A sensibilidade, por Yann Tiersen

É comum ouvirmos que hoje em dia não há mais compositores como antigamente.
Tiersen, compositor francês tão vivo quanto nós, está entre os raros talentos de nosso tempo.

Beethoven muitas vezes é citado como O gênio da música, como se não houvesse um Schubert ou um J. S. Bach, por exemplo. Penso que temos de nos libertar desses rótulos, pois essas centralizações nos fazem perder a chance de conhecer outros talentos – e são muitos, somente no universo da música erudita.

Refere-se a Beethoven o personagem Coelho, em Os últimos dias de agosto: 

Cena de “Minha amada imortal”, com Gary Oldman

 

“A música parecia esgotada. Bach e Mozart foram deuses. Crianças-prodígios, nasceram gênios. Beethoven foi muito maior. Era um homem. E tornou-se um deus.”

.

 

Exageros à parte (pois esse personagem é mesmo de extremos), ao menos valoriza-se aí o esforço pessoal do criador, do qual muitos se esquecem, pois também classificam tais qualidades usando palavras e expressões como talento inato, gênio e dom. Isso nos faz crer que eles simplesmente nasceram prontos, com ouvidos já programados para a música. É claro que temos diferenças, inclusive genéticas, quando se trata de características pessoais, pois podemos constatar que uns têm mais dificuldade que outros para resolver um problema ou para apreciar um trabalho artístico. Mas atribuir tudo à sorte de se nascer gênio não basta. Se é assim, vamos então deixar de promover os gênios, que eles não precisam de nosso apoio.

É comum ouvirmos que hoje em dia não há mais compositores como antigamente. Ora, claro que não, os tempos mudaram, a sociedade mudou. Se Mozart ou Haydn vivessem hoje, não fariam música nos padrões do Neoclassicismo. E talvez estivessem compondo trilhas para o cinema, por que não? Sem querer comparar um artista a outro, porque isso pode ser apenas perda de tempo, precisamos conhecer melhor também os autores contemporâneos, não menos talentosos e criativos. Um desses representantes da modernidade é o músico Yann Tiersen, cuja obra conheci por meio do cinema.

https://www.youtube.com/watch?v=LO209GwYCr8

Tiersen, compositor francês tão vivo quanto nós, também não é único, mas sem dúvida já se encontra situado entre os músicos contemporâneos mais destacados. Ele estrutura seu trabalho a partir de temas simples, minimalistas e, podem apostar, muito envolventes. É autor da trilha sonora de filmes como O fabuloso destino de Amélie Poulain e Adeus, Lênin! – esse último, aliás, de uma sensibilidade rara, ao tratar de um tema histórico tão amplo como a Queda do Muro de Berlim. Vale a pena conferir a música de Yann Tiersen. E apenas como exercício pessoal, tente não se envolver.

https://www.youtube.com/watch?v=BTLCjq7Zwio&list=PLB2BDA42D6048CDD8

Leia mais sobre música e arte: O coração de Nyman

Gotas, goteiras, chá com bolinhos

Eu morri pela beleza – a arte de Emily Dickinson

Entre suas pérolas (ou pétalas de flor, como talvez preferisse, que ela nada tinha a ver com o mar), encontrei este texto a um tempo sombrio e carinhoso.

A poeta por volta de 1846
A poeta por volta de 1846

Emily Dickinson, poeta norte-americana do século 19, hoje muito conhecida e celebrada, conseguiu publicar apenas dez poemas em vida. Mesmo assim, sob pseudônimo, anonimamente. Viveu em uma pequena cidade do interior e nas raras vezes em que saiu de lá foi por razões de saúde. Higginson, um crítico literário da época, não gostou do que leu e a desaconselhou a publicar seus versos. Assim, praticamente toda a sua obra é póstuma – que pena, Mr. Higginson.

Sim, a arte de Emily, a arte dos inéditos. Há outros casos curiosos de autores que não conseguiram publicar seus textos em vida. Talvez o mais conhecido para nós, de língua portuguesa, seja o poeta Fernando Pessoa, que publicou seu poema Mensagem por ter sido classificado em um concurso literário – ele ficou em segundo lugar, perdendo para Vasco Reis. Conhece?

Perto disso, estão aqueles livros que tiveram o mínimo de repercussão quando publicados e, mais tarde, tornaram-se alvo de contínuas reedições, sob a chancela de inúmeras editoras. Isso aconteceu com o nosso Augusto dos Anjos e seu único volume de poemas, chamado Eu. Ele pagou de seu próprio bolso, aos 28 anos, essa realização modesta e imperceptível, quase invisível, numa época em que os meios de divulgação eram tão precários ou, no mínimo, custavam bem mais caro do que aqueles que nos são franqueados hoje. Augusto dos Anjos morreu aos 30 anos e não pôde presenciar seu reconhecimento como autor, que se deu ao longo de todo o século 20. Hoje ele é citado e repetidamente elogiado por sua singularidade e por sua ousadia. Mas as coisas não foram bem assim para ele nos anos seguintes à publicação de seus versos: quando apresentados ao ilustre poeta Olavo Bilac, este declarou, após ouvir de seu interlocutor que o jovem já havia falecido: “Era esse o poeta? Ah!, então, fez bem em morrer. Não se perdeu grande coisa.” Que pena, Sr. Bilac. Mesmo com sua visão limitada da poesia, não pôde impedir que a obra dele se encontrasse, um dia, ao lado da sua nas mesmas estantes das livrarias.

Se há algum lado bom nisso, talvez seja que os inéditos não tiveram de se render ao gosto do público ou à demanda do mercado livreiro, e puderam construir sua obra de acordo com sua tendência pessoal. Emily Dickinson, Fernando Pessoa e Augusto dos Anjos têm em comum a inovação, o rompimento com formas estéticas características de seu tempo, embora nem sempre seja esse o motivo do ineditismo.

Casa de Emily Dickinson em Amherst

Que pena, Mr. Higginson. Mas o tempo passou. E sua jovem interiorana rejeitada, essa tal Emily, chegou até nós. Entre suas pérolas (ou pétalas de flor, como talvez preferisse, que ela nada tinha a ver com o mar), encontrei este texto a um tempo sombrio e carinhoso – de qualquer forma sempre belo, como é típico dessa artista que pensava, vivia e projetava poesia entre as sombras de suas solidões, de seu anonimato.

Eu morri pela beleza…

Eu morri pela beleza,
e mal havia sido sepultada,
alguém que morrera pela verdade
era deixado no jazigo ao meu lado.

Perguntou-me com carinho por que eu havia fracassado.
“Pela beleza”, respondi.
“E eu, pela verdade, o que é a mesma coisa;
somos como irmãos”, ele disse.

E assim, como parentes que uma noite se encontram,
ficamos conversando entre os jazigos
até que o musgo alcançou os nossos lábios
e cobriu os nossos nomes.

I died for beauty… Tradução do autor.

Leia mais sobre o tema: O recurso da relva

Rapsódia em cinza

Carpe diem

Cena do filme Sociedade dos Poetas Mortos , de Peter Weir.

É fácil falar aos amigos: aproveite o dia, não desperdice seu tempo, pense um pouco mais em você – conselhos que rotineiramente repassamos via internet, imaginando salvar o dia alheio, mas que nós mesmos não conseguimos vivenciar a contento, exceto por uns poucos momentos de lucidez ou… sorte. É difícil não acreditar no futuro. Por isso lutamos para projetar o que sonhamos ser o melhor para alguém que nem conhecemos ainda, que ainda não nasceu. A expressão carpe diem, extraída do último verso de um antigo poema de Horácio (“Carpe diem, quam minimum credula póstero.”), aparentemente vem sendo revisitada há séculos, tentando nos lembrar, ao menos, de que o tempo não fará contas do que deixarmos de viver. Apresentei este poema, entre outros, em uma palestra intitulada Amostras de solidão para ler em voz alta. Estes versos cabem em seu próximo minuto. Aproveite cada segundo. Leia sem pressa.

Não pergunte, Leuconoe – é errado querer saber –
que fim os deuses reservam para mim ou para você.
Também não se apegue aos exatos cálculos babilônios.
É melhor sofrer o que quer que seja
do que saber se Júpiter determinou ou não invernos futuros
ou se faz deste o nosso último, este que impõe a força

do mar Tirrênio contra as rochas.
Seja sábio, prove o vinho, e corte suas longas expectativas
para adequar-se a pequenos limites.
Enquanto conversamos, o tempo já terá voado.
Aproveite o dia, creia o menos possível no futuro.
.

– Ode n. 11, Primeiro livro das odes, publicado em 23 a.C. Tradução do autor.

Leia mais sobre poesia: O misterioso Paul Celan

Eu morri pela beleza – a arte de Emily Dickinson

O homem do violão azul

Este fragmento de poema aparentemente inofensivo de Wallace Stevens dá o que pensar sobre as escolhas dos artistas e as condições da arte. O músico Tom Zé encantou-se ao conhecê-lo. Outros poemas desse norte-americano costumam ser algo enigmáticos, estranhos aos nossos olhos viciados em praticidade e treinados a assimilar conceitos transmitidos pelo ambiente acadêmico. Mas observem: o dia é verde. O violão é azul. E as pessoas….

Homem curvado sobre violão,
como se fosse foice. Dia verde.
Disseram:  “É azul teu violão,
não tocas as coisas tais como são.”.
E o homem disse: “As coisas tais como são
se modificam sobre o violão.”.
E eles disseram: “Toca uma canção
que esteja além de nós, mas que também seja nós.
 
No violão azul, toca a canção

das coisas justamente como são.”.  

The man with the blue guitar, 1937. Tradução de Paulo Henriques Britto.

 Leia mais poemas e sobre poesia: Eu morri pela beleza – a arte de Emily Dickinson

Rapsódia em cinza

P.S.: Post scriptum (Pós-Escrita)

No século 21 a.C. as terras dos sumérios foram invadidas pelos elamitas, o que causou o declínio dos primeiros. E o que temos com isso? É que os sumérios foram os inventores da escrita, e você não estaria lendo isto agora, no século 21 d.C., sem esse primeiro grande passo. As tábuas com os sinais chamados cuneiformes, os primeiros rudimentos da escrita, datam de cerca de 6000 anos atrás e marcam o fim do Neolítico. Chamamos tudo, até aí, de Pré-História. Mas, a rigor, já acontecia a História. O que faltava eram os registros escritos. Por isso penso às vezes que esse período deveria ser chamado Pré-Escrita e não Pré-História.

Carl Sagan, em sua obra magistral, que inclui diversos livros esclarecedores sobre o mundo em que vivemos, escreveu em um de seus trabalhos mais conhecidos, Cosmos: “Por meio dos livros, ouvimos a voz de outra pessoa, talvez de uma época e de um lugar distante, talvez morta há milhares de anos, que fala, clara e silenciosamente, dentro de nossa cabeça, direto para nós. A escrita é talvez a maior das invenções humanas.”

Para Borges, “a literatura não é outra coisa que um sonho dirigido. Cada linguagem é uma tradição, cada palavra um símbolo compartilhado.” E Osman Lins, a respeito de uma linguagem específica, nos brinda com este belo texto, inserido em uma de suas mais brilhantes narrativas, “Um ponto no círculo”: “Numerosos insetos, aves, peixes e quadrúpedes, há cinco mil anos, povoavam o Nilo e suas margens. A escrita que os recolheu e os transmudou, prendendo-os em exigentes limites, tão contrários a sua índole mutável, não pretendia que voassem, ou nadassem, ou cantassem, ou dessem flores na pedra e nos papiros. Apenas, despojando-os do que era necessário, reduziu-os a luminosas sínteses. Este era o seu objetivo. Se conheciam, os egípcios, o júbilo de escrever, é que haviam encontrado – raro evento – o equilíbrio entre a vida e o rigor, entre a desordem e a geometria.”

Daí que todos os que escrevem vivem a experiência de contar suas histórias de alguma forma, entre os prazeres dos achados semânticos ou a agonia dos impasses, um silêncio suspenso pela palavra que misteriosamente os abandonou. Isso deve estar acontecendo desde os escribas das argilas sumérias até hoje, diante de milhões de teclados, no mundo inteiro.

Não me lembro da motivação que tive para escrever (talhar no papel) este conto que segue, mas lembro-me de alguma forte necessidade de registro, que é o próprio tema do texto e o procedimento de contá-lo. Que é também o que nos une, a todos os escribas do mundo.

* * *

Braile contra a luz

Os professores repreendiam-me, estranhavam que tanto eu pressionasse o lápis sobre o papel. Mais tarde, a caneta. Nunca soube escrever de outra maneira, e não me desenvolvi. O adolescente não podia evitar que os tipos datilografados perfurassem o papel – e os acentos, aspas, vírgulas e interrogações remetiam ao braile, não sem alguma alusão oportuna, minhas dúvidas e escuridão. Não me ocorre, mesmo hoje, a razão pela qual necessito firmar minha escrita, meu código de forças, minha ativa mão, meus dínamos em meio a um mundo insólito e perpassado pela indiferença, por mais que eu avance ferindo os papéis. O texto é meu objeto, meu homem de argila. E nenhum papel foi jamais suficiente para mim.

O registro, resto de uma verdade que me atraísse, não era senão a sobra, a perda. No último degrau do pátio, caderno sobre os joelhos, sozinho ante o muro em cuja base os brotos de hera buscam firmar-se, o menino intui que as palavras se transformam, que se modificam conforme os olhos de quem as considera, que não podem ser transcritas. Que viajam. E se deslocam entre os dias e os gestos, e se dissolvem para germinar, desaparecem como os antigos idiomas e os povos reciclados pela terra. Não existe o ponto, nós o inventamos. Para que a frase se detenha. E o texto não se confunda com o universo ou com a sombra.

“Bom dia. Tão cedo no portão de casa?”

“Bom dia. Que dia é hoje?”

“Quarta-feira.”

“E como se chama esta manhã?”

A empregada ria de minhas perguntas, chamava-me bichinho complicado. Eu lhe perguntava o nome das coisas, ela aceitava a brincadeira. Bolsa, vestido. Dentes? Sorriso, que significa ao mesmo tempo dentes, lábios e manhã. A moça subia os degraus do alpendre, deixava meu campo de visão, levando com ela seu próprio nome, seus sonhos e os nomes de seus sonhos.

Quando eu despertava, pensava em meu nome como reafirmando que ainda era o mesmo após uma noite inteira de sono. Admirava-me que as palavras estivessem presas às coisas e não caíssem como o ramo seco de uma árvore ou a casca de um ferimento em vias de cicatrização. Que um vento forte não as embaralhasse e essa árvore não passasse a se chamar poste ou cavalo. Um cão, menino. Uma casa, ratoeira. Um homem, pedra. Queria saber mais da porta de madeira cujas formas pareciam observar-me: que nome teriam cada uma daquelas nódoas, as estrias e os anéis concêntricos? Por pouco suspeitava que, se descobrisse a palavra-chave, desvendaria o segredo da seiva ressecada em rugas, de sua gravidade e austeridade, do passado que não me revelavam as grandes árvores e a memória velada das florestas. Eu não tinha esse poder. Mas silenciava diante das portas, para alcançar ler o que cada uma trazia em seu próprio idioma, sua versão de fóssil.

De pé, junto ao último degrau. O muro coberto pela hera é o mesmo muro? O que são as palavras? O nome dos mortos continua nas trevas? Eu, que há tanto me alimentava de perguntas e palavras, desejava saber agora onde estaria o texto final, o relevo em pedra, a inscrição no milenar sepulcro que resumisse magicamente o que sempre eu buscara em vão, como quando acreditava poder encontrar-me com Deus e desvendar seu verdadeiro nome, a palavra que infinitamente lhe coubesse. Mas as palavras, como Deus, só existem em nossa imaginação, nossa invenção, nosso abismo. E meu homem de argila arrasta-se ainda na penumbra, na obscuridade, nos papéis insuficientes.

Caderno sobre os joelhos, caneta acrescentando relevos ao papel ordinário. Sinal do intervalo. E os olhos, involuntariamente, dão com os brotos de hera por realizar-se, antes que o menino se levante e se misture à correria das crianças rumo às salas de aula, onde os professores certamente haverão de estranhar que assim ele pressione a caneta sobre sua única chance.

Lisette Maris em seu endereço de nverno

16. O telefone pela manhã – próximo

14. Hoje, acabaram-se as xícaras – anterior

Guia de leitura

Leia mais sobre o tema: Não me venham falar da lua

O recurso da relva

Preço justo

O que mais me admira no espetáculo do mundo, demarcado por longos estios e chuvas devastadoras, é esse inconcebível potencial de fugacidade e aniquilação, um sol escuro, nem benigno nem maligno, que a um tempo extingue e renova tudo o que existe, preservando a vida à custa de exterminar justamente os que vivem, com isso propondo que tudo continue – sob o preço de que nada permaneça.

A conspiração dos felizes

Leia mais dessa história: Meu colega triste

Chegadas partidas

Imagem: Tom Thomson. Céu ao entardecer. 1915.