Disney nos deixou órfãos

Nós, adolescentes, em algum momento, nos damos conta de que estamos perdidos na floresta.
E preferimos assim.

cinerella

Nas longínquas terras da Califórnia, enquanto as equipes de um estúdio mágico trabalhavam em um ousado projeto que viria a se chamar Fantasia, o bem-sucedido visionário Walter Elias, após muito insistir, conseguira convencer sua mãe a conhecer seu estúdio, com a intenção de mostrar-lhe, em sessão particular, o Branca de Neve. Os pais desse artista-empresário, que viria a ser chamado O mago da tela, não conheciam seus filmes e pareciam não se importar muito com a carreira do filho, que havia saído de casa, ainda adolescente, para se perder na floresta das novas oportunidades. Auxiliado por seu irmão mais velho, Roy, que se tornaria seu braço direito no estúdio, a necessária cabeça pensante voltada para o mundo perigoso das finanças, esse jovem aspirante a desenhista e a diretor de cinema foi agraciado pela boa estrela da sorte, que acabou coroando seu esforço incansável na busca pela perfeição e pelas inovações técnicas: até hoje, Walter Elias Disney é uma lenda do cinema.

Flora, sua mãe, nunca tinha entrado em um cinema. Filha do mundo sem encantamentos do interior dos Estados Unidos, ela não conseguia ver um longa-metragem inteiro, por isso Walter exibiu Steamboat Willie, primeiro curta-metragem sonoro do estúdio, que havia projetado e popularizado o simpático ratinho Mickey. Ao ver o filme, do qual Walter se orgulhava com razão, ao contrário de toda a dinâmica da sucessão de imagens, a mãe não pareceu muito animada. O astro do estúdio, que protagonizaria em seguida um dos episódios mais marcantes de Fantasia, “O aprendiz de feiticeiro”, era ninguém menos que Mickey Mouse – criado, a pedido de Walter, pelo animador Ub Iwerks, seu amigo, depois seu rival, depois seu amigo de novo. O camundongo mais famoso das telas tornara-se um alter ego de Walter, além de seu personagem favorito e mais rentável. “O aprendiz de feiticeiro” tinha como fundo musical o belíssimo poema sinfônico de Paul Dukas, o que não impedia que Mickey dissesse alguma coisa de vez em quando.1 Walter perguntou à mãe o que ela havia achado, afinal. “Não está tão mau”, ela teria respondido. “Mas seria melhor mudar a voz desse ratinho. A voz dele é horrível e parece a de uma menininha!” – ela não sabia que o próprio Walter era o entusiasmado dublador de Mickey.

Esse homem de quase 40 anos entristeceu-se de maneira anormal. Ficou abatido. Deprimiu-se. Passou uns dias dormindo no estúdio, sem querer falar com ninguém. Flora morreu nesse mesmo ano. Walter mandou cortar as falas de seu personagem principal. O filme foi lançado com essa versão. Mickey estava mudo.

Quem nos conta esse episódio é o biógrafo Marc Eliot no seu Walt Disney, o príncipe sombrio de Hollywood. Príncipe de Hollywood: seja como for, que bela expressão! Mas esse fim de mundo próximo a Los Angeles nada tinha de um reino encantado. E foi outro mestre da sobrevivência, Charles Chaplin, quem aconselhara o jovem produtor: “Aqui, em Hollywood, todos querem tomar tudo de todos.” Apesar de toda a dura experiência de vida nesse ambiente selvagem, entre fracassos arrasadores e espasmos de sucesso, eis que a crítica à voz de seu simpático ratinho, proferida por uma senhora interiorana, quase aniquila a autoconfiança desse poderoso empresário.

Walter nunca tivera um bom relacionamento com os pais, marcado pela ausência de afeto e por outros desinteresses e distâncias. Isso se refletiu claramente em sua obra, tendo influenciado na escolha de Mary Poppins, dos originais da australiana Pamela Travers, como adaptação cinematográfica do que seria seu canto do cisne, uma história em que ele se reconheceu na figura do menino, Michael. Na primeira filha, Jane, viu a representação de seu querido irmão Roy. O pai austero, na figura do banqueiro, de óbvio nome Mr. Banks, e a mãe submissa, pouco interessada nos anseios e na vida real dos filhos, eram, claro, seus pais.

Disney nos legou inúmeros órfãos: Branca de Neve é criada por uma rainha invejosa. Dumbo é filho de mãe solteira. Pinóquio tem um pai, mas não tem mãe. (No conto de Carlo Collodi, era Mestre Cereja o criador de Pinóquio. Antes de atirá-lo ao lixo, entrega-o a Mestre Gepetto dizendo: “Tome, veja o que pode fazer com esse traste.”) Cinderela, além de órfã, é humilhada por sua madrasta e pelas filhas dela. Peter Pan e seus amigos não têm família, moram em cavernas e em buracos de árvores. O jovem Wart, de A espada era a lei, adotado por Sir Hector, encontra a figura paterna em seu preceptor, o mago Merlin. Mógli é abandonado na floresta, tendo sido criado primeiro por lobos, depois por um urso e por uma pantera, pois a selva dos desenhos é rica em amigos leais que se arriscam uns pelos outros.

Mas o fato de que quase todos os personagens centrais de seus filmes sejam órfãos pode também ser a causa da identificação dos adolescentes com essa condição, uma fase em que não mais se veem na criança e ainda não possuem a autonomia do adulto. Sentem que seus pais não são os mesmos, esses que antes tinham que pegar-lhes a mão para atravessar a rua, e não compartilham inteiramente de seu mundo novo por se consolidar. Nós, adolescentes, em algum momento, nos damos conta de que estamos perdidos na floresta. E preferimos assim.

Disney foi, individualmente, a pessoa que mais ganhou prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, o Oscar: 25 ao todo. E talvez não soubesse a quem agradecer toda vez que voltava ao palco para recebê-los. Por que não aos talentosos desenhistas de seu estúdio, que lhe serviram como os anõezinhos também ajudaram sua Branca de Neve, de alguma forma protegendo-o de sua vida madrasta?

Disney tinha origens no interior e não era um homem letrado. Depois de assistir ao primeiro trecho filmado da Sinfonia Pastoral, uma das peças que compõem Fantasia, exclamou: “Nossa, isso vai fazer de Beethoven um sucesso!”

(O tema desenvolvido acima integra a palestra Veja de novo: relações entre textos visuais e narrativos, apresentada recentemente.)

Leia mais sobre o tema: Viajando com Peter Pan

As novas invasões inglesas

Nada de provocações

A França tinha agora um futuro promissor pela frente, mesmo porque não há futuros que se projetem para trás.

Alguns amigos sugerem que, de vez em quando, eu escreva algum texto mais ou menos neutro, que não provoque muito as preferências políticas ou as crenças dos leitores. Apoiando-me, portanto, nos doces pássaros que nos inspiram a neutralidade, decidi lembrar a Revolução Francesa.

Kant a considerava uma conquista moral, mais do que uma transformação política, podendo assim transcender seu tempo histórico. E acertou, pois aqui estamos outra vez debruçados sobre ela, revendo retratos oficiais com cheiro de pólvora e paisagens ornadas com ruas de sangue. Não há como não pagar um preço pela liberdade. Mas como era uma experiência nova (durante séculos os reis foram sagrados), podemos melhor compreender seus heroísmos e seus excessos.

O monarca Luís XVI não apenas representava a drástica diferença social entre a aristocracia e os trabalhadores: ele era mesmo obscenamente rico em um país onde umas vinte e tantas milhões de pessoas lutavam por comida. Com Robespierre e os revolucionários, o rei acabou perdendo a cabeça.

Na guilhotina, entenda-se, que antes disso ele já não manifestava bons resultados no plano das ideias, nem mesmo a menor boa vontade para compreender o que estava acontecendo bem diante de seus olhos – até que ocorreu mesmo algo diante de seus olhos, com a multidão cercando ostensivamente seu palácio provisório. A França tinha agora um futuro promissor pela frente, mesmo porque não há futuros que se projetem para trás. (Este texto, aliás, cai o tempo todo na dúvida quanto ao que seja conotativo, carecendo de explicações denotativas. É que muitas vezes as histórias reais são mais interessantes do que as fictícias. Parece mentira, pensamos. Mas não: o passado nos revela episódios e eventos fascinantes. Por exemplo, todos os filmes que vi sobre os ataques ao World Trade Center me pareceram medíocres. Para mim, a História ainda pode mais.)

Voltando ao caso: um dia, os mais radicais começaram a decapitar os menos radicais, no que se chamou período do Terror. Mas ainda era um terrorzinho médio, relativamente suportável para um povo que convivia quase diariamente com a morte, entre distúrbios e tradições bélicas precedentes – a França e a Inglaterra envolveram-se em guerras quase sucessivas durante séculos, mas não vamos nos desviar do assunto, que afinal não é a morte. O Terror foi promovido a Grande Terror e aí sim atingiu seu auge. Ao ser levado à guilhotina, Danton, entre umas últimas palavras, teria lamentado o fato de estar indo “antes daquele rato”, referindo-se ao não menos eloquente Robespierre e significando estar indo para o cadafalso e não para outro mundo, entenda-se mais uma vez. Em frente – vou explicando, tanto quanto posso.

O escritor tcheco Milan Kundera nos lembra que não precisamos temer a guilhotina, porque ela está no passado. Isso ilustra parte do que talvez o tenha inspirado ao intrigante título de seu romance, A insustentável leveza do ser. (Aliás, considero os títulos muito importantes para qualquer trabalho. Muito bem. Podemos, então, votar ao assunto? Sim, mas sem pressa. Afinal, podemos ser neutros, não? E não há nenhuma revolução em andamento, que eu saiba.)

A guilhotina, invento que só nos faz pensar com carinho no Dr. Guillotin, preocupado em amenizar a dor dos executados, já foi superada pelos norte-americanos, que hoje adotam, após diversas trapalhadas com a cadeira elétrica e com a câmara de gás, a moderníssima injeção letal. Não é uma só. A primeira delas entorpece o pacien… digo, o condenado, e o isenta de dor física. As demais são aplicadas cuidadosamente por pessoas bem treinadas para isso. Qualquer um de nós já deve ter sentido dores piores quando alguma enfermeira recém-formada não nos acerta a veia. Só que não morremos, claro. Mas do que falávamos mesmo? Ah, sim: a Revolução mudou tudo.

Entre seus efeitos colaterais, conta-se a lamentável condenação do genial Lavoisier, pai dos primeiros elementos químicos e carrasco definitivo da velha alquimia. Ao contrário do que se divulga popularmente, Lavoisier nunca escreveu que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Claro que isso ocorre o tempo todo. Mas talvez ele não contasse com a ironia de ser escoltado por soldados revolucionários que, em nome dos novos ideais, fariam tudo se transformar muito rapidamente. Nada se cria, nada se perde, que alguns anos mais tarde quem assumiu o controle na França foi ninguém menos que Napoleão Bonaparte, célebre protagonista de outra eletrizante história. Melhor sorte teve Chaptal, outro químico preso pelos revolucionários, mais tarde solto e encarregado de uma fábrica de pólvora – afinal nada se transforma tanto assim, e a pátria precisava de cientistas e de novas tecnologias para o progresso das armas.

Abater Luís XVI e adotar Napoleão (que pelo menos representava um ideal, vamos admitir) parece forçar a História a fazer voltas. Podemos comparar o autoritarismo de Stálin ao despotismo dos czares? Claro que sim. O que será pior para nós, o povo? Não aposto uma moeda da velha república.

Luis XVI, Napoleão, o último czar, Nicolau II, e Stálin

Fosse como fosse, nada era pior do que o rei, que impedia qualquer possibilidade de mudança que pusesse em risco seus vastos privilégios, mantidos à custa de qualquer sacrifício humano entre seu povo. Seu povo? Será que ele sabia da existência de um povo? Por sorte não. Por isso a revolução se fez. E a democracia, aos poucos, se consolidou na França. Depois, em outros países. Pagando um alto preço, claro, o das vidas humanas. Ou melhor, das vidas humanas dos franceses.

Como eu disse, o passado histórico pode ser mais impressionante que as histórias inventadas. Clássicos como a conhecida saga de Tolkien, O senhor dos anéis, não passam de alegorias de conflitos medievais e situações políticas recorrentes. Por isso nos atraem tanto, porque parecem possíveis, entre alianças e revoltas.

Em um próximo texto, lembraremos Cleópatra. Ah, essa menina…

Leia mais sobre história e curiosidades: O ano em que me queiras

Caçadores e virgens entre as estrelas

Sua canção de enganar

Difícil é descobrir onde. É descobrir como.
O que engendrou o erro, quando você parecia perto de possuir o mundo por causa de sua coragem. E por causa do amor.

Jeremy Lipking Azul-claro b

Você se levantou e não pôde evitar o dia, lembra? Pois está lá, escrito. Quem não trocou, como você, declarações definitivas, convicções finais e as mentiras excelentes com que todos fingimos ensinar-nos uns aos outros? “Não disse? Está lá. Escrito.”Que se escreva, portanto: é a mesma rua de calçadas desenhadas por trincados e rachaduras, entre as quais as ervas agredidas insistem, aproveitando-se do que, para elas, podem ser abismos. Não está frio, mas o vento é sempre o primeiro: nunca antes este aqui soprou contra o seu caminho. Já pensou? Também nunca antes este dia, mas quem não é capaz de atinar com tais aborrecidas evidências? Difícil é descobrir onde. É descobrir como. O que engendrou o erro, quando você parecia perto de possuir o mundo por causa de sua coragem. E por causa do amor. Parecia fácil. E o mundo, para cada um, sempre foi só até onde se pôde alcançar. Parecia fácil, não? E pensar que você continua, enquanto se repete: “Não é tão difícil.”.Ela está sozinha, porque é manhã, e as colegas provavelmente dormem fora, tendo estendido a noite com os que lhes ofereceram mais. É só um acaso que ela esteja vestindo essa bata translúcida e lingerie escura, apesar de muito conhecidas e gastas, porque ela não o esperava, nem você deseja mais, além de que ela o trate com amenidades, supondo que guarde um carinho para quando cessar de ser homem, e não conseguir disfarçar que declina outra vez a mostrar-se um menino.Ela sorri menos, não diz por quê. Nem você pergunta. Ela tem por hábito agradá-lo, o que no início se fazia esperado. Mas algo tem se subvertido em relação a tais encontros, em relação a você, que tantas vezes a conheceu, deixou-se conhecer. Por isso ela passou a mostrar-lhe uns olhos inteiros, um rosto de frente, lábios talvez espessos demais para um nariz tão fino, dois incisivos ligeiramente separados, cabelos sempre fáceis de se despentear, gostosos por isso. Ela chega a lhe perguntar – desde quando? – como têm sido seus dias. Você conta algo de que se arrepende em seguida, acaba espantando tudo com um gesto no ar. Não é tão difícil.

Da primeira vez que a viu, lembra-se de um avião que passou. Sempre associava, como bem lhe convinha, um evento a um fascínio, que era de fato como se sentiu ao confrontá-la e ao sorriso dela naquele dia – e pregava a si mesmo: “Sim, está escrito nas estrelas. Eu tinha de vir até aqui. E encontrá-la. Estava lá, escrito.”. Hoje, deixa que ela torne a contar alguns de seus sonhos. Afinal, estiveram vocês tantas vezes juntos, já é possível admitir que os que se encontram, como vocês, de alguma maneira, no fundo sempre sabem que sonham. Tem vontade de dizer a ela: “Claro que sim. No ano que vem você vai se mudar daqui. Vai conseguir aquele apartamento. Um pouco mais de trabalho, não é tão difícil. No ano seguinte, que seja. E encontrará aquele que vai ser seu companheiro, que vai amar você para sempre. Não é tão difícil.”. E pensar – pior ainda – que você raciocina com certa esperança, transfere um tom de convicção a si mesmo, adiando sua felicidade, como também a dela, a um novo futuro.

Hoje amanheceu como para outros. Ela também se levantou e não pôde evitar viver. E sua história com ela, sua canção e a de que finge gostar, nada disso é de fato atraente, como na verdade nunca houve histórias menos ou mais interessantes. Ocorre que algumas delas soam ameaçadoras, assim nos preocupam, nos movem a observá-las, por vezes a repeti-las. Que lhe importam a Coluna de Trajano, as sagas contadas, gravadas em relevo, se a sua vida é uma única peça, um único bloco onde se insculpem fragmentos com tudo que lhe coube, tudo que lhe cabe viver? E você sabe, como todos, que não pode estar antes nem depois da vida. Só aqui, em meio ao dia, é que tudo pode ser imaginado.

De alguma forma ela parece motivada a viver, o que lhe parece misterioso. Você não mais dispõe de outros instintos, como se houvesse sido atacado pela razão. Ainda é possível encontrar o fundo de alguma verdade, desde que ninguém a escreva. A impressão muito intensa de que você e ela serão sempre dois: sinceros sempre, enquanto fingem como brincam. Enquanto brincam como mentem. Enquanto se repetem, um ao outro, tanto você como sua irmã, que não é tão difícil. E continuam tentando, secreta e persistentemente, voltar para casa.

Leia mais histórias com mulheres: De intimidades e ousadias

Enquanto seu ônibus não vem

Imagem: Jeremy Lipking. Azul-claro.

Chegadas partidas

Dizem que, até o último dia de nossa vida, tudo pode acontecer.
Isso quer dizer que também pode não acontecer.

Robert Rauschenberg. Sem título (detalhe inferior). 1951.Imaginei outras pessoas que vinham para a capital cursar universidades, gerenciar negócios ou assumir cargos arranjados, e moravam, a princípio, com amigos ou parentes que os recebiam sem problemas. Com isso, podia rever também minha própria partida, anos atrás.

Ninguém fora despedir-se de mim na rodoviária. Nem era de se esperar, admito. Ainda assim, muito em segredo e contra o mais provável, até o último minuto eu supunha que algo diferente pudesse acontecer – sim, é estranho, são peças que a esperança nos prega. Dela, sempre fica algum ranço desse especial veneno, próprio a criar outra precária ilusão, levando-nos um pouco mais adiante. Dizem que, até o último dia de nossa vida, tudo pode acontecer. Isso quer dizer que também pode não acontecer. Enfim, era mais de meia-noite. Na poltrona bem à minha frente, ia um rapaz cuja turma de amigos promovia uma algazarra do lado de fora, agitando-lhe beijos e sorrisos com vozes embriagadas, desejando-lhe boa sorte entre muitas brincadeiras, uns palavrões toleráveis e obscenos votos de sucesso com futuras fêmeas, isso até que o ônibus partisse.

“Vamos morrer de saudades!”

“Vai com Deus!”

“Não esquece da gente, hein? Nós vamos te esperar…”

Eu sorria com o canto dos lábios, como nos tempos de escola, quando tinha de fingir estar participando de alegrias alheias. Fingia, dessa vez, para ninguém mais. Fingia que aquilo tudo era para mim.

“Escreve pra gente!”

“Eu amo você!”

Por acaso ninguém ocupava a poltrona ao meu lado, e assim pude dormir com certo conforto durante boa parte da viagem. Sonhei com ruas estranhas, comerciais de televisão, minha mãe inexpressiva, um dos últimos heróis de minha infância em um esquife e outras imagens desencontradas, o que, de alguma forma, me ajudou a esquecer a distância e o tempo, principalmente esquecer a mim mesmo, que era do que mais eu precisava. Acordei sobressaltado, compreendendo imediatamente que estava num ônibus de viagem. Podia ouvir pessoas roncando, misturando seus ruídos de sono ao som monótono do motor. Inclinando-me para o outro lado, descerrei a cortina corrediça e esmaguei meu nariz no vidro a fim de perscrutar a escuridão da paisagem lá fora. No mesmo trajeto por meio do qual, durante o dia, era possível observar uma paisagem que passava voando, que subia e se contraía, abria depressões profundas e tornava a emergir entre colinas intocáveis e mata nativa, eu podia ver apenas, quase que iluminados pela claridade veloz dos faróis do ônibus, uns postes que pareciam sentinelas da noite e uns feixes contínuos de cabos elétricos apostando corrida. Eu não tinha relógio, mas podia avaliar o quanto dormira e calculava que eram cerca de três horas. Fiquei olhando uma estreita faixa do acostamento, a estrada que não parava de passar, eu que não parava de pensar, e mergulhei meus olhos no negrume hostil que era a noite sem lua, refletindo sobre minha pequena oportunidade de emprego na capital, a idade em que me encontrava e o que eu havia sido até então, para onde afinal estava indo, ao lado de outros tantos passageiros que jamais conheceria. Por um momento, senti uma angústia muito intensa afogar-me o esôfago. E percebi que nunca antes estivera tão sozinho.

“Aaah!”

O grito vindo do fundo escuro do ônibus interrompeu-me o nascer de algumas lágrimas e fez acordarem alguns.

“Que foi?”, perguntou alguém.

“Sonhei que a gente estava caindo num buraco…”

Quando o ônibus chegou, já era manhã. Perdido entre o tumulto desordenado dos que desembarcavam, eu via pessoas abraçando-se nas plataformas, indo ao encontro de outras sorridentes, também as que esperavam com ar ansioso por seus entes queridos, olhando através de mim e movendo a cabeça num gesto apreensivo de procura, como se o meu vulto incômodo lhes obstruísse a visão. Quando afinal subi ao patamar seguinte, descansei a mala no chão por um momento. Então, divisei a dimensão da cidade sem fim, perdendo-me em seus horizontes de neblina. Não pude evitar isso que alguns chamam de um nó na garganta. Algumas pessoas me esbarravam em sua pressa, habitual ou nova, e eu ouvia a certa distância as chamadas e os gritos desencontrados dos carregadores. Era uma manhã cinzenta. Caía uma chuva fina, silenciosa, sobre a capital.

“Olha aí o caminho!”, protestou um dos transportadores, já tropeçando em minha bagagem. E ainda resmungando aos que o acompanhavam: “Pensa que o tempo parou pra ele…”

A metrópole significava para mim o desafio de enfrentar o inferno. Eu tinha em conta minha inexperiência, minha saúde frágil, minha inabilidade diante de inúmeras situações, meu salário precário. Para outros, tais viagens e mudanças chamavam-se oportunidades. Para mim, representava uma das piores coisas do mundo. O que eu mais desejava para o futuro, e que não podia ser medido em nenhuma escala, era poder sorrir de verdade.

“Sai da frente, retardado!”, outro deles, sem nenhuma educação.

Fiz o que pude para dar-lhe passagem, não pretendia incomodá-lo. Eu poderia abrir mão do espaço que ocupava, do tempo que não me servia para nada, do emprego que me esperava em alguma cela entre elevadores, de qualquer perspectiva que me iludisse, porque não conseguia ver nenhuma vantagem em ser bem-sucedido, em tornar-me o diretor de um escritório ou o campeão de vendas ou o presidente da República. Poderia deixar que todos passassem. E ficassem com tudo.

Enquanto eu subia as escadas rolantes na rodoviária, o velho despertador disparou dentro da mala. As pessoas mais próximas riam sem nenhuma piedade, outras procuravam com o prazer do escárnio a origem do ruído insistente, vergonhoso. Desnorteado, eu lhe acertava joelhadas por fora da velha mochila disforme, que eu promovera a mala, mas não houve meio de fazê-lo parar, e o danado acabou esgotando a corda quando eu já me encontrava no metrô. Foi meu primeiro vexame memorável na capital. Em minha nova vida.

Lá fora, de pé em uma esquina, busquei no bolso o papel amarrotado com o endereço da casa de pensão para onde iria em seguida. Mas era apenas o hábito, pois eu já o havia memorizado infinitamente. Visualizava futuros colegas de quarto, vizinhos, pessoas que eu não conhecia ainda, e com as quais teria de conviver. Senti algo muito forte paralisar-me os gestos. Nem tirei o papel do bolso. Fiquei parado ali mesmo, observando o movimento ao redor, pensando muito calmamente se valeria a pena continuar vivendo.

A conspiração dos felizes

 39. O que Copérnico não imaginava: todos queriam ser o Sol – sequência

37. Restos de meu pequeno mundo perdido – anterior

Guia de leitura

Imagem: Robert Rauschenberg. Sem título (detalhe inferior). 1951.

Você, que não queria ler isto

A indignação nos traz à memória a desolada conclusão de Julio Cortázar, de que a vida é muito curta para tantas bibliotecas.
Porém, a vida é curta para muitas outras coisas.

Conta-se que o muito curioso jovem Thomas Alva Edison procurava a biblioteca de sua cidade com o objetivo de ler cada um dos livros, começando da primeira estante a partir da entrada. Que tenha desistido logo após enfastiar-se com alguns dos primeiros volumes, era absolutamente previsível, porém ficava-lhe a lição, tão óbvia quanto fascinante, de que não se deve tentar abordar o infinito campo do conhecimento sem o recurso do método.

Quem de nós nunca experimentou uma sensação de impotência, quase de amargura, ao adentrar uma biblioteca ou grande livraria e tomar consciência da proliferação de títulos e autores ali acumulados, os textos à espera de olhos que os percorram; os autores, de inteligências que os admirem e até, quem sabe, tanto quanto os livreiros, de compradores que os troquem por um dinheirinho? A sensação de que você não passa de um inseto alfabetizado passeando por uma floresta formada em diversos países durante dezenas ou mesmo centenas de anos, como também toda a produção anual de novos frutos, flores e até excrementos, a certeza de que jamais lerá um centésimo sequer dos poetas do mundo, que dirá dos prosadores e dos médicos que preferiram enriquecer com livros sobre ginecologia e combate ao estresse, tudo isso sem contar os psicografados, como se ainda nunca fosse suficiente o número de autores vivos disputando nas prateleiras seu lugar à sombra.

A indignação nos traz à memória a desolada conclusão de Julio Cortázar, de que a vida é muito curta para tantas bibliotecas. Sim, e a vida é curta para muitas outras coisas. E o vasto arquivo de textos que tende sempre mais a se acumular nas estantes do mundo não pode nos impressionar pela quantidade. Na verdade estão todos ali, inertes, à espera de uma curiosidade que os desperte, que é sempre como funcionam as coisas. Quem sabe o que lhe falta – você se pergunta em segredo, com vergonha de que o descubram – seja justamente essa curiosidade. Talvez, num lugar assim, entre tantos livros assim, igualmente sem que outros saibam, lhe aconteça alguma coisa. Mas que não seja um acidente. Afinal, você também pode decidir algo por si mesmo. Reconheça, você já está se sentindo melhor.

Hoje muito conhecido e inclusive mitificado em seu próprio país, o escritor argentino Jorge Luis Borges era, como parte indissociável de sua personalidade, um apaixonado por livros. Entre seus contos, “O livro de areia” fala de um livro sem fim, um volume que de certa forma, sempre que consultado, tornava-se outro, com numeração de páginas aleatória, textos em diversos idiomas e ilustrações vistas uma única vez, nunca mais podendo ser encontradas. A ideia de associar o infinito ao livro (ou o livro ao infinito, o que seria melhor esperado que se dissesse) já prenunciava o antológico “A biblioteca de Babel”, em que o universo é formado por sequências infinitas de prateleiras e estantes abrigando todos os textos possíveis, sobre todos os assuntos. Os aventureiros percorriam enormes distâncias em qualquer direção em busca de um livro sagrado que resumisse todos os volumes. Havia livros comentando o absurdo que era a própria biblioteca. Havia as traduções desses livros em todas as línguas. Havia críticas aos mesmos livros e a negação delas. Borges faz um relato inspirado nessa sensação de impotência. E nos encanta.

O espanhol Camilo Jose Cela, Prêmio Nobel de Literatura, se é que isso conta no caso, declarou certa vez que a tendência de um escritor era ler cada vez menos. Ora, e por quê?, é preciso que se pergunte. Porque, segundo ele, os livros tornam-se previsíveis e deixam de nos interessar. E embora o romancista português José Saramago confessasse algo parecido (que cada vez lhe importava menos conversar sobre literatura, pois os assuntos do mundo faziam-se para ele sempre mais preocupantes), é em meio ao seu texto que encontramos repetidos provérbios, dentre os quais o de que enquanto não chegar o seu último dia de vida, tudo pode acontecer. Até interessar-se por livros.

Para o chinês Lin Yutang (era escritor, vale lembrar) não há no mundo livros que se devam ler, mas somente livros que uma pessoa deve ler em certo momento, em certo lugar, dentro de certas circunstâncias, e num certo período de sua vida. E finalmente você, que não esperava muito de seu dia nem pretendia deter-se por tão pouco, sem procurar muito, acabou lendo isto.

Leia mais sobre o tema: P. S.: Post scritptum (Pós-escrita)

Poe – A queda da casa de Usher

Meu colega triste

Talvez não houvesse no mundo um menino mais triste do que ele.
Pouco tempo no calendário, uma cicatriz na memória.

Mas eu era assim, analítico. Ou supunha ser. Observava tudo em meus colegas, naturalmente ou não. Certos dias houve em que me sentia tão aguçado, tão perfeitamente lúcido e desperto, que quase poderia apostar na iminência de alguma fulgurante revelação, em meio a um momento qualquer. Isso nunca aconteceu, claro. Só me ocorria comparar tal estado interior com um lapso de intensa vigília, como se visse, através de um vidro muito limpo, um pátio de árvores após a chuva, cada folha em sua extrema nitidez, como elaborada com a precisão da pena de um desenhista encantado.

Também não foi por causa desses dias de vidro que se gravaram em minha lembrança os tipos com quem convivi durante este ou aquele período. Meu colega alto e ruivo, dentição proeminente e orelhas destacadas. Minha colega morena, de nádegas inadequadamente largas para seu tamanho, ignorante e malcheirosa. Meu colega franzino, compleição débil, aparentando uma fragilidade imprópria à sobrevivência. Minha colega silenciosa, muito magra e desproporcional, como um estranho passarinho de braços finos e longos. Meu colega obeso, estudioso e humilde, conformado com sua condição. Minha colega de olhos grandes e rosto triangular, sorriso que parecia lhe ocupar toda a dimensão do rosto, satisfeita porque se acreditava bela – que entre gente de nosso meio dificilmente alguém se atrevia a considerar-se qualquer coisa menos patética do que ser bonito ou inteligente. Meu colega de olhos miúdos e lábios tensos, nunca relaxados, agressivo e rebelde, supondo-se injustiçado por algum motivo. Minha colega de rosto sério, baixa e sem cintura, enquanto não nos surpreendia com um de seus raros sorrisos amargos, como se nunca valesse a pena sorrir ou como se ela nos quisesse contar que havia sido enganada pela vida. Nenhum deles era, em minha opinião, mais feio do que eu. E quase me esquecia de meu colega triste, de quem quase nada sabíamos, porque ele havia deixado a escola logo após uns primeiros dias, tempo suficiente para o identificarmos como um semelhante, para nos assegurarmos de sua presença na sala de aula, para nos fazer pensar que talvez não houvesse no mundo um menino mais triste do que ele. Pouco tempo no calendário, uma cicatriz na memória: meu colega triste.

A conspiração dos felizes

27. Não fale grego assim comigo – sequência

25. Inexpressivo, impassível, sem graça – anterior

Guia de leitura

Imagem: Odilon Redon. O corvo. 1882.