| NAS ESCADAS, MAS NÃO MUITO |
“Ora, Júlio, você é livre. Livre para tudo. Pois não vai o tempo dissolvê-lo como a todos, não é esse o jogo do futuro? Do que então podem ameaçá-lo?” “Não sei, Pablo. Ainda falta algo. Não compreendo. Ainda não. O que acha, Cândido?” “Vendo você aí, sentado nos degraus da escada, como se tudo estivesse bem, como se sua tranqüilidade não servisse a disfarçar graves turbulências, eu diria que devesse apenas prosseguir com calma.” “Com calma. O que quer dizer isso?” “Envolver-se com o trabalho sem ficar imaginando coisas. Ficar com essa moça mesmo. Afinal, não se pode encontrar alguém na justa medida para nossas arbitrariedades.” “Que conselhos são esses? Então você se entrega a sonhos tão pobres? Isso é como não ter sangue. Não desista, Júlio. Tente rastrear o rumo de seu grito. O preço de não pensar pode ser alto demais.” “Tem razão, Pablo. Mas não é bom estar sempre pensando em tudo. Chego a sentir inveja de Vanda.” “Deixe disso, ela não pode ser diferente. Não é uma questão de escolha. É de sua natureza.” “Ora, você também é livre para pensar em tudo. Por que não se atirar sem medo numa aventura dessas? Se há pouco a ganhar, também não haverá muito a perder.” “Vou pensar nisso, Pablo. Vou mesmo.” “Pois quanto maior...” “Maior a queda. Isso de invejar o último mendigo só por não ser você, ora, quem precisa recorrer a tais exageros poéticos?” “Aí está o seu problema, Júlio. Você é incapaz de um pensamento próprio. Tudo o que lhe ocorre vem de outra parte, outros pensantes e suas leituras. Eles lhe propuseram algumas questões, que você acredita suas, e não mais tem força para livrar-se delas.” “E o que há de errado nisso? Pois não é o próprio pensamento um atavismo? E não são as questões repensadas desde o primeiro pensador até um futuro inconcebível? Não se importe com isso, Júlio.” “Bem, pelo menos estou livre de obrigações do tipo estar na moda...” “E acha que isso seja uma grande vantagem?” “Claro, por que não? Liberdade. Para mim, sempre em jogo.” “Não foi você mesmo quem disse que após todas as tribulações deste mundo, reduzido a uma colher de cinzas... Você fala como se tivesse alguma importância em si mesmo. Não há mais tempo para mesquinhas lamentações pessoais.” “Está certo, Cândido, não sou tão mesquinho. Apenas sinto que estou me perdendo das coisas. Que estou deixando de pertencer cada vez mais ao que quer que seja. Supondo que tenha pertencido alguma vez...” “Pertencer, curiosa palavra. Ao que você pertence de fato, Júlio? A um partido? A um clube? Uma religião? Uma associação de bairro? Mas não é possível escapar de tudo. Querendo ou não, você tem um idioma, por exemplo, e isso o classifica. Mesmo assim, a essa altura de seu labirinto...” “É melhor não levar tudo tão a sério, Júlio. Isso vai acabar por roer-lhe a alma, carcomer-lhe o cérebro, moer-lhe o juízo. O que vale a pena?” “Roer a alma. Moer o juízo. Acha então, Cândido, que eu me aproveitaria de expressões tão estranhas quanto essas?” “Quem sabe? Já reparou como os dias são longos?” “Agora, temos que ir. Vamos continuar outro dia, está bem?” “Qualquer outro dia. Mais do que isso pode acabar nos fazendo a todos aborrecidos. Pois o que vale a pena?” “Sim, o que vale a pena?” “Até mais ver, Júlio.” “Até mais.” “Lá se vai, outra vez. Acha que ele ainda consegue?” “Não sei. Há algo de muito estranho em estar vivo. Haver vida. Tão desnecessário quanto não. Que mais você quer? Claro, nada a perder. A aventura está lançada, como qualquer moeda. E a aventura é apenas ser. O registro? Bem lembrado. E as crises de tantos, sobre as quais não se redigirá nenhum relato? Mas não que isso seja indispensável, como também não importa que Júlio tenha existido, a menos que se encontre não sua pessoa e sim sua memória, que depois da morte a lembrança e o esquecimento são feitos do mesmo aço, ainda que fundido e amalgamado nas milhões de vozes entre um dia e outro, entre um ano e outro, década e outra, outra vez o tempo, eis o que nos esmaga verdadeiramente. E nos faz desabar cada um sobre si mesmo.”
– de Os últimos dias de agosto |
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