| O PRISMA E A PIRÂMIDE |
A feira de artesanato me lembra que toda paz tem seu preço. Desde os primeiros ourives e os artistas rudimentares, a colmeia humana tem sofrido toda sorte de flagelos e tumultos que de certa forma assemelham-se a um bloco espesso de escuridão e sangue, essa antiga muralha de dor, opaca. Ainda assim, nada é tão espesso que não seja invadido pela luz tênue e fresca dos momentos brandos, os dias claros, ainda que casuais, como este, o que vivo em meio à feira, entre o rumor pacífico das vozes, sussurro de folhas, a flauta do vento nas copas. Após todos os conflitos.
Ela, pela primeira vez. Senti que assim seria sempre, que só a encontraria no centro dos dias claros, como ao fim das chuvas, assim exposta à minha sensibilidade desguarnecida, vulnerável à ação de seus olhos de vidro. Ainda não eram os olhos nem os cristais. Sentada, mãos descansando no colo, pés cruzados, alheia a mim, parece fitar um horizonte que a transporte de onde se encontra, a barraca de toldo rubro reinventando seu pequeno espaço, adornando sua imobilidade com minúsculos porta-retratos, camafeus, miniaturas de porcelana, pirâmides de vidro e prismas de acrílico que decompõem o sol. Mais próximo dela, preso à divisória do fundo, o óleo noturno que se contrapõe ao dia: o barco adormecido sobre azuis, águas serenas de vincos que se afastam e luar leitoso, barco e paisagem onde também se sonharia estar um dia, após todos os conflitos. A brisa muito leve mostra-me, com fios mais finos sobre sua testa e suas têmporas, que não é forte o bastante para mudar-lhe os cabelos, mover seu chapéu de palha, os brincos, as pulseiras, as franjas do vestido carmim, quando muito alcança refrescar-lhe os pés em sandálias de couro. Há algum calor em sua figura distraída, dispersa. Uma fragilidade que qualquer palavra pronunciada violentará como se trinca um espelho. Essa imobilidade, esse calor, eu os pressinto: um desejo de deixar tudo. Ela e seu momento, o claro de meu dia, nossa parcela de eternidade e orgasmo, somente possível no intervalo entre os levantes. Após todos os conflitos.
Eco do bronze entre as arvores, carrilhões anunciando não sei que hora de luz e convidando-nos a participar da vida. Como desperta por eles, ela percebe minha presença, volta os olhos fulgurantes em minha direção e quebra seu próprio encanto de horizontes. Agora somos, um para o outro. Não mais necessários os sinos ou o barco sob a noite azul, esse que suspeitamos tão nosso. Olhos que se buscam transcendem horizontes reciprocamente. Ela descruza os pés e recolhe as pernas num gesto cauteloso, como se a houvessem tocado meus olhos. Mas o que vejo em seu corpo não é o seu corpo. O que atravessa meus olhos e bate às portas do que ainda desconheço em mim é o que há por lapidar de sua forma aparentemente definida. Quero devassar o que me devassa, nutrir-me do que me devora. O que assalta muralhas e deflagra conflitos fora de meu controle. Desde então atinei com o destino e o sentido dessa mulher em relação ao que construo: sua luz direta, lapidada qual uma fina lâmina, atravessará as seis faces do hexágono como o foco incide sobre o prisma, desvenda o espectro e destaca os diamantes após todos os conflitos.
– de Lisette Maris em seu endereço de inverno
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