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MICROCONTOS
HOMENS DE NEGÓCIOS

Da luxuosa ante-sala, a secretária conduziu o homem de valise, confirmando que o doutor o esperava. O patrão ergueu-se sorrindo, cumprimentou o visitante e ordenou que se fechasse a porta. O homem abriu a valise e o liquidou com um tiro.

CASTELO DE CARTAS

Distraído do jogo, fixa longamente o verso das cartas viradas sobre a mesa, um castelo azul no topo de um íngreme penhasco. Enquanto segue com seu parceiro e seus adversários, caminha monte acima sob o céu escuro e ameaçador, pensa que lá, num dos interiores do castelo azul, encontrará um ambiente propício, um cômodo morno e acolhedor onde poderão jogar cartas antes que outra vez casualmente se disperse.

A RODA

Da janela via os fundos do hospital, a um canto do pátio a velha roda de carroça. Sua febre repassou os reis assírios, torturas medievais e as mais recentes. A roda vista era uma carroça, logo uma carruagem. Era um cepo. Um castelo. Um crânio. As formas que assumia o atormentavam. Na mesma manhã em que transportaram seu corpo, funcionários do hospital levaram a roda. Uma roda. Uma velha roda.

TÉCNICA SINGULAR PARA INFLAR BALÕES

O primeiro sai algo banana ou salsicha. Outro toma forma de um camelo, duas corcovas oblongas. Ora, um zepelim um tanto tímido. Murcho como uma fruta. Disforme feito um sonho. Os meninos também acionam pistolas de água como ensaiando a ejaculação. Atiram dardos ao centro do alvo, sempre um orifício escuro. Empinam pipas com longas caudas, seus espermatozóides no céu. “Oi”, a prima num sorriso, surgindo à porta. Os olhos dele são a contrapartida de dois seios completos.

CLARA SOB LUZ AMENA

Ela me ajuda com a calça, tira-me pelas pernas o que até há pouco impedia-me a nudez. Em troca, abro-lhe o vestido, o sutiã, desço-lhe a calcinha aos joelhos que se dobram, um após outro, tornozelos simultâneos. Não nos agrada a breve união que facilmente aproxima o orgasmo. Sempre nos lembra algo em que participe o perigo, o estranhamento, o não nos reconhecermos por um momento ou por certo tempo parecermos outros. Algo que a ela custe pouco e me traga o infinito. Por minha vez, há o que lhe proporcione e pouco me custa, e nela faz realizar-se o êxtase. Detalhes, adereços e objetos, tudo parece desafiar nossa incontrolável criatividade antes que o tão conhecido orgasmo outra vez nos deite lado a lado. Pego-lhe a mão, de proporções precisas, e a contemplo sob a luz suave. “Suas mãos despertam em mim uma vontade louca de voltar a desenhar.”

ÚLTIMAS NOITES DO BUROCRATA OBSTINADO

Novamente o sonho dos papeizinhos, e mal os sentia entre os dedos, escapando-lhe antes que pudesse recuperá-los e torná-los classificados aos seus devidos lugares, essa agonia durou menos que a outra, a noite seguinte trouxe-lhe pesados fichários que carregava com as duas mãos, porém algo de assombroso contrariava-lhe o ânimo e o fazia impotente, agora os passos iam se estendendo amolecidos e disformes, diluídos entre a mesa e a estante, como um homem sempre se dilui após transcorrer-se-lhe o tempo e o expediente, entre o ofício e o último recinto onde será velado sobre a terra, seu sono de vastos volumes tornando-o a seu devido lugar.

ÓCULOS

Meu irmão mais velho editou outro volume de contos. Ele tem a vista perfeita, imune a quaisquer desvios, todo ele é contrário a mim, sendo eu o único míope entre os irmãos, pretendendo ansiosamente escrever contos como ele, escondendo do mundo meus rascunhos secretos, envergonhado de minha vasta miopia, esmagado por minha impotência, enquanto tento arrancar os olhos com as unhas. Vem o dia em que noto algo mais do que isso e corro ao oftalmo, tão angustiado como sempre que vou a um oftalmo. O médico constata a irreversível degeneração da mácula, o que me põe a arranhar o rosto ante meus papéis até por fim abrir mão de tudo e atirar longe meus óculos, impróprios à literatura. Vertigem de graus insuportavelmente altos. Prismas de passagem. Também dessa vez pensei que pudesse arrancar os olhos com as mãos.
“Você deveria usar lentes de contato”, aconselha um colega. “São muito mais práticas.”

A CIDADE DE UM PAÍS

Adentro a sala, tenho à frente a mesa dos conspiradores, entre eles seu poderoso líder. Acabo de ver seu rosto, agora tenho de morrer. Caí na cilada e estou sozinho. Corro para o fundo, vejo que alguns deles saem pela mesma porta sem a minha pressa. Eu, que sempre me envolvi em todas as lutas com a coragem que todos admiram, ao ver meu inimigo armado e pronto a liquidar-me, penso que aquela é só uma cidade de um país, que as revoluções, movimentos e guerrilhas não duram uma vida e eu agora, traidor de minha própria ousadia, recuo dobrando-me como um feto, um animal condenado, assim a covardia, o medo e uma intensa sensação de felicidade alcançam-me enquanto o mais próximo firma a arma em minha direção, dispara.

O CAMINHO DAS RUAS DE FLORES VERMELHAS

Se lhes digo “Olá!”, então passa um silêncio. Se me aproximo calado, ouço que murmuram entre si segredos inacessíveis. Peço-lhes que me escutem ou devolvam um sinal que me permita compreender. Depressa, antes que se vá de uma vez a primavera, deixando-me sozinho ante o que jamais se revela.

O ESQUIFE DE PRATA ORNAMENTADO

No trem, engrenagens da memória voltadas à notícia da morte de meu pai, previa o fastidioso velório, as encenações, os maneirismos próprios de tais ocasiões, quando estranhamente pensei em Horácio, repassando as mesmas palavras que minha falecida mãe usara certa vez, sendo eu menino, ao referir-se a ele numa das crises mais graves de seu casamento, brumas do caso mal terminado com o lendário Horácio, antes que meu pai a iludisse e a arrebatasse para si, enquanto me perguntava se seria natural aos abutres silenciosos e aos rostos que nunca antes me viram estranharem a frieza, a rigidez de meus olhos ante o pai defunto, se não teriam gosto em saber que eu viera de tão longe a ver o que no passado tivera sangue e energia inclusive para gerar minha vida, para que um dia eu o observasse de meu prisma, assim como o próprio universo engendra criaturas para contemplá-lo e as mães para contar segredos aos filhos, e finalmente no esquife encontrasse o rosto esquálido de seu amigo Horácio.

O QUE TENHO EM COMUM COM OS TIRANOSSAUROS

Ante a nudez da menina rendida, a saliva escorre-me entre os dentes afiados. A fome e a sede forçam-me a dominar essa adolescente frágil a quem não resta senão sucumbir às vontades que amplamente se desenvolvem na penumbra de seu predador lascivo, poderoso, efêmero.

ANTROPOLOGIA APLICADA

“Como vocês veem, as inscrições na sepultura muito antiga ainda podem ser lidas. Este crânio que tenho em mãos, apesar de coberto por esta substância cinzento-escura, conserva-se praticamente intacto mesmo após tanto tempo, o que pode ser atribuído às condições do solo local. O estranho é que... É que ele parece ter ampliado o sorriso e o mantém assim desde que pronunciamos seu nome, o que ainda não nos foi possível explicar. Alguém arrisca um palpite?”
Um estudante pálido, timidamente um dedo.
“Talvez a sensação de estar sendo amado.”

MICROORGANISMOS

A manhã pelos vidros do laboratório não o afasta da noite anterior, quando se dera a dolorosa confirmação de que vinha sendo traído, e o pior: com o último homem que acreditaria capaz de despertar desejos numa mulher. A manhã pelos vidros o trespassa de grades enquanto se desloca em direção ao local de trabalho, onde o colega mal o percebe e ao seu duro silêncio, mas desvia os olhos dos microorganismos que até então o distraem sobre a lâmina: “É espantoso que lutem avidamente para expandir-se, mesmo tendo à frente a aniquilação. Ainda que assim não fosse, qual pode ser o objetivo de tal expansão, senão apenas a presença dessa mesma colônia por toda parte?” “Esses”, a manhã pelos vidros não o impede de responder, “somos nós.”

NOITE NO JANTAR DANÇANTE

Ele ofereceu-me cigarros, queria compartilhar algo comigo ou tornar-me menos alheia. Então falou-me sobre ela.
Outros homens me viram passar pela porta, sei que me observaram de seus secretos desejos quando saí para o jardim aberto. Tirei da bolsa o batom, revi meu rosto no pequeno espelho, meu pequeno rosto. Ajustei o brinco oscilante, podia ver ainda o rosto dele em outras infinitas noites, podia ouvi-lo repetindo coisas como: “Gosto muito de seus sapatos”, pois eu agora me sentava, discretamente os descalçava, acendia um cigarro em seguida. Sabia haver por trás de todos os detalhes que preenchem os momentos algo mais belo e mais interessante. Como certas palavras precedem as revelações, tanto as que queremos ou não assimilar, por que estaria recordando isso agora?, que só as associava à primeira vez que lhe dera conhecer parte de meu corpo: “Quer que eu lhe mostre?” E como quando o ouvira em troca com a mesma sinceridade: “Quero.”

BRINQUEDOS

Álbum de figurinhas com artistas e casais da tevê: por essa época, meus pais já não dormiam juntos. Banco imobiliário, enquanto oficiais de justiça entravam para levar eletrodomésticos e valores penhorados. Livros de história, a mim, que não mais alcançava o passado. Quando completei treze anos, deram-me um quebra-cabeça de inúmeras peças. E me deixaram sozinho para montá-lo.

DESDOBRAMENTOS DE UM RÉVEILLON SECRETO

1. Tornamos a nos conhecer na reunião que move a numerosa família à casa da matriarca em sua cidade. Ali os mais velhos apreciam clássicos do jazz e trilhas de cinema. Dessa vez pareceu-me claro de sua parte, quando todos deixaram a sala rumo aos fogos e às festas a céu aberto, e ela passou a ensaiar sua dança de olhos fechados sob influência do disco esquecido: o ondulante movimento de ombros detido por meu impulso de prender-lhe o braço, prender-lhe os olhos frente à franqueza de quem podia antecipar o que ela própria ansiava por revelar-me, quando lhe disse: “Você não gosta dessa música.”

2. Nenhuma lembrança do que havíamos sido na infância parecia apontar àquele outro momento em que nos encontrávamos sós sobre o grande tapete. Ela, tentando alcançar um objeto, dava-me de volta o fascínio de quem depara com a água cristalina ou o fio de inesperada luz entre as árvores: assim eu a surpreendi nua sob a saia cinza, embora não fosse ainda a primeira vez em que nos alcançaríamos de todo ou ao mesmo objeto.

3. Ela também recordava na escuridão: eu desde pequeno brincava como agora, a mão de olhos fechados percorrendo lentamente a superfície do lençol, identificando e aprisionando entre os dedos uma impureza mínima, o átomo-grão do que fosse e quase não existia, pois quando mais tarde acariciava sem pressa sua nudez, minha prima disse: “Você tem as mãos de um cego”, e isso foi o que de mais belo ouvi de uma mulher.

– de Lisette Maris em seu endereço de inverno
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