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PASSE PARA PEQUENAS VIAGENS
Voltei ao cruzamento da avenida principal, à frente do café, e fiquei ali, sem saber ao certo o que estava pensando, alheio aos curiosos das mesas mais próximas, que certamente comentavam entre si minhas atitudes incompreensíveis. Eu me detinha finalmente, após a tarde de minha estranha primavera. Eu me detinha após milhares de anos de civilização e genes repetidos para que sempre umas pessoas e outras habitassem as cidades e coisas parecidas com cidades. Eu me detinha na esquina de todas as cidades. Outro como eu em Buenos Aires, em Frankfurt, em Alexandria, em Odessa, em Melbourne. Já passava das cinco e o sol acentuava sua curva no vértice da avenida sem fim. Limpei o suor da testa, arfando ainda de cansaço. Tudo o que acontecera até então já não era mais nada. Eu estava sozinho. E compreendi que meu passado havia se perdido para sempre.
No ônibus, amarguei posições incômodas. Por algum motivo pus-me a rever um de meus fósseis mais pitorescos, a carteirinha de identificação que autorizava o uso de dois ônibus por dia com desconto, ida e volta ao colégio, eu um adolescente livre da velha bicicleta traiçoeira, um documento no qual se lia: PASSE DE ÔNIBUS ESCOLAR. Emblema do estado, arco com dizeres da República. Meu nome com erros. Data de nascimento, cidade, sexo. Em preto e branco, o rosto como assustado de um garoto aos onze anos, olhos miúdos de míope mal disfarçando uma brecha de espanto, como se ainda e tarde demais, o fato de haver sido lançado ao mundo o assombrasse melancolicamente. Mesmo assim, pudesse aquele menino da foto ver-me hoje, imagino num de seus melhores dias de brinquedos e pequenas alegrias, ver no que se tornaria e se tornou, como se alguém com o poder de mostrar-lhe o futuro trouxesse imagens por realizarem-se, ele que deixaria para sempre de ser um menino e transcorreria como todos os vivos rumo ao último dia, visse no que se tornara, talvez entristecesse e considerasse desde então a perspectiva de abreviar-se o tempo. Tanto quanto talvez risse muito, incrédulo e não permitindo que aquela absurda revelação lhe atrapalhasse um dia de folga. Uma foto e infinitas outras, todos os humanos da terra, cada rosto e olhar ilustrando cédulas e documentos de identificação, alastrando-se entre as engrenagens do velho tempo. Alguns sorriem, em cores. Um resquício de sonho, um lampejo de esperança, e pensa que pode voar, o réptil. Última linha do documento, como dependurada sob o rosto, a observação quase um alerta, negritos, e não itálicos, no original: Válido apenas para pequenas viagens. Mal me conheciam os que me cercavam, professores e colegas de classe. Nem esperavam de mim outras viagens. Só eu cismava em silêncio, que sempre em meu silêncio iniciavam-se todas as viagens. Mas não creio que as tenha feito.
Cheguei ao bairro, após um salto espetacular que me havia projetado para fora daquela carroça sacolejante, e já não podia fazer outra coisa senão correr, correr muito. Parecia um possesso. Só alguns degraus. As chaves. Meus móveis reformados e empoeirados, minha sala mal cuidada. Como tudo o que é meu, como tudo em mim, como eu próprio.
Quando fui à janela, já anoitecia. Ao invés de debruçar-me no parapeito como tantas vezes fizera e como provavelmente ainda tantas vezes faria, fiquei de pé, encostado à outra parede como uma sombra furtiva que se recusasse a aparecer. Nem mesmo acendi a luz da saleta. Muitas vezes, a essa mesma janela, gostava de brincar que alguém me chamasse da porta, por vezes uma senhora piedosa que habitasse o endereço vizinho, a sombra que representasse uma tia ou avó que me valesse, eu próprio criava as palavras, as frases curtas, a entonação afetuosa de quem se preocupava comigo: “Venha, saia daí, vá vestir uma camisa, olhe esse vento gelado.” Eu quase respondia em voz alta, esquecendo tratar-se de uma brincadeira. Por vezes um amigo entre outros, passando para levar-me dali porque desejassem minha companhia: “Venha logo, cara, o pessoal está esperando, ande, só falta você.” Por vezes, a que apenas queria estar sozinha comigo: “Venha, não me deixe esperando assim...” Valeria a pena tentar responder-lhe, quem sabe com isso pudesse materializá-la. Vendo a constelação de pontos luminosos que faiscavam por toda a cidade, tive muita vergonha de mim mesmo. Nem parecia que era a primavera outra vez. Nem parecia que eu havia sofrido por meus traumas de colégio, que havia engendrado taras e perversidades, tudo isso numa única tarde. Minha solidão deve ter causado isso, estive muito sozinho nos últimos dias. Não sei como, nesse momento imaginei alguém que se referisse a mim dizendo: “Pobrezinho, deve ter sofrido muito quando ainda tinha alguma chance. Vejam no que se tornou sua primavera...” Supunha uma mulher mais velha, outra vez a tia idosa ou uma avó, outra vez as imagens fictícias e maternais. Ou, o que me era difícil aceitar, a mãe que há muito tempo não tinha, que talvez nunca tivesse tido de verdade. Algum lapso de estranha felicidade fazia-me prever novas depressões entre ideais mal elaborados. Penso em meus antigos colegas de escola, hoje em suas profissões. Não imaginam o quanto me é difícil viver com o que sou. E se soubessem, talvez me abraçassem com piedade ou carinho, se acaso não se ajoelhassem a meus pés, e renderiam-me gestos de admiração e apreço só por não ter-me suicidado. Mas algo sempre fora mais forte. Meu sonho de escrever alguma coisa, eu nem sabia para quem ou para que, minha viagem que continuava, sem autorização. Meu sonho se fazia por si mesmo. Meu sonho se alimentava da solidão em que me via. Meu sonho erguia-se no escuro como um monstro.

– de A conspiração dos felizes
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