entrega-o a Mestre Gepetto dizendo: “Tome, veja o que pode fazer com esse traste.”) Cinderela, além de órfã, é humilhada por sua madrasta e pelas filhas dela. Peter Pan e seus amigos não têm família, moram em cavernas e em buracos de árvores. O jovem Wart, de A espada era a lei, adotado por Sir Hector, encontra a figura paterna em seu preceptor, o mago Merlin. Mógli é abandonado na floresta, tendo sido criado primeiro por lobos, depois por um urso e por uma pantera, pois a selva dos desenhos é rica em amigos leais que se arriscam uns pelos outros.

Mas o fato de que quase todos os personagens centrais de seus filmes sejam órfãos pode também ser a causa da identificação dos adolescentes com essa condição, uma fase em que não mais se veem na criança e ainda não possuem a autonomia do adulto. Sentem que seus pais não são os mesmos, esses que antes tinham que pegar-lhes a mão para atravessar a rua, e não compartilham inteiramente de seu mundo novo por se consolidar. Nós, adolescentes, em algum momento, nos damos conta de que estamos perdidos na floresta. E preferimos assim.

Disney foi, individualmente, a pessoa que mais ganhou prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, o Oscar: 25 ao todo. E talvez não soubesse a quem agradecer toda vez que voltava ao palco para recebê-los. Por que não aos talentosos desenhistas de seu estúdio, que lhe serviram como os anõezinhos também ajudaram sua Branca de Neve, de alguma forma protegendo-o de sua vida madrasta?

Disney tinha origens no interior e não era um homem letrado. Depois de assistir ao primeiro trecho filmado da Sinfonia Pastoral, uma das peças que compõem Fantasia, exclamou: “Nossa, isso vai fazer de Beethoven um sucesso!”

(O tema desenvolvido acima integra a palestra Veja de novo: relações entre textos visuais e narrativos, apresentada recentemente.)

Leia mais sobre o tema: Viajando com Peter Pan

As novas invasões inglesas

Nada de provocações

A França tinha agora um futuro promissor pela frente, mesmo porque não há futuros que se projetem para trás.

Alguns amigos sugerem que, de vez em quando, eu escreva algum texto mais ou menos neutro, que não provoque muito as preferências políticas ou as crenças dos leitores. Apoiando-me, portanto, nos doces pássaros que nos inspiram a neutralidade, decidi lembrar a Revolução Francesa.

Kant a considerava uma conquista moral, mais do que uma transformação política, podendo assim transcender seu tempo histórico. E acertou, pois aqui estamos outra vez debruçados sobre ela, revendo retratos oficiais com cheiro de pólvora e paisagens ornadas com ruas de sangue. Não há como não pagar um preço pela liberdade. Mas como era uma experiência nova (durante séculos os reis foram sagrados), podemos melhor compreender seus heroísmos e seus excessos.

O monarca Luís XVI não apenas representava a drástica diferença social entre a aristocracia e os trabalhadores: ele era mesmo obscenamente rico em um país onde umas vinte e tantas milhões de pessoas lutavam por comida. Com Robespierre e os revolucionários, o rei acabou perdendo a cabeça.

Na guilhotina, entenda-se, que antes disso ele já não manifestava bons resultados no plano das ideias, nem mesmo a menor boa vontade para compreender o que estava acontecendo bem diante de seus olhos – até que ocorreu mesmo algo diante de seus olhos, com a multidão cercando ostensivamente seu palácio provisório. A França tinha agora um futuro promissor pela frente, mesmo porque não há futuros que se projetem para trás. (Este texto, aliás, cai o tempo todo na dúvida quanto ao que seja conotativo, carecendo de explicações denotativas. É que muitas vezes as histórias reais são mais interessantes do que as fictícias. Parece mentira, pensamos. Mas não: o passado nos revela episódios e eventos fascinantes. Por exemplo, todos os filmes que vi sobre os ataques ao World Trade Center me pareceram medíocres. Para mim, a História ainda pode mais.)

Voltando ao caso: um dia, os mais radicais começaram a decapitar os menos radicais, no que se chamou período do Terror. Mas ainda era um terrorzinho médio, relativamente suportável para um povo que convivia quase diariamente com a morte, entre distúrbios e tradições bélicas precedentes – a França e a Inglaterra envolveram-se em guerras quase sucessivas durante séculos, mas não vamos nos desviar do assunto, que afinal não é a morte. O Terror foi promovido a Grande Terror e aí sim atingiu seu auge. Ao ser levado à guilhotina, Danton, entre umas últimas palavras, teria lamentado o fato de estar indo “antes daquele rato”, referindo-se ao não menos eloquente Robespierre e significando estar indo para o cadafalso e não para outro mundo, entenda-se mais uma vez. Em frente – vou explicando, tanto quanto posso.

O escritor tcheco Milan Kundera nos lembra que não precisamos temer a guilhotina, porque ela está no passado. Isso ilustra parte do que talvez o tenha inspirado ao intrigante título de seu romance, A insustentável leveza do ser. (Aliás, considero os títulos muito importantes para qualquer trabalho. Muito bem. Podemos, então, votar ao assunto? Sim, mas sem pressa. Afinal, podemos ser neutros, não? E não há nenhuma revolução em andamento, que eu saiba.)

A guilhotina, invento que só nos faz pensar com carinho no Dr. Guillotin, preocupado em amenizar a dor dos executados, já foi superada pelos norte-americanos, que hoje adotam, após diversas trapalhadas com a cadeira elétrica e com a câmara de gás, a moderníssima injeção letal. Não é uma só. A primeira delas entorpece o pacien… digo, o condenado, e o isenta de dor física. As demais são aplicadas cuidadosamente por pessoas bem treinadas para isso. Qualquer um de nós já deve ter sentido dores piores quando alguma enfermeira recém-formada não nos acerta a veia. Só que não morremos, claro. Mas do que falávamos mesmo? Ah, sim: a Revolução mudou tudo.

Entre seus efeitos colaterais, conta-se a lamentável condenação do genial Lavoisier, pai dos primeiros elementos químicos e carrasco definitivo da velha alquimia. Ao contrário do que se divulga popularmente, Lavoisier nunca escreveu que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Claro que isso ocorre o tempo todo. Mas talvez ele não contasse com a ironia de ser escoltado por soldados revolucionários que, em nome dos novos ideais, fariam tudo se transformar muito rapidamente. Nada se cria, nada se perde, que alguns anos mais tarde quem assumiu o controle na França foi ninguém menos que Napoleão Bonaparte, célebre protagonista de outra eletrizante história. Melhor sorte teve Chaptal, outro químico preso pelos revolucionários, mais tarde solto e encarregado de uma fábrica de pólvora – afinal nada se transforma tanto assim, e a pátria precisava de cientistas e de novas tecnologias para o progresso das armas.

Abater Luís XVI e adotar Napoleão (que pelo menos representava um ideal, vamos admitir) parece forçar a História a fazer voltas. Podemos comparar o autoritarismo de Stálin ao despotismo dos czares? Claro que sim. O que será pior para nós, o povo? Não aposto uma moeda da velha república.

Luis XVI, Napoleão, o último czar, Nicolau II, e Stálin

Fosse como fosse, nada era pior do que o rei, que impedia qualquer possibilidade de mudança que pusesse em risco seus vastos privilégios, mantidos à custa de qualquer sacrifício humano entre seu povo. Seu povo? Será que ele sabia da existência de um povo? Por sorte não. Por isso a revolução se fez. E a democracia, aos poucos, se consolidou na França. Depois, em outros países. Pagando um alto preço, claro, o das vidas humanas. Ou melhor, das vidas humanas dos franceses.

Como eu disse, o passado histórico pode ser mais impressionante que as histórias inventadas. Clássicos como a conhecida saga de Tolkien, O senhor dos anéis, não passam de alegorias de conflitos medievais e situações políticas recorrentes. Por isso nos atraem tanto, porque parecem possíveis, entre alianças e revoltas.

Em um próximo texto, lembraremos Cleópatra. Ah, essa menina…

Leia mais sobre história e curiosidades: O ano em que me queiras

Caçadores e virgens entre as estrelas