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VERDES RENOVAM O SILÊNCIO
Talvez ela seja a versão flutuante do que nas abelhas do alvéolo, múltiplas de seis, é consistente e carnal. Quero que saiba: somente as abelhas sociais produzem mel em abundância. As solitárias engendram apenas a bola de pólen que alimentará a larva, sendo estas, como as parasitas, as mais frequentes. Seríamos nós, de certa forma, a estranha combinação entre umas e outras, não tão solitárias que não possamos nos encontrar por mais de uma noite nem tão sociáveis que nos rendamos às convenções e à insípida engrenagem das hierarquias humanas?
O jardim outra vez me lembra que toda paz tem um preço. Parece fantástico que se possam dar momentos assim, de completa segurança e harmonia, basta que me recorde de todas as vezes em que os conflitos nos separaram e interromperam a História, como a história de outros amantes, assim como a nossa própria, que seria não mais que um caso de amor. Mas guardo meu silêncio, não pretendo incomodá-la com tais lembranças. A trilha formada por pedras de recorte simétrico atravessa toda a extensão do jardim, bifurca-se como ao futuro, abre-se em direções diferentes, perde-se entre a vegetação mais densa, emerge de volta entre plátanos também simétricos, circunda o chafariz e o relógio de sol antes de lançar-se a novos labirintos.
Detenho-me ante as águas cristalinas da fonte, molho a mão estendida sem nada compreender. Há algo que me acompanha desde a infância e não sei o que seja. Temo que jamais saberei. Temo também que possa decifrá-lo um dia. Sinto a consistência do líquido, a temperatura fresca, tudo indica que não se trata de um sonho. No entanto, estranhamente, é por considerar com o raciocínio a natureza à volta que imagino participar de um sonho gigantesco. A água se renova, por isso vence o tempo. Vivo hoje porque muitos morreram. Não me cabe como ser humano, embora aceite todos os desafios, desvendar os segredos da vida, um que seja. Mas pressinto que as respostas estejam por toda parte. Aqui mesmo. Na água que verte. O jardim que me cerca. O relógio de sol. O labirinto de pedras.
Agito a mão na corda d’água provocando nuvens de gotículas que se dispersam no vento. Por trás desse véu e dos efêmeros diamantes que persigo, vejo que ela está sentada no banco de ardósia. Há muito me observa em silêncio, só agora a percebo. Cabelos soltos, o vestido verde claro ajusta-se nos seios mas desce livremente cobrindo-lhe os joelhos, tenho vontade de perguntar-lhe onde estão seus sapatos. Ela olha-me sem sorrir como se dissesse que não se pode usar sapatos num jardim como esse. Eu me aproximo, ela se levanta. Tenho vontade de morder-lhe os seios verdes. Que frutos são esses, onde só se esperava crescessem flores? Ela ignora minha fome, parece querer dizer-me algo. Contam-me seus olhos: a vida oculta um sentido maior que não procuro compreender. Revelam-me que a natureza é apenas um disfarce do que no fundo seja estonteantemente verde, do que, por trás das aparências mais grosseiras, no fundo simplesmente há. Do que no fundo apenas é.
Que estações de neblina e primavera exigem que eu retome essa busca, absorver de sua presença o que não sei? Pouco me importam a voracidade sutil das criptógamas, os fungos reinventando o tempo. Desafia-me ainda atinar com o secreto fluir de sua forma, a juventude, a água renovada, o sorriso que vence, sua chave que não há. Mostre-me, querida, leve-me adiante ao que quer que possa brilhar aos meus olhos, ao que possa encantar-me, que é minha maneira de prosseguir. Um gesto para que siga seus passos. Num ermo entre os plátanos, ela aponta o que seria outra fresta para os verdes, a flor de seis pétalas cujo nome ignoro. Ela revela-me justamente tal segredo: a flor de seis pétalas não tem nome.

– de Lisette Maris em seu endereço de inverno
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