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A MENTIRA TEM PERNAS CULTAS
Começa com o Papai Noel, lembra? Eles nos enganavam, nós enganamos nossos filhos e ajudaremos a enganar os nossos netos. Depois, com a cara mais estúpida do mundo revelamos, piedosos e encantados pela inocência das crianças: “Não existe, meu bem. É de mentirinha.” Só não temos a dignidade de acrescentar: “Fomos nós que enganamos vocês. Nós mentimos.”
Nossa sociedade pratica tais exercícios de empulhação como se disséssemos a nós mesmos que não podemos confiar nem em nossos pais. Sem dúvida, deve haver um fundo de verdade nisso. Ou um fundo de mentira bem disfarçado. Ensinamos as crianças a dizerem a verdade não porque cultivamos princípios, mas para que tenhamos domínio e controle sobre elas. “Não minta para mim!”, avisamos enfaticamente. Mal começam a crescer, aprendem a atender o telefone, e lhes gritamos de outra parte da casa: “Se for Fulano, diga que não estou!”
A mentira tem raízes em nossa cultura. É difícil imaginar uma sociedade sem mentiras. Parece impraticável. Quanto a mim, as mentiras já me salvaram de muitas situações difíceis, portanto não sou digno de criticar todos os que mentem, só alguns. Também é preciso entender que se fôssemos sempre verdadeiros, teríamos dez vezes mais inimigos – o que pode ser divertido, cabendo a cada um decidir se vale a pena ou não.
Quando o italiano Carlo Collodi decidiu resgatar sua difícil relação com o pai, já falecido, e escolheu a escrita, não imaginou que estivesse nos deixando um clássico infantil. Para se tornar um menino e um homem de verdade, ele próprio teria de encontrar sua verdade. Mas Pinóquio poderia ter sido instruído no caminho oposto: se não aprendesse a mentir, não poderia viver bem entre os homens.
Em nosso país, quando se descobre um caso de fraude envolvendo políticos, inicialmente o acusado nega tudo e se declara inocente. Um passo adiante, descobrem-se provas de seu envolvimento, e ele nega em parte, assumindo que mentira anteriormente. Passado o tempo, prescrito o processo, ele não mais se defende, está imune, são e salvo. Seus advogados os orientam: “Minta o quanto puder e faça tudo parecer verdade.” A boa assessoria jurídica é crucial em momentos de perigo como esse. Profissionais competentes podem livrar qualquer farsante de qualquer condenação desde que saibam administrar habilmente a mentira. E pensar que eram aqueles mesmos jovens recém-formados que juraram pública e solenemente defender a justiça, quem diria, hein, rapaz? E seus pais se orgulhavam de toda aquela simulação que você fazia parecer real. E como você se encantava ao ver Pinóquio sendo perdoado e auxiliado pela fada madrinha! Aposto que nunca pensou que, quando crescesse, ganharia a vida como fada madrinha dos pinóquios que se multiplicam à luz da impunidade e sob a sonolência entorpecida da justiça – e veja-se que final lindo para este parágrafo: faz tudo parecer a absoluta verdade.
Pois aqui está a muito conhecida anedota medieval em que o mestre, preocupado com a ingenuidade de um de seus discípulos, em meio a uma aula chamou-o repentinamente à janela: “Corra, venha ver os porcos voando.” O rapaz correu à janela e, previsivelmente, nada viu. Sob as manifestações de escárnio de seus colegas de classe, o mestre pousou a mão em seu ombro: “Então, rapaz, você de fato acreditou que os porcos pudessem voar?” O jovem, ainda envergonhado, respondeu: “Eu achei que seria mais fácil os porcos voarem do que o senhor mentir.” Pois talvez tenha sido nossa mesma sensação de perplexidade um dia: seria mais fácil Papai Noel visitar cada casa do mundo ao mesmo tempo do que nossos próprios pais mentirem para nós.
A personagem do ingênuo que, dizendo sempre a verdade, arruina todas as relações dos que o cercam é o sinal de alerta que transformamos em situação cômica, pois sabemos ser muito difícil viver sem mentir. A instrução de Pinóquio, afinal, talvez faça algum sentido, pois a verdade também é necessária para que as relações humanas continuem funcionando.
Portanto, vamos passear de guarda-chuva: continuar fingindo que acreditamos em tudo o que nos dizem e que somos só nós que nunca mentimos. Quero ser eleito para defender os mais humildes. Meu governo dará prioridade à educação. Deus não abençoa a quem não der o dízimo. Ouro para o Brasil.
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