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OS CONSPIRADORES OCUPAM O CAFÉ
Dez anos. Durante essa tão breve quanto extensa amostra de tempo, pois referir-se a ela não é o mesmo que tê-la atravessado com todas as suas horas e dias, nossa fase adulta havia se consolidado, com mais frustrações e sofrimentos para uns do que para outros, como é natural também que a vida não tenha lógica. Tempo suficiente para conquistar e perder novos amigos. Para esquecer um amor ou a morte de alguém. Para excitar-se com novos sonhos e constatá-los em extinção entre as paredes de um quarto onde só nós habitamos. Às vezes tanto cabe em tão pouco. E nossa vida toda é assim.
Muitos de nós se casaram e fizeram descendentes, à sua imagem e semelhança. Alguns formaram-se no exterior, outros desistiram por aqui mesmo, por falta de recursos. Um colega de meu meio suicidou-se. Há os alcoólatras entre eles, os viciados entre nós. Soube de um doente crônico, apesar de jovem. Dois de nossa classe sucumbiram aidéticos. Há as mulheres sem cintura que eram meninas meigas e acabaram casadas com canalhas intratáveis. A miss colégio tornou-se uma prostituta de luxo. Uma moreninha sem graça preferiu a carreira religiosa. E há também aquela tão feinha e pobre da qual nunca mais se ouviu falar.
Estamos numa idade em que parte de nosso destino já transcorreu, a outra parte como que se delineia previsível, com suas tendências, a menos que ocorram novos desastres. Já se sabe quem são os bem-sucedidos e os fracassados. Já se conhecem os trapaceiros, os otários, os agiotas, os mais submissos, os adúlteros, os ingênuos. Os solitários. Os mortos.
E ali estávamos os três. Eu, com meu passado de humilhações e traumas inexpugnáveis, debatendo-me contra as incessantes dificuldades financeiras, havia atravessado todo aquele período, chegara até ali de alguma forma e por nada. Eles, com suas vidas transcorrendo assim suaves, desde suas origens tranqüilas, encaminhados desde sempre à felicidade e ao conforto, tendo inclusive como definitivamente esquecidos os momentos mais constrangedores de minha vida, a que por acaso tocara-lhes a margem da convivência num colégio estadual. Ao fundo, por trás de onde agora estávamos, a rádio mantinha agradáveis canções, algumas de melodia belíssima, como se as fizesse fluir de entre as ramagens.
A mesma idade. Não o mesmo passado. O que passou não mais se altera, todos aqueles dias se foram, e minha adolescência já não pode ser outra. Vanessa havia me desprezado e Copérnico também, separadamente. Mas isso nunca significou nada para eles, portanto era como se jamais algo houvesse acontecido, magicamente. Ah, eles! E pensar que alguma vez sonhei casar-me com Vanessa, amá-la como ninguém mais o pudesse fazê-lo em meu lugar, cego para com a evidente superioridade dos rapazes de seu meio, que naturalmente dispunham de mil vantagens e direitos sobre mim, isso sob todos os pontos de vista, menos o do amor. Os senhores feudais levavam para si a noiva do vassalo, exercendo seu direito de nobre, porque o outro não podia com sua força bruta e sua violência. E veja-se como evoluiu o mundo: sem lançar mão de qualquer gesto violento, mas entre inúmeras sutilezas, palavras soltas e atitudes quase imperceptíveis ao longo da vida, fizeram-me sempre acreditar que eu não valia o ar que respirava, que eu não tinha qualquer direito a conquistar uma bela jovem, e roubaram-me assim, impunemente e à luz da bondade, a noiva que jamais tive.


de A conspiração dos felizes
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