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GIRASSOL INTERROMPIDO
Uma surpresa? Nem sempre. A dessa noite não o surpreendeu. Só não podia imaginar que dessa vez seria ele próprio sua ingrata surpresa. Elas já esperavam quando Júlio e Bruno apareceram no bar. Não eram exatamente bonitas, também não eram exatamente feias. E não chegavam a ser desagradáveis, isto é, apenas fisicamente. Contaram de seus professores mencionando características de cada um, e isso fez com que Júlio se torcesse de tédio. Claro: um tarado por mulheres, outra uma víbora e não faltou o decantado crânio! Disso passaram a narrar digressivamente todo um filme adaptado de um romance norte-americano que, mesmo assim, fazia muito sucesso por aqueles dias. Enfim a conta tão desejada, ao menos de sua parte, pouco depois de as meninas concordarem em conhecer um motel de nome sedutor que mais tarde revelou-se um tipo de pardieiro reformado, porte médio descendo a ordinário, o que os entristeceu de certa forma e os decepcionou a todos.
Logo que saíram do bar, aconteceu: o girassol inteiriço que era a soma de todas as estrelas inundou seus olhos com súbita e irresistível intensidade. Pouco antes, vira num relance Bruno e sua parceira logo à frente. A áspera simetria do calçamento. Os pés da que se abraçava a ele. Seus próprios pés. Perdia o controle de sua lucidez. Uma vertigem impregnada de abstração, formas fosforescentes e realidade percorreram-lhe os sentidos, tragando-o numa inconcebível aceleração de imagens e sensações não sabia se revistas ou pela primeira vez sonhadas: pessoas em trajes antigos, em diversas circunstâncias, transitando por muitas cidades do mundo, pareceu-lhe ver de novo Bruno e as meninas, a ordem natural das atrações involuntárias, a aproximação dos sexos, a revelação da morte, os casais ausentes há muitas décadas-séculos-épocas e a inominável sutileza de estarem todos passando. Demolido o bar de onde saíram, a própria cidade envelhecida de chuvas à margem de outra, num delírio surdo mas vertiginoso em que nada era ele, tudo isso no instante de estar cego, a agonizante fração de segundo na qual coubera a explosão de fulgor intolerável que em seguida passou a regredir como se murchasse ou escurecesse, as pétalas imprecisas do girassol tremulando ao se retraírem como uma esfera de fogo que se afastasse ou diminuísse de tamanho entre os fosfenos.
“Que foi?”, a que estava ao seu lado, assim que ele parou de andar.
“Não sei.”
Sentia as pernas enfraquecidas pela vertigem. Disfarçou uma careta de náusea apertando os olhos contra os dedos. Resvalou sobre si mesmo, a um passo de perder o equilíbrio. Mas estava abraçado a alguém.
“Que está acontecendo?”
Boa pergunta, querida. Boa pergunta. Não só com relação a mim, Júlio supondo falar-lhe. Se é que me entende.
“Seu amigo está passando mal.”
“Que foi, Júlio?”
Que está acontecendo?, ele se repetindo. Que está acontecendo?
“Nada. Não sei. Um mal-estar. Já está passando.”
Talvez tudo não passasse mesmo de um mal-estar. Tudo. Se é que me entendem, quase o dizendo.
“Tem certeza de que está tudo bem?”
“Não. Não tem importância. Podemos ir. (Se é que me entendem.)”
Tornou a sentir, agora com relativa nitidez, a consistência do que o cercava: o rumor dos veículos, uma buzina a certa distância, o casal à frente, o ombro palpável da que o acompanhava, adivinhando que terminaria a noite com ela em alguma cama do mundo. Onde estivessem a salvo por algum tempo. Onde se sentissem jovens. Por algum tempo. Se é que o entendessem.
Os sintomas opressivos da crise iminente haviam implantado nele a impressão definitiva de ser, além de um homem, uma circunstância, uma peça provisória e frágil. Uma aparência insólita, efêmera. Uma mentira. Agente derivado e continuador de uma realidade abrangente que até então não conhecia tão imperativa. Uma circunstância, pensou. Só me faltava essa. Uma mentira. Quisera em seu diário haver registrado essa noite impregnada de substâncias, especialmente o que provinha de sua fêmea avulsa e dessa relação, pudesse descrever sua consistência de carne e glândulas com palavras que se pudessem apalpar, variações na extensão da pele em tons que se permitissem de fato ver, aromas que se desprendessem do papel em que são lembrados, amostras de suor que inalasse também quem absorvesse cada forma gráfica, sua sugestão de movimento, transpiração e êxtase.
Pela manhã, uma dor tênue mas insistente latejava-lhe nas têmporas. O dia nublado era bastante para clarear as paredes do quarto que ele não reconhecia. Onde era ali? Onde se está quando se está num certo lugar? Onde o quarto da infância ou da morte, outros tantos que se perdem entre esses no avulso transcorrer, lento mas vertiginoso, das fases?
Virou-se na cama, um susto: a garota morta ao seu lado. Nua, de bruços. Claro. A noite anterior, o motel. Sentou-se com a sensação de estar distante, ficou olhando aquela nudez sem nenhum entusiasmo. Nem parecia a mesma da noite passada, a que lhe respondia movimentos ansiosos, transpirando impaciência. A placidez do sono, o casal lascivo. A inocência da morte. Andou pelo quarto sem saber o que realmente queria. O fato de estar ali, ao lado de uma mulher que mal conhecia, o incomodava talvez mais do que a enxaqueca que se intensificava aos poucos. Uma espécie de ansiedade nervosa desafiava-lhe o autocontrole, por pouco não o fazendo irromper em soluços. Voltou-se a tempo, foi até a garota morta, decidiu acordá-la.
“Hum... Já acordou, meu amor?”
“Não sou seu amor. Anda, preciso ir embora.”
Ela não ouviu. Rolou sobre si mesma, assimilando outra aconchegante posição.
“Levante-se. Ei!”
“Hum... Por que a pressa, cara?”
“Tenho que ir.”
“E o café da manhã? Está incluído na conta.”
“Não quero café. Detesto café.”
“Então vem cá comigo, vem.”
Convidava-o num gesto sonolento, olhos fechados. Júlio percebeu que não se lembrava de seu nome.
“Olha... Toma sua roupa.”
Ela sentou-se na cama, desconsolada. Parecia ter cola nos olhos.
“Sério mesmo?”
Entregou-lhe o sutiã que apanhou do chão.
“Eu preciso ir. Toma, isso deve ser seu.”
Enquanto ele se vestia, ela resvalou para fora da cama. Ficou admirando o próprio corpo no espelho da parede. Torcia a cintura, virava-se devagar. Não parecia tão baixa na noite anterior. Camisa, sapatos: Júlio estava pronto. Ela espremia uma espinha, cuidadosamente e sem pressa, tombando a cabeça um pouco de lado. Júlio ficou irritado com isso, mas sentiu que não havia razão para ser rude com ela. Vamos, Júlio. Você e ela são os mesmos. Um e outro, dois lados da coisa. Da mesma coisa, lembre-se.
“Me ajuda aqui com o zíper, meu bem.”
Ajudar meu bem. Já acordou, meu amor? Dois lados, lembre-se. Você, Júlio, um lado distinto. Um lado inquieto de tudo.

– de Os últimos dias de agosto
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