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ANÕES NA INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS
Roman Jakobson, um dos formalistas russos e pioneiro na análise estrutural da linguagem, procurava valores nos textos literários que pudessem justificá-los em si mesmos, independente de seu contexto histórico ou social. Tomando como modelo o poema O corvo, de Edgar Allan Poe, viu nessa obra sinais representativos de tais valores, tanto sob uma perspectiva formal quanto semântica. O poema mantém como um refrão melancólico a fala do corvo no final de algumas estrofes: “Nunca mais” – em inglês, nevermore. Jakobson notou que, desconsiderando-se o som das vogais a e e, que na língua inglesa muitas vezes têm sons quase idênticos, a palavra never, escrita ao contrário, tornava-se reven, uma forma muito aproximada de raven – corvo, em inglês. Por causa de sua angústia e pessimismo, o corvo dizia seu nome invertido. O próprio poeta mostrava-se assim, sinistro e avesso à esperança, daí sua identificação com a ave agourenta. O fato de o corvo ter entrado em seu gabinete de estudos e pousado sobre o busto de Minerva (Pallas no original), deusa da sabedoria, faz supor que sua intelectualidade e seu conhecimento acumulado não podiam ajudá-lo nessa hora, nem mesmo livrá-lo de um imprevisto estado depressivo.
Trabalhos como esse foram o ponto de partida para a evolução da interpretação crítica, estendendo-se ao domínio de outras artes, deixando seu foco de estudos original, a literatura. Tais métodos e modelos de análise são hoje aplicados a inúmeros outros campos do conhecimento, incluindo produções cinematográficas e elaboração de vitrines. Mesmo assim, muitas pessoas ainda insistem na idéia simplória de que o processo de interpretação de textos configura uma questão pessoal, ou seja: cada receptor vê, numa mesma mensagem, o que quer e como quer, com isso emitindo sua palavra final.
Uma estudante universitária, participante de um grupo de estudos em sua igreja, comunicou-me seu interesse por interpretação de textos. Seu grupo, após a leitura crítica da mais conhecida versão do conto folclórico Branca de Neve e os sete anões, havia chegado à conclusão de que os anões eram anjos que Deus enviara para auxiliar Branca de Neve. Apesar de meu aspecto pensativo, quase imediatamente eu lhe disse, numa atitude mais involuntária do que racional, que não, que não podia ser aquilo. Mas não sabia ao certo o motivo dessa minha reação. Era como se algo me dissesse, num flagrante, que faltava algo relevante a ser considerado.
Na noite do mesmo dia, ocorreu-me claramente que os personagens dos anões não agiam como anjos, não se comportavam como anjos, não como os anjos da mitologia religiosa, na qual cumprem a função de mensageiros ou protetores. Os anões, que trabalhavam como mineiros, não funcionavam como mensageiros, de nenhuma parte a outra, da parte de quem quer que fosse. Esses homens, que supostamente poderiam proteger a princesinha perdida, em princípio rejeitaram aceitá-la em sua casa. Foi preciso um consenso para que concordassem em ajudá-la. Todas as vezes em que a rainha aparecia disfarçada de boa velhinha para tentar assassinar Branca de Neve (na versão original dos Grimm isso acontece pelo menos três vezes), os anões não estavam em casa. Nenhum deles se prontificou a ficar ali, com aquela jovem indefesa, para tentar protegê-la (e eles tinham armas: pás e picaretas), mesmo sabendo que ela se encontrava perigosamente ameaçada por sua perseguidora.*
Dias depois, lembrei-me de dizer a essa minha aluna que o texto deveria conter as evidências de nossas conclusões. Que todas as hipóteses levantadas por nós, leitores, deveriam apresentar sinais que as justificassem na obra em questão, evitando assim palpites avulsos que nos afastariam do desfecho consensual. Mais uma vez, o legado de Jakobson caiu em terreno infértil: ela me respondeu, serena e educadamente, como era de seu feitio, que os anões eram de fato anjos, pois havia sido aquela a conclusão de seu grupo. _________________________________________________________________________________________________________________
* Na visão de Bruno Bettelheim, autor de A psicanálise dos contos de fadas, os anões representam os hormônios do crescimento, trabalhando enquanto a personagem cresce e passa por sua adolescência, perdida na floresta, até encontrar seu caminho, ao tornar-se adulta. Por essa mesma perspectiva, a caverna cheia de preciosidades representaria o órgão genital feminino.
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