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ARCA COM RETRATOS DO PAI
Cerveja nos fundos de casa, sozinho. Noite de grilos, luz pálida do quintal. Desde então, passei a assimilar a melancolia dessas lâmpadas tênues, e muito me defrontei com tal sentimento, suas variações de sombra e silêncio, à luz impessoal de outras cidades. Da última vez que o vira dormindo, pressenti a respiração difícil da morte, a luz amarelada de seus cinqüenta anos como a que atravessava o ângulo da porta entreaberta. Havia chegado o tempo em que mal nos falávamos. Eu mesmo deixara de avaliar o ritmo de nossos passos, jovens os meus, abreviando distâncias, os dele esforçando-se por mostrarem-se vigorosos. Mas sei de ele ter sido jovem e eu criança. Sei do horizonte encantado e eterno que hoje me revela bifurcações no que eu julgava retilíneo, certo e definitivo. Conto isto para que talvez me compreendam em parte. Para que não se perca de vista o fato de que eu, hoje o malicioso, hoje o sarcástico, também perdi, por vias do tempo, meu pequeno mundo.
Meus avós morreram em minha infância. Tenho consciência de origens remontando até eles, mas sei que somos, também entre os ancestrais, muito parecidos, e carregamos como um vírus alguma necessidade de interpretação da vida, a todos tão estranha. Considero certos sentimentos, legados geração após outra, ao tempo em que me pergunto: até onde sou hereditário? Haverá em minha pessoa um ponto qualquer, seja um átomo, uma região em minha essência a que caiba existir por si própria, alheia às cadeias da herança, uma nódoa minúscula em minha intuição ou inteligência a quem possa chamar seguramente eu?
Revejo o movimento das vidas que não prosseguem em meu tempo, mas que integravam essencialmente seu universo original. Entre as sombras, uma sombra: sua avó agonizante, anos de cama e câncer, orando aos deuses católicos a que a auxiliassem, sem jamais perder a fé nesses que supostamente a haviam destinado a definhar até a morte. Tudo não passava de alucinação para mim. A infância que ouvia dele, seus pais e avós, a quem mal ou não conheci. Só em minha fantasia podia vislumbrar os funerais dessa ancestral, quando iam todos a pé, trajando a indumentária da colônia e portando archotes no inverno. A vegetação do vale, o caminho de terra, a neblina. Sua neblina. Seu cortejo de fantasmas.
A madrinha, carinhosa e cara. Ainda um menino quando ela teve de submeter-se à cirurgia que lhe extraísse um tumor. Apareceu-lhe sob a claridade dos vidros, bem vestida para ir ao hospital, encontrou-o brincando no tapete da sala, inclinou-se a beijar-lhe a testa.
“Fica com Deus, querido. A madrinha volta logo.”
Não o levaram ao enterro. Lembra-se das roupas, a maneira como ela surgira na sala, especialmente a claridade dessa manhã de vidro, uma claridade ofuscante mas suave, que a tudo intensificava, pondo a brilhar com mais vida como se a luz, à sua maneira, alongasse a existência da sala e de cada objeto. Das coisas que revia com espantosa nitidez. De tudo o que se destinasse a permanecer.
Sonho com a santa do chafariz, aonde o mandavam buscar água, por ser benta. Vejo que se detém e se volta, ainda com o jarro nas mãos, um primeiro olhar de dúvida. Algo parecido com meu medo. Sonho com o repuxo de superfície espessa, no fundo encontro o rosto dos mortos. Sonho com escadas que dão para o vazio, trilhas de pedras irregulares que não me fornecem pistas de como cheguei até ali. Corro à cama de meus pais, olhos remelentos, testa gelada de suor. Alguns anos antes, eu nem existia. Agora sinto medo. As trilhas iludem meus sentidos e, da mesma maneira como no sonho, não me deixam ver como cheguei ali. O aroma morno do quarto recém-amanhecido quando me misturam às cobertas. Cada um de nós tem de contar o que sonhou. O mais engraçado vence.
Ele às vezes ria, em sua idade, como ria aos vinte ou aos quarenta, e o tempo com suas tardes parecia o mesmo, como jamais fosse outro. Um sorriso mais, e o leito estaria pronto. Um limpar de óculos, e a cova aberta. Uma tossida deflagrando cada minuto de toda viagem ao esquecimento.
Começa a anoitecer na calçada de casa. Meu pai leva-me a montar seu pescoço e seus ombros para que ultrapasse sua altura e veja a luzinha vermelha que já se acende em outra parte do bairro, outro país talvez. Uma de minhas tias mora perto da torre. Tenho a crença de que o pequeno rubi pulsante serve a zelar por ela e por seu bem. Que protege as pessoas honestas. E os que sabem que dormem. Nunca mais dissociei a minúscula lâmpada vermelha da lembrança dessa carinhosa mulher. No cerne de minhas noites, na fronteira entre a prece e o sono, havia sempre uma luzinha a cada um da família, aos vizinhos que me sorriam, uma lâmpada vermelha e tímida, um rubi a cada um que me conhecesse sem mágoa.
Mesmo a preocupação que lhes causa minha saúde frágil, as febres freqüentes, é para mim algo natural. O estampado de meu pijama de inverno, o médico robusto e seu bigode negro, o paladar e o indefinido matiz dos remédios que amargo, tudo natural como as manhãs, o vento, o outono. E o outono é o que mais se parece com a minha infância.
Chegando do trabalho, ele me traz lápis de cor. Sabe que fico desenhando quando estou de cama. No estojo, a ilustração da lenda oriental em que o aventureiro transpõe os rios proibidos em busca do que não mais me ocorre, mas que considera sua missão. Sempre que chega à outra margem, uma cadeia de montanhas ergue-se atrás dele, impedindo-o de voltar. Vejo-o chegando com meus lápis de cor, revejo nitidamente o estojo, seu sorriso e meu sorriso, atravessados de cordilheiras. Também não me ocorre qual seja minha missão.
Para muitos, a infância é principalmente uma fase de traquinagens. Eu me lembro. Tudo em mim fica retido. E fere ou fascina. O odor do papel plastificado. A tinta de impressão que até hoje reencontro em certos periódicos. O fascículo ilustrado com répteis do cretáceo que ele me compra numa banca de esquina: eu começava a aprender do tempo, com os dinossauros. Vaga-lumes no portão de grade do cemitério. Em frente, esperamos o ônibus. Tenho medo da noite lá dentro. Só a penumbra mais próxima deixa ver uns anjos macabros, santos sem cabeça, lápides trincadas de sepulturas há muito esquecidas. Também tenho medo de perguntar, pois adivinho o que há de sombra na mudez das perguntas que não ouso conceber. Desejo saber mais sobre essa cidade, a fortaleza de silêncio onde os vaga-lumes são a única luz. Mas desvio-me a perguntar sobre eles.
“Toda noite o curupira acende uma lampadazinha para proteger os bichos da floresta. E é de lá que os vaga-lumes roubam sua luz.”
Vejo a floresta escura, os vaga-lumes. Sonho que Deus é um anão como o curupira, zelando por uma tênue lâmpada verde no fundo de um abismo.
Já tenho incutida a idéia de Deus quando certa noite ele me leva com a lanterna a ver um inseto que se debate na teia instalada entre os ramos: uma criatura minúscula, indefesa, clara como se um véu a envolvesse. A aranha aproxima-se sem pressa. A vítima reage à luz da lanterna como implorando por socorro, mas meu gesto de salvá-la é interrompido.
“Não devemos interferir. É a obra do Criador.”
O poderoso aracnídeo alcança sua presa. Pica-lhe o abdômen. Passa a mumificá-la em sua habilidade gosmenta.
“Ele não morre agora. Vai ser devorado aos poucos. É a vida. A vontade de Deus.”
Para o inseto somos a única luz, a esperança de ser salvo como por um deus de dimensões que não alcança. Nós o deixamos ali por sua insignificância. Apagamos a lanterna. Voltamos.
A queimada de cana. A temporada das saúvas. Alguma notícia de seu pai entre a neblina e o sépia do que reencontro.
“Pepo vai fazer cinco anos, pai. Já sabe ler, agora quer escrever.”
“Deus o abençoe!”, alegra-se sua mãe, e me abraça. “Tão bom, tão carinhoso... Há de ser um bom cristão, no caminho reto da fé!”
“Quê!”, afasta seu pai. “Este menino é inteligente demais para ser cristão! Vai ser escritor. Hein, Pepo? E escrever a história de nossa família.”
Seguro sua mão para atravessar a rua quando me revela, à espera do sinal dos pedestres, que vamos à casa de seu pai porque ele morreu. O tráfego flui ruidoso. A larga avenida torna mais amplo o dia de sol, a manhã de maio. Algo distorce, à distância, a idéia de perspectiva exata que me inspira a avenida. Algo começa a bifurcar-se para mim. Aperto os olhos contra a luz, esperando que me leve a atravessar a faixa. Seu pai está morto. Volto-me sem outro sentimento, apenas curioso: “E agora?” A mudança. A casa de onde saíram mortos seus pais. O relógio da sala, última peça a ser transportada. Ele se detém diante do pêndulo. E finalmente chora.
As crianças choramingavam, pediam aos pais que as levassem para aqui e ali. Eu não queria. Ele me prometia o circo italiano, a exposição dos dinossauros, nada me seduzia. Não queria. Não queria ir a parte alguma.
Ele se detém, diz que não passa dali. A estrada se bifurca. O vento lembra que tudo continua.
À parte alguma tendência solitária, sempre houve em mim uma obscura força de renúncia. Adulto, passei a ignorar propostas que moviam os mais práticos, os ambiciosos e os iludidos. Os de curta visão. Os que se sentiam eternos. Não me interessavam a profissionalização ou a ascensão social. Eu já havia descoberto que a vida não era tão longa nem tão importante, não como a queriam os homens.
Pede que eu vá, não há por que ficar. A estrada se bifurca. Ele fica como ficaram seus pais, seus avós. Como ficaram todos.
As infâncias não se parecem, como pregam os comodistas e os maus poetas. Nem as pessoas. Os homens proclamam conquistas de seu tempo, cantam as vantagens da modernidade antes de passarem ao esquecimento. Não eu. Sempre eu soube que iria tudo diluir-se. Que tudo tornaria à própria ordem de silêncio que nutre os grandes ciclos, as regras do jogo, o próprio jogo. Minha infância e a de meu pai não existem. O futuro toma forma na pessoa de crianças que ainda não se supõem possíveis, mas para quem o passado das famílias perderá naturalmente qualquer significado.
A estrada se bifurca. Não nos despedimos. Não sorrimos. Não nos lamentamos. Assim deve ser.

– de Lisette Maris em seu endereço de inverno
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