Projeto esvanecendo-se. Pequena deusa simples

Nada era estranho na Grécia Antiga.
Era outro mundo, as coisas eram outras coisas. Eles inventavam um monte de histórias, uma quantidade de deuses e deusas, e ninguém estranhava nada, era tudo lindo e assustador.

asher-brown-durand-estudo-da-natureza-rochas-e-arvores-1856-1Josie, eu confesso que não consigo adestrar minha imaginação adolescente avulsa abundante quando estou assim com você, já disse isso, lembra? Fala, ahn? Fala de novo. Você a minha frente, num lugar longe, longe no tempo, perto de umas rochas e umas árvores tranquilas, você com uma túnica até os joelhos, uns enfeites e sandálias trançadas, uns detalhes nos cabelos, coisinhas delicadas nos cabelos, uma deusa leve, otimista. Você estende a mão, eu também, a gente se toca, feliz. Uma pequena deusa com cara de… pode rir, não me importo, eu adoro imaginar assim mesmo. Não, não tô rindo de você, lindo. Verdade. Só adorei também. Você é meio assim, não é? Com essas coisas. Esse tipo de coisa. Não vejo ninguém me falando essas coisas. Por isso que eu acho meio engraçado. Só isso. Muito gostoso, viu? Que mais? Josie, olha. Chamar uma jovem bonita… Tch, ah! – gesto rápido de não-sou-bonita-não. Me escuta. Chamar uma jovem bonita de deusa é um clichê desgastado, muito sem graça até, e eu não tenho uma imaginação só minha. É sempre a repetição das coisas e coisas que mais ou menos eu sei. Ah, lindo, mas pouco me importa isso, que se dane, não precisa ter nada, que isso, só fica assim comigo, vem cá. Dois, três beijos alegres. E seu nome de deusa é… Deleitônima. Ah, é? Ahah. Como é? Deleitônima. Ela sorri, com suas covinhas, sua boca larga, dilatando as narinas. Palhaço. Que nome estranho. Nada era estranho na Grécia Antiga. Era outro mundo, as coisas eram outras coisas. Eles inventavam um monte de histórias, uma quantidade de deuses e deusas, e ninguém estranhava nada, era tudo lindo e assustador. Pena que apareceu o cristianismo depois. Sei, sei. Beijo entrecortado. Tento evocar a deusa enquanto sou dominado por sua boca. De lei tô ni na ma ma… Ela consegue sorrir enquanto beija, mais ou menos isso. Errou. Errei? De lei tô mi ma ni ma… Ahahahah, mas que bobo. Beijo contínuo agora. Breve, mas forte. Bem pegado. Acabou o beijo. Pequenos sorrisos. Quanta bobagem um homem encantado diz! Chega de brincadeirinhas. Chega de graça e de Grécia. Ela me olha, quieta, mas brilhando de viva, essa deusinha pobre. As covinhas à espreita, ao fim de seu sorriso, quase visíveis, querendo mostrar-se a qualquer momento. Não sei o que vai ser de nós, lindo. Fico pensando nisso. Que droga, viu? Que chato. Acho que eu te amo.

 … os deuses gregos representavam uma sociedade hierarquizada. Tinham competências e poderes bem definidos, cada um com seu limite, e mesmo o mais poderoso, não sendo onisciente nem onipresente, também tinha seus problemas. Nenhum deles era absoluto ou completamente transcendente – ou nada faria sentido…

Eu nunca tinha visto a Joss Stone quase comovida assim. Falou devagar, vi que ela estava meio sensibilizada. Não é bom que ela me ame. Mas é menos pior que seja assim. Que não seja um teatrinho uma trapaça um trote. Eu é que não conseguia corresponder a essa sinceridade dela, pressupondo que aquilo não fosse verdade. Que ela estaria interessada em alguma coisa. Mas não estava, como hoje sei. Não estava, nunca esteve. Então ela me disse, pela primeira vez, como diria ainda outras vezes, bem a sua maneira: “Que chato. Acho que eu te amo.” – e isso sempre me dava medo. A culpa era minha, claro. Não tinha nada que estar ali com ela. Não tinha que ter medo. Ou ficava com ela sem medo ou nada de nada. Porque eu sabia, sempre soube, que tudo tinha um preço. Tudo tem um preço. Imagine-se então essa pequena deusa simples, que não se considera bela, que não vê a si mesma como alguém especial, de uma sinceridade admirável automática ampla e imatura, acostumada a sua própria beleza real, sem alarde, um rostinho comum, que passa despercebido pelas ruas. Um rostinho que eu via de muito perto, muito, muito perto. Absolutamente lindo. Linda por não se importar com isso.

Projeto esvanecendo-se

16. Liberdade à força – sequência

14. Matéria básica e um resto de vinho  – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Asher Brown Durand. Estudo da natureza: rochas e árvores. 1856.

Projeto esvanecendo-se. Matéria básica e um resto de vinho

Mas ninguém nunca escapou de ser humano.
E isso significa vivenciar a matéria básica que nos compõe, com toda a força da realidade, a matéria que nos desafia com a vontade de seguir e nos constrange com a vontade de chorar.

joan-miro-bailarina-detalhe-superior-1925Isso deve ter sido duro para ela. Não a faxina, não nossas tarefas diárias domésticas diárias, claro que não, que eu também fazia todas essas coisas, revezando os dias ou os períodos, e sempre me oferecia, sempre nos oferecíamos, agora estou pensando em todos os sentidos, sim, nós sempre nos oferecíamos, éramos unidos, sentíamos verdadeiro tesão um pelo outro, e esse tesão é o alicerce do amor, é claro que sim, todos sabem disso, como sempre foi. O que deve ter sido duro para ela foi chorar daquele jeito, na minha frente. Foi ter sido vencida por uma crise incontida de soluços engasgados, caída num chão molhado, entre suores e sujeiras. Isso é que deve ter sido duro para ela, caso eu não tenha dito isso ainda. Ela que sempre se fez o exemplo do autocontrole, a estrela da determinação e da proatividade. Mas ninguém nunca escapou de ser humano. E isso significa vivenciar a matéria básica que nos compõe, com toda a força da realidade, a matéria que nos desafia com a vontade de seguir e nos constrange com a vontade de chorar.

Eu sei de mim e por isso sei dos outros. Tenho a simples certeza de que não sou único. E que a história de minhas dúvidas desejos segredos erros e vergonhas é uma história reciclada copiada herdada de meus ancestrais, que não é propriamente a minha história. Mesmo entre os que aparentam alguma forma de sofisticação e conduta moral de referência, as condições primárias brutas naturais de nossa humanidade prevalecem, nem que seja em forma de vírus, clandestinas e contínuas, sobre suas claras decisões de superfície.

Por que nos atraímos um dia, eu e a Marjorie? Por que nos aproximamos e nos aceitamos e nos amamos? Pelos mesmos motivos naturais e nada surpreendentes que moveram milhões e montilhões e multidões de outros como nós. Chega a ser monótono tudo isso. Agora, nove anos de vivermos juntos, olho o relógio a essa hora da tarde e verifico que não há intimidade que não tenha sido devassada. Por que tudo que era antes não segue da mesma maneira entre tudo que veio depois? A conquista mútua se consolidou? O desafio foi superado? E daí? Acabaram para nós as refeições que se compunham de leite, panquecas com açúcar, maçãs e nozes? Mudou o gosto das paredes de broa de gengibre ou nosso paladar foi que se subverteu com a força fraca de nossos beijos?

As coisas não mudam todas. Não são uniformes. Não seguem juntas. Não admitem previsões simples quanto a sua presumida proporção e seu ritmo de queda ao longo dos dias. Até hoje, com alguma frequência, a Marjorie se aconchega a mim na cama, deita a cabeça em meu ombro em meu peito até em meu pescoço, colando parte de seu corpo na lateral de meu corpo, deixando uma das pernas bonitas dobrada sobre minha barriga minha virilha minhas pernas mesmo. Ela tem pernas muito bonitas, muito bem proporcionadas consistentes firmes, mas palpáveis, deliciosamente palpáveis, musculosas na medida certa, sem deformações, tantas vezes significando para mim, nos momentos reais de acessá-las sob minhas mãos, o que havia de mais prazeroso no mundo. E isso sempre me cativou muito, apesar de toda pretensa intelectualidade que tenta arrastar-me para fora do animal ativo que sou, arrancando-me a pele e o cheiro de minha pele – mas não, nenhuma artificialidade conseguiu jamais mudar isso. Muitas, muitas, incontáveis vezes, ficamos juntos assim ou quase assim, com variações, unidos na cama, unidos nas receitas e nas despesas, sem receitas programadas para nosso relacionamento, sem despesas desnecessárias que desgastassem nossas conversas. Tem um resto de vinho? Eu pego.

Mas isso, como os ventos os beijos o gosto das paredes doces, não tinha mais a mesma realidade. Mesmo assim, havia uma gradação imperceptível, uma sucessão de desvios entre as semanas e as estações, algo que não se acelerava nem retrocedia. O que decisivamente mudou, eu sei, partiu de um dia específico, que se tornou, como já disse, uma noite limítrofe, e quase pode ser datado: o fim de tarde em que lhe contei como o Sydney a Adelaide e o Wellington haviam me derrotado em nome da instituição. Isso se agravou em pouco tempo quando ela passou a pressentir que eu não pretendia voltar tão cedo a me ocupar com nenhum outro trabalho. Além disso e ao mesmo tempo e enquanto esses terremotos mais ou menos significativos na escala Richter vibravam só entre nós, eu jamais, jamais pensei planejei projetei que um dia, após nove anos com a Marjorie, fosse me envolver assim com outra mulher.

Projeto esvanecendo-se

15. Pequena deusa simples – sequência

13. Casinha de gengibre e os ventos seguintes  – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Joan Miró. Bailarina (detalhe superior). 1925.

Projeto esvanecendo-se. Casinha de gengibre e os ventos seguintes

O rodo lhe servia como um cajado, um cetro.
Deixou-se cair sentada, uma das mãos cobrindo o rosto enquanto chorava.

chelsea-james-tanque-2-2009-1Nos primeiros anos de casados não tínhamos empregada doméstica. Nos fins de semana, dividíamos alguma faxina e tarefas que pediam nossa semana seguinte. O apartamento era pequeno, vivíamos apaixonados, e mesmo as dificuldades interpretavam-se mais leves, tudo era motivo de entusiasmo e bom consumo de nossas energias. Para se ter uma ideia, a pegada do sexo podia acontecer entre uma tarefa e outra, só por culpa da proximidade física – e isso, como bem sabemos os adultos, não é pouco, vamos admitir. Mas essa fase de casinha de broa de gengibre, como todas as que eu e a Marjorie vivemos, passou.

Um dia ouvi ruídos mais fortes vindos do banheiro, depois de a Marjorie ter entrado lá com balde bucha rodo sapólio sabão de coco e uns panos. Ela vinha da lavanderia, camiseta verde-clara com um nó lateral, shorts e havaianas, reclamando de umas manchas no ladrilho e em algum canto de parede. Umas pancadas. Um ritmo meio nervoso, agitado. Quase um vidro quebrado. Pact, bléim! Cheguei perto para ver. A Marjorie estava suada e um pouco suja, os cabelos presos em parte soltos desprendidos teimosos livres de uma ou outra presilha ou elástico, nem reparei direito. Então ela parou, encostou-se à parede, ainda apoiada no rodo, e foi descendo ao chão com uma careta de amargura. O rodo lhe servia como um cajado, um cetro. Deixou-se cair sentada, uma das mãos cobrindo o rosto enquanto chorava. Não era essa vida que eu queria pra mim. Não eeeera. Não era isso que eu queria pra miiiiim. Agachei a sua frente, tentei abraçá-la. Me larga! Marje… Me larga, vai. Vai! Que foi, que aconteceu? Me diz. Era melhor nem tocar nela. Apoiei a mão esquerda na parede, o outro braço solto sobre o joelho, fiquei agachado ali, olhando suas pernas com indiferença, só porque estavam próximas expostas propensas ao toque, e seus pés bonitos brancos molhados rígidos, nas havaianas tiras cor de vinho – a Marjorie tem um gosto especial com essas coisas. Agora era um choro de soluços, as duas mãos cobrindo o rosto. Marje, vem comigo… Me larva, já falei! Ela disse larva, estava engasgando com as palavras, coitada. Eu achei aquilo um pouco engraçado, e por sorte ela não me viu começando um sorriso de boca presa. Você disse larva, você quer que eu te lave? Não, claro que a Marjorie não queria nada disso, e meu bom humor imprevisto, fora de contexto, só piorava a situação.

Ela ficou sem falar comigo uns dias. Só o essencial, como dizem. Mas para mim isso significa só o superficial, que o essencial não é isso, não é isso de trocar informações básicas, fechou o lixo? vou chegar um pouco mais tarde, lembrou de abastecer o carro? tem que comprar pão de forma, fazer lanche hoje, a Coco Chanel, está acabando a ração dela, coisas avulsas e rotineiras por necessidade de comunicação. O essencial era que essa crise de choro imprevista da Marjorie, apoiada num rodo e declinando ao desânimo, fazia dela a primeira de nós a perceber que as coisas que as nossas coisas que as estações que os ciclos que os réveillons que os brindes que as festas na Maga que os ventos haviam mudado.

Projeto esvanecendo-se

14. Matéria básica e um resto de vinho – sequência

12. Cintilações que não podem ser  – anterior

 Guia de leitura

Imagem: Chelsea James. Tanque 2. 2009.

Projeto esvanecendo-se. Nossa juventude em fatias de espaço-tempo

Uma festa opaca e branda.
Orientada por outra magia.

paul-klee-o-balao-vermelho-1922-1A morte da Maga assinalou, para nós, o fim de uma era. Nosso espaço-tempo, em fatias. Tínhamos todos mais de trinta agora. E ela, sendo uma de nós, era também uma testemunha sobrevivente da década anterior, dos nossos vinte anos. Nossos impulsos, gargalhadas, excessos e solidões pareciam renovar-se nas festas que a Maga, solitária, arranjava em sua casa. Com isso, ela queria estender, ela fez estender nossa primeira juventude a um futuro sem limite, que seria sempre nosso de alguma forma. Todas as festas em sua casa bonita marcaram nossas vidas, nossas fatias de espaço-tempo. No dia de seu funeral, mesmo aqueles que não simpatizavam muito com ela (e os medíocres que riam dela às escondidas, fazendo piadas de gordinhas) sentiam-se gratos por todos aqueles encontros, quando as canções e outros sinais próprios de cada fase, marcando nossa memória entre variações do álcool, faziam crer que poderíamos continuar sendo como éramos, que só dependia de nós, principalmente de nossa motivada anfitriã, que nossa juventude jamais terminasse. Alguns entre nós, mesmo em momentos festivos como aqueles, aproveitavam para fazer negócios. Outros, para reabastecer seus egos. Eu parecia ser o único capaz de registrar tudo, e alguns esperavam isso de mim. A Maga foi um centro, como nos sistemas cósmicos, de forte intensidade gravitacional.

Mario Bunge, filósofo da ciência, disse que, para quem estuda Biologia, a morte não é um mistério. Pode não ser. Mas não é o caso. Isso não importa muito, que não podia impedir nossa tristeza

No velório da Maga, estavam todos abatidos. Sem exceções. Essas horas mornas suspensas em nossas vidas, trágicas em nossa perspectiva, começaram no fim da tarde e estenderam-se por uma parte da noite. Nenhum de nós queria ir embora. Mesmo os nossos conhecidos mais displicentes mais inconsequentes mais egoístas. Era uma última reunião um último encontro uma última festa, sem música sem movimento, quase em silêncio. Uma festa opaca e branda. Orientada por outra magia.

A Marjorie estava conversando com umas amigas, perto do caixão – a Rose Levy, a Tatiana Siqueira e a Gisele Porto, se bem me lembro. E eu saí para respirar a noite fresca, o que ainda era a vida lá fora. O lugar era bem planejado, gramado entre passarelas estreitas, arbustos arredondados, árvores pequenas, plantas com flores amarelas e roxas pontuando o jardim, pequenos lagos artificiais cruzados por pontes de alvenaria branca que nos permitem atravessar com serenidade essas porções de espaço e de tempo entre uma parte e outra, entre um meu pensamento e outro, entre uma lassidão mental minha… e outra. Avistei a Queen ali perto, encostada a um muro. Sozinha ao lado de uma coluna baixa, fumando. No topo dessa coluna delicada e sem enfeites, uma lâmpada redonda, luz amarelada, quase cor de âmbar. Cheguei mais perto, e um grilo parou de cantar. Ela estava de braços cruzados, uma perna dobrada de lado. Blusa escura, não sei de que cor, mangas arregaçadas até os cotovelos, jeans justo, azul-escuro, desenhando suas pernas esguias, botinhas pretas. Reflexos de um spot sobre os laguinhos em seu rosto, movimentos de luz muito discretos, água quase parada. Queen, me diga. O que a Maga te contou? Ela me olhou neutra, com olheiras. Seus cabelos lisos, caídos sem força, cortados reto, fendidos ao meio, destacavam sua testa pálida e bonita. Eu não falava muito com a Maga nesses últimos tempos, querido. Não eram muitas conversas, ela não chegou a ser minha confidente. Nem eu dela. Entende? Sei, entendo. Mas ela nunca deu nenhum sinal dessa doença dela e… não falava nada sobre alguém mais, como a gente vinha pensando? Não. Não mesmo. Fui pega de surpresa, como todo mundo. Um vento muito leve passou. Será que a Queen sabia sobre o namorado misterioso da Maga, sobre a Maga ter alguém em segredo? Minha intuição nunca foi grande coisa, mas eventualmente parece mostrar-se algo mais aguçada, não sei. Não sei mesmo. Nesse momento, lembrei-me de algo que a Mônica Rosa dissera uma vez sobre não poder confiar muito na Queen. Eu sentia que ela, a Queen, estava me escondendo alguma coisa. Só porque me olhou mais de uma vez sem piscar sem sorrir sem se mover. Só virando o rosto para soltar um pouco de fumaça.

Projeto esvanecendo-se

 – sequência

 Guia de leitura

Imagem: Paul Klee. O balão vermelho (detalhe superior). 1922.

Projeto esvanecendo-se. O jardim do hoje

O dia passava.
Qualquer coisa que eu dissesse a mim mesmo não impediria o avanço das eras seguintes.

jose-antonio-turci-escada-de-pedra-1Coco Chanel geralmente fica comigo quando vou mexer no jardim. Ela persegue insetos e lagartixas, que lhe escapam com facilidade. Ela não se importa muito, logo se esquece, desiste. Nesse dia, eu revolvia parte de um canteiro com uma velha pazinha esmaltada em laranja, de ponta enferrujada, pensava em começar ali um manjericão. Distraído, mesmo assim a engrenagem das associações girava em minha cabeça quieta. Mesmo que essa terra seja nova, despejada aqui ao término da construção da casa, ou substituída depois, uma vez e outra, mesmo assim, abaixo dela há mais terra e mais terra, e um escuro silêncio secreto reina sobre os restos de todos os tempos. Restos que não existem mais, nem mesmo são restos. Mas foram. Meus olhos pareciam nublados por essa conclusão simples. Com a mão encardida, acariciei a cabecinha a nuca o dorso liso de Coco Chanel. Fiquei com pena de saber que um dia ela teria de ser enterrada – mas curiosamente não sentia pena de mim, que naturalmente também acabaria enterrado. Parecia que toda a sua delicadeza, seus mínimos gestos, seu elegante movimento de cabeça ao observar um detalhe e outro ali por perto, que tudo isso era sofisticado demais para se perder na podridão. Mas essa era a lição que me chegava de todos os gatos que existiram. E Coco Chanel, como todos os gatos que existem, é a cópia variável de todos os gatos que existiram. Mexi na terra um pouco, parei, tornei a mexer. Revolvi um pouco de terra fresca úmida marrom-escura, e percebi que estava fazendo aquilo por nada, só por fazer, um hábito, um gesto mecânico. Todos os gestos anteriores desapareceram. Todos os meus gestos anteriores, todos os gestos do mundo. No fundo da terra, restos de animais e vegetais e até minerais de algum tipo, sobrepondo-se e desaparecendo ao longo de muitos milhões de anos, quando esta mesma parte deste jardim desta casa desta cidade deste continente localizava-se em outra parte do planeta, enquanto se movia sempre, sobre uma profundidade de massas moles e absurdamente incandescentes. Um arrepio muito leve – talvez eu nem o tenha sentido de fato. Não sei. Soltei a pazinha. Ergui os olhos, olhei à toa ao redor, observei a grossa corrente de ferro pendendo de uma quina do telhado, junto à calha. Nenhuma oscilação. Estática firme sólida. Irmã da gravidade que a chama o tempo todo para baixo. Em dias de chuva forte, ela parece viva, rugindo surdamente, fazendo a água contorcer-se por seu corpo escuro antes de despencar de vez. As gavinhas de uma trepadeira delicada chegam até ela, enroscam-se no trecho superior, entre os primeiros elos. Mas por que eu estava olhando essa corrente, que tanto servia de adorno como condutora de águas? Lembro de como fiquei encantado ao vê-la pela primeira vez, nesse ponto da área externa. Esta casa onde moramos é de meu sogro, esse militar aposentado que é um poço de retidão e honestidade. Duvido que ele tenha alguma vez se encantado com isso. Parei de olhar, voltei-me para a modesta porção de terra que tentava modificar com a pequena pá, o que também estava desistindo de fazer. Sentado na mureta de um dos canteiros, apoiei os antebraços nos joelhos, deixei as mãos entrelaçadas frouxas caídas entre as pernas. Olhei para a árvore maior, para o alto. Observei Coco Chanel lambendo com calma sua própria espádua, a lateral de seus ombrinhos delicados. Meu pensamento não continuava. Uns passarinhos cantavam distantes discretos e distraídos, como é normal nessa hora do dia. O que era esse peso invisível que parecia tocar meus ombros? Logo abaixo acumulavam-se pórticos e cacos de colunas, ossos de impérios inteiros, seus deuses e armas vencidos, e a cada passo eu os enterrava mais fundo ainda. O dia passava. Qualquer coisa que eu dissesse a mim mesmo não impediria o avanço das eras seguintes. Esta terra sobre a qual existo também estará em outra parte do mundo, carregada pelas placas subterrâneas gigantescas e imperiosas. Mas isso não importa. Não importa em que parte do mundo a gente esteja agora. Minha total inexistência futura não causará nenhum efeito sobre quem quer que esteja por aqui em outro dia como este, assim como eu também não me importo com os guerreiros antigos que desapareceram. Tive a impressão de ter ficado um bom tempo olhando a brisa entre as folhagens sobre o fundo de nuvens. Lembrei do dia nublado em que surpreendi a Josie no ponto de ônibus. Pensei em muitas pessoas e no tempo que ainda restava a todos nós antes que chegassem outras estações, outro vasto verão apodrecendo os mortos, outro outono arrancando folhas a nossa pele, outro inverno suspenso entre os milênios, outra primavera de perfumes prenhes. Coco Chanel não estava mais ao meu lado. Eu a procurei com os olhos. Levantei-me, andei à frente. Ali, entre os arbustos de bela-emília. Ela havia adormecido na relva.

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 – sequência

 Guia de leitura

Imagem: José Antônio Turci. A escada de pedra (detalhe superior). 1998.

Projeto esvanecendo-se. Uma coisa tão simples

Eu não tinha pressa, mas não queria ficar ali, escutando arengas.
Detesto encontrar esses ex-colegas pelo motivo simples de que são todos uns chatos.

carl-spitzweg-o-hipocondriaco-detalhe-inferior-1865Quando fui convocado a esse encontro-conversa-cilada (um e-mail da secretaria relacionada ao Wellington), era inevitável suspeitar que algo assim, como o fim de meus dias por lá, fosse a pauta principal. Misteriosamente, subsistiu em mim, até uma boa altura da conversa, um ranço de surpresa. É mais ou menos quando não se quer acreditar que um boato idiota somado a uma situação idiota gerando uma burocracia idiota possa chegar a um ponto tão delimitado e drástico, sem retorno. Mas era a agenda de final de ano, o cardápio do dia. A pauta era eu. E fim.

Ano passado, bem perto, poucos meses, penso que em agosto, encontrei por acaso um colega de outros tempos, o Jorginho Vecchi. Nós dois trabalhamos juntos, eram nossos vinte, vinte e um anos, em uma mesma empresa que foi comprada por outra, depois por outra e hoje não existe mais. Nos primeiros anos após essas negociatas e fusões, era comum encontrar ex-colegas, e todos eles criticavam, ressentidos, o desfecho infeliz daquelas tramoias todas. Quanto a mim, não queria ficar ouvindo aquelas pontuações nostálgicas e lamentações que não serviam para nada, além das condicionais fantasiosas garantindo que, se tivesse sido feito assim ou assado ou frito ou cozido, toda a história teria sido diferente, portanto nós todos, afinal de contas… – e patati patatá pataquá. Só que o passado não existe. Por algum motivo misterioso, meus colegas parecem não saber disso. E que ironia encontrar esse meu semelhante numa agência bancária em frente à velha esquina em questão. Eu não tinha pressa, mas não queria ficar ali, escutando arengas. Detesto encontrar esses ex-colegas pelo motivo simples de que são todos uns chatos. O Jorginho ficou ali, de pé, sorrisinho triste, olhando tudo, lembrando coisas. Então, em algum momento, eu o interrompi. Não fique aqui, Jorge. Não volte aqui. Esta esquina não existe mais. Ele sorriu, levemente desconcertado, talvez duvidando de minha lucidez. Que isso? Do que você está falando? Fiz um movimento com o braço direito, algo parecido com o gesto que ilustrou para a Adelaide meu alívio naquele último dia na universidade, no corredor da saída, antes da última porta transparente, estendendo o gesto para a esquina toda, sugerindo um elegante giro panorâmico. Esta esquina não existe mais, entendeu? Nosso passado acabou. Não volte mais aqui. Ele sorriu, manteve o sorriso fixo tímido nervoso, me olhando de frente. Ele é um desses caras que costumam ficar muito tempo sem piscar, é o natural dele. Balançou levemente a cabeça. Nosso passado não existe, Jorge. Aquela empresa não existe mais, esta esquina não existe mais. Olha, eu tenho que ir. Bati de leve em seu ombro. Não volte, não venha mais aqui. Ele não entendeu, eu vi. Não entendeu uma coisa tão simples.

… a eternidade não é um tempo longo, fora de nós, que um dia iremos encontrar. Ela é o tempo único de nossa consciência hoje. Ela é o tempo todo que transcorre. Não existe vida no passado, e todos sabem disso. Mas é preciso exercitar essa constatação para que não fique comprometida nossa lucidez…

Lembrar, recordar, conversar sobre o passado não tem nada de insano. Mas ficar remontando situações que poderiam ter sido de um jeito e não de outro, lamentando vértices e bifurcações, é uma bobagem ociosa, já que não podemos voltar à noite de ontem para mover um objeto de lugar ou tomar o café esquecido ao lado do sofá. Se alguém descobrir hoje, terça-feira, algo sobre meu caso com a Josie, por exemplo, o que se compromete é o meu presente, não o meu passado. E se ninguém nunca souber de nada, o passado continua intacto, o presente imaculado e o futuro limpo. Não sou inocente, como já disse. Claro que não. Mas o fato é que a consciência de uma situação faz reescrever a história, rever o passado, como sempre extinto, e pode destruir alguém num futuro bem próximo. Não sei. Não sei ao certo. Pode ser que nunca aconteça nada.

Não consigo imaginar o desfecho disso tudo, porque eu não queria que algo assim começasse, minhas visitas ansiosas ao apartamento estreito e aconchegante da Josie e tudo que engendrava tais ousadias, na realidade tão comuns. Pensei que não quisesse continuar me encontrando com ela. Pensei também que ela não iria querer continuar se encontrando comigo. Depois entendi que a desejava a cada nova semana, conforme os dias secretos me encobriam, conforme as tardes de sua pele e de seu corpinho consistente me impeliam sempre mais em direção ao desastre. Por fim projetei as possibilidades de um escândalo ou de um completo alheamento, que não deixaria ossos ou fósseis para registros futuros. Mas eu não tinha certeza de nada. E não conseguia me decidir. Ela já ocupava meu pensamento com arrepiante intermitência. Projetada em meu espaço cotidiano vivo, instalada entre circuitos neuronais que a cristalizavam. Ela já estava em mim. Isso foi em março.

… Henry Miller sintetizava que, para um homem apaixonado, a pior hora era às três da manhã. Mas eu não me acreditava apaixonado, embora perdesse o sono por uma soma considerável de motivos, inclusive levando a sério as propostas da civilização, das sociedades humanas…

Eu e a Marjorie não éramos mais os mesmos. O que nos distanciava agora, disso eu tinha certeza, era minha condição de homem ocioso e não muito proativo quanto a tentar ultrapassar essa condição. Sei que a Marje deve ter pensado em muitas saídas, algum plano de emergência, mas ela não me contava. Eu percebia todas as suas insinuações, mas dissimulava, deixava que ela me visse com a melhor imagem que fazia de mim, a de um ingênuo desatento, que pode tropeçar e cair a qualquer momento. Como se esperasse que algo partisse de mim. Mas não partia. Meu ritmo havia declinado, estava em descompasso com o dela. Minha força de vontade me traía. Eu era um doente fingido, aparentando aceitar de bom grado as medicações. No fundo, não fazia esforço para me curar. Ao contrário, sentia a necessidade de ficar algum tempo internado, com a desculpa de não poder sair da cama. Não queria alta. Queria continuar fingindo. Mas esse desejo não era resultado de qualquer tipo de malandragem ou estratégia maliciosa. Eu estava mesmo exausto. Recuperando-me de muitos anos de assiduidade e dedicação. Revendo a utilidade de tudo quanto havia feito. Engolindo a saliva seca. Desmoronando.

A Marjorie, pelo jeito, não percebia nada disso. Ou percebia e também fingia. E eu, em vez de lhe dizer, com todas as letras, o que estava sentindo e vivendo, evitava o confronto. Tinha medo de sua reação, de suas respostas sempre pragmáticas práticas funcionais, algo que pode piorar os nervos de quem já não dispõe de forças para conversar muito ou para dar um passo em busca de uma nova colocação profissional. Muitas vezes a Marjorie encerrava um diálogo simulando tédio, um suspiro muito, mas muito suave, um suspiro elegante e medido, enquanto dizia educadamente, em tom mais baixo: eu estou cansada de falar. Eu quase me sentia assim, amplamente, com relação a mim mesmo. Eu quase poderia imitá-la, adaptando essa sua atitude típica a tudo que me desanimava e me fazia esgotado, eu que não encontrava mais forças para voltar às salas de aula ou para acreditar na honestidade humana ou para resistir a uma jovem amante despreocupada. Ou mesmo para conversar com minha própria esposa, essa que terminava os diálogos com seu estou-cansada-de-falar, muitas vezes no momento em que eu me fazia mais excitado e prolixo. Sim, talvez por isso mesmo. As coisas que tanto me excitavam e me encantavam não interessavam muito a ela. Apenas não lhe interessavam.

 

Projeto esvanecendo-se

12. Cintilações que não podem ser – sequência

10. Um último aceno por nada – anterior

Guia de leitura

Imagem: Carl Spitzweg. O hipocondríaco (detalhe inferior). 1865.