| A PAISAGEM COMO INSTRUMENTO DE ENSINO DA GEOGRAFIA URBANA |
por Débora Lopes Francisco e José Gilberto de Souza
Interpretar os lugares e as paisagens, sejam elas urbanas ou rurais, não significa, no primeiro momento, apreender no nível das aparências as relações materializadas e compreendê-las. Para que haja interpretação é necessário recorrermos a algumas propostas metodológicas que nos oferecem caminhos necessários a ser trilhados em busca de explicações. Na Geografia, algumas propostas de leitura e compreensão da paisagem oferecem ao leitor/investigador subsídios em que os níveis de análise não ultrapassam o exercício da observação e identificação dos elementos que a constituem e lhes dão forma. Embora não apresente recursos significativos para a compreensão e reflexão necessárias para uma prática transformadora, essa proposta de análise compôs muitos estudos geográficos até a década de 80 e, ainda hoje, está presente na maioria das práticas pedagógicas. Muitos professores consomem, com seus alunos, livros e apostilas disponíveis no mercado, que traduzem e decodificam as formas espaciais de organização social e econômica ao longo da história de forma superficial, detendo-se na dimensão da paisagem, sem construir caminhos investigativos mais profundos. Estudar as paisagens no contexto revelador exige aprofundamento, compreensão das contradições dos alinhamentos que escondem as tramas homogeneizantes e ao mesmo tempo excludentes, impostas pelas relações capitalistas. Assim, a análise geográfica deve desmistificar todos os nós da produção social presentes nos lugares. Se não desatados, nos confundem e contribuem com a construção de posturas e concepções equivocadas, preconceituosas, pouco transformadoras e pouco éticas. Como exemplo, vamos olhar a paisagem da rua José Bonifácio.
A Rua José Bonifácio
Graças ao solo fértil, clima adequado à cultura, e à decadência dos ciclos econômicos anteriores, muitos migrantes seguiram para a região Sudeste, lugar onde o café se expandiu. Introduzida no Vale do Paraíba, a cultura seguiu rumo ao interior de São Paulo até ocupar todo o oeste do estado. Nesse contexto, de expansão cafeeira, dá-se a estruturação urbana de Ribeirão Preto, que tem como um de seus marcos a Rua José Bonifácio, implantada por volta de 1883. Seu surgimento está ligado à retificação do córrego Ribeirão Preto, necessária para a construção da Estrada de Ferro Mogiana que serviria, mais tarde, como meio de transporte fundamental para escoar toda a produção de café para os portos, que se direcionava ao mercado externo. Por estar em processo de constituição, suas estruturas urbanas eram bastante escassas e precárias. Sendo assim, os migrantes passaram a ocupar a José Bonifácio com construções que cumpriam dupla função: a de moradia e comércio. Essas construções reproduziam as casas mineiras, com empórios na frente e moradia nos fundos. A demanda por produtos se acentuava com a chegada de novos migrantes, que formavam um mercado consumidor em potencial, e a necessidade de insumos necessários para a produção de café reforçava o caráter comercial da rua. Mais tarde, por volta de 1889, a atividade hoteleira vem compor esse quadro de ocupação comercial. Como a rua ficava numa posição estratégica em relação à estação Mogiana, muitos negociantes e migrantes que desembarcavam procuravam os estabelecimentos comerciais e serviços de hospedagens ali instalados. Assim, a rua, como parte da produção espacial mais complexa (a cidade), começava a se delinear com atividades comerciais urbanas mais definidas. Encontravam-se nela desde serrarias, padarias e pensões, até galpões de armazenamento de café. Com o alto crescimento demográfico na região, houve necessidade de investimentos para a ampliação das estruturas urbanas. Por volta de 1900, a cidade contava com uma população aproximada de 59.000 habitantes. A rua passou a ser lugar de moradia, compras e passeios de todos os sujeitos sociais. Existiam lojas mais e menos sofisticadas, assim como hotéis e pensões.
A divisão territorial e social expressa na José Bonifácio nesse período não se configurava de forma excludente como vemos na cidade nos dias atuais. Além do caráter comercial, determinado inicialmente pelo setor primário, a cidade ainda não era tida como condicionante para a reprodução do capital. Sendo assim, os níveis de exclusão e de apropriação do solo urbano eram menos intensos e mais democratizados, fator que também fazia da rua um lugar de convivência cotidiana. Em 1911, com a criação da Companhia Cervejaria Paulista, a rua passou a ser o lugar do comércio e da produção industrial, atividades que lhe conferiam novos usos e novas demandas. Essa iniciativa estimulou outras indústrias, como a de sabão, a fábrica de camas etc. Ao se realizar no espaço urbano a produção industrial, consolidou-se mais um agente social – o operariado. Com a vinda da nova classe de trabalhadores, num período de conturbações políticas agravadas pelas novas exigências do capitalismo, o espaço urbano foi se delineando e, nesse processo, a divisão social e territorial se manifestou mais fortemente na produção da cidade. A criação de novos bairros como Vila Tibério e Vila Virgínia – depois o Barracão e os Campos Elíseos são exemplos dessa segmentação. Na rua, até então, a percepção dessas relações não se manifestava claramente porque esse espaço continuava a acolher diversos usos e ocupações. A alteração da atividade econômica principal, as imposições e exigências capitalistas, as novas centralidades criadas no espaço urbano ao longo dos anos, alteraram os usos da rua, e mesmo assim ela não perde sua função. Nesse processo, parte do comércio da rua sobreviveu; alguns grupos sociais não faziam mais o uso de suas hospedarias desde a construção do Palace Hotel, no Quarteirão Paulista. Sendo assim, readaptaram-se às novas condições para se firmarem no comércio. Passaram a hospedar aventureiros e famílias oriundas do campo. Antigos depósitos de café e armazéns foram divididos para abrigar pequenos comércios. Outros se tornaram lugar de moradia e formação de cortiços que abrigavam muitas famílias desempregadas. Atualmente, a rua pode ser entendida pelas formas e relações contraditórias contidas no seu conteúdo. Ela se reestruturou e hoje é resultado da imposição da lógica do mercado que estrutura as cidades. Tendo em vista a localização, ela faz parte do corredor histórico e cultural da cidade. Foi e é uma das principais vias de acesso à área central. Tem grande valor cultural e histórico, agregado nas construções, nas pessoas mais idosas que trabalham no comércio local e nos produtos que ela oferece. Apesar de ser lugar onde se instalou o comércio de alguns produtos contrabandeados e plagiados das grandes empresas mundiais, é lugar de venda de produtos tradicionais que reforçam os hábitos regionais resistentes à cultura unificante e padronizada.
A cidade, assim como a rua, são lugares das relações humanas. No ensino de Geografia, a leitura da paisagem tem como objetivo contribuir com a mudança de postura, realçar o olhar do cidadão para a cidade. Ler essa paisagem da rua José Bonifácio e perceber que o encobrimento das fachadas, o abandono, a demolição dos prédios antigos, o aumento dos prostíbulos na região, são desafios do poder público e de todos os citadinos. Nesse processo, cabe a nós definirmos a nova paisagem da cidade e também garantir que a geografia dessa história não se perca.
Débora Lopes Francisco é professora de geografia da Rede Estadual de Ensino e tem dedicado seu trabalho e seus estudos ao aprimoramento de uma visão inovadora e mais profunda das relações humanas, com isso influenciando estudantes e colegas ao oferecer-lhes a oportunidade de transcender o material didático convencional. José Gilberto de Souza é geógrafo e conceituado professor do Departamento de Economia Rural da Unesp, Campus de Jaboticabal.
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