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CRISTAL QUASE UM RELÓGIO
Registrar a palavra diamante é quase cristalizá-la – e cristalizá-lo –, cristalizar o hexágono bidimensional, plano e limitado, símile do papel que o comporta e da palavra que o define, mas ansioso por inflar e enrijecer-se como se necessitasse ser fertilizado. Uma ideia apenas, não mais. Faltam-lhe as dimensões, as facetas cintilantes disparando luz, pois a narrativa se dá em sua sequência, plana e linear, impossível de ser girada, como o diamante entre os dedos, sobre um eixo imaginário que permitisse contemplar quase ao mesmo tempo cada faceta, cada mulher como refletida num caleidoscópio transparente. Um jogo de espelhos. Uma flor de vidro.
Abre-se a janela do andar superior, sendo o térreo escondido pelo espesso jardim de arbustos, ela surge da penumbra e reconhece-me. Brinca de acenar-me um lenço laranja como a ironizar uma trégua. Há pouco festejamos, como outros de nossa geração, o fim de uma fase difícil agora substituída por uma democracia que ainda não conhecemos, mas já impregnada de novas esperanças em dias menos conturbados. Aqui vivemos outro momento e lugar onde podemos nos sentir seguros. Sua clara camisola, um tecido leve, acompanha a oscilação dos seios quase desguarnecidos pelo baixo decote. Os cabelos, originalmente lisos, encrespando-se e encaracolando-se suavemente à medida que descem aos ombros e perdem-se nas costas, assim ela os tem à primeira hora do dia e seu crepúsculo, céu de sol por nascer entre róseo e laranja, ela abre a janela sem saber: pudesse eu transcrever em palavras o que entrevejo em seu gesto e se apresenta a meu espanto, o quadro que se cria abrindo-me janelas de luz especial e intensos olhos, e todos os homens do mundo viriam. Ou voltariam ao ponto onde estou, no cerne dessa visão e seu objeto: ela em minha manhã de laranjas.
Um cão a acompanha pelo estreito que a traz à saída e ao jardim de arbustos. Ouvem-se o arranhar dos passos do animal e o silêncio macio que ronda os passos dela, domesticado por seus pés descalços. O cão é parte de seus gestos, sua distância é intuitiva e exata, na medida em que não divide com ela certos sinais de uma harmonia maior nem invade o texto. Tem sua forma especial e suas funções, embora não reveladas à primeira vista mas convidando ao encontro tão logo o vejo, tão logo os vejo. Mas por que essa forma e não outra? – única pergunta que alcanço fazer a mim mesmo. Desejo de compreender tudo. Febre de possuir seu gesto.
Um vento cresce e a despenteia quando me despeço. De longe, aceno. O cão gira ao redor, ergue-se buscando apoio em seu peito, assume sua altura e tenta abraçá-la, torna a ser cão com a mesma naturalidade. Agora o vento lateral faz de sua camisola uma bandeira. Forma com a parte inferior um triângulo, baseados dois de seus vértices no flanco esquerdo e num dos joelhos claros dela. De longe, eu aceno. Dessa percepção aguçada pela desordem de meus sentimentos, assediada pelo inalcançável e pela geometria. O momento se desfaz. Não o seu registro.
Do alto dessa manhã, cai nosso encontro ao passado. Passa o vento como a girar ponteiros que nos situam em algum outro fragmento do quadrante de um insólito relógio, peça de outro – imensurável – mecanismo. Por ser também baseado em um divisor de doze, pode o hexágono seccionar-se como em partes de um dia com suas horas, transportando-nos da origem ao destino, da memória ao sonho, e se interpõe entre a razão e o transe, a luz de sombras que move a arte, um espelho distorcido. Perfeito. Falso. Quanto a ela, em outro quadrante eu a encontrei, num quarto sem endereço. Eu a beijo como se o tempo pudesse ser outro. Tentarei adivinhar seu nome, seu verdadeiro nome, antes que o hexágono torne a girar, quase um relógio.

– de Lisette Maris em seu endereço de inverno
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