| AFINIDADES |
Duas maneiras distintas de sorrir. Uma quando encontra conhecidos ou é apresentada a alguém. Outra, espontânea, quando apanhada de surpresa. Nesse caso, ergue um pouco o queixo como se lançasse o sorriso ao ar. Trinta e cinco é o número que ela calça, aliás, um de seus prazeres, comprar sapatos, não antes de experimentá-los aos montes nas lojas. A saia vermelha, sua predileta. Como a maioria das pessoas, não sabe a diferença entre Schubert e o Schubert que ouve nas cerimônias de casamento. Acompanha os seriados da tevê e a novela das oito, naturalmente. Coleciona cursos.
“Um curso de congelados que eu fiz uma vez... Aprendi isso num curso de magia para iniciantes... Sei, porque fiz um curso de mergulho com um professor hó-timo!”
Acusa Júlio de estar tenso e o põe para dormir.
“Fiz um curso de controle mental que nunca falha, quer ver? Feche os olhos. Solte essa perna. O queixo, vamos. Agora concentre-se no que eu vou dizer. Tudo bem? Você está leve, muito leve. Muito leve mesmo. Mais leve do que um... Do que uma... Uma... Muito leve mesmo.”
“Uma pluma! Uma nuvem! Um átomo de hélio!”
“Bobão! Você não pode falar. Só escuta e se concentra”, ela com firmeza, do contrário ele continuaria desfilando mais coisas leves com grande felicidade. “Feche os olhos. Esqueça o mundo, esqueça tudo...”
“Agora eu estou gostando.”
“Seus olhos estão pesados. A tensão está indo embora, saindo pelos cabelos. Cada vez mais leve...”
Voz agradável de Vanda. Frases cadenciadas, mão carinhosa. Júlio e seu sono cansado. Despertou em seguida, numa ligeira convulsão, com isso assustando-a também.
“Ai!”
“Tive um pesadelo.”
Pega a ler a mão dele.
“Romântico, idealista... Hum...”
“Que mais?”
“Deixa eu ver... Sensível.”
“Tem certeza?”
“Claro, está escrito aqui.”
Quer que a ajude no trabalho da escola.
“Nosso grupo precisa de uns temas bem atuais para desenvolver uma pesquisa. Vê se me ajuda a encontrar um, a gente precisa de nota este mês. Vai”
Sentada no carpete da sala, pernas cruzadas. Ela tem um caderno no colo, bate de leve com a caneta no joelho. Coça a cabeça com as duas mãos, revolvendo os cabelos atrás das orelhas. Franze a testa. Chupa a caneta. Ele se faz de preocupado.
“Júlio, isso é sério! Preciso que você me ajude a pensar. Um tema como... Alguma coisa sobre... Não me olha assim. Já me disseram que você é um cara cheio de ideias, agora eu quero ver. E não adianta você...”
“A morte.”
“O quê?!”
“A morte.”
“...”
“Morte, eu disse. Ouviu?”
“Claro que ouvi! Não precisa gritar.”
“Não estou gritando. Você é que...”
“Tudo bem, tudo bem. Vamos mudar de assunto.”
“E o tema?”
“Que tema?”
“A morte, ora.”
“Que que tem?”
“Um bom tema, não é? Sempre atual.”
“Mas que merda!”
Ela o arrasta ao centro, às lojas, às confecções. À papelaria. Os emblemas, as gravuras, os adesivos, os pôsters, os cadernos. Os cartões.
Júlio detestava cartões.
“Olha esse, que lindo!”
Estão ali, como sempre: jovenzinhos que ainda não entendem a vida, paisagens casuais que a imaginação dos simplistas atribui à criatividade divina, frases enfeitadas que o sarcasmo dos maldosos chama sabedoria popular. Auroras, crepúsculos. Cãezinhos, gatinhos, esquilinhos. Cordeiros, coelhos e toda sorte de bichos ingênuos.
A magnífica catarata-cartão-postal é obra de Deus. O grande terremoto-trágico-fatal é culpa da natureza. Você há de convir, o jogo é desigual.
O amor é o sol
que ilumina a vida
Um sorriso vale mais que mil palavras
Quando olho a natureza
compreendo a simplicidade do amor
Exageros à parte: podia haver algo mais perverso que a natureza? Suas relações de brutalidade, sua fome de preservar-se, ainda que para isso não apresente sequer um objetivo, uma razão que a justifique. Júlio ficou quieto, claro.
“O!... lha!... Es!... se!... Que meigo! Um doce!”
“Se suas obrigações o incomodam, lembre-se...”
“Aqui, seu bobão: Amanhã, depois da aurora, será um novo dia.”
Duas crianças descalças sob uma árvore raquítica, pouco frondosa. O garotinho arrancara uma flor de algum lugar e agora a oferecia timidamente a uma garotinha sardenta que, a julgar pelo horizonte inacessível e a névoa dos desfiladeiros, devia ser a única pessoa num raio de muitos quilômetros. Perto deles, uma galinha e seus pintinhos a tudo assistiam, felizes. Subentende-se: os galináceos não suspeitam que o garotinho irá um dia torcer-lhes o pescoço para que a garotinha os prepare com molho e tempero. Ora, as galinhas não têm condições de perceber tais coisas. Vanda voltando-se a ele, suplicante.
“Quando é que você vai me mandar um desses, amor?”
Quando eu decair completamente, pensou.
“Qualquer dia.”
Braços dados, passeiam pelo calçadão.
“Você está tão quieto, no que está pensando?”
“Alguma coisa me ocorreu agora, quero dizer, uma espécie de ideia. Não sei. Não sei se é isso.”
“Tem vergonha de me contar?”
“Não. Claro que não. Quer ouvir?”
Ela faz que sim com um gesto, aceno quase imperceptível da cabeça, olhar travesso de curiosidade.
“Sabe, Van? Os antigos caçadores acreditavam que um certo senhor dos animais, um animal-mestre, enviava sua caça de algum lugar, para além do plano visível da existência. Com o tempo, descobriu-se a circunferência do planeta e assim os territórios se desdobraram ainda mais. Hoje sabemos de enormes distâncias cósmicas e já não temos para onde apontar quando se trata de um plano imaginário situado para além da existência. Mas o que eu sinto, Van, o que de fato eu sinto...”
“Sim?”
“É que tudo isso não se estende pelo espaço. E o inconcebível plano para além da existência estende-se por aqui mesmo, por entre as ruas desta cidade, para não dizer apenas dentro de nós. Já pensou?”
Silêncio.
“Já pensou que toda essa infinidade de... Que foi?”
Silêncio.
“Era nisso que você estava pensando?”
“Era. Às vezes eu... Como assim? Por que a pergunta?”
“Não, nada. Achei que... Você fez um suspense...”
– de Os últimos dias de agosto
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