Projeto esvanecendo-se. Do que eu era

De qualquer forma, isso sempre produzia algum efeito.
Eu via pelas expressões dos rostos, aparentemente neutras, mas provendo olhares atentos.

1-aldo-balding-dialogo-silencioso-1Eu me orgulhava de minhas aulas quando conheci a Marjorie. Intuía, sem declarar a ninguém, que cada aluno representava a possibilidade de continuação das ideias contidas em minha mente. Cada um que assimilasse minha influência e compreendesse o que eu tinha a dizer estaria ajudando a mover o mundo a uma nova fase de reajustes e acertos. Uma correia de transmissão que eu acreditava apoiar-se no vigor de minhas convicções e de minhas propostas dialéticas. Podia constatar o efeito de tudo que dizia, tudo que construía no ar. Até mesmo caminhar pela sala de aula enquanto falava, procedimentos simples que despertavam olhares curiosos e giros de cabeça, parecia incomum. Um professor é avaliado a todo momento, meus colegas sabem disso. Enquanto fala, enquanto anda, enquanto respira.

Compreensão de textos. Por que Geppetto, o pai adotivo de Pinóquio, não se anima a sair da barriga da baleia? Quem não quer ser livre? Eu passava por trás da última carteira, seguia devagar de volta à lousa. Será que as circunstâncias de sua vida eram maiores do que ele? A baleia não seria o conjunto de fatores que o desmotivava e o tornava acomodado, apático, sem esperanças? Isso só podia piorar as coisas para o menino, que se esforçava para ser reconhecido pelo pai, buscando ser um menino de verdade. É um momento grave, observe, em que Geppetto parece estar desistindo da vida, portanto desistindo de seu filho também. Para compreender textos, você precisa participar deles. Precisa levar a sério as coisas mais absurdas. Não é mesmo? Alguns se mostravam interessados, outros pareciam abatidos e entediados.

De qualquer forma, isso sempre produzia algum efeito. Eu via pelas expressões dos rostos, aparentemente neutras, mas provendo olhares atentos. Afinal eu os provocava a pensar em algo fora da rotina, até mesmo fora do que esperavam do curso. Momentos digressivos. Que eu considerava úteis. Escutem isto: “Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de sonhos intranquilos, viu que se transformara, durante a noite, numa espécie de inseto monstruoso.”. O que acontece com esse personagem é algo tão absurdo e miraculoso que nós não desejamos nem para… Bem, talvez o desejemos a alguns, não importa. (Esses acréscimos, pretendendo ser bem-humorados, às vezes provocavam reações simpáticas – não de todos, é claro.) O que nos chama a atenção é o fato de essa metamorfose ser relatada sem nenhum espanto, sem nenhuma surpresa. Nenhum ponto de exclamação. Nenhuma palavra em tom de lamento. Nenhum comentário ansioso querendo rasgar a garganta. É como se o autor nos dissesse: “Gregor Samsa despertou, sentou-se na cama e escovou os dentes.”, o que também seria curioso, isso de escovar os dentes sentado na cama, não é mesmo? Mas não, nada se compara a uma transformação desse nível: tornar-se um inseto. Ou qualquer outro animal que seja, vamos admitir, não importa a espécie. E tudo começa pela manhã, à frente de um novo dia, o que torna tudo mais terrível. A expectativa foi invertida, pois temos como noção cultural, provavelmente arquetípica, comparar algo bom à luminosidade, e seu oposto. “Quando Gregor Samsa despertou…” É assim que começa o pior sonho para ele. Eu passava pela última fileira de carteiras, começava a voltar pelo mesmo caminho. A prosa de Kafka tem esse poder de nos direcionar a um absurdo como sendo cotidiano, como se coisas estranhas e impensáveis acontecessem normalmente ao nosso redor, o que, sob certo aspecto, é verdade. Mas nada de casarões escuros e portas que rangem. Não. O terror se manifesta sem suspense. Sem silêncios amedrontadores. Sem sustos. Sem gritos. E seguem-se os desdobramentos desse primeiro evento, sem dúvida impossível de se realizar. Seguem-se sem ênfase, sem notas de perplexidade. O absurdo a nossa volta, a começar por nossa manhã. O pesadelo à luz do dia.

Alguns alunos deixavam claro, com sua impaciência, movimentando-se na carteira, que não viam a hora de isso tudo acabar, de passar por isso tudo que eu mostrava e voltar a uma aula normal, isto é, sem problemas. Sem desvios para seu pragmatismo inercial, que apenas almejava um certificado ao final do curso. O Daniel me interrompeu. Se isso é impossível, o que nós temos com isso? Impossíveis de se realizar, sim, foi o que eu disse, mas só fisicamente. Então que coisa estranha é essa, algum palpite? A Sara, sem ironias. Ele enlouqueceu, professor. Ficou doido. Será mesmo, Sara? O texto não confirma isso. Gregor continua pensando, refletindo, consciente do incômodo que causa à família. Inicialmente, ele é incapaz de sair da cama e enfrentar o dia. Não consegue deixar o quarto, não consegue sair para o trabalho, não consegue explicar a si mesmo a razão de todos esses atos. Isso se chama depressão. O pior é que todos passam a evitar Gregor Samsa, a sentir repulsa por ele, passam a ter nojo dele. Portanto, o que contava mesmo era sua aparência, seu aspecto físico, era isso? O que é ele então?

 … certa vez eu pontuei que Cinderela não era uma história de amor, mas de casamento por interesse. E que a pequena sereia escolheu morrer por não suportar encarar o pai e as irmãs após haver fracassado em seu intento. Coisas assim tanto causavam admiração quanto antipatia, eu sei. Aula após aula, a realidade contada sob disfarces ficcionais ia minando as crenças que ainda sustentavam alguns. Eu não tinha o direito de mexer com suas crenças, foi o que me disseram…

Agora, quando me lembro dessas aulas, imagino um daqueles alunos indignados erguendo um braço e gritando: “Digressão!” E me consolo imaginando uma daquelas alunas bem-educadas, de quem me lembra perfeitamente o rosto bonito, alertando-me em particular: “Professor, tenha cuidado com essas digressões.”.

Eu seguia com minhas aulas, com orgulho de minhas aulas, contava sobre elas à Marjorie em nossos primeiros encontros, na época em que ainda nos encantávamos de verdade um com o outro. Ela parecia admirada, mas logo me direcionava a outras coisas também interessantes, que são aquelas coisas-que-mais-temos quando namoramos, a intimidade, as funções sensoriais, nossos beijos loucos. Nós, homens, nos prendemos muito a isso, mas temos uma percepção de tempo diferente e desencontrada em relação à das mulheres. Queremos tudo de uma só vez. No fundo, não temos planos estendidos, somos imediatistas. Caçadores atávicos. Muito do que fazemos, sob a tirania de nossos hormônios, visa a algo breve e satisfatório. Os hormônios delas atuam em outro sentido: tentam nos desarmar e a nos convencer a ficar por perto.

Como professor, um jovem professor afinal, que isso tudo eu já colocava em prática desde os primeiros meses de trabalho, essas provocações intelectualizadas e contextualizadas, em grande parte certamente consolidadas antes de meus trinta anos, eu pressentia estar dinamizando um processo que só poderia ajudar a melhorar as condições do mundo civilizado, vencendo o tédio e estimulando a curiosidade. Nem pensava nos outros. Só em meu trabalho. Só em minhas técnicas de interpretação, minha didática própria, e na alegria de passá-las adiante. Tudo isso se desfez em meia hora de reunião, com minha assinatura em um papel que não me interessava.

Eu era aquele (adolescente, mais ainda) de quem o mundo dependia para continuar a preservação do pensamento claro, da memória crítica, dos valores da honestidade e da ciência, superando a superstição e o medo. Eu era aquele de quem a humanidade dependia, mesmo que infimamente mesmo que anonimamente mesmo que invisivelmente para mudar a história, para fazer acelerar ou frear o curso perigoso da civilização, que no fundo não passa de uma persistente tentativa de impedir surtos de barbárie e de perversidades enrustidas. Minhas aulas, caracterizadas por questionamentos que eu julgava positivos, difamadas por alguns sem que eu soubesse, criticadas por serem digressivas, eram a minha maior contribuição para despertar os valores da intelectualidade e da sensibilidade. Dependendo do que fosse tratado, envolvendo situações trágicas e inconsoláveis, talvez sugerissem intenções suicidas em indivíduos mais sensíveis. Eu não queria isso, é claro. Mas não podia prever as consequências de tantas ideias mal formadas, depois formadas, depois descartadas, por vezes explosivas, mas sem som. Era um trabalho dentro de outro trabalho, de superfície. Um trabalho sem nome. Que nascia e crescia em mim mesmo. Nem sempre direcionado, admito, e bem pouco pragmático, comparado com o de meus colegas. Mas o fato de eu me orgulhar discretamente de minhas aulas e o entusiasmo que me movia enquanto as administrava eram claramente notados pelos alunos e também por alguns colegas, os menos indiferentes. Eu sentia e sabia fortemente que era um homem bom. Sem complicações quanto a isso. Sem polêmicas conceituais quanto ao que se entenda por ser bom. Eu apenas me sentia assim, pensava assim sobre mim mesmo, com toda certeza. E quanto mais eu lia, e eu lia quase compulsivamente (quase, eu disse), minha consciência de mundo crescia, admitindo-se serem verdadeiras as informações que chegavam até mim, e minha responsabilidade parecia aumentar naturalmente inercialmente proporcionalmente. Também, quanto mais elevadas essas responsabilidades, maiores se mostravam as chances reais de eu sofrer. Eu próprio me atribuía isso tudo, que não queria ser um medíocre atravessando o tempo. E não me importava de sofrer, se fosse o caso. Sim, esta era então uma das coisas-que-eu-mais-tinha: não me importava de sofrer. Meus ancestrais italianos, camponeses pobres, imigrantes famintos, meus parentes mortos, mesmo os mais antigos, ficariam orgulhosos de mim.

Projeto esvanecendo-se

20. Dos primeiros dias inúteis – sequência

18. Liberdade à força – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Aldo Balding. Diálogo silencioso (detalhe central).

Projeto esvanecendo-se. Liberdade à força

Mas não procurei nenhum deles. Não lhes enviei e-mails, não telefonei.
Deixei que dezembro, com seus dias espessos, passasse.

michael-goldberg-abajur-e-vaso-1963-1Minha vida agora era outra. A Marjorie saía para trabalhar. Eu ficava em casa o dia todo. Mesmo quando lecionava, dispunha de algumas manhãs livres. Mas agora tinha de me acostumar com todas as manhãs livres. Todas as tardes. Todas as noites. Não é bom viver assim, tão livre. Não enquanto a Marjorie passa o dia nesse escritório de advocacia onde, por todas as referências, ela personifica uma perfeita competente admirável secretária assistente. Perfeita e preocupada. Proativa, que eu também sei que ela é. Tudo que um líder empreendedor patrão pode desejar. Para um advogado, nem se fale. Além disso, confiável. A toda prova. Eu também me considerava confiável e a toda prova até o dia em que o Valério da Matemática deixou-me a par de todos os boatos excitantes contra mim. Até então, eu era mesmo confiável, que os boatos não eram fatos. Depois, quando me sentia o próprio portador heroico da verdade, o sobrevivente ressentido da resistência moral, prejudicado por gente esperta e aproveitadora, conheci, sob aquele dia de nuvens, a garota triste que seria, em pouco tempo, minha improvável amante. Minha felicidade nervosa e renovada. Minha mentira mais linda.

Eu não sabia ainda o que fazer para voltar à ativa. Tinha perdido minhas conexões, que já eram pouquíssimas. Dificilmente encontraria aulas naquela época do ano, quando já se encontrariam fechados os contratos, organizados os horários e definidos os corpos docentes. Como eu trabalhava nisso há muito tempo, sem interrupção, sem precisar me preocupar em procurar aulas em parte alguma, e como nos últimos anos, para piorar, vinha me dedicando com exclusividade a uma única instituição, eu me via completamente fora de forma quanto à maratona de procurar trabalho. Tinha que procurar frutas escondidas no alto das copas. A árvore toda caiu.

… Jean-Paul Sartre postulava que deveríamos encontrar um sentido para nossas vidas, já que a vida não apresenta sentido algum. Albert Camus defendia que isso era desnecessário: que a vida não tinha sentido mesmo e que simplesmente deveríamos aceitar isso…

Pensei em colegas que poderiam me ajudar com uma vaga de docente em escolas de ensino médio, talvez numa dessas cidades próximas, já que a disputa aqui costuma ser agressiva e medíocre. Mas não procurei nenhum deles. Não lhes enviei e-mails, não telefonei. Deixei que dezembro, com seus dias espessos, passasse. Eu quase adivinhava que esses colegas que me vinham à mente, entre imagens rápidas, nem sabiam do que tinha acontecido comigo. Que eu, um dos professores mais ativos e atarefados da instituição, com uma laboriosa diversidade de matérias, desde a mais comum, Compreensão de textos, aplicada a quase todos os cursos, até a específica Semiótica, com mínima carga horária no curso de Educação artística, estava drasticamente parado. A não ser que fossem próximos de um desses tipos muito bem informados, de preferência maledicentes, não teriam ainda essa notícia, no mínimo curiosa, sobre mim. Imagino que reagiriam com alguma interjeição de surpresa, talvez um palavrão inofensivo, desses que não valem mais nada, mas que nos agrada e alegra pronunciar, bem-humorados e autoconfiantes. Que bosta, não é?

Minha forçada ociosidade fez surgirem hábitos aos quais eu me dedicava enquanto ainda percebia, em silêncio, dissimuladas vibrações de culpa. Caminhar e correr. Mexer no jardim. Internet por mais tempo. Ler mais, o que era só o agravamento de um entranhado hábito em curso – em curso desde que aprendi a decifrar o código absurdo que usamos para registrar e repassar ideias. Convivia em tempo integral com a asseada Coco Chanel, que aliás preferia alienar-se docemente, sabendo-me seguro e próximo, indo se acomodar a algum canto, a deixar-se adormecida boa parte do tempo. Seguro. No aconchego do lar. Na casa que pertence a meu sogro.

Enquanto essas atividades me ocupavam, minhas caminhadas e meus grifos em páginas novas, eu não conseguia evitar uma incômoda impressão de que minhas funções como professor profissional e pessoa não eram e não seriam mais as mesmas. Eu tinha de voltar a trabalhar, fosse como fosse. Com janeiro a meio, o verão entrecortado por tons arroxeados no céu, entre o entardecer e as primeiras estrelas, nas proximidades do bairro industrial, preparei cópias de meu currículo, cuidando de esperanças mais ou menos mortas. Eu olhava esses papéis, um cego de olhos esgazeados. Sem nenhum interesse. Olhava-os, por nada. Há pouco mais de dez anos, com frescas lembranças de minha formatura e de meus colegas de faculdade, eu entregava meu breve histórico profissional em finas pastas de plástico de cores discretas. Esse cuidado ingênuo, quando revisto, inspirava-me uma patética desagradável amargurada pena de mim mesmo.

Projeto esvanecendo-se

19. Do que eu era – sequência

17. Nossa juventude em fatias de espaço-tempo – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Michael Goldberg. Abajur e vaso. 1963.

Coisas que ninguém viu nos contos de fadas

1-os-sete-anoes-1Os pais deixam os filhos pequenos na floresta para que morram de fome. João e Maria conseguem voltar e, milagrosamente, ainda amam os pais. Os pais, frustrados, tentam de novo e desta vez conseguem: os pequenos realmente se perdem. Depois de quase morrerem nas mãos de uma senhora solitária e louca, eles a matam, roubam suas joias e voltam para casa. Milagrosamente, eles ainda amam os pais. E os pais se alegram com sua volta. Os pequenos assassinos estão carregados de joias, roubadas da vítima. Todos ficam felizes.

* * *

O lobo está sozinho com a menina indefesa, no meio da floresta, sem ninguém por perto. Pode atacá-la ali mesmo, sem nenhum impedimento, sem nenhuma testemunha. Mas prefere trapacear, fazendo-a tomar outro caminho para que ele próprio, por um atalho, chegue antes à casa da avó dela, onde mais tarde, depois de uma sessão de fingimento mal ensaiado, tenta dominá-la.

Preliminares? Ou esse lobo gosta mesmo é de teatro?

* * *

Todo dia os sete anões trazem da mina sacos de diamantes e pedras preciosas. Com alguns meses de trabalho, certamente teriam se tornado os homens mais ricos da Europa. Mas moram numa casinha tosca. Usam roupas remendadas. E não tinham faxineira até a coitada da Branca de Neve chegar.

* * *

A madrasta da Rapunzel foi uma precursora da boa forma. Escalar uma torre daquela altura subindo por uma corda de tranças de cabelos, depois fazer rapel na volta não é para qualquer um. a mulher devia estar em ótima forma. Madrasta fitness.

* * *

Entendendo que não conseguirá persuadir Wendy, Peter Pan recorre ao seu plano B: a minúscula fada Tinker Bell, que deixa cair sobre eles um pó mágico. Todos passam a ter pensamentos felizes e adquirem o dom de voar. Wendy, até então ajuizada e boa argumentadora, se esquece imediatamente de tudo o que dizia um minuto atrás. Agora todos estão prontos para a viagem. Já estão, de alguma forma, viajando em si mesmos, encantados e entregues, aptos a longos e arriscados voos – afinal, vão enfrentar piratas armados, deixar a proteção de sua casa aconchegante, correr riscos. Aspirar o pó mágico afastou seu medo, aniquilou sua consciência. Peter Pan drogou as crianças.

* * *

Nos bons tempos dos contos de fadas, era muito fácil enganar os outros. Um leão jogava às costas uma pele de cordeiro e se fazia passar por um. Um lobo imitava horrivelmente a voz da mamãe cabra e tentava entrar na casa dos cabritinhos. Outro lobo enfiava uma touca na cabeça, uns óculos por cima do focinho comprido e pronto: “Não me reconhece, querida? Sou a sua vovozinha.” O mais divertido mesmo é que a personagem-vítima ainda franze a testa, leva a mão ao queixo, desconfiada, como se pensasse: “Hum… Há algo estranho por aqui…”.

Viajando com Peter Pan

Constanza

Imagem: Walt Disney Productions. Branca de Neve e os sete anões. 1937.

Projeto esvanecendo-se. Pequena deusa simples

Nada era estranho na Grécia Antiga.
Era outro mundo, as coisas eram outras coisas. Eles inventavam um monte de histórias, uma quantidade de deuses e deusas, e ninguém estranhava nada, era tudo lindo e assustador.

asher-brown-durand-estudo-da-natureza-rochas-e-arvores-1856-1Josie, eu confesso que não consigo adestrar minha imaginação adolescente avulsa abundante quando estou assim com você, já disse isso, lembra? Fala, ahn? Fala de novo. Você a minha frente, num lugar longe, longe no tempo, perto de umas rochas e umas árvores tranquilas, você com uma túnica até os joelhos, uns enfeites e sandálias trançadas, uns detalhes nos cabelos, coisinhas delicadas nos cabelos, uma deusa leve, otimista. Você estende a mão, eu também, a gente se toca, feliz. Uma pequena deusa com cara de… pode rir, não me importo, eu adoro imaginar assim mesmo. Não, não tô rindo de você, lindo. Verdade. Só adorei também. Você é meio assim, não é? Com essas coisas. Esse tipo de coisa. Não vejo ninguém me falando essas coisas. Por isso que eu acho meio engraçado. Só isso. Muito gostoso, viu? Que mais? Josie, olha. Chamar uma jovem bonita… Tch, ah! – gesto rápido de não-sou-bonita-não. Me escuta. Chamar uma jovem bonita de deusa é um clichê desgastado, muito sem graça até, e eu não tenho uma imaginação só minha. É sempre a repetição das coisas e coisas que mais ou menos eu sei. Ah, lindo, mas pouco me importa isso, que se dane, não precisa ter nada, que isso, só fica assim comigo, vem cá. Dois, três beijos alegres. E seu nome de deusa é… Deleitônima. Ah, é? Ahah. Como é? Deleitônima. Ela sorri, com suas covinhas, sua boca larga, dilatando as narinas. Palhaço. Que nome estranho. Nada era estranho na Grécia Antiga. Era outro mundo, as coisas eram outras coisas. Eles inventavam um monte de histórias, uma quantidade de deuses e deusas, e ninguém estranhava nada, era tudo lindo e assustador. Pena que apareceu o cristianismo depois. Sei, sei. Beijo entrecortado. Tento evocar a deusa enquanto sou dominado por sua boca. De lei tô ni na ma ma… Ela consegue sorrir enquanto beija, mais ou menos isso. Errou. Errei? De lei tô mi ma ni ma… Ahahahah, mas que bobo. Beijo contínuo agora. Breve, mas forte. Bem pegado. Acabou o beijo. Pequenos sorrisos. Quanta bobagem um homem encantado diz! Chega de brincadeirinhas. Chega de graça e de Grécia. Ela me olha, quieta, mas brilhando de viva, essa deusinha pobre. As covinhas à espreita, ao fim de seu sorriso, quase visíveis, querendo mostrar-se a qualquer momento. Não sei o que vai ser de nós, lindo. Fico pensando nisso. Que droga, viu? Que chato. Acho que eu te amo.

 … os deuses gregos representavam uma sociedade hierarquizada. Tinham competências e poderes bem definidos, cada um com seu limite, e mesmo o mais poderoso, não sendo onisciente nem onipresente, também tinha seus problemas. Nenhum deles era absoluto ou completamente transcendente – ou nada faria sentido…

Eu nunca tinha visto a Joss Stone quase comovida assim. Falou devagar, vi que ela estava meio sensibilizada. Não é bom que ela me ame. Mas é menos pior que seja assim. Que não seja um teatrinho uma trapaça um trote. Eu é que não conseguia corresponder a essa sinceridade dela, pressupondo que aquilo não fosse verdade. Que ela estaria interessada em alguma coisa. Mas não estava, como hoje sei. Não estava, nunca esteve. Então ela me disse, pela primeira vez, como diria ainda outras vezes, bem a sua maneira: “Que chato. Acho que eu te amo.” – e isso sempre me dava medo. A culpa era minha, claro. Não tinha nada que estar ali com ela. Não tinha que ter medo. Ou ficava com ela sem medo ou nada de nada. Porque eu sabia, sempre soube, que tudo tinha um preço. Tudo tem um preço. Imagine-se então essa pequena deusa simples, que não se considera bela, que não vê a si mesma como alguém especial, de uma sinceridade admirável automática ampla e imatura, acostumada a sua própria beleza real, sem alarde, um rostinho comum, que passa despercebido pelas ruas. Um rostinho que eu via de muito perto, muito, muito perto. Absolutamente lindo. Linda por não se importar com isso.

Projeto esvanecendo-se

17. Nossa juventude em fatias de espaço-tempo – sequência

15. Os rapazes, os homens, a guerra  – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Asher Brown Durand. Estudo da natureza: rochas e árvores. 1856.

Projeto esvanecendo-se. Matéria básica e um resto de vinho

Mas ninguém nunca escapou de ser humano.
E isso significa vivenciar a matéria básica que nos compõe, com toda a força da realidade, a matéria que nos desafia com a vontade de seguir e nos constrange com a vontade de chorar.

joan-miro-bailarina-detalhe-superior-1925Isso deve ter sido duro para ela. Não a faxina, não nossas tarefas diárias domésticas diárias, claro que não, que eu também fazia todas essas coisas, revezando os dias ou os períodos, e sempre me oferecia, sempre nos oferecíamos, agora estou pensando em todos os sentidos, sim, nós sempre nos oferecíamos, éramos unidos, sentíamos verdadeiro tesão um pelo outro, e esse tesão é o alicerce do amor, é claro que sim, todos sabem disso, como sempre foi. O que deve ter sido duro para ela foi chorar daquele jeito, na minha frente. Foi ter sido vencida por uma crise incontida de soluços engasgados, caída num chão molhado, entre suores e sujeiras. Isso é que deve ter sido duro para ela, caso eu não tenha dito isso ainda. Ela que sempre se fez o exemplo do autocontrole, a estrela da determinação e da proatividade. Mas ninguém nunca escapou de ser humano. E isso significa vivenciar a matéria básica que nos compõe, com toda a força da realidade, a matéria que nos desafia com a vontade de seguir e nos constrange com a vontade de chorar.

Eu sei de mim e por isso sei dos outros. Tenho a simples certeza de que não sou único. E que a história de minhas dúvidas desejos segredos erros e vergonhas é uma história reciclada copiada herdada de meus ancestrais, que não é propriamente a minha história. Mesmo entre os que aparentam alguma forma de sofisticação e conduta moral de referência, as condições primárias brutas naturais de nossa humanidade prevalecem, nem que seja em forma de vírus, clandestinas e contínuas, sobre suas claras decisões de superfície.

Por que nos atraímos um dia, eu e a Marjorie? Por que nos aproximamos e nos aceitamos e nos amamos? Pelos mesmos motivos naturais e nada surpreendentes que moveram milhões e montilhões e multidões de outros como nós. Chega a ser monótono tudo isso. Agora, nove anos de vivermos juntos, olho o relógio a essa hora da tarde e verifico que não há intimidade que não tenha sido devassada. Por que tudo que era antes não segue da mesma maneira entre tudo que veio depois? A conquista mútua se consolidou? O desafio foi superado? E daí? Acabaram para nós as refeições que se compunham de leite, panquecas com açúcar, maçãs e nozes? Mudou o gosto das paredes de broa de gengibre ou nosso paladar foi que se subverteu com a força fraca de nossos beijos?

As coisas não mudam todas. Não são uniformes. Não seguem juntas. Não admitem previsões simples quanto a sua presumida proporção e seu ritmo de queda ao longo dos dias. Até hoje, com alguma frequência, a Marjorie se aconchega a mim na cama, deita a cabeça em meu ombro em meu peito até em meu pescoço, colando parte de seu corpo na lateral de meu corpo, deixando uma das pernas bonitas dobrada sobre minha barriga minha virilha minhas pernas mesmo. Ela tem pernas muito bonitas, muito bem proporcionadas consistentes firmes, mas palpáveis, deliciosamente palpáveis, musculosas na medida certa, sem deformações, tantas vezes significando para mim, nos momentos reais de acessá-las sob minhas mãos, o que havia de mais prazeroso no mundo. E isso sempre me cativou muito, apesar de toda pretensa intelectualidade que tenta arrastar-me para fora do animal ativo que sou, arrancando-me a pele e o cheiro de minha pele – mas não, nenhuma artificialidade conseguiu jamais mudar isso. Muitas, muitas, incontáveis vezes, ficamos juntos assim ou quase assim, com variações, unidos na cama, unidos nas receitas e nas despesas, sem receitas programadas para nosso relacionamento, sem despesas desnecessárias que desgastassem nossas conversas. Tem um resto de vinho? Eu pego.

Mas isso, como os ventos os beijos o gosto das paredes doces, não tinha mais a mesma realidade. Mesmo assim, havia uma gradação imperceptível, uma sucessão de desvios entre as semanas e as estações, algo que não se acelerava nem retrocedia. O que decisivamente mudou, eu sei, partiu de um dia específico, que se tornou, como já disse, uma noite limítrofe, e quase pode ser datado: o fim de tarde em que lhe contei como o Sydney a Adelaide e o Wellington haviam me derrotado em nome da instituição. Isso se agravou em pouco tempo quando ela passou a pressentir que eu não pretendia voltar tão cedo a me ocupar com nenhum outro trabalho. Além disso e ao mesmo tempo e enquanto esses terremotos mais ou menos significativos na escala Richter vibravam só entre nós, eu jamais, jamais pensei planejei projetei que um dia, após nove anos com a Marjorie, fosse me envolver assim com outra mulher.

Projeto esvanecendo-se

15. Os rapazes, os homens, a guerra – sequência

13. Casinha de gengibre e os ventos seguintes  – anterior

  Guia de leitura

Imagem: Joan Miró. Bailarina (detalhe superior). 1925.

Projeto esvanecendo-se. Casinha de gengibre e os ventos seguintes

O rodo lhe servia como um cajado, um cetro.
Deixou-se cair sentada, uma das mãos cobrindo o rosto enquanto chorava.

chelsea-james-tanque-2-2009-1Nos primeiros anos de casados não tínhamos empregada doméstica. Nos fins de semana, dividíamos alguma faxina e tarefas que pediam nossa semana seguinte. O apartamento era pequeno, vivíamos apaixonados, e mesmo as dificuldades interpretavam-se mais leves, tudo era motivo de entusiasmo e bom consumo de nossas energias. Para se ter uma ideia, a pegada do sexo podia acontecer entre uma tarefa e outra, só por culpa da proximidade física – e isso, como bem sabemos os adultos, não é pouco, vamos admitir. Mas essa fase de casinha de broa de gengibre, como todas as que eu e a Marjorie vivemos, passou.

Um dia ouvi ruídos mais fortes vindos do banheiro, depois de a Marjorie ter entrado lá com balde bucha rodo sapólio sabão de coco e uns panos. Ela vinha da lavanderia, camiseta verde-clara com um nó lateral, shorts e havaianas, reclamando de umas manchas no ladrilho e em algum canto de parede. Umas pancadas. Um ritmo meio nervoso, agitado. Quase um vidro quebrado. Pact, bléim! Cheguei perto para ver. A Marjorie estava suada e um pouco suja, os cabelos presos em parte soltos desprendidos teimosos livres de uma ou outra presilha ou elástico, nem reparei direito. Então ela parou, encostou-se à parede, ainda apoiada no rodo, e foi descendo ao chão com uma careta de amargura. O rodo lhe servia como um cajado, um cetro. Deixou-se cair sentada, uma das mãos cobrindo o rosto enquanto chorava. Não era essa vida que eu queria pra mim. Não eeeera. Não era isso que eu queria pra miiiiim. Agachei a sua frente, tentei abraçá-la. Me larga! Marje… Me larga, vai. Vai! Que foi, que aconteceu? Me diz. Era melhor nem tocar nela. Apoiei a mão esquerda na parede, o outro braço solto sobre o joelho, fiquei agachado ali, olhando suas pernas com indiferença, só porque estavam próximas expostas propensas ao toque, e seus pés bonitos brancos molhados rígidos, nas havaianas tiras cor de vinho – a Marjorie tem um gosto especial com essas coisas. Agora era um choro de soluços, as duas mãos cobrindo o rosto. Marje, vem comigo… Me larva, já falei! Ela disse larva, estava engasgando com as palavras, coitada. Eu achei aquilo um pouco engraçado, e por sorte ela não me viu começando um sorriso de boca presa. Você disse larva, você quer que eu te lave? Não, claro que a Marjorie não queria nada disso, e meu bom humor imprevisto, fora de contexto, só piorava a situação.

Ela ficou sem falar comigo uns dias. Só o essencial, como dizem. Mas para mim isso significa só o superficial, que o essencial não é isso, não é isso de trocar informações básicas, fechou o lixo? vou chegar um pouco mais tarde, lembrou de abastecer o carro? tem que comprar pão de forma, fazer lanche hoje, a Coco Chanel, está acabando a ração dela, coisas avulsas e rotineiras por necessidade de comunicação. O essencial era que essa crise de choro imprevista da Marjorie, apoiada num rodo e declinando ao desânimo, fazia dela a primeira de nós a perceber que as coisas que as nossas coisas que as estações que os ciclos que os réveillons que os brindes que as festas na Maga que os ventos haviam mudado.

Projeto esvanecendo-se

14. Matéria básica e um resto de vinho – sequência

12. Cintilações que não podem ser  – anterior

 Guia de leitura

Imagem: Chelsea James. Tanque 2. 2009.