| DIZER QUE NÃO SEI? NUNCA! |
O mais recente evento de relevante teor histórico foi o 11 de setembro, quando a bem disciplinada turma da Al-Qaeda, hoje a ong mais conhecida do mundo, conduzida por um milionário saudita, atirou duas pedras na vidraça dos americanos – aqui simplificando-se, pois eram quatro os aviões seqüestrados. Desde então, como todos sabem, nada mais importante aconteceu. Nos primeiros dias após o ataque, uns alunos acercavam-se de mim com previsível curiosidade: “Por que será que fizeram aquilo?” “Por que isso aconteceu?” Fácil: “Não sei”, acrescentando com algum senso de humor: “Como posso saber? Não conheço ninguém no alto escalão da CIA nem tenho parentes na cúpula da Al-Qaeda.” O grau de amizade com algumas turmas permitia-me desabafar: “Vocês me perguntam tudo, como se estivesse escrito em minha testa: eu explico. Leio os mesmos jornais e assisto aos mesmos noticiários que vocês.”
As pessoas discursavam com estranha certeza sobre os motivos do ataque, atestando inúmeras versões, todas elas confusas, muitas incompletas, algumas até fantasiosas. Mas, claro, tudo comentado muito naturalmente, como se simplesmente se tratasse da verdade. Por causa dos palestinos... – qual a relação? O que os americanos fizeram na Arábia Saudita... – o que fizeram? Expliquem-me, não faço idéia. Os americanos são arrogantes – sendo esta das mais infantis de que me lembro. Querem provocar uma guerra santa – muito bem, meu amigo, mas por quê? Enfim, o que despertou minha atenção foi não ter ouvido nenhum de meus colegas admitir: “Não sei.”
Os motivos desse tipo de conflito são baseados em interesses comerciais, disfarçados com pretextos religiosos e políticos. Mas o que não ficou claro – para mim, não está claro até hoje – era o tipo de interesse, luta por território ou por bens, enfim, algo mais preciso e identificável, que tudo tem se passado na dimensão da mais nebulosa clandestinidade, tendo em vista a não retratação da Al-Qaeda sobre o assunto e o silêncio dos falcões republicanos enquanto administram a guerra-resposta. Claro, somos cidadãos comuns e nunca teremos acesso a essas esferas de poder. Nenhum órgão de imprensa, por mais poderoso que seja, conhecerá de fato o que se passa nos bastidores de grupos tão poderosos, tanto os que representam nações oficiais quanto os que defendem redes de poder na informalidade.
Os brasileiros acreditam em tudo, desgraçadamente. Pensam que este ou aquele governo seja transparente, como quando crianças aprendíamos que a vaquinha e a abelhinha eram nossas amiguinhas. Daí remeter-me ao conto Vina entre os morcegos, leia-se: “...sempre nos conquistam com palavras e com o uso adequado de nossa própria esperança. E tudo se descobre quando já não é possível recuperar o prejuízo nem punir os culpados. Tarde demais, obviamente, nem é preciso que se diga. Agora toda denúncia pode vir a público, por inofensiva. Mas a vida continua. Os governantes se revezam. Os regimes e as formas de publicidade. O que descobrirão sobre nós outras gerações? Como estaremos sendo enganados hoje?”
Uma colega que leciona biologia, para provocar um questionamento entre os alunos do fundamental, incluiu, entre as questões de uma prova, esta: “Por que existe a vida?” – o que equivale a: “Para que existe a vida?” Inúmeras e diversificadas respostas, entre vontades de Deus, macrodestinos cósmicos e tiranias dos genes. Porém, só um pequeno sábio marcou seu ponto. Sua resposta, como já se espera, foi: “Não sei.” O indivíduo que descobrir a resposta a uma pergunta dessas será uma celebridade como nunca houve e ultrapassará de longe Darwin, Einstein, Freud ou qualquer equipe de supercientistas contemporâneos.
Leitor amigo – ou inimigo, não faz diferença para mim, que não sei nada do que você pensa – , se você tiver alguma pista para elucidar tais questões, contribua com o conhecimento humano tornando-a pública. Se você souber também o que animou os muçulmanos a prepararem um ataque devastador e preciso durante sete anos, por favor tenha pena de minha curiosidade e escreva-me, conte-me. Mas se souber mesmo.
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